Quase dois milhões de pessoas com depressão em 2013 em Espanha

Reuters Arquivo.

Um total de 1.868.173 pessoas era afetada por depressão em 2013 em Espanha, doença que tem aumentado a prevalência, devido à crise, e será a primeira causa de incapacidade em 2030, segundo previsões da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Os especialistas da OMS referem que entre oito e 15% da população sofreram (ou vão sofrer) de depressão ao longo da vida, uma “altíssima” prevalência que constitui “um desafio de saúde pública”, devido às “graves repercussões” a médio e longo prazo, tanto individuais como sociais, familiares e laborais.
O retrato da depressão foi realizado por especialistas num encontro em Madrid, sendo a doença definida como “uma tristeza patológica” pelo presidente da Sociedade Espanhola de Psiquiatria, Miguel Gutiérrez.
Incapacidade, isolamento social, perda de produtividade laboral e de qualidade de vida, morbilidade, mortalidade e custos económicos são as principais consequências desta doença.
“É um fenómeno epidémico e alguns dados apontam para que esteja a registar-se um crescimento exponencial e que, nas próximas décadas, vai ser a primeira causa de incapacidade”, salientou o presidente da Sociedade Espanhola de Psiquiatria Biológica, Miquel Bernardo.
O aumento da esperança média de vida, o maior nível de stresse das sociedades ocidentais e o consumo de substâncias tóxicas são alguns dos fatores que explicam aquele aumento.
Mas, a crise económica e financeira também tem responsabilidade e um estudo realizado entre 2007 e 2011 pela Fundação Espanhola de Psiquiatria e Saúde Mental em pacientes detetou um aumento de 10% em transtornos de ansiedade ou depressivos, que estavam relacionados com problemas de hipotecas ou desemprego.
A depressão é, por outro lado, “a grande porta de entrada de condutas suicidas”, explicou o presidente da Fundação, Miquel Roca.
A doença aparece entre os 30 e 40 anos, mais entre mulheres que entre homens e um em cada 10 trabalhadores já esteve de baixa médica por apresentar um quadro depressivo, mas somente metade daqueles que foram ao centro de saúde com este problema receberam tratamento.
Miquel Roca realçou as dificuldades dos médicos de família para detetar a doença no pouco tempo que dispõem para as consultas, apesar do “extraordinário esforço” que estão a fazer.
Fonte: Sic Notícias/Lusa.

Pedir e receber perdão

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Pedir desculpas e desculpar podem ser difíceis. O rancor é automático, o perdão é mais sofisticado. Mas pesquisas mostram que tanto um como outro têm grande impacto em nossa vida mental e na saúde como um todo.

 

É difícil pedir desculpas? Talvez essa cena deletada do premiado seriado Louie, escrito, dirigido, interpretado e editado pelo brilhante comediante americano Louis CK – o cara da comédia, atualmente – possa ajudar. Ao ensinar a filha mais nova a se desculpar, mesmo que tenha sido “sem querer”, a vinheta mostra bem a genialidade de CK, que parece um maestro capaz de orquestrar nossas diversas emoções, choro, riso, raiva.

Se soubéssemos o poder real do pedido de desculpas seríamos mais dispostos a utilizá-lo. No ano passado foi publicada uma pesquisa mostrando como desculpar-se interfere na decisão da pessoa ofendida. A taxa de perdão foi duas vezes e meia maior entre as pessoas que receberam uma mensagem se desculpando. Mas é interessante notar que elas demoraram mais para tomar sua decisão – exames de Ressonância Magnética mostraram que mais áreas do cérebro foram recrutadas pelas pessoas que decidiram perdoar, o que levou mais tempo. Quando alguém se desculpa, não pensamos mais apenas racionalmente para decidir se aquilo foi justo; nesse momento a empatia entra em cena, para decidir se é perdoável. O rancor é automático, o perdão é sofisticado.

Mas se pedir perdão é eficaz, perdoar, então, é um mecanismo psicológico muito mais poderoso do que se imagina. Quando sentimos alguma injustiça – seja por sofrermos algo, sermos privados do que merecíamos etc – temos a tendência de buscar reparação. Como essa nem sempre é possível, cria-se uma sensação de ressentimento, raiva, amargura, desconforto associados à injustiça – o tal rancor automático. Esse estado, contudo, é bastante estressante, e se torna prejudicial ao organismo como um todo. Perdoar é um processo – e não um momento – de redução gradual dessas emoções negativas. Existem outras formas de reduzir a sensação de injustiça – vingança, condenação judicial do ofensor, crença na reparação divina, justificação da conduta do outro – mas elas não são eficazes como o perdão real. Quando de fato se perdoa, o estresse associado ao ressentimento diminui a ponto de suas consequências serem fisicamente notáveis – diversos estudos mostram redução da pressão arterial, da frequência cardíaca, da tensão muscular. Além do que quem perdoa experimenta maior relaxamento, mais bem estar e sensação de controle.

A decisão racional de perdoar é diferente do perdão emocional, contudo. Ao decidir perdoar, a pessoa reduz a hostilidade mas não necessariamente se livra das emoções negativas; o perdão emocional, aquele em que se abandona de fato o rancor, este sim está associado à redução do estresse e restauração das emoções positivas.

Claro que nem sempre é fácil. Mas mais do que isso, nem sempre desejamos perdoar – ficamos com aquela sensação de que, se o fizermos, estaremos saindo no prejuízo. Ok, você pode decidir guardar sua mágoa. Mas o faça consciente de que, sem a menor sombra de dúvida, quem sofre com isso é você.

 

 

Fonte: Daniel M. Barros, Estadão. Strang S, Utikal V, Fischbacher U, Weber B, & Falk A (2014). Neural correlates of receiving an apology and active forgiveness: an FMRI study. PloS one, 9 (2) PMID: 24505303

Depressão em crianças

 

Nicholas Monu- Getty Image

 

 

A crise, o desemprego dos pais, o stresse e a pressão de ser melhor são algumas das razões apontadas pelos especialistas para o aumento de casos. Cabe aos pais ajudar a ultrapassar

António nunca acreditou em depressões, muito menos em crianças. Por isso, quando o filho de 15 anos começou a trancar-se no quarto depois de a namorada o ter deixado, reagiu mal. Um mês depois, quando Bruno deixou de ir à escola e de aparecer nos treinos de futebol, António decidiu adoptar uma postura ainda mais agressiva. Sem resultados: o filho parecia não se importar com nada. Uma tarde, a seguir a uma discussão, Bruno tomou uma caixa inteira de comprimidos e acabou internado no hospital. A seguir foi-lhe diagnosticada uma depressão.

Há cada vez mais crianças e adolescentes deprimidos nos consultórios dos pedopsiquiatras e psicólogos infantis e nos hospitais. Além de estar a aumentar nestas faixas etárias, a depressão manifesta-se cada vez cedo. “Se há uns anos os primeiros sintomas começavam a surgir geralmente na pré-adolescência, hoje atingem crianças com três, quatro anos”, confirma a psicóloga infantil Rita Jonet.

A culpa, acreditam os especialistas com quem o i falou, é sobretudo do clima económico e das dificuldades que as famílias atravessam. “O desemprego e os problemas dos pais levam a quadros de depressão e ansiedade nos jovens e isso tem-se reflectido nas consultas, quer no consultório quer no hospital”, admite o psiquiatra Daniel Sampaio, que trabalha com adolescentes.

O presidente da Comissão Nacional da Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente sublinha que, mesmo sendo muito pequenas, as crianças apercebem-se dos dramas domésticos. “Há famílias em que pai e mãe estão desempregados e não têm dinheiro, sequer, para comprar os livros escolares”, exemplifica Bilhota Xavier. Rita Jonet acrescenta que os filhos são “esponjas” que absorvem o ambiente que encontram em casa: “Pais extremamente ansiosos, preocupados, pessimistas e angustiados em relação ao futuro passam esses estados de espírito para os filhos”.

O pediatra Mário Cordeiro avisa, por outro lado, que os pais – com determinadas conversas – contribuem para o mal-estar dos filhos: “Por vezes damos uma perspectiva da vida adulta muito negra, como se fosse um corredor da morte e houvesse um determinismo de impostos, corrupção e cortes, quando a vida de adulto tem preocupações, mas também momentos felizes e deve significar, para as crianças, ser mais livre e ter mais autonomia.”

Nem só a crise explica o aumento de casos de depressão na infância e na adolescência. Bilhota Xavier realça a “grande pressão” que é colocada em cima das crianças, desde cedo, para que sejam competitivas e obtenham bons resultados – na escola e nas actividades em que participam: “As famílias conhecem as dificuldades que existem no mercado de trabalho e os números do desemprego jovem. Por isso, muitos pais colocam demasiada pressão nos filhos para que consigam tirar médias mais altas e serem sempre os melhores, de maneira garantir um bom futuro”.

O stresse é, por outro lado, cada vez mais uma característica presente na vida das crianças. Alguns pais, sublinha Rita Jonet, exageram no número de actividades que proporcionam aos filhos. Por excesso de zelo e por desejarem que tenham uma vida boa. Entre ténis, aulas de ballet e de natação, as crianças são obrigadas a entrar numa correria diária, stressante e desenfreada, deixando de ter tempo para serem crianças. “Para estarem sozinhas e se auto-estimularem”. Além disso, falta silêncio na educação de hoje. “Entre a televisão e o tablet, os mais novos não aprendem a estar em silêncio. Habituam-se a receber constantemente estímulos exteriores e, quando não os recebem, sentem um vazio com o qual não conseguem lidar”, explica a psicóloga infantil. Os divórcios mal resolvidos e situações de violência doméstica – que as estatísticas mostram estar a aumentar – são outras causas apontadas pelos especialistas para o aumento das depressões em jovens e crianças.
Em famílias estruturadas, e nos casos em que os pais até têm emprego, o problema é outro: a falta de tempo para estar, em pleno, com os filhos. “Sem ter a cabeça cheia de coisas que aconteceram no trabalho e ouvindo o que eles têm para dizer”, defende Rita Jonet. Daniel Sampaio sublinha que é um mito que os adolescentes não queiram falar com os pais. Por isso, ter tempo para a vida em família é fundamental.

O meu filho está deprimido? Há sinais a que os pais devem estar atentos. Na adolescência, a tristeza constante e prolongada não deve ser encarada com ligeireza. Sobretudo se for acompanhada por sinais somáticos – como excesso de peso ou magreza extrema, insónias, isolamento dos amigos e das amizades virtuais, ausência de comunicação, perda de interesse por actividades que antes eram importantes, desinteresse por tudo, quebra no rendimento escolar. E eventuais tentativas de suicídio nunca devem entendidas como meras chamadas de atenção. “Quando um adolescente fala em suicídio deve ser levado a sério”, avisa Daniel Sampaio.

No caso das crianças, é mais difícil descortinar os sintomas de depressão. “Porque cada criança reage à sua maneira e há até crianças que manifestam a depressão através da euforia e da alegria e actividade exageradas”, explica Rita Jonet. Umas podem deixar de comer, outras de brincar. Mas o principal sinal de alerta é sempre uma mudança brusca de comportamento. Independentemente das idades em causa, os pais devem procurar comunicar e compreender os filhos. Sem serem demasiado permissivos, mas sem adoptar um tom paternalista ou rígido. “A melhor maneira de ajudar é ouvir com atenção e, a partir daí, mostrar que é possível encontrar uma alternativa”, aconselha Daniel Sampaio.

Um ano depois da tentativa de suicídio, Bruno continua a ser seguido por um pedopsiquiatra e está a reaprender a gostar de viver. O pai, António, também teve de fazer um conjunto de aprendizagens: “Compreendi que a depressão é realmente uma doença. E hoje admito que talvez tenha sido demasiado duro com ele em alguns momentos. Não era só um coração partido”.

 

Fonte: Ionline.

Abraços protegem contra stresse, depressão, infecções e gripes, diz estudo

Aumento da frequência de abraços reduz efeitos nocivos do estresse (foto: Thinkstock)

 

Além de ser uma demonstração de afeto, o abraço também é capaz de prevenir doenças relacionadas ao estresse e diminuir a suscetibilidade de contrair infecções, segundo um novo estudo publicado nesta quarta-feira (17) na Psychological Science.

Um time de pesquisadores da CMU (Universidade Carnegie Mellon, sigla em inglês), em Pittsburgh, na Pensilvânia (EUA), liderados pelo professor de psicologia da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da CMU Sheldon Cohen, testaram se abraços funcionam como uma forma de “apoio social” e se a frequência de abraço seria capaz de proteger as pessoas de infecções associadas ao estresse, resultando em sintomas mais brandos de doenças. Pesquisas anteriores já mostraram que o estresse torna as pessoas mais suscetíveis a ficarem doentes.
“Sabemos que pessoas que enfrentam algum conflito são menos capazes de lidar com efeitos da gripe”, afirma Cohen. “Da mesma forma sabemos que as pessoas que admitem ter apoio social são parcialmente protegidas dos efeitos do estresse, em estados de ansiedade e depressão”.
Os pesquisadores analisaram 404 adultos saudáveis e, por meio de entrevistas telefônicas realizadas em 14 noites consecutivas, verificaram a frequência de conflitos interpessoais e abraços diários.
Após os questionários, os pesquisadores expuseram intencionalmente os entrevistados ao vírus da gripe. Os participantes foram então colocados em quarentena e passaram a ser monitorados para ver quais desenvolveriam sinais da doença.
Um terço das pessoas pesquisadas não desenvolveu os sintomas da gripe — exatamente aqueles que receberam mais abraços e apoio de pessoas de confiança. Em quem foi infectado, mas tinha uma frequência maior de apoio social — como os cientistas chamaram o ato de abraçar no estudo –, os sintomas da doença foram mais brandos.
Para Sheldon Cohen e sua equipe, o estudo sugere que ser abraçado por uma pessoa de confiança pode atuar como um meio eficaz de transmitir apoio e “o aumento da frequência de abraços pode ser um meio eficaz de reduzir os efeitos nocivos do estresse”.
“De qualquer maneira, aqueles que ganham mais abraços estão, de alguma maneira, mais protegidos de infecções”, diz.
Fonte: UOL, via Pavablog.

“Transformamos problemas quotidianos em transtornos mentais”, afirma o ex-coordenador do DSM

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Allen Frances

 

 

Allen Frances (Nova York, 1942) dirigiu durante anos o Manual Diagnóstico e Estatístico (DSM), documento que define e descreve as diferentes doenças mentais. Esse manual, considerado a bíblia dos psiquiatras, é revisado periodicamente para ser adaptado aos avanços do conhecimento científico. Frances dirigiu a equipe que redigiu o DSM IV, ao qual se seguiu uma quinta revisão que ampliou enormemente o número de transtornos patológicos. Em seu livro Saving Normal (inédito no Brasil), ele faz uma autocrítica e questiona o fato de a principal referência acadêmica da psiquiatria contribuir para a crescente medicalização da vida.

Pergunta. No livro, o senhor faz um mea culpa, mas é ainda mais duro com o trabalho de seus colegas do DSM V. Por quê?

Resposta. Fomos muito conservadores e só introduzimos [no DSM IV] dois dos 94 novos transtornos mentais sugeridos. Ao acabar, nos felicitamos, convencidos de que tínhamos feito um bom trabalho. Mas o DSM IV acabou sendo um dique frágil demais para frear o impulso agressivo e diabolicamente ardiloso das empresas farmacêuticas no sentido de introduzir novas entidades patológicas. Não soubemos nos antecipar ao poder dos laboratórios de fazer médicos, pais e pacientes acreditarem que o transtorno psiquiátrico é algo muito comum e de fácil solução. O resultado foi uma inflação diagnóstica que causa muito dano, especialmente na psiquiatria infantil. Agora, a ampliação de síndromes e patologias no DSM V vai transformar a atual inflação diagnóstica em hiperinflação.

P. Seremos todos considerados doentes mentais?

R. Algo assim. Há seis anos, encontrei amigos e colegas que tinham participado da última revisão e os vi tão entