Amigos são… família?

 

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De acordo com James Fowler, professor de genética médica e ciência política na Universidade da Califórnia (EUA) e coautor do estudo, ao olhar todo o genoma humano, ele descobriu que, de uma maneira geral, é bastante parecido entre amigos. “Nós temos mais DNA em comum com as pessoas que escolhemos como amigos do que com estranhos em uma mesma população”, esclarece.
Que demais, não é?

Detalhes do estudo

O estudo que revela a semelhança genética entre amigos de verdade parte de uma análise de todo o genoma de quase 1,5 milhões de marcadores de variação genética, e se baseia em dados do Framingham Heart Study. O conjunto de dados de Framingham é o maior disponível até o momento, e os autores estão cientes de que ele contém um nível de detalhamento genético e informações sobre quem é amigo de quem.

Para conduzir a pesquisa, os cientistas se concentraram em temas únicos e nada menos que 1.932 pares de comparação de amigos sem grau de parentesco contra pares de estranhos também sem parentesco. As mesmas pessoas, que não eram nem parentes nem cônjuges, foram utilizadas em ambos os tipos de amostras. A única coisa que difere entre os participantes é a sua relação social.
Os resultados não são, segundo os pesquisadores, um artefato de tendência das pessoas de fazerem amizade com pessoas de etnias semelhantes. Os dados de Framingham são dominados por pessoas de origem europeia. Embora isto seja um problema para alguns pesquisadores, pode ser vantajoso para esse estudo em questão, pois todos os sujeitos, amigos ou não, foram geneticamente desenhados a partir da mesma população. Os pesquisadores também controlaram os dados por ascendência, usando as técnicas mais conservadoras atualmente disponíveis.

A observação proposta por esse estudo vai além do que você esperaria encontrar entre as pessoas de herança genética compartilhada. Segundo Fowler, o coautor do estudo, os resultados encontrados são uma “rede de ancestralidade”.

Quão geneticamente similares são os amigos de verdade?

Os pesquisadores encontraram que os amigos de verdade, aqueles amigos do coração, os irmãos que a gente escolhe, têm semelhanças genéticas que equivalem a um grau de parentesco semelhante ao de primos de quarto grau, ou pessoas que têm o mesmo tataravô. Em outras palavras, isso se traduz em cerca de 1% de nossos genes.

Achou pouco?

1% pode realmente parecer pouco, mas, para os geneticistas, esse é um número realmente MUITO significativo. Ainda mais se você pensar que a maioria das pessoas nem sequer sabem quem são seus primos de quarto grau. De certa forma, dá o que pensar. Pense: eu mesma não sei quem são meus primos de quarto grau, mas, por uma acaso do destino, escolhi me relacionar com pessoas que muito bem poderia ter esse grau de parentesco comigo. Essas pessoas poderiam ser da minha família de verdade, sem eu saber disso.

Nível de amizade

No estudo, os pesquisadores também desenvolveram uma escala que chamaram de “nível de amizade”, que eles podem usar para prever as chances de pessoas serem amigas mais ou menos no mesmo nível de confiança que atualmente os cientistas usam para prever as chances de uma pessoa ser obesa ou ter esquizofrenia.

Amigos com benefícios

Atributos compartilhados entre amigos ou “parentesco funcional” pode conferir uma variedade de vantagens evolutivas. Algo do tipo se o seu amigo está com frio quando você faz uma fogueira, você dois se beneficiam do fogo. Esse também é o caso de alguns traços que só funcionam se o seu amigo também o tiver. Fowler exemplifica: “O primeiro mutante a falar precisava de alguém para falar com ele. Essa capacidade seria inútil se não houvesse ninguém para compartilhá-la”. Esses tipos de traços em pessoas são uma espécie de efeito de se viver em sociedade.

Porque você e seus amigos não ficam doentes ao mesmo tempo

Além das semelhanças “macro”, os pesquisadores também olharam para um conjunto de genes focados. Assim, eles descobriram uma coisa inusitada: eles acham que os amigos são mais semelhantes em genes que afetam o sentido do olfato.
O oposto vale para os genes que controlam a imunidade.

Ou seja, os amigos são relativamente mais desiguais em sua proteção genética contra várias doenças. A descoberta apoia o que as pessoas têm encontrado recentemente em relação a seus pares. E há uma vantagem evolutiva bastante simples para isso: ter conexões com pessoas que são capazes de resistir a diferentes patógenos reduz sua propagação interpessoal. Mas como é que vamos selecionar as pessoas para este benefício da imunidade? O mecanismo ainda permanece obscuro.

A questão da semelhança entre genes olfativos também segue aberta a debates e precisa de mais pesquisa para que conclusões sejam tiradas. Mas, até o momento, os cientistas supõem que a explicação pode estar no fato de que o nosso sentido de cheiro, quando semelhante, pode nos atrair a ambientes semelhantes. Sendo assim, não é difícil imaginar que pessoas que gostam de café, por exemplo, frequentem lugares com cheiro de café e lá encontrem pessoas que tenham o mesmo gosto – ainda que essa seleção não esteja no plano da consciência.
Cientistas observam também que, provavelmente, existem vários mecanismos que operam de forma paralela, nos guiando para escolher amigos geneticamente similares.

“With a Little Help From Our Friends”

Talvez o resultado mais intrigante do estudo seja que os genes que eram mais semelhantes entre amigos parecem estar evoluindo mais rapidamente do que outros genes. Fowler e sua equipe dizem que isso pode ajudar a explicar por que a evolução humana parece ter acelerado nos últimos 30 mil anos, e sugerem que o próprio ambiente social é uma força evolutiva.
Portanto, fica a melhor dica de todos os tempos: mantenha os amigos por perto.

 

Fonte: Hype Science, via Pavablog.

 

“Por um homem melhor” (entrevista de Carl Rogers à revista Veja em 1977)

“Por um homem melhor.”

O Pai da psicologia humanista fala de batatas, pessoas, governos, ladrões e acadêmicos.


