A ira de um anjo (um testemunho de abuso sexual infantil)

O documentário “Child of Rage” – A Ira de um Anjo, exibido pela HBO em 1992, mostra os efeitos do abuso sexual e de uma vida familiar conturbada na cabeça de uma criança chamada Elizabeth Thomas.

Quando ela tinha 1 ano quando a mãe faleceu no parto de seu irmão. Os dois ficaram sob a guarda do pai, que passou os meses seguintes abusando sexualmente de Beth.Depois de um tempo ela e o irmão foram levados para adoção e um casal acabou conseguindo rapidamente a guarda. Com o passar do tempo, eles começaram a perceber um comportamento estranho por parte da menina. Ela começou a molestar, agredir e a tentar matar o irmão, bem como animais de estimação da casa, e os próprios pais adotivos. A situação se agravou quando algumas facas da casa começaram a sumir e, por medo, os pais começaram a trancar a pronta do quarto da menina durante a noite. Elizabeth Thomas era incapaz de se relacionar com qualquer ser humano e/ou criar laços de afeto, de sentir ou receber amor, além de uma completa falta de empatia, uma vez que ela era capaz de ferir ou matar outros seres vivos sem ressentimentos. Assista:

Em Abril de 1989, Elizabeth Thomas foi internada em uma casa especializada em cuidar de crianças com desordem emocional, e atualmente é enfermeira na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal e trabalha cuidando de minúsculos bebês frágeis.

Escreveu um livro, “More than a Thread of Hope” e, junto com sua mãe adotiva, Nancy Thomas, criou uma clínica para crianças com distúrbios graves de comportamento. A sua história serviu de inspiração para o filme Child Of Rage – A Ira de Um Anjo. 

Elisabeth Thomas - Beth

 Elizabeth Thomas atualmente.

 

 

A demência está a estabilizar?

Demência parece estar a estabilizar nalguns países
Fotografia © D.R.

Doenças neurodegenerativas do cérebro estarão a estabilizar nas nações mais ricas, segundo estudo publicado na revista The Lancet.

A ocorrência de demência, incluindo Alzheimer, parece estar a estabilizar nas nações mais ricas, de acordo com um estudo divulgado hoje.

Dados da Suécia, Holanda, Reino Unido e Espanha mostram que a percentagem de população com demência – um termo que abrange as doenças neurodegenerativas do cérebro – se encontra estável, bem como o número de novos casos, indica o estudo publicado na revista The Lancet Neurology.

Investigadores liderados por Carol Brayne, professora no Instituto de Saúde Pública da Universidade de Cambridge, compararam a ocorrência de demência em pessoas idosas em dois períodos diferentes nas últimas décadas.

Encontraram poucas diferenças nos dois períodos e num caso, até uma pequena diminuição, na percentagem de população afetada.

Esta tendência pode ser o resultado de melhores condições de vida e educação, bem como melhorias no tratamento e prevenção de doenças vasculares que levam a enfartes e paragens cardíacas, dizem os investigadores.

Se confirmadas, as conclusões deste estudo representam boas notícias e sugerem que a iminente “epidemia da demência” — maioritariamente devido a uma população envelhecida — pode ser menos severa do que se receava.

Estas conclusões são, no entanto, contestadas por outros especialistas.

Aproximadamente 7% das pessoas com mais de 65 anos sofre de algum tipo de demência — essa percentagem sobe para 40% aos 80 ou 85 anos, de acordo com diferentes estimativas.

 

Fonte: Lusa/DN.

Cientistas fabricam neurónios da serotonina em laboratório pela primeira vez

As células a azul eram fibroblastos, e agora algumas delas, a verde, são neurónios que produzem serotonina.
As células a azul eram fibroblastos, e agora algumas delas, a verde, são neurónios que produzem serotonina. Fotografia © University of Buffalo.

 

 

A serotonina está relacionada com a depressão e com outras doenças mentais, e estes neurónios artificiais vão permitir estudá-las como nunca antes.

Pela primeira vez, um grupo de cientistas da Universidade de Buffalo, no estado de Nova Iorque, conseguiu fabricar em laboratório neurónios de serotonina, as células do cérebro que libertam e absorvem o neurotransmissor responsável por regular o humor e os estados mentais humanos. A produção e absorção de serotonina está relacionada com o desenvolvimento de doenças mentais como a depressão.

“O nosso trabalho demonstra que os preciosos neurónios de serotonina escondidos nas profundezas do cérebro humano agora podem ser criados numa placa de Petri”, disse Jian Feng, principal autor do estudo, citado num comunicado da Universidade de Buffalo.

Os investigadores usaram fibroblastos – as células humanas que geram tecidos conectores no corpo – que conseguiram converter nos neurónios de serotonina, que são muito difíceis de obter. A investigação provou que é possível converter um tipo de célula noutra de menor disponibilidade para os cientistas, e o investigador Jian Feng espera que a técnica que criaram possa ser utilizada para desenvolver outras células no futuro.

Até hoje, os cientistas que estudam a serotonina e a sua produção e absorção pelos neurónios tinham que desenvolver o seu trabalho usando células de animais, mas agora poderão produzir neutórnios deste tipo no laboratório, para compreender melhor esse funcionamento.

Os autores deste estudo, publicado na revista Molecular Psychiatry na semana passada, esperam ainda que seja possível fazer crescer neurónios de serotonina a partir de células de pessoas com doenças associadas a esse neurotransmissor, para poder perceber melhor essas doenças e desenvolver tratamentos apropriados.

 

Fonte: DN.

Álcool apresenta riscos que as propagandas omitem, alerta psiquiatra

Álcool apresenta riscos que as propagandas omitem, alerta psiquiatra

As bebidas alcoólicas são sempre aliadas ao divertimento e ao poder. Esta é a imagem que todos os dias assistimos na TV. Enquanto isso, muitas pessoas – inclusive crianças e adolescentes – são impactadas pelas propagandas que ressaltam a ‘beleza’ do consumo de álcool. Para o psiquiatra e psicanalista Sérgio de Paula Ramos, há 40 anos trabalhando com dependência química, o poder da indústria do álcool surge a partir de um trabalho de publicidade perverso.

O especialista defende a ideia de que o álcool apresenta riscos que as propagandas omitem e é enfático ao analisar que a dependência do álcool leva ao consumo de substâncias ainda mais nocivas ao organismo. Em entrevista à Vox Objetiva, Ramos apontou para diversos problemas que o álcool acarreta e não poupou críticas ao governo, que ainda investe pouco em campanhas de prevenção ao consumo de bebidas alcoólicas, assim como a educação transmitida pela família, que, por vezes, não vê problemas no consumo de álcool pelo adolescente.

Leia a seguir a entrevista completa:

O senhor já tem 40 anos de experiência no atendimento a dependentes químicos. Quase sempre, escolhas que são definidoras em nossa vida têm relação com acontecimentos, pessoas, casos marcantes. Foi o que aconteceu com o senhor? Por qual razão se deu a opção por essa especialidade?

Recuperar um dependente químico até hoje é um grande desafio para os médicos e demais profissionais de saúde. Uma coisa que me moveu em direção a essa especialidade foi justamente o enfrentamento desse desafio. A outra coisa foi percebida cedo. O meu pai era alcoolista e superou o vício graças a um competente tratamento psiquiátrico. A recuperação que ele teve influenciou muito a minha escolha; muito mais do que o próprio alcoolismo. Pude examinar e perceber intimamente como a vida dele melhorou depois de um tratamento bem-feito.

O senhor defende a ideia de que a dependência química inicia por meio do primeiro gole. Qual a relação da primeira experiência com o vício em outros tipos de droga? É uma questão que envolve sobretudo a curiosidade humana?

A dependência química é uma situação muito complexa e depende do somatório de vários fatores. Dentre eles, os mais relevantes são a genética, experiências infantis de pouco monitoramento por parte dos pais, a presença de algumas alterações na infância, como o déficit de atenção, a hiperatividade, os transtornos de conduta e, depois, o beber precoce na adolescência e a companhia de amigos usuários. Tudo isso funciona como fatores de risco para o posterior desenvolvimento da dependência química. Então é uma doença multideterminada por diversos fatores possíveis.

Por qual razão o álcool continua sendo encarado com certa despreocupação aqui no Brasil, se é a droga de maior impacto social no país?

A resposta é muito simples: nós, brasileiros, somos omissos nessa área e seguimos permitindo que a indústria do álcool faça as suas propagandas cada vez mais perversas. Enquanto reinar a propaganda do álcool, seremos todos induzidos a associar álcool a festa e divertimento e não a tragédia e doença.

Com que idade o brasileiro começa a ter contato com o álcool? Isso se deve a quais fatores?

Nas pesquisas anteriores, o resultado foi grave: mostrava que o brasileiro começava a beber, em média, com 15 anos de idade. Na mais recente pesquisa, a constatação foi ainda mais grave porque a idade diminuiu. A pesquisa apontou que essa iniciação acontece aos 13 anos. Então talvez o Brasil seja um dos países em que mais cedo se começa a beber. A situação é muito preocupante porque sabemos que, quanto mais cedo a pessoa experimenta bebida alcoólica, maiores são as chances de ela se transformar em alcoolista. A efeito de ilustração do que estou falando, crianças que bebem antes dos 13 anos de idade têm 48% de chances de se transformarem em alcoolistas. Segundo a veia americana de beber apenas após os 21 anos, pessoas que iniciam nessa idade a experimentação do álcool têm 9% de chances de se tornarem alcoolistas. Então veja a diferença: quanto mais cedo, mais perigoso.

Por qual razão esse contato é tão precoce no Brasil?

A propaganda perversa do álcool vai incutindo nas nossas mentes que beber é normal, que todo mundo bebe, que o filho de 14 anos tem que beber, a festa de 15 anos não existe sem bebida alcoólica,… Nós estamos sendo induzidos a achar que isso é normal e não estamos vendo o preço altíssimo que estamos pagando por isso.

A indústria das bebidas alcoólicas tem um poderio inegável aqui no Brasil. Por qual razão não conseguimos freá-la, como aconteceu com a indústria do tabaco?

Esse é um grande desafio, né? A indústria do tabaco não foi freada de um dia para o outro. Foi um processo que envolveu alterações em leis. Há mais de 20 anos, a indústria do álcool está instalada no mundo inteiro. Eu tenho a esperança de não morrer antes de ver proibida a propaganda de bebidas alcoólicas. Mas a indústria do álcool aprendeu com o que aconteceu com a indústria do tabaco e sabe como evitar o mesmo desfecho. Isso dificultou a nossa luta.

Na opinião do senhor, como têm sido desenvolvidas as políticas antidrogas aqui no Brasil? De forma adequada, deficitária,… O que precisaria ser revisto?

Eu diria que a única ação brasileira contra o álcool razoavelmente bem-sucedida é a ação de álcool do trânsito. Essa é uma medida que está dando os primeiros resultados. Mas, salvo juízo, é a única que o governo brasileiro faz. Não vejo, por exemplo, uma política consistente que visa erradicar o consumo de bebidas alcoólicas por parte de menores de 18 anos. Qualquer criança que chegue a um bar consegue, a pedido dos pais, comprar. Nós vemos também nas sextas-feiras à noite adolescentes consumindo bebida alcoólica nas ruas.

É uma lógica perversa pensar que o governo se omite e se vende à indústria para depois se comprometer por não conseguir atender de forma adequada aos doentes. Mas é mesmo isso que acontece?

Eu acho que o governo, além de perverso, é ignorante. Ele se ilude com o imposto pago pela indústria do álcool, sem fazer a conta de quanto custa para ele pagar os danos causados pelo álcool. Se você somar tudo o que é recolhido em imposto e o que é gasto com o álcool em termos de tratamento, aposentadoria, acidentes de trânsito, violência, homicídios, suicídios, etc., vai dar um prejuízo de 4,5 vezes superior à arrecadação com os impostos sobre a bebida. Então nem essa conta fizeram direito.

Educação infantil é o ponto?

Eu acho que nós temos que trabalhar com educação em todos os níveis. Quando você vê, por exemplo, um pai conivente quando se depara com o filho menor de idade bêbado, quem tem que ser educado é o pai. Então educação funciona? Funciona, desde que seja em todos os níveis. Este é o caminho: a educação, a informação séria para, paulatinamente, ampliar a percepção de que o álcool faz mal para a sociedade. Nós já começamos a perceber que álcool faz mal no trânsito. Agora temos que começar a ampliar essa percepção.

A reboque da própria definição do que é lícito e ilícito, surgem os problemas que envolvem a saúde das pessoas. O tratamento dos dependentes químicos para na questão da estrutura do sistema público de saúde. A salvação do dependente está unicamente na iniciativa privada?

O sistema de saúde brasileiro como um todo está falido. Ele não atende bem a ninguém. Principalmente, não atende bem nas fases precoces da doença, no momento em que as pessoas precisam ser atendidas. Dependência química não é uma exceção. A chamada luta antimanicomial conseguiu fechar muitos leitos psiquiátricos no país que agora estão nos fazendo falta. O que a gente mais vê é dependente químico nas ruas, abandonados nas cracolândias, embaixo dos viadutos ou, pior ainda, presos. Então quem deveria estar em hospitais psiquiátricos hoje está preso ou dormindo debaixo de pontes.

O Senado Federal discute a legalização da maconha. O que o senhor pensa a respeito disso? Maconha é droga?

Eu acho que nós temos uma quantidade suficiente de drogas lícitas com que nos preocupar. Não precisamos legalizar mais nenhuma porque nós não estamos dando conta de enfrentar o que é considerado legal. Eu fico muito preocupado quando se levanta esse debate em relação à legalização da maconha que, se for liberada, certamente vai aumentar o consumo da droga e criar mais problemas para a rede pública de saúde.

Fonte: Alcoolismo.

Ouvir música pode ajudar a sofrer menos nas cirurgias

Diminuir a ansiedade, aumentar a satisfação com o tratamento e ter menos dores, são as vantagens conhecidas por se ouvir música antes, durante e depois de uma cirurgia. Um tratamento simples e barato.

Uma roda de piano no hospital americano da Cruz Vermelha, em Londres, no dia 24 de janeiro de 1918. Topical Press Agency/Getty Images.

Ouvir música antes, durante ou depois de uma intervenção cirúrgica parece ser benéfico para os doentes e reduzir significativamente a dor e ansiedade, assim como a necessidade de medicação contra as dores. A conclusão foi apresentada pela equipa de Catherine Meads, do Grupo de Investigação em Economia da Saúde na Universidade de Brunel (Reino Unido), depois de rever estudos anteriores que envolveram quase sete mil doentes.

A música é uma intervenção não invasiva, segura e barata que deveria estar disponível a todos os que são submetidos a uma cirurgia”, defende Catherine Meads, citada em comunicado de imprensa. “Os doentes deviam poder escolher a música que querem ouvir de forma a maximizar os efeitos no próprio bem-estar. Contudo, é preciso ter em conta que a música não pode interferir com a comunicação da equipa médica.”

Os ensaios clínicos analisados comparavam o impacto da música com os cuidados convencionais ou com outras intervenções que não incluíssem o uso de drogas, como as massagens, na recuperação de adultos em pós-operatório, refere o artigo publicado na conceituada revista médica The Lancet. Os 6.902 doentes que ouviram música, quando comparados com os que não ouviram (controlo), mostraram-se significativamente mais satisfeitos com o tratamento e menos ansiosos depois da cirurgia. Estes doentes referiram ter menos dores e recorrer menos a analgésicos e anti-inflamatórios.

As conclusões vão mais longe:

  • Ouvir música em qualquer momento parece surtir efeito, mas os doentes que ouviram música antes da cirurgia mostraram melhores resultados do que os que ouviram durante ou depois.
  • Os doentes que ouviram música mesmo sob o efeito da anestesia continuaram a apresentar níveis mais baixos de dor, ainda que os resultados fossem ainda melhores nos doentes que estavam conscientes quando ouviram a música.
  • Embora de efeito moderado, e estatisticamente não significativo, os doentes que escolhiam a própria música pareciam ter uma redução ainda maior nas dores e no uso de medicamentos.
  • Apesar das melhorias apresentadas, a estadia no hospital não foi menor só porque os doentes ouviram música.

Num comentário ao artigo, Paul Glasziou, investigador no Centro de Investigação das Práticas Baseadas em Evidências da Universidade Bond (Austrália), refere que o facto de os doentes beneficiarem da música mesmo quando estão anestesiados pode mostrar que este efeito não é mais do que um placebo (tratamento “inerte” ministrado com fins sugestivos ou psicológicos). “Porém, um efeito placebo seria desejável de qualquer forma.”

Os diretores podem ter ficado desapontados que a duração da estadia [no hospital] não tenha sido reduzida, mas a música é uma intervenção simples e barata, que reduz desconfortos passageiros em pacientes sujeitos a cirurgia”, refere Paul Glasziou.

Dos mais de quatro mil artigos encontrados, os investigadores escolheram os 72 ensaios clínicos que cumpriam os critérios de inclusão: serem controlados e aleatórios, terem dados qualitativos, incluírem adultos sujeitos a uma cirurgia que não incluísse o sistema nervoso central, a cabeça ou o pescoço. Os artigos escolhidos podiam estar escritos em qualquer língua, a cirurgia podia ter recorrido a anestesia ou não e os medicamentos para as dores podia ser de qualquer tipo.

Embora o ensaio com mais pessoas tivesse apenas 458 participantes e um estudo deste tipo pudesse beneficiar de uma amostra mais alargada, os investigadores consideram que como todos os pequenos ensaios mostram as vantagens da utilização de música, esta compilação poderá ser o suficiente.

Um dos pontos verificados pelos autores é que “apesar de existir um número relevante de estudos, a música ainda não foi implementada como uma intervenção terapêutica na prática cirúrgica quotidiana porque a informação sobre a eficácia não foi sintetizada e disseminada universalmente”, escrevem no artigo. E reforçam que “nenhum dos estudos incluídos referiu efeitos secundários”.

Os autores consideram que este é o trabalho de revisão mais completo sobre a utilização de música no tratamento de doentes sujeitos a cirurgia. E acrescentam que “existe alguma evidência experimental que a distração com videojogos pode reduzir a dor induzida em adultos”, mas ainda não há estudos sobre a eficácia da utilização de vozes na rádio ou audiolivros durante as cirurgias de adultos.

Fonte: Observador.

Neurónios de laboratório disponíveis para o estudo de doenças mentais

As células a azul eram fibroblastos, e agora algumas delas, a verde, são neurónios que produzem serotonina.
As células a azul eram fibroblastos, e agora algumas delas, a verde, são neurónios que produzem serotonina. Fotografia © University of Buffalo.

 

A serotonina está relacionada com a depressão e com outras doenças mentais, e estes neurónios artificiais vão permitir estudá-las como nunca antes.

Pela primeira vez, um grupo de cientistas da Universidade de Buffalo, no estado de Nova Iorque, conseguiu fabricar em laboratório neurónios de serotonina, as células do cérebro que libertam e absorvem o neurotransmissor responsável por regular o humor e os estados mentais humanos. A produção e absorção de serotonina está relacionada com o desenvolvimento de doenças mentais como a depressão.

“O nosso trabalho demonstra que os preciosos neurónios de serotonina escondidos nas profundezas do cérebro humano agora podem ser criados numa placa de Petri”, disse Jian Feng, principal autor do estudo, citado num comunicado da Universidade de Buffalo.

Os investigadores usaram fibroblastos – as células humanas que geram tecidos conectores no corpo – que conseguiram converter nos neurónios de serotonina, que são muito difíceis de obter. A investigação provou que é possível converter um tipo de célula noutra de menor disponibilidade para os cientistas, e o investigador Jian Feng espera que a técnica que criaram possa ser utilizada para desenvolver outras células no futuro.

Até hoje, os cientistas que estudam a serotonina e a sua produção e absorção pelos neurónios tinham que desenvolver o seu trabalho usando células de animais, mas agora poderão produzir neutórnios deste tipo no laboratório, para compreender melhor esse funcionamento.

Os autores deste estudo, publicado na revista Molecular Psychiatry na semana passada, esperam ainda que seja possível fazer crescer neurónios de serotonina a partir de células de pessoas com doenças associadas a esse neurotransmissor, para poder perceber melhor essas doenças e desenvolver tratamentos apropriados.

Fonte: DN.

Estamos a educar crianças imaturas

Quanto mais recreio, mais atenção nas aulas. Quanto menos liberdade para brincar, maior o risco de acidentes. Carlos Neto, professor da FMH, explica por que tem de ser travado o “terrorismo do não”.

Carlos Neto é professor e investigador na Faculdade de Motricidade Humana (FMH), em Lisboa. Trabalha com crianças há mais de quarenta anos e há uma coisa que o preocupa: o sedentarismo, a falta de autonomia dada pelos pais às crianças e a ausência de tempo para elas brincarem livremente, correndo riscos e tendo aventuras. É um problema que tem de ser combatido, diz. Porque a ausência de risco na infância e o facto de se dar “tudo pronto” aos filhos, cada vez mais superprotegidos pelos pais, acaba por colocá-los em perigo. Soluções? Uma delas passa por “deixar de usar a linguagem terrorista de dizer não a tudo: não subas, olha que cais, não vás por aí…”.

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Há dez anos já se falava no sedentarismo das crianças portuguesas. Lembro-me que dizia que uma criança saudável é aquela que traz os joelhos esfolados. Como estamos hoje?

Há dez anos nós falávamos que as crianças tinham agendas, hoje digo que têm super-agendas! Há dez anos eu dizia que as crianças saudáveis eram as que tinham os joelhos esfolados. Hoje, acho que os joelhos já não estão esfolados, mas a cabeça destas crianças já começa a estar esfolada, por não terem tempo nem condições para brincar livremente. Brincar não é só jogar com brinquedos, brincar é o corpo estar em confronto com a natureza, em confronto com o risco e com o imprevisível, com a aventura.

Os joelhos já não estão esfolados, mas a cabeça destas crianças já começa a estar esfolada, por não terem tempo nem condições para brincar livremente

As crianças brincam porque procuram aquilo que é difícil, a superação, a imprevisibilidade, aquilo que é o gozo, o prazer. E, portanto, as crianças que eu apelido de crianças “totós”, são hoje definidas como crianças superprotegidas, crianças que não têm tempo suficiente para brincar e crianças que não têm tempo nem espaço para exprimir o que são os seus desejos. E o primeiro desejo de uma criança é o dispêndio de energia, é brincar livre e com os outros, mesmo que muitas vezes em confronto. Porque o confronto é uma forma preciosa de aprendizagem na vida humana. E nós estamos a retirá-los de tudo isso. Estamos a dar tudo pronto e não estamos a confrontá-los com nada. E isso terá muitas consequências.

Estamos a falar de que idades?

Estamos a falar de crianças entre os 3 e os 12 anos. Significa que aumentou de facto esta taxa de sedentarismo, eu diria mesmo de analfabetismo motor, estamos a falar de iliteracia motora. Trabalho há 48 anos com crianças e sei avaliar o que se passou. As crianças têm menos capacidade de coordenação, menos capacidade de perceção espacial, têm de facto menor prazer de utilizar o corpo em esforço, têm uma dificuldade de jogo em grupo, de ter possibilidades de ter aqueles jogos que fazem parte da idade. Ao mesmo tempo, institucionalizou-se muito a escola. Nós hoje temos as crianças sentadas durante muito tempo, não há uma política efetiva adequada de recreios escolares. Os recreios são organizados muitas vezes em função de um modelo de trabalho, ou de um modelo de funcionamento pedagógico, que tem a ver mais com as aprendizagens pedagógicas obrigatórias ou consideradas úteis, e muito menos com as atividades do corpo em movimento. E, por isso, há alguns trabalhos de investigação que temos vindo a fazer, onde tentamos mostrar a correlação entre o tempo que as crianças têm de recreio, a qualidade de atividade que fazem no recreio e a capacidade de aprendizagem na sala de aula.

“Temos hoje crianças de 3 anos que, ao fim de dez minutos de brincadeira livre, dizem que estão cansadas, temos crianças de 5 e 6 anos que não sabem saltar ao pé-coxinho. Temos crianças com 7 anos que não sabem saltar à corda, temos crianças de 8 anos que não sabem atar os sapatos.”

A que conclusões já chegaram?

Uma delas é que as crianças que são mais ativas no recreio, e que têm mais socialização, têm na sala de aula mais capacidade de atenção e de concentração. Isto tem a ver com uma tendência que está a acontecer em quase todo o mundo, de restringir o tempo de recreio para ter mais tempo na sala de aula. O que nós concluímos é que o tempo de recreio é absolutamente fundamental para a saúde mental e para a saúde física da criança. O recreio escolar é o último reduto que a criança tem durante a semana para brincar livremente. E, de facto, verificamos esta relação muito clara entre ser ativo no recreio e estar concentrado dentro da sala de aula.

As crianças mais ativas têm mais capacidade de aprendizagem e mais capacidade de concentração. E têm, a médio e a longo prazo, mais capacidade de terem sucesso.

Isto vem ao encontro de algumas investigações que têm sido feitas nos Estados Unidos, que relacionam o ser ativo com o desenvolvimento do cérebro e com o desenvolvimento neurológico. E, de facto, demonstra-se claramente que as crianças mais ativas têm mais capacidade de aprendizagem e mais capacidade de concentração. E têm, a médio e a longo prazo, mais capacidade de terem sucesso, mais autoestima e maior capacidade de autoregulação.

Esta questão dos recreios e do tempo que as crianças têm de passar sentadas na sala de aula está de alguma forma relacionada com o aumento dos diagnósticos de casos de hiperatividade? Muitos destes casos podem ocorrer porque as crianças não despendem a energia física que é suposto despenderem?

Os currículos hoje estão a ser demasiado exigentes quanto ao número de horas em que as crianças têm de estar sentadas. Devemos ter um plano para tornar a sala de aula mais ativa. Acabamos de fazer um programa com o Ministério da Educação, o Fit Escola, que é uma plataforma que tem como objetivo ajudar os pais, os alunos e os professores a tornarem as crianças um pouco mais ativas. E uma das ideias base é esta: se mudássemos a configuração das mesas e das cadeiras da sala de aula — estando as crianças a adquirir conhecimentos fundamentais, mas estando a fazê-lo de forma ativa –, não aprenderiam melhor?

É inaceitável que 220 mil crianças estejam medicadas em Portugal. Isto não pode acontecer.

Há aqui um fator muito importante que tem a ver com a maneira como os adultos, professores ou pais, estão neste momento a controlar as energias das crianças. Numa grande parte dos casos essa energia é natural, mas é considerada hoje como doença ou inapropriada. É inaceitável que 220 mil crianças estejam medicadas em Portugal. Isto não pode acontecer. Tem de haver um maior esclarecimento para verificar efetivamente se aquelas crianças merecem ser medicadas porque são de facto hiperativas ou têm défice de atenção. Mas acredito que uma grande parte dessas crianças não necessita de ser medicada.

Há crianças de 11 anos que entram às 8h15 e saem as 13h15 com apenas dois recreios de 15 minutos neste espaço de tempo, em que as aulas são sempre de 90 minutos. Nem um adulto trabalha tanto tempo seguido…

Pois não. Isso é contra natura, não tem a ver com as culturas de infância. Temos de ter um maior equilíbrio entre o que é uma estimulação organizada e uma estimulação ocasional, ou seja, entre o que é tempo livre, tempo de jogo livre, e o que é tempo de organização académica.

Brincar não é perder tempo, no seu entender…

Não. E por uma razão. Todos os estudos têm vindo a demonstrar que na infância, até aos 10/12 anos de idade, é absolutamente essencial brincar para desenvolver a capacidade adaptativa, quer do ponto de vista biológico quer do ponto de vista social. E hoje não é isso que estamos a fazer. Estamos a dar tudo pronto, tudo feito, e não estamos a confrontar as crianças com problemas que elas têm de resolver. Sejam eles confrontos com a natureza – que deixaram de existir – sejam eles confrontos com os outros.

Brincar à luta é saudável. É um indicador de vida saudável das crianças. Como correr atrás de alguém, ou ser perseguido. Brincar é civilizar o corpo.

Por exemplo, a luta, a corrida e perseguição, são comportamentos ancestrais que as crianças têm de viver na infância e que são essenciais para o crescimento. A apropriação do território, a noção de lugar, o medir forças de uma forma saudável, o brincar a lutar. Hoje observamos comportamentos na escola, quer por parte dos pais quer por parte dos educadores, que não são corretos. Porque quando veem duas crianças agarradas vão logo separá-las — e elas muitas vezes estão a brincar à luta, e brincar à luta é saudável. É um indicador de vida saudável das crianças. Como correr atrás de alguém, ou ser perseguido. Brincar é civilizar o corpo.

Eu não tenho nada contra os exames, nem contra as metas escolares. Agora, os exames e as metas curriculares não podem impedir que não se faça uma reflexão daquilo que a criança necessita para crescer de forma saudável. E, de facto, esta relação entre tempo sentado e tempo ativo precisa de uma maior reflexão no sistema educativo, sob pena de termos gravíssimos problemas de saúde pública a curto e a médio prazo. Nós vamos pagar muito caro o facto de não termos esse equilíbrio entre estimulação organizada e informal. E quanto mais descemos na infância pior.

“As crianças brincam porque procuram aquilo que é difícil, a superação, a imprevisibilidade, aquilo que é o gozo, o prazer. E, portanto, aquilo a que eu chamo crianças “totós”, são hoje definidas como crianças superprotegidas, crianças que não têm tempo suficiente para brincar e crianças que não têm tempo nem espaço para exprimir o que são os seus desejos.”

Os adultos, tanto pais como educadores, têm também “culpa” nesta matéria?

Não pode haver uma linguagem terrorista, que é própria dos adultos, que impede as crianças de viverem certo tipo de situações de risco. Quer isto dizer que a linguagem e as proibições que vêm das bocas dos adultos, o não sistemático e persecutório, não permitir que as crianças tenham certo tipo de experiências que incluem níveis de risco maiores, só estão a conduzir a um analfabetismo motor e social.

Que tipo de “nãos”?

O “não subas”, o “olha que cais”, “não vás para ali”, “tem cuidado”, “não trepes à árvore”. Impedem as crianças de terem estas experiências, que são próprias da idade. Instalaram-se medos nas cabeças dos adultos. Medos das crianças serem autónomas. Nós nascemos para sermos autónomos e para termos, ao longo do processo de desenvolvimento, maior autonomia e maior independência. Basta ver como é que as crianças hoje vivem a cidade, como as cidades estão preparadas para as crianças. Nós estamos a cometer o erro de querer obter sucessos rapidamente, de querer que as crianças cresçam rapidamente, de que estejam todos incluídos nos rankings, mas estamos pouco preocupados com as suas culturas próprias. Não se está a ver o ator, não se está a ver o aluno. Na escola o que deveria emergir era o aluno e a criança, o que emerge é o professor e a burocracia.

As crianças andam pouco na rua? Têm pouca autonomia?

Dou um exemplo, os percursos escola-casa. Hoje, a maioria das crianças faz estes trajetos de carro, quando há 30 anos o faziam a pé. Hoje, as crianças têm uma vivência do território de forma visual e não de forma corporal. Quer dizer que as aventuras e as brincadeiras, em contacto com a natureza, desapareceram.

As novas tecnologias passaram a ter um lugar privilegiado no quotidiano da criança. Eu não tenho nada contra as novas tecnologias, mas tem de haver bom senso e um critério de saber gerir bem o tempo e o espaço destas novas tecnologias, em relação àquilo que são as necessidades biológicas do corpo.

“Como é que queremos que as nossas crianças sejam empreendedoras se estamos a retirar-lhes todas as possibilidades de elas aprenderem a fazer isso? A construção de uma cultura empreendedora faz-se quando se dão possibilidades para que a criança possa brincar. Se nós retiramos aquilo que é a identidade da criança, que é brincar de forma livre, com um nível de margem de risco muito superior àquela que os adultos têm, elas com certeza que não vão ter condições de serem verdadeiramente autónomas.”

Mas eventualmente elas vão andar sozinhas na rua… Quando chegar esse dia vão estar menos preparadas?

São crianças menos preparadas, mais imaturas, com maior dificuldade de resolução de problemas, porque têm menos autonomia, têm menos capacidade de resolução de problemas. Num país como este, que passou uma austeridade tão violenta, onde se fala tanto em empreendedorismo, como é que queremos que as nossas crianças sejam empreendedoras se estamos a retirar-lhes todas as possibilidades de elas aprenderem a fazer isso?

A construção de uma cultura empreendedora faz-se quando se dão possibilidades para que a criança possa brincar. Se nós retiramos aquilo que é a identidade da criança, que é brincar de forma livre, com um nível de margem de risco muito superior àquela que os adultos têm, elas com certeza que não vão ter condições de serem verdadeiramente autónomas nem de terem uma socialização suficientemente matura. Há uma relação muito grande entre a qualidade e a quantidade do brincar na infância e na adolescência e a passagem para a vida adulta.

Como assim?

Digamos que um corpo que não é feliz na infância é um um corpo que vai pagar muito caro no futuro. Se olharmos para outras culturas de infância — nos países que estão em desenvolvimento e nos países pobres — podemos ver que pode haver fome e problemas de sobrevivência extrema, pode haver até violência extrema, mas as crianças têm alguma liberdade de ação e têm muitas vezes uma capacidade de resolução de problemas, de resiliência, muito interessantes. Coisa que não acontece nos países muito desenvolvidos, onde há uma superproteção às crianças.

Temos um bom clima, um nível de segurança que é dos melhores da Europa, temos uma natureza e uma cultura interessantíssimas e estamos a desperdiçar essa possibilidade

Fizemos um estudo recente aqui na Faculdade de Motricidade Humana sobre a independência e a mobilidade da criança. Em 16 países Portugal aparece em décimo lugar. Temos um índice de mobilidade muito abaixo dos países do norte da Europa. Quer isto dizer que o nível de autonomia e de independência de mobilidade está a ser um problema muito sério nas culturas de infância do nosso país. Um país que tem um território muito apropriado para que as crianças possam viver o espaço exterior. Temos um bom clima, um nível de segurança que é dos melhores da Europa, temos uma natureza e uma cultura interessantíssimas e estamos a desperdiçar essa possibilidade. As crianças já não contactam com a natureza, já não saem à rua, desapareceram e muitas vezes, o tempo que restava à criança para poder fazer isto tudo está restringido.

https://infogr.am/mobilidade_criancas

Falando agora dos mais pequeninos, das crianças a partir dos 3 anos. O que tem observado em relação à motricidade destas crianças?

Temos hoje crianças de 3 anos que ao fim de dez minutos de brincadeira livre dizem que estão cansadas, temos crianças de 5 e 6 anos que não sabem saltar ao pé-coxinho. Temos crianças com 7 anos que não sabem saltar à corda, temos crianças de 8 anos que não sabem atar os sapatos. As coisas mais elementares, quer do ponto de vista motor, quer do ponto de vista de motricidade grosseira, quer da motricidade fina, tiveram um atraso significativo. Claro que há exceções, claro que há crianças notáveis na sua apreensão e na sua coordenação motora global, mas se observarmos estatisticamente crianças do nosso tempo e crianças de há 30 anos, há uma diferença muito substancial.

Mas o que se pode fazer concretamente?

Se as crianças não brincam é porque os pais também não têm tempo para elas. Temos de fazer um grande plano de salvação nacional no que respeita à formação parental. Os pais têm que ter mais informações e mais formação sobre a importância de a criança ser fisicamente ativa. E livre.

Mas os pais podem pensar: o meu filho anda no ténis, e no futebol e na natação, pratica muito desporto…

Isso não resolve nada. Nem uma boa alimentação, nem exercício físico apenas resolvem o problema da iliteracia motora ou do excesso de gordura. A questão é multifactorial.

Tem de se olhar para a alimentação, com certeza, temos de olhar para a atividade motora e física e lúdica, mas temos de encontrar soluções no espaço construído que facilitem a possibilidade de as crianças virem para o exterior e terem contacto com a natureza e terem tempo para brincar. E por isso tem de haver flexibilidade de horários de trabalho, tem que haver políticas de maior acordo entre o tempo de trabalho da família e da escola, de modo a que haja mais qualidade de vida.

Por isso é importante saber que é tão importante a criança estar no recreio a brincar, como estar dentro da sala de aula. E isto não foi cuidado. Ainda para mais numa altura em que a criança em casa não brinca. E a criança ao pé de casa também não brinca. E não tem condições nem de acessibilidade, nem tempo, para frequentar os espaços de jardins públicos e os espaços de jogo.

“Se tivesse de ter uma estratégia para os espaços de jogo para crianças em Portugal, começava por desequipar tudo. E montava tudo de novo.”

Chegámos aos parques infantis. O que existe em Portugal é adequado às crianças?

Noventa por cento dos nossos parques infantis são equipados com sintéticos. Essas empresas, que vendem esses materiais para Portugal, são oriundas de países onde esse material não é vendido. Só vendem em Portugal. Porque os parques infantis em Portugal são escolhidos por catálogo, não são feitos com os atores, que são as crianças, não há projetos educativos para fazer o espaço de jogo, não há participação. Há um dispêndio financeiro enormíssimo do erário público, que não serve para nada. Eu, se tivesse de ter uma estratégia para os espaços de jogo para crianças em Portugal, começava por desequipar tudo. E montava tudo de novo.

Como é que deviam ser esses parques infantis?

Deviam ter uma lógica participativa da comunidade e dar mais soluções “selvagens” do que dinâmicas pré-formatadas, quer nos equipamentos quer nos espaços. O tartan é mais perigoso do que as aparas de madeira, ou a brita ou a relva. A qualidade do envolvimento tem sempre a ver com as possibilidades de ação das crianças. E quanto melhor essa qualidade, em termos de risco e de valor lúdico, melhor será a capacidade de resposta das crianças a uma estimulação que as faz crescer, que as torna mais autónomas.

“Um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento motor, ao desenvolvimento percetivo, ao desenvolvimento da atividade lúdica é o comportamento dos pais.”

Mas se calhar os pais quando ouvem falar de risco ficam assustados…

As crianças têm uma grande capacidade de autocontrolo.

Os pais têm de perder o medo?

É claro que esse é um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento motor, ao desenvolvimento percetivo, ao desenvolvimento da atividade lúdica: o comportamento dos pais. A Academia Norte-Americana de Pediatria fez um apelo a todos os pediatras para que, nas consultas com os pais, os convidassem a brincar mais com os filhos e a saírem mais à rua. Isto é, brincar mais em casa e “go out and play”.

Se a Organização Mundial de Saúde considerar que o sedentarismo é uma doença, temos um problema mais sério que a obesidade. Temos de ter um plano de emergência para que as crianças tenham o que merecem em determinada idade. E a maneira como se está a fazer este controlo das energias, a falta de tempo que os pais têm, os medos que se instalaram na cabeça dos pais e a forma como o planeamento urbano é feito, significa que temos aqui todos os condimentos para termos uma infância que está a crescer com problemas muito complicados, do ponto de vista do conhecimento e do uso do seu corpo.

As crianças que vivem nos meios menos urbanos ainda são privilegiadas no que diz respeito à independência e à autonomia?

Ainda estávamos convencidos de que haveria alguma diferença, quando analisávamos a questão entre estrato socioeconómico ou relações entre cidade, vila e aldeia. Já tudo mudou. Formatou-se o estilo de vida, independentemente se é cidade ou é aldeia. O ecrã alterou muito significativamente a vida das crianças e dos pais. Passou-se da trotinete ao tablet de uma forma rapidíssima e não há equilíbrio. E o que está em causa neste momento é que nem a atividade desportiva que as crianças fazem em clubes, nem a educação física escolar, nem o desporto escolar — que são muito importantes — são suficientes para acabar com o sedentarismo que existe.

Parece que é um crime brincar à luta, parece que é um crime brincar aos polícias e ladrões, parece que é um crime fazer uma descoberta, ou saltar um muro

As crianças têm de voltar a ter a possibilidade de terem amigos e de serem mais ativas. E para isso tem de haver políticas muito corajosas para a infância. Os adultos andam de bicicleta, os idosos passeiam na rua, os jovens adolescentes vão tendo soluções, agora as crianças têm de brincar porque é a única alternativa que elas têm. Têm de brincar em casa e os pais têm de brincar com elas, brincar ao pé de casa e os pais têm de dar autonomia, brincar na cidade e tem que haver políticas de planeamento urbano capazes de também oferecerem condições apropriadas aos bebés, às crianças que estão a aprender a andar, às crianças que têm 5, 6, 7, 8 anos. Tem de haver equipamentos e espaços adequados que permitam mais margem de risco, mais margem de perigo. Há uma relação muito direta entre risco e segurança. Quanto mais risco, mais segurança e quanto mais risco, menos acidentes. Enquanto isto não for visto nesta perspetiva, vamos ter mais acidentes, porque há menos risco e por isso há menos segurança.

Pode exemplificar?

O exemplo é simples, eu costumo dá-lo de uma forma muito regular. As crianças têm de subir mais às árvores e os pais não têm de ter medo por isso. Porque hoje as crianças sobem, mas já não descem. O medo que se instalou na cabeça dos pais transmite-se muito facilmente para as crianças. Um pai inseguro faz do seu próprio filho uma criança insegura, vulnerável, que tem medo de arriscar.

Há 30, 40 anos, era perfeitamente natural vermos duas crianças a brincar à luta. Hoje, parece que é um crime brincar à luta, parece que é um crime brincar aos polícias e ladrões, parece que é um crime fazer uma descoberta, ou saltar um muro, ou fazer equilíbrio em cima de um muro. Instalou-se um medo quase que sobrenatural, de haver perigos de morte de rapto de violação. Há um exagero na maneira como se instalaram essas dinâmicas psicológicas nos adultos. Temos de combater isso.

Se um dia houver esse confronto com o risco as crianças vão estar menos preparadas para reagir?

Exatamente. E para se prepararem e para se adaptarem e para serem empreendedoras. Ouvimos todos os políticos a falarem que Portugal precisa de empreendedores. A nossa cultura foi desde sempre uma cultura lúdica, de procurar o desconhecido, de procurar o incerto, o imprevisível. A cultura portuguesa, na sua história, é sinónimo de aventura. E esse bem precioso que tínhamos na nossa cultura está em desaparecimento, o que eu lamento muito. E se esse erro trágico se faz na infância, ele é um duplo erro. Não só para o empreendedorismo, mas para a saúde pública, para a capacidade de aprendizagem escolar, para a capacidade de harmonia familiar, no fundo para ter uma vida feliz e com qualidade.

“Um pai inseguro faz do seu próprio filho uma criança insegura, vulnerável, que tem medo de arriscar. Hoje, parece que é um crime brincar à luta, parece que é um crime brincar aos polícias e ladrões, parece que é um crime fazer uma descoberta, ou saltar um muro, ou fazer equilíbrio em cima de um muro.”

Que conselho dá aos pais das crianças em Portugal?

Os pais têm de abrir as suas cabeças, libertar os seus medos, darem mais oportunidades às crianças para elas terem uma vida mais saudável, mais ativa, com uma exploração do espaço natural e do espaço construído que faça mais sentido.

Com que idade uma criança deveria ou poderia estar habilitada a ir de casa para a escola a pé?

A partir da segunda fase do primeiro ciclo, do terceiro ano, as crianças já têm condições psicológicas, físicas e sociais para poderem ir a pé para a escola. Há crianças que vivem a cem metros da escola e vão de carro. Há pais que vão levar a criança com 8 anos, muitas vezes, ao colo, ao professor na sala de aula. Não há praticamente autonomia.

Como se pode admitir que haja crianças que durante um dia não fazem um esforço correspondente a uma hora de trabalho? Esse sedentarismo tem consequências nefastas a todos os níveis. A verdadeira troika que precisa de ser reabilitada é a relação entre a qualidade de vida da família, a qualidade de vida da criança e o território. Estas três componentes têm de ser articuladas. Porque não flexibilizamos os horários de trabalho?

Nos países nórdicos, que têm um clima muito mais austero, as crianças andam na rua faça chuva faça sol, faça neve. Em Portugal, cai um pingo e a criança é posta numa estrutura interior

Eu, na Austrália, vejo pais que começam a trabalhar às oito da manhã e saem às quatro da tarde, em jornada contínua. E depois vai tudo para os parques, tudo vai brincar e jogar, com uma cultura recreativa fantástica. Mas não é só a Austrália. Nos países nórdicos, que têm um clima muito mais austero, as crianças andam na rua faça chuva faça sol, faça neve. Em Portugal, cai um pingo e a criança é posta numa estrutura interior. Vou repetir: temos de aprender e ensinar as nossas crianças a serem capazes de lutar contra a adversidade e nós temos uma cultura ultra protetora, superprotetora.

E essa cultura vai colocá-los em risco.

Em risco. A cultura superprotetora põe as crianças em risco. O nível de maturidade cognitiva vai evoluindo, e à medida que vai evoluindo – e por isso a criança aos 7 anos tem capacidade de aprender a ler, a escrever e a contar, que são linguagens abstratas – ela tem de brincar muito.

A ciência demonstra que, no ciclo da vida humana, o pico maior, onde há mais dispêndio de energia, é entre os cinco e os oito anos. Temos de ter muito respeito por isso. Não podemos confundir tudo e achar que essas energias são anormais. São naturais e por isso temos de olhar para as energias das crianças como energias naturais e não patológicas. Há cinco, seis anos, falava num crescimento atroz de crianças “totós” e eu acho que hoje em dia esse grau de imaturidade está a atingir níveis com proporções inacreditáveis. Porque as crianças estão mesmo vulneráveis e imaturas, porque nunca foram colocadas perante nenhum risco que as fizesse crescer.

Podemos ter muito amor aos nossos filhos, muita amizade pelos nossos filhos, mas o melhor amor que podemos ter por eles é dar-lhes autonomia.

Podemos ter muito amor aos nossos filhos, muita amizade pelos nossos filhos, mas o melhor amor que podemos ter por eles é dar-lhes autonomia. Eu aprendi isto com um grande mestre, João dos Santos, o maior pedopsiquiatra português. E ele ensinou-me, há muitos anos, que educar é um vai e vem entre dar proximidade para dar segurança e dar distanciamento para dar autonomia. Quando eu tenho uma criança que tem condições para ter autonomia, eu devo dar-lhe autonomia. Quando ela tiver necessidade de ter proximidade, eu dou-lhe afeto. E o que está a acontecer é que nós, adultos, estamos a criar uma patologia obsessiva de querer proteger tanto os nossos filhos e ao mesmo tempo criar-lhes uma exigência de que sejam génios. Isto é um paradoxo e é uma contradição absoluta. Eu não consigo entender como é possível termos chegado a isto.

 

Fonte: Observador.

A desigualdade entristece (segundo um relatório internacional sobre a felicidade)

Leyla trocou a Finlândia por Portugal. MARCOS BORGA

Um instituto dinamarquês publicou um relatório internacional sobre os níveis de felicidade em vários países e concluiu que, quanto mais assimétrico é o sentimento de satisfação entre as pessoas, mais infeliz será a totalidade da população.

A Finlândia foi o campeão da investigação desenvolvida pelo think tank com o óbvio nome de Instituto da Felicidade (IF). Portugal aparece num modesto 15º lugar de um ranking com 29 Estados. Os piores resultados vêm do Leste da Europa — Albânia, Bulgária, Kosovo, Ucrânia e Hungria —, mas a Grécia não foi incluída na pesquisa por falta de dados disponíveis.

Mais do que apenas ordenar os níveis de felicidade dos países, o estudo dinamarquês sublinha a importância de o sentimento de satisfação ser distribuído pela maioria das pessoas de forma semelhante. E, apresentada a conclusão, o IF reconhece que o assunto terá de ser investigado de forma mais aprofundada, porque “ainda não é possível determinar se é a felicidade que leva à igualdade ou se é a igualdade que causa a felicidade”.

O que o relatório a que o Expresso teve acesso explica é que, para se conhecer o nível de felicidade de uma população, não basta encontrar uma minoria de pessoas que assuma estar excecionalmente satisfeita, nem criar uma fórmula que calcule um valor médio para a felicidade nacional. O que realmente interessa, defende o IF, é saber quantas pessoas fogem à média. Ou seja, quanto mais próximo de zero for o resultado obtido, menos discrepâncias existirão entre os inquiridos. E mais feliz será a população daquele país. “A desigualdade causa crime, distúrbios sociais e até mesmo conflitos armados”, garante Meik Wiking, presidente-executivo do IF, sublinhando no relatório que, “para aferir a satisfação de uma população, é preciso ir além da perspetiva exclusivamente económica”.

Esta certeza não é nova, apenas ainda não tinha sido aplicada, de forma tão direta, aos estudos sociológicos sobre a felicidade. Há mais de um século, o estatístico italiano Conrado Gini percebeu que era necessário medir e analisar as implicações da desigualdade económica, tendo criado um índice com o seu próprio nome para quantificar as disparidades na distribuição do rendimento. E, inspirado nesta ideia, o IF — uma instituição financiada pelo Governo central, autarquias e organizações filantrópicas dinamarquesas — criou agora o ‘Índice de Igualdade da Felicidade’. Trabalho que foi desenvolvido por uma equipa composta por economistas, sociólogos, filósofos, antropólogos, cientistas políticos e designers.

Moda da felicidade

“A medição do bem-estar subjetivo tornou-se mais importante a partir do momento em que se percebeu que o conceito de produto interno bruto (PIB) era insuficiente para avaliar a satisfação das populações. E, para um político, os estudos sobre o sentimento de bem-estar e de satisfação das pessoas deveriam ser uma importante ferramenta no momento de tomar decisões, mas até agora os rankings da felicidade não têm passado de mero show-off”, avalia Rui Brites, sociólogo e especialista na investigação deste tema.

O culpado pela transformação da felicidade numa média para avaliar os estados de alma dos cidadãos de um país foi Nicolas Sarkozy. Presidente de França em 2009 — um ano após a falência do banco norte-americano Lehman Brothers, que simbolicamente marca a entrada do mundo numa grave crise económico-financeira — convocou dois prémios Nobel de Economia (Joseph Stiglitz e Armartya Sen) para integrar as estatísticas económicas e o conceito de qualidade de vida.

Desde então, a avaliação dos níveis de felicidade nos Estados entrou na moda. Multiplicam-se os relatórios e as entidades promotoras de estudos internacionais e há até um Banco de Dados Mundial da Felicidade, organização sedeada na Holanda, que agrega todo o conhecimento científico existente sobre o tema, a cargo do sociólogo Ruut Veenhoven.

Atualmente, o World Hapiness Report, produzido pelas Nações Unidas, mede a satisfação das populações de 158 países. Neste estudo são levados em conta uma série de indicadores, que vão para lá das fronteiras da análise económica. Questiona-se como as pessoas percecionam a corrupção, a liberdade de escolha ou a expectativa de vida. Na Europa produz-se o Relatório Social Europeu, que avalia anualmente as condições de vida e vai além da questão da felicidade, sem, contudo, a deixar de fora. E foram estes os dados utilizados pelo instituto dinamarquês para produzir o novo relatório sobre a distribuição da felicidade.

Mas foi na ONU que o Rei do Butão — um pequeno reino localizado nos Himalaias — conquistou notoriedade ao defender a utilização do conceito de ‘felicidade nacional bruta’ como estatística oficial, em lugar do produto interno bruto e decretou o seu como o país mais feliz do mundo. Em 2013, também por sugestão do Butão, passou a celebrar-se o Dia Internacional da Felicidade, depois de a iniciativa ter sido aprovada por unanimidade nas Nações Unidas, um ano antes.

Estudar fica caro

Apesar de reconhecer a falta de consequências destas análises, o sociólogo Rui Brites defende a sua realização. Diz, por exemplo que, atualmente, a Grécia, devia ser “um caso de estudo muito importante, devido à crise”. O investigador explica, no entanto, que a recolha de dados para a preparação do Relatório Social Europeu é responsabilidade dos Governos de cada país e que os gregos deixaram de financiar as pesquisas. Em Portugal, o financiamento de cerca de 130 mil euros/ano vem da Fundação para a Ciência e Tecnologia, mas a existência de problemas na recolha de informações, irá atrasar a publicação dos números nacionais este ano.

Mas a moda de avaliar a felicidade não abranda. Brites foi contactado por instituições brasileiras que pediram ajuda a Portugal para desenvolver um trabalho neste âmbito.

Quanto à falta de surpresas nos resultados obtidos pelas várias pesquisas, que colocam sempre os países do Norte da Europa no topo das tabelas, não se mostra surpreendido. “Um dos fatores determinantes é a questão da confiança nas instituições e nos outros cidadãos e estas populações têm profunda crença no sistema. Pagam elevados impostos porque sabem que terão retorno”, explica Rui Brites. “A perceção do próprio bem-estar e a noção de que os países vizinhos têm situações inferiores, sustentam a tendência dos nórdicos em responder afirmativamente quando questionados sobre a sua satisfação”, conclui.

 

Fonte: Expresso.