Nascido em 1902, e psicólogo prático desde 1927, Dr.Carl Rogers passou cerca de 15 anos acreditando que o papel do psicoterapeuta era apenas o de manter-se à parte quanto a seus sentimentos em relação ao paciente. Assim distanciado, pensava ele, ficava mais fácil enxergar as soluções adequadas. Depois de experiências vividas com alunos e com pessoas que vinham à procura de ajuda, Rogers acabaria percebendo, no entanto, que quanto mais se abria como pessoa no relacionamento com o paciente mais efetivo e rápido tornava-se o sucesso do tratamento. E através do desenvolvimento dessa idéia se afastando cada vez mais da psicologia tradicional ou freudiana e da psicologia do comportamento, ao ponto de hoje confessar que acredita ser “um fenômeno embaraçosamente doloroso para os psicólogos acadêmicos”.A partir da publicação, em 1942, de “Conseling and Psychotherapy”, seu primeiro livro sobre aconselhamento centrado no cliente, ele passaria a influenciar, os mais diversos campos profissionais , tanto nos Estados Unidos – onde nasceu e vive até hoje como em outros lugares do mundo , onde é conhecido como um autêntico desmistificador de psicoterapia.

Com efeito, Rogers abriu a psicoterapia à observação pública e à pesquisa investigatória, sendo o primeiro a gravar e depois a filmar sessões terapêuticas. Assim expunha seus métodos à pesquisa cientifica. Antes dele, nenhum psicoterapeuta havia tido a coragem de mostrar publicamente suas falhas e seus sucessos, a observar e a estudar não só as reações da pessoa tratada mas suas próprias atitudes do processo terapêutico.

Hoje, Carl Rogers, dedica-se, junto seus colegas do Centro para Estudos da Pessoa, em La Jolla. Califórnia, onde é professor residente, à organização de grupos de encontro onde os pacientes entram em comunicação uns com os outros e pouco a pouco vão se descobrindo e se livrando de seus mal-estares emocionais. Há um mês no Brasil acompanhado por quatro membros de sua equipe, Rogers participa, na Aldeia de Arcozelo, no Rio de Janeiro, do primeiro Encontro Centrado na Pessoa, no Brasil. Lá, durante duas horas, ele concedeu esta entrevista a “VEJA”.

VEJA – Como se situaria a pessoa humana diante da psicologia humanista?

ROGERS – O ser humano, como todos os organismos, tende a crescer e a se atualizar. É claro que todos os fatores sociais, econômicos e familiares podem interromper esse crescimento, mas a tendência fundamental é em direção ao crescimento, ao seu próprio preenchimento ou satisfação. Costumo exemplificar esse processo lembrando batatas que guardávamos no porão da nossa casa na fazenda. Elas criavam brotos porque havia uma janelinha no quarto. Era uma tentativa inútil, mas parte da tentativa do organismo de se satisfazer. Você consegue um produto muito diferente quando planta uma batata na terra, e comparo esse processo ao que pode ser encontrado em delinqüentes e em pessoas que são tidas como doentes mentais: o modo como suas vidas se desenvolveram pode ser muito bizarro, anormal; no entanto, tudo o que elas estão fazendo é uma tentativa para crescer, para atualizar seus potenciais. O fato de essa tentativa causar maus resultados situa-se mais no meio ambiente do que na tendência básica do individuo. A pedra fundamental da psicologia humanista pelo menos como eu vejo, é, portanto essa crença de que o ser humano tem um organismo positivo e construtivo.

VEJA – A psicologia humanista pode ajudar a sociedade a resolver seus problemas ? De que modo?

ROGERS – Ela não é uma solução para todos os problemas do mundo, mas pode ajudar muito na solução dos problemas psicológicos e sociais. Pode ajudar o individuo a crescer em direção a uma personalidade mais normal , mais expansiva. A psicologia humanista tem os instrumentos para reconciliar diferenças, para ajudar as pessoas a observarem os pontos de vista dos outros.

VEJA – Um governo com uma visão humanista não seria , então, mais poderoso que uma psicologia humanista?

ROGERS – Para mim, isso é um sonho, mas seria bom esquematizar uma utopia com um governo humanista.Quanto mais um governo acredita num ponto de vista humanista possibilidades existirão de promover um clima no qual os cidadãos possam crescer e trabalhar junto mais harmoniosamente, e no qual haverá mais compreensão,ou respostas, as suas necessidades. Mas não vejo nenhuma possibilidade do que eu chamaria de um governo humanista.

VEJA – O que o senhor pensa da psicologia acadêmica?

ROGERS – Nos Estados Unidos , a psicologia Acadêmica poderia dar excelente aconselhamento e ajuda a governos ditatoriais. Acho que, se qualquer autoridade diz “ queremos que as pessoas sejam mudadas desta forma”, a psicologia acadêmica sabe muito bem como mudar as pessoas, gradualmente, no sentido que se quiser. E vejo isso como um grande perigo. A psicologia humanista seria uma valiosa conselheira a uma forma de governo democrático, pois ela o ajudaria a ser cada vez mais democráticos, a compreender as capacidades, os direitos e a habilidade do cidadão de ser responsável.

VEJA – O senhor tem se dedicado profundamente à organização de grupos de encontros. O que vem a ser, para o senhor um grupo de encontro?

ROGERS – É uma oportunidade para as mais diversas pessoas se encontrarem, sem nenhum planejamento, a não ser elas mesmas e seus inter-relacionamentos. Não existe um tópico a ser discutido nem problemas imediatos a serem resolvidos. Então, sobre o que se vai falar? Quando as pessoas percebem que qualquer coisa pode ser discutida, então começam a falar mais de si mesmas e o encontro torna-se mais profundo. A pessoa começa a acreditar que o grupo pode compreendê-la e o processo pode ser descrito como uma percepção dos próprios sentimentos, que as pessoas nunca pensaram possuir, tentando novas maneiras de se comportar no grupo, desenvolvendo relacionamentos mais íntimos, sejam eles positivos e de amor, ou de raiva e confrontação, mas, de um jeito ou de outro, se aproximando mais como pessoas.

VEJA – Qual a diferença entre os grupos de encontro e a terapia individual?

ROGERS – Na terapia de um-para-um, o cliente sente que é um milagre que ele possa ser aceito e compreendido – mas será que alguém mais o compreenderá? Em um grupo de encontro, ele logo percebe: “Todas essas pessoas me aceitam? E nem ao menos estão sendo pagas para isso?” E isso é muito forte, pois provoca o sentimento de que, “quem sabe, eu sou uma pessoa aceitável”. Nesse sentido, o grupo de encontro pode ser de maior efeito que a terapia individual.

VEJA – Que mudanças ocorrem num grupo de encontro em relação à percepção ou conscientização?

ROGERS – Tanto na terapia quanto no grupo de encontro, a mudança mais notável é a expansão da conscientização do individuo. Ele vem para o grupo achando que sabe quem é e que está consciente de si mesmo. Mas, quando começa a se abrir e a notar como as pessoas ouvem com atenção, ele descobre, dentro de si mesmo, coisas que não havia percebido antes. Começa a sentir que é mais do que pensava ser, que tem sentimentos que nunca havia notado. Uma pessoa que nunca mostra raiva, por exemplo, perceberá, no grupo, que tem raiva dentro de si. Ela não se esquecerá disso e reconhecerá, no fundo, quando sentir raiva, que não poderá mais escondê-la – e terá condições para lidar com ela.

VEJA – Por que o senhor chama de “facilitadores” os lideres dos grupos de encontro?

ROGERS – Porque o termo “líder” implica que uma pessoa sabe para onde o grupo irá se dirigir e o orientará nessa direção. Então eu prefiro chamá-lo de “facilitador”, porque minha idéia de seu propósito no grupo é a de que ele deve permitir que as pessoas se expressem sem saber onde isso as levará. Ele facilita essas expressões do grupo mas não controla sua direção. O facilitador pode saber alguma coisa sobre o processo de grupos e o mesmo é verdadeiro para a terapia. O tipo de terapeuta que eu gosto é o que age como um facilitador, pois não tem noção do que surgirá na terapia, ou que direções a pessoa escolherá para si mesma.

VEJA – E, se ocorrer uma crise dramática dentro do grupo, o facilitador deve então fazer o papel de líder?ROGERS – Não, não! O facilitador inexperiente pode se sentir tentado a fazê-lo, mas o experiente procurará acreditar no grupo. Lembro-me do que aconteceu com um membro de nossa equipe quando um homem sofreu uma terrível crise psicótica, numa sessão de grupo de encontro. As pessoas entraram em pânico e exigiram que o facilitar fizesse alguma coisa, mas ele se manteve calmo e fez com que o grupo discutisse sobre que atitude tomar. Algumas pessoas que se sentiram mais próximas ao homem tentaram conversar com ele, mas o grupo ainda achava que ele deveria ser internado. Pediram-lhe então que voltasse ao grupo, discutiram seus sentimentos e suas preocupações com ele. No fim, tudo foi resolvido e mais tarde ele fez terapia, sem hospitalização. O ponto é que o grupo, como um todo, é capaz de agir muito mais sabiamente do que uma pessoa sozinha.VEJA – As qualidades essenciais para um facilitador podem ser ensinadas ou são naturais?

ROGERS – As qualidades essenciais para terapia individual – ou para grupos de encontro – foram especificadas há bastante tempo e têm sido confirmadas por pesquisas. Primeiro, se a pessoa está ligada a outra, como pessoa, genuína e real –sem envergar um avental branco de doutor-, isso será de grande ajuda. Depois, se a pessoa sente uma importância real pela outra, vai tornar seu crescimento e seu desenvolvimento mais possíveis.
E, por último, se ela pode realmente compreender o mundo interior do outro, verdadeiramente se sentir parte do universo de uma pessoa, essa capacidade para a empatia será muito importante para o crescimento construtivo. Dessas três, acredito que uma pode ser facilmente treinada – a empatia. As pessoas podem aprender a ouvir melhor e com mais compreensão, e a se afastarem de alguns de seus próprios conceitos, e realmente entenderem os outros como eles são. As outras duas qualidades vêm com a experiência de vida, e outras vezes através da terapia ou de vivencias como grupos de encontro.

VEJA – Por que o senhor começou a chamar as pessoas de “clientes” , em vez de “pacientes”?

ROGERS – A razão mais profunda foi nunca ter sentido que as pessoas que me procuram eram “pacientes”. Não eram doentes, e sim pessoas em dificuldade. Então, qual o termo mais apropriado ? Em inglês, “cliente” é aquele que vem buscar o seu serviço. Mas ele ainda é responsável por si mesmo.

VEJA – Qual sua maior fonte de aprendizagem?

ROGERS – São as pessoas e os estudantes com quem convivo e trabalho. Quando você se abre ao mundo de outros, um dos riscos – e a maior vantagem – é que você terá mais possibilidade de aprender alguma coisa.VEJA – O senhor tem se preocupado , ultimamente,de maneira crescente,com a educação como forma de comunicação entre as pessoas. Como vê o sistema escolar vigente em seu pais?
ROGERS – Até recentemente, a ênfase em mais escolas, mais educação para todos e o fato de que uma pessoa nada pode fazer se não tiver um diploma universitário resultaram num modo mais mecânico de educação , tentando preparar as pessoas para uma sociedade mecanicamente orientada. De uns tempos para cá, no entanto , têm ocorrido mudanças que dão maior ênfase à liberdade no aprendizado, onde o individuo, pode escolher o que é de maior significação para a sua vida e aprender isso. Assim , ele é levado a um processo de aprendizagem constante em vez de uma educação mecanicamente orientada, que geralmente faz as pessoas sentirem que finalmente acabaram o curso , já têm seu diploma , então não precisam estudar mais. O aprendizado autodirigido, em contrate , faz com que as pessoas tenham sempre vontade de estudar e apreender . Isso a entusiasma , assim como satisfaz ás suas necessidades.

VEJA – Os adversários desse tipo de ensino tradicionalmente argumentam com o fato de que a pessoa, nesse caso , terá uma educação limitada somente a seus interesses e pode tornar-se incapaz de perceber mudanças. O que acha disso?

ROGERS – Se observarmos estudantes que saíram de escolas tipicamente tradicionais , depois de um ano ou dois, notaremos que eles também adquiriram uma educação limitada a seus próprios interesses. Eles se lembram de algumas coisas, mas a maior parte delas já foi esquecida, pois geralmente foram estudadas somente para um teste, um exame .Então , tanto um como outro modo de ensino pode ser limitado aos próprios interesses da pessoa. Mas o estudante autodirigido pelo menos conhece mais a si mesmo , conhece suas forças e suas fraquezas. E, porque ele é automotivado, freqüentemente quer preencher os lapsos de sua educação.

VEJA – O senhor acredita que a autodisciplina surge naturalmente com o aprendizado autodirigido?

ROGERS – Sim, a liberdade e a responsabilidade sempre caminham juntas, e isso é valido tanto para a educação quanto para outros aspectos da vida. A pessoa tem que viver com as conseqüências do que aprende. Se não pode perceber as mudanças , então será enganada pelos outros. E, quando isso torna claro, mais ela será responsável – ao contrario de alguém que teve liberdade mas não reconheceu suas conseqüências.

VEJA – Seguindo a tradição humanista, o senhor costuma enaltecer a bondade nas pessoas, mas não estará deixando um pouco de lado o maquiavelismo e o espírito de competição, que naturalmente existe em nossa sociedade?

ROGERS – Fui muitas vezes acusado de não compreender a maldade nas pessoas – e levo a sério este tipo de critica , isso pode até ser verdade. Mas cheguei a uma posição, não através de pensamentos passivos mas através de meus contatos diretos com pessoas , tanto em terapia quanto em grupos, ou mesmo em salas de aula, nos quais percebi que, se confio plenamente em sua capacidade de se compreenderem melhor e ser mais autodirigidas, essas escolhem direções que são sociais e não anti-sociais, ou más. Dizem que com esse tipo de terapia o individuo pode muito bem ser um melhor ladrão ou um melhor assassino , e para mim essa é uma possibilidade bastante lógica. Mas, de acordo com minhas experiências , isso simplesmente não acontece. Se ofereço a uma pessoa a possibilidade de se expressar, de buscar suas próprias direções, ela não escolhe ser um melhor ladrão ou coisa semelhante, mas procura seguir a direção de maior harmonia com seus companheiros.

VEJA – Uma terapia ou um grupo de encontro resolveria todos os problemas da pessoa , tornaria sua vida bem mais fácil?

ROGERS – Não, isso não é verdade . A pessoa se desenvolverá mas o crescimento será sempre doloroso. Quando os potenciais humanos são desenvolvidos, a vida se torna mais complexa. As pessoas se descartam de seus velhos problemas deixando-os para trás, mas , quando vão em frente, encaram novos problemas , talvez tão difíceis com os anteriores – porém mais excitantes, pois elas aí estão mais conscientes e mais prontas a lidar com eles. Portanto o prazer de ser mais independente, mais real e mais livre é mais que suficiente para contrabalançar a dor e a dificuldade que advêm deste tipo de crescimento. Para a máxima curiosidade e aprendizagem desse tipo , tanto as crianças quanto os adultos precisam de amor de um individuo , ou de um grupo, que possa criar segurança suficiente para que a pessoa que está se desenvolvendo se atreva a tomar riscos que a levem a essas áreas de crescimento. E essa é uma das coisas que um grupo de encontro proporciona – a segurança de um ambiente de compreensão, com pessoas que procuram de amar mutuamente. A habilidade de tomar riscos é um dos efeitos básicos mais importantes de um grupo de encontro. Faço questão da palavra “risco” porque toda aprendizagem é um risco; no entanto, é a nova aprendizagem e o novo comportamento que tornam a vida excitante. É o que leva as pessoas a um desenvolvimento mais completo.

VEJA – Em seus trabalhos o senhor costuma se referir ao que chama de “pessoa emergente”. O que será isso?

ROGERS – Vejo a pessoa emergente como a que tomou o risco de viver de um modo novo e mais humano numa sociedade que não encoraja esse tipo de aprendizagem. Portanto, seu caminho não é fácil. São pessoas que não estão ligadas a coisas materiais , embora possam aprecia-las se as possuírem. Em termos de autoridade, vejo pessoas emergentes como alguém que tem um sentimento bastante profundo, de que somente dentro de si existe a maior fonte de autoridade, na qual pode confiar. Esta pessoa está pronta a ouvir qualquer autoridade, mas quando se trata de seu próprio comportamento, a escolha está unicamente, dentro de si mesma. Ela é quem avalia toda experiência e autoridade, e toma decisões baseadas no que ela quer fazer. Na verdade , sempre existiu uma ou outra pessoa assim. No entanto, ter um grande grupo de indivíduos tomando decisões por si mesmo , como aconteceu nos Estados Unidos, durante a guerra do Vietnam, quando um vasto numero de jovens simplesmente se recusou a ir para a guerra, é realmente um novo aspecto da sociedade.

VEJA – A pessoa emergente seria um produto exclusivo da sociedade americana ou ela pode surgir também em sociedade de paises em desenvolvimento?

ROGERS – Os Estados Unidos, principalmente na região oeste, são um terreno bastante fértil para esse tipo de indivíduos. Mas eu os tenho encontrado também em outros paises, como Holanda , Alemanha, Japão, Austrália, e sinto mesmo que o Brasil é um bom solo para esse tipo de pessoas. Em qualquer cultura , essa pessoa irá encontrar dificuldades – mas sinto no Brasil, uma coragem igual à que encontro nos Estados Unidos. Sou muito a favor dessas pessoas , pois elas apreciam o fato de que a vida é um processo de mudança. Portanto, não estão atadas a nenhuma ortodoxia ou tradição e nem qualquer modo fixo de fazer as coisas. “

FONTE: Fabíola I. de Oliveira, VEJA no. 441, via Facebook Cláudia Castro.

Uma pancada na cabeça pode criar um génio


O fotógrafo Eadweard Muybridge – autor da célebre sequência fotográfica com os complexos movimentos de um cavalo a galope – é um dos raríssimos casos de genialidade adquirida.
O comportamento obsessivo, excêntrico e errático do fotógrafo britânico Eadweard Muybridge era atribuído a um acidente de viação e investigadores acreditam que foi uma lesão cerebral permanente que lhe despertou a genialidade artística.

A tese é referida num artigo da “The Atlantic” que dá conta de estudos efectuados neste campo.

O caso de Muybridge é enquadrado pelos psiquiatras como de genialidade adquirida, alguém cujo talento extraordinário não é inato, nem desenvolvido através de aprendizagem.

O psiquiatra Darold Treffer, da Wiscosin Medical School, tem estudado ao longo dos últimos 40 anos a síndrome da genialidade. Descobriu que se a genialidade é algo de muito raro, a genialidade adquirida é ainda muito mais. Da lista que elaborou com 330 génios, dos mais diversos pontos do mundo, 300 já terão nascido génios, apenas 30 adquiriram os seus talentos extraordinários.

Recrutamento de tecidos corticais

Há o caso de Orlando Serrell, que levou com um taco de baseball na cabeça aos 10 anos, e que veio a descobrir que memorizara as condições meteorológicas de todos dias após esse incidente. O de Derek Amato, que recuperou os sentidos após ter batido com a cabeça no fundo de uma piscina, e tornou-se num grande pianista, aos 40 anos, sem qualquer tipo de formação musical.

E ainda o de Alonzo Clemens, cujas capacidades verbais e cognitivas pararam de se desenvolver aos três anos, devido a uma lesão cerebral, mas que consegue criar esculturas extremamente pormenorizadas de animais, em escassos minutos.

Bruce Miller, professor de neurologia da Universidade da Califórnia, descobriu em 2003 que alguns dos seus pacientes, com uma doença cerebral degenerativa – a demência frontotemporal -, desenvolviam incríveis capacidades artísticas, à medida que o seu estado se agravava.

“O que acontece é que existe uma lesão”, explicou Treffert à “The Atlantic”, ” ocorre o recrutamento de tecidos corticais ainda intactos.

Dá-se uma redefinição da rede (que transporta os sinais cerebrais) através dos tecidos intactos, ocorrendo então uma libertação do potencial latente dessa área do cérebro”. Ou seja, essas pessoas passam a utilizar uma área do cérebro que para a generalidade dos seres humanos se mantém inactiva ao longo de toda a vida.

Fonte: Expresso online.

Ódio de Hitler aos judeus cresceu com derrotas no exterior

Ódio de Hitler aos judeus cresceu com derrotas no exterior
Fotografia © DN

Reveses militares levaram Hitler a concentrar-se sobre o “inimigo interior”, indica um estudo de 1942 da autoria de psicólogos britânicos.

Um estudo psicológico dos discursos de Hitler levado a cabo pelos serviços de escuta da BBC, em 1942, chamou a atenção para a sua “paranóia” face aos judeus no momento que coincidiu com a concretização da Solução Final, decidida na conferência de Wansee, em janeiro daquele ano.

A conferência de Wansee, localidade balnear nos arredores de Berlim, é considerada o ato fundador do extermínio sistemático dos judeus na Alemanha e nos restantes países ou territórios ocupados pelo regime nazi.

O serviço de escuta da BBC estava encarregue de seguir as emissões de rádio na Europa ocupada e na Alemanha, delas elaborando um relatório semanal. Neste serviço funcionava uma unidade composta por psicólogos que tentavam determinar o seu estado de espírito e as suas preocupações pelo tom e tema dos seus discursos.

O estudo agora entregue à Universidade de Cambridge deteta “tendências mórbidas” em Hitler e uma crescente obsessão com o “veneno judaico”. O documento estará brevemente disponível para consulta dos historiadores, indicou a instituição em comunicado.

“No momento em que o estudo foi elaborado, os ventos da guerra começavam a mudar na Alemanha”, considera o historiador Scott Anthony. “O documento revela que os serviços secretos pressentiram o que se passava (…), face a derrotas na frente de batalha exterior, Hitler concentra-se sobre o que considera ser o inimigo interior, os judeus”.

O ano de 1942 fica marcado pelo início da batalha de Estalinegrado, que se inicia no verão deste ano e culmina na derrota alemã em fevereiro de 1942. O fracasso alemão em chegar a Moscovo e o impasse em Estalinegrado, com a sorte das armas virar-se, lenta mas irreversivelmente, contra os alemães constituem as primeiras derrotas significativas do III Reich. Os avanços e recuos do Afrika Korps no Norte de África entre finais de 1941 e o ano de 1942 são reveses importantes, mas sem a dimensão de que se revestem as derrotas na campanha da Rússia, até pela diferença de dimensão do esforço de guerra nazi em ambas as frentes.

Os autores do documento, como antecipando aquilo que estava em marcha na Alemanha, escrevem que para Hitler “os judeus são a encarnação do mal, enquanto ele encarna o espírito divino. Ele é o deus pelo qual uma vitória sacrificial sobre o mal pode ser alcançada”.

Para o historiador Scott Anthony, “atendendo àquilo que hoje sabemos sobre a Solução Final, este documento é pungente”.

Fonte: DN.

Ciência e espiritualidade

Matthieu Ricard trocou uma carreira científica de topo por uma vida de espiritualidade, meditação e ajuda humanitária nos Himalaias. Quarenta anos depois, o seu cérebro foi alvo de estudo e é considerado o homem mais feliz do mundo. Fomos descobrir o seu segredo.

Filho do filósofo francês Jean-François Revel, Matthieu Ricard cresceu entre a nata da nata dos intelectuais da Paris, como Stravinsky e Cartier-Breson. Doutorou-se em biologia molecular e trabalhou com um nobel da Medicina. Mas, aos 26 anos, percebeu que isto não era suficiente. Que os génios que o rodeavam podiam ter cérebros iluminados, mas isso não aumentava as suas qualidades humanas.

Trocou então a ciência pela espiritualidade e rumou aos Himalaias. Estudou com alguns dos maiores guias do budismo e hoje é tradutor e braço direito de Dalai Lama. Pelo meio arranja ainda tempo para fotografar, escrever livros e com isso angariar dinheiro para o projeto humanitário Karuna Shechen, que ajuda mais de 90 mil pessoas (clique aqui para saber como pode colaborar).

Agora, com 65 anos e mais de 10 mil horas de meditação, voltou à ciência como objeto de estudo e foi monitorizado com 256 sensores colados na cabeça, que mediram a actividade do córtex pré-frontal do seu cérebro. A escala de felicidade, criada para a investigação da Universidade de Wisconsin e testada em centenas de outras pessoas, ia de um mínimo de felicidade, +0.3, ao máximo de -0.3. Matthieu Ricard atingiu -0.45. Em suma, em estado contemplativo, o monge conseguiu um equilíbrio entre emoções jamais visto, com um claro desvio para as positivas, como o entusiasmo e a alegria, que anulavam as negativas, como o medo e a ansiedade. Foi considerado o homem mais feliz do mundo.

Com traje budista, ténis desportivos e sorriso aberto, encontrámo-lo no II Congresso Internacional da Felicidade Coca-Cola, em Madrid.

Cinco perguntas a Matthieu Ricard:

Foi considerado o homem mais feliz do mundo. Qual é o seu segredo?
(risos) Não, isso não é bem assim.Mas posso dar alguns conselhos sobre as pessoas em geral. Primeiro há que se reconhecer que quer ser feliz. Acima de tudo não devemos negligenciar as nossas emoções, o nosso interior. Egoísmo, arrogância, agressividade são tudo sentimentos que nos fazem sentir mal, que controlam as nossas mentes e impedem a nossa felicidade. Não são sentimentos que nos sejam impostos, nós somos os responsáveis por eles e toda a gente sabe o mal que nos fazem. A verdade é que nós podemos treinar a nossa mente. Não interessa o que se passa cá fora, o nosso controlo aí é muito limitado. Já lá dentro só depende de nós.

Temos de pôr de lado os prazeres mundanos para sermos felizes?
Não há mal nenhum no prazer. Mas o prazer não tem nada a ver com felicidade. Imagine por exemplo um banho quente. Se viermos gelados da rua e nos pusermos debaixo de água quente, sabe maravilhosamente. Mas se ficarmos lá 24 horas, é insuportável. Tal como a música alta. Um bocadinho é bom, 24 horas pode ser tortura. Aliás, é um dos métodos usados em Guantanamo. Viver apenas de prazer deixa-nos exaustos. A felicidade é uma forma de estar na vida, não é apenas uma sensação momentânea.

Durante décadas, muitos psicólogos defenderam que nos devemos focar mais no “eu”. Já você tem uma visão totalmente contrária. Afinal quem tem razão?
Essa é uma visão muito estúpida. É óbvio que devemos pensar em nós próprios, mas não devemos passar o dia focados no”eu,eu, eu”. Que forma mais aborrecida de viver! O individualismo e o egoísmo destroem a felicidade. Essa ideia de que primeiro vou tomar conta de mim e depois, se me sentir bem, é que me dedico aos outros, não funciona. É uma atitude em que todos têm a perder. Parte de treinar a mente está em amar os outros, preocuparmo-nos com os outros, dar aos outros e aí a felicidade será conjunta. Dar e receber é uma bola de neve. Mas atenção: preocuparmo-nos connosco, gostarmos de nós, é importante. Só não pode é ser feito de forma narcísica.

Estamos no meio de uma profunda crise económica. Ainda há pouco tempo um homem suicidou-se em frente ao Parlamento grego por causa da falta de dinheiro. Nestas condições, como é que podemos ser felizes?
Se ligarmos a felicidade exclusivamente ao dinheiro nunca conseguiremos. Há muitas coisas supérfluas nas nossas vidas. Coisas de que não precisamos. Passamos a vida a tentar ter essas coisas materiais e se não as temos sentimo-nos miseráveis. Mas realmente precisamos delas? De tanto luxo?

E quando se deixa de ter dinheiro para pagar as contas? Não é uma questão de luxo…
Viver de forma mais simples não significa que tenhamos de voltar a viver na floresta. Mas não podemos nós mudar o estilo de vida e viver com menos? Essenciais são a amizade, a paz, a sensação de ter o coração cheio, de que cada momento vale a pena ser vivido. Está mais do que estudado – e atenção que não falo de ensinamentos budistas – que quanto maior o nível de consumismo, menor é a felicidade que se alcança.

Fonte: Expresso online.

Relações entre Freud e Jung, segundo Cronenberg

“Um Método Perigoso” aborda os dois grandes pioneiros da análise da mente humana, Carl Jung e Sigmund Freud, a relação entre os dois rivais e amigos e ainda a história da paciente que tinham em comum.  David Cronenberg regressa aqui num filme que aborda o nascimento da psicanálise.
Realização: David Cronenberg
Intérpretes: Michael Fassbender, Viggo Mortensen, Keira Knightley, Vincent Cassel, Sarah Gadon

O cérebro humano é optimista por natureza

Um estudo realizado por investigadores da University College London concluiu que o nosso cérebro é otimista por natureza. A pesquisa analisou vários indivíduos e os resultados indicam que as previsões que as pessoas têm sobre o futuro são, na maioria das vezes, mais otimistas do que negativas.

As pessoas tendem a ver o lado positivo da vida, é o que diz o comunicado de imprensa da universidade. Pode parecer estranho, ou até mesmo exagerado, mas é este o resultado de um estudo publicado na revista Nature Neuroscience.

Segundo o estudo, o responsável por esta tendência é o nosso cérebro, mais especificamente os lobos frontais, que “escolhem” a informação que querem ou não ouvir.

Para realizarem o estudo, os autores analisaram as respostas cerebrais de 14 pessoas, quando confrontadas com acontecimentos positivos e negativos. O resultado foi surpreendente, ao indicar que cerca de 80% das pessoas são otimistas, ainda que não o admitam.

Tali Sharot, líder do estudo, o professor Ray Dolan do Wellcome Trust Centre for Neuroimaging e Christoph Korn da Berlin School of Mind and Brain atribuíram uma nota a cada pessoa, de acordo com o seu otimismo.

Os voluntários foram sujeitos a uma ressonância magnética, enquanto eram confrontados com 80 eventos que pudessem vir a acontecer na sua vida. No fim do exame, voltaram a ser confrontados com as mesmas perguntas, para se identificarem possíveis variações nas respostas.

Os investigadores conseguiram identificar algumas diferenças na atividade cerebral dos “otimistas”, consoante eram confrontados com boas ou más notícias. Por exemplo, como indica o comunicado, se uma pessoa previu que a probabilidade de vir a sofrer de cancro era de 40%, mas a real média é de 30%, eles ajustam a sua estimativa para 32%. Mas se a informação é pior que a esperada, eles tendem a ignorar os dados.

A justificação está nos lobos frontais. No geral, quando as informações eram melhores que o esperado, os voluntários mostravam mais atividade nesta zona do cérebro, mas perante informação negativa, os mais otimistas tinham menos atividade nos lobos centrais.

“O nosso estudo sugere que nós escolhemos a informação que ouvimos. Quanto mais otimistas somos, menos influenciados somos pela informação negativa que recebemos sobre o futuro”, explica o Dr Sharot, em comunicado.

“Isto pode ter benefícios para a nossa saúde mental, mas também tem o seu lado negativo”. O autor indica as mensagens contra o tabaco como um exemplo: “As mensagens ‘fumar mata’ não funcionam porque as pessoas pensam que as probabilidades de virem a ter cancro são baixas”.

Clique AQUI para aceder ao resumo do estudo publicado na Nature Neuroscience.

Fonte: Boas Notícias.

Razão e emoção

A emoção é a vida em ebulição. É densa, quente, imprevisível e tocante. É o movimento, as tempestades e os raios de sol da existência. É genitora de risos e lágrimas, de iras e paixões. Pode ser feia e lúgubre, pode ser deslumbrante e reluzente. Pode ser tudo que não passe despercebido, porque é hiperbólica. A razão, sua antípoda, já não gosta de aparecer. É discreta, silenciosa, comedida, desprovida de calor e ímpetos, como todo agente que calcula, pensa, se defende e se protege. Decerto, na maioria das vezes, um ser racional já foi escravo de suas emoções em algum tempo remoto. E ficou tão assustado com os espasmos delas, com sua força transformadora – quando não destruidora -, que se rendeu ao sossego morno do pensamento lógico, objetivo, estruturado, para poder melhor decidir e, quem sabe, reduzir um pouco do sofrimento que a vida muitas vezes impõe.

Razão e emoção não deveriam ser conflitantes. Uma não é melhor nem pior que a outra. São apenas diferentes. Uma revolve, outra resolve. Uma envolve, outra desenvolve. Ocorre que, na medição de forças entre esses dois parâmetros tão antagônicos, o indivíduo que os vivencia é o grande perdedor. Quando a razão briga com a emoção, ou vice-versa, surge uma espécie de paralisia, fruto de um caos entre ideias (razão) e sentimentos (emoção). E, a partir daí, uma série de outros estados indesejáveis se sucedem: medo, insegurança, anulação, desconfiança, e por aí vai.

Levando-se em conta que a razão não deve adentrar o território da emoção, levanta-se a dúvida: qual seria a situação ideal então? A resposta que aparece como óbvia aos meus olhos é única: razão e emoção devem andar de mãos dadas, no mesmo nível, respeitando-se mutuamente e sabendo, cada uma, a sua hora de entrar em cena. Não podem atuar de forma concomitante, é fato. Afinal, não é da natureza do coração pulsar no cérebro, assim como não é da natureza do cérebro planejar um coração. Não se ama com a cabeça, é verdade. Mas, por outro lado, é com ela que se decide por um amor em paz ou pela autopreservação.

 

Fonte: blogue Quelquechose.

Distúrbio mental ajuda a criatividade?

“Não há grande génio sem um toque de loucura.” Assim escreveu Séneca há quase 2.000 anos.

Hoje é rotina diagnosticar, retrospectivamente, que génios criativos da História tinham alguma doença mental, algumas mais fáceis de acreditar que outras. Esquizofrenia e outras formas de psicose são as doenças mais comuns citadas, com Newton e Einstein entre os mais famosos alvos delas. Ler o artigo completo na Folha Online.

Cenas de dor estimulam cérebro de jovens agressivos

O cérebro de jovens que intimidam outros pode ser estruturado de forma a ter tendências sádicas, segundo um estudo da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos.

Em exames de ressonância magnética, uma área do cérebro associada com recompensa acendeu quando adolescentes agressivos assistiram a um vídeo de alguém fazendo outra pessoa sentir dor. Eles tiveram reações parecidas também quando assistiram a imagens de dor causada de forma acidental. Meninos sem histórico de agressividade não apresentaram respostas semelhantes.

O estudo analisou rapazes com idade entre 16 e 18 anos, oito com problemas de comportamento agressivo – como provocar brigas, usar armas e roubar após confrontar vítimas – e oito com comportamento considerado normal. A pesquisa indica que, em alguns meninos, os impulsos naturais de empatia podem ser atrapalhados de forma a aumentar a agressividade.
Os testes de ressonância magnética foram realizado enquanto os participantes assistiam a vídeos em que pessoas sofriam dor por causas acidentais, como quando uma tigela pesada caía em suas mãos, ou de forma intencional, como quando alguém pisava em seu pé de propósito.

Respostas fortes
Os adolescentes agressivos mostraram uma ativação “específica e muito forte” da amígdala e do estriado ventral – áreas do cérebro que reagem à sensação de recompensa – quando assistiram a dor sendo infligida nos outros, o que sugere que gostam de ver pessoas com dor.
Ao contrário do grupo de meninos sem problemas de agressividade, os adolescentes agressivos não mostraram ativação de partes do cérebro associadas ao autocontrole, como o cortéx pré-frontal medial e a junção têmporo-parietal.

Usando o mesmo tipo de exame, o coordenador do estudo, o professor de psicologia e psiquiatria da Universidade de Chicago, Jean Decety, já havia observado que crianças entre sete e 12 anos de idade têm uma empatia natural com pessoas que sentem dor.

Esta é a primeira pesquisa a usar a ressonância magnética para estudar situações que normalmente despertariam empatia nas pessoas. “Esse trabalho nos ajuda a entender melhor formas de trabalhar com jovens inclinados à agressividade e à violência”, disse Decety.

O professor de psicologia da Universidade of Central Lancashire, na Grã-Bretanha, Michael Elsea, diz que o estudo é interessante, mas precisa ser repetido com uma amostra maior de meninos. “É bom termos um entendimento melhor das bases biológicas dessas coisas, mas o perigo é levar as pessoas a pular para soluções biológicas, como remédios, ao invés de outras soluções comportamentais”, afirma Elsea.

Fonte: BBC Brasil.

Rogers e Tao Te Ching

En 1979, num grupo de encontro próximo de Roma, vi Carl Rogers retirar um pequeno papel da carteira, e ler um trecho de ‘Tao Te Ching’, para responder a uma pergunta de um participante, sobre as características de um bom facilitador de grupos (ele conservava aquele papel consigo):

O governante da mais alta estirpe é alguém de cuja existência as pessoas vagamente se dão conta.
Vem a seguir um tipo de governante a quem as pessoas amam e glorificam.
Depois, aqueles a quem elas temem.
A seguir um tipo a quem elas desprezam e desafiam.
Quando lhe falta fé a si mesmo, os outros também não terão fé em si.
O sábio retrai-se e é escasso em palavras.
Quando a tarefa está concluída as pessoas dizem, “fomos nós que o fizémos!”

Fonte: Testemunho de Afonso H Lisboa da Fonseca, Escola Experimental de Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial.

Carl Rogers e a Terapia Centrada no Cliente

Puedo pensar en al menos dos razones porqué Rogers no puso en
mayúsculas “la terapia centrada en el cliente”.

Durante toda su vida, Rogers evitó darle una “marca” a su enfoque. El
odiaba la palabra “Rogeriano”. Hasta mmuy tarde en su vida, el se
resistió a todos los intentos de formar institutos centrados en el
cliente o centrados en la persona, o programas de formación o
asociaciones. A él le preocupaba que esas organizaciones fijarían el
enfoque en el tiempo, en vez de evolucionar y crecer con la
experiencia y los nuevos descubrimientos de la investigación. Él
quería evitar las fallas del psicoanálisis con todas sus peleas y
cismas sobre la ortodoxia y la innovación. ÉL tendía a ver la terapia
centrada en el cliente no como un enfoque con un set particular de
técnicas, que lo pusiera al margen de otros enfoques, sino como
una “orientación” consistente en un set de actitudes y
predisposiciones (las condiciones básicas), una orientación que
personas de muchas escuelas de pensamiento pudiesen incorporar. Haber
puesto en mayúsculas la Terapia Centrada en el Cliente, la mayúscula
hubiese sido contraer un compromiso fundamental de su parte, -en vez
de evitar poner sus ideas en piedra-, desanimar a sus seguidores y
discípulos, en vez de hacer que el enfoque siga creciendo y
cambiando. Si esto fué o no una sabia estrategia puede ser debatido,
pero él fue bastante consistente en esto.

Segundo, no pienso que él sentía como si tuviese un derecho a
registrar la “marca” de la terapia centrada en el cliente. Tal como
él dijo en 1942, en Counseling and Psychotherapy, que el enfoque “no-
directivo” que estaba presentando era solo un ejemplo de las
orientaciones mas nuevas en psicoterapia, así mismo él habría
reconocido en 1951 que él y sus colegas de Chicago no tenían el
monopolio de la terapia centrada en el cliente; otros habían
contribuido al desarrollo del enfoque centrado en el cliente, y otros
que no se identificaban a sí mismo como centrados en el cliente per
se podían sin embargo estar centrados en el cliente a su manera.
Siendo una persona relativamente humilde (aunque ciertamente hubo
contradicciones en esto), él se hubiese sentido pretencioso de
comenzar la Terapia Centrada en el Cliente con mayúsculas.

Estoy ahora curioso por ver si mas tarde en su vida él habrá puesto
en mayúsculas “centrado en el cliente” o “centrado en la persona”. No
pienso que haya pasado, pero al final de su vida él se preocupaba
menos acerca de estos temas, y empezó a permitir proyectos CSP que
usaran su nombre y se volvió menos resistente a organizaciones
centradas en la persona; sería interesante ver si él usó mayúsculas
para el ECP en sus últimos escritos.

Howard Kirschenbaum
Professor Emeritus, Department of Counseling and Human Development
Warner Graduate School of Education and Human Development
03-Jun-2008

A logoterapia de Viktor Frankl

Num tempo em que o mundo é atravessado por enormes perplexidades e as pessoas são assaltadas pela dúvida, pelo desânimo e até pelo niilismo, quereria, no décimo aniversário da sua morte, deixar uma homenagem a um homem que, na situação mais degradada e degradante dos campos de concentração nazis, mostrou como e porquê é possível manter a dignidade. Refiro-me a Viktor Frankl, fundador da chamada terceira corrente de psicoterapia de Viena: a logoterapia.

Ele próprio sintetizou o núcleo do seu pensamento: “O que é, na realidade, o Homem? É o ser que decide o que é. É o ser que inventou câmaras de gás, mas ao mesmo tempo é o ser que entrou nelas com passo firme, murmurando uma oração.”

A logoterapia parte de uma concepção filosófica que tem o Homem enquanto pessoa como centro. O impulso primário da pessoa não é, como pensou Freud, a vontade de prazer, também não é a vontade de poder, como queria Adler, mas a vontade de sentido. Este sentido não se inventa, mas descobre-se: numa obra, num amor, numa tarefa a realizar. No fundo, cada um tem de perguntar: o que é que a vida quer de mim? “Em última instância, viver significa assumir a responsabilidade de encontrar a resposta correcta para os problemas que a vida coloca e cumprir as tarefas que ela continuamente aponta a cada pessoa.”

O que distingue então Frankl de Freud e de Adler é que enquanto estes reduziam o Homem a um ser que procura a satisfação dos impulsos em ordem ao restabelecimento de um equilíbrio homeostático intrapsíquico, para Frankl, ele não é só um sistema psicológico. É preciso compreendê-lo na sua totalidade: corpórea, psíquica e espiritual. “A realidade humana refere-se sempre a algo para lá de si mesma. Está dirigida para algo que não é ela mesma. Os seres humanos procuram mais para lá de si mesmos: um sentido no mundo. Procuram encontrar um significado a realizar, uma causa a servir, uma pessoa a quem amar. E só assim os seres humanos se comportam como verdadeiramente humanos.”

No indescritível sofrimento dos campos de concentração — ele, que perdeu lá a mulher, o pai e a mãe, era o prisioneiro número 119 104 –, aprofundou a importância que têm as ideias para a forma de viver. Pôde constatar que, se eram as pessoas com vida interior e intelectual mais intensa que sofriam mais, também eram elas que tinham maior capacidade de resistir. Aí, percebeu que “quem tem algo por que viver é capaz de suportar qualquer como”. Por isso, referia aos companheiros de desgraça “as muitas oportunidades existentes para dar um sentido à vida. Este infinito significado da vida compreende também o sofrimento e a agonia, as privações e a morte. Assegurei-lhes que nas horas difíceis havia sempre alguém que nos observava – um amigo, uma esposa, alguém que estivesse vivo ou morto ou um Deus – e que de certeza não queria que o decepcionássemos.”

Frankl constatou que os prisioneiros que perdiam a fé e a esperança no futuro punham em risco a saúde e a própria sobrevivência. Mas também viu que há o que ninguém pode tirar ao Homem, mesmo num campo de concentração: “a última das liberdades humanas – a escolha da atitude pessoal perante um conjunto de circunstâncias – para decidir o seu próprio caminho.” Mesmo “essa tríade trágica na qual se incluem a dor, a culpa e a morte, pode chegar a transformar-se em algo positivo, quando se enfrenta com a postura e a atitude correctas.”

Quando as pessoas não encontram sentido, surgem as neuroses que chamou noógenas: não provêm de conflitos instintivos ou inconscientes, mas da falta de sentido e atingem o núcleo mais íntimo da pessoa. A logoterapia é precisamente terapia de encontro de sentido: ajuda cada um a descobrir o sentido pessoal da sua vida a realizar.

Na busca de sentido último, o Homem, inconscientemente, procura Deus – O Deus Inconsciente é o título de uma das suas obras.

No nosso tempo, já não é o sexo que é reprimido, mas o que é espiritual e religioso. Daí, a falta de sentido, de orientação, e, consequentemente, o tédio e o vazio.

Fonte: Anselmo Borges no DN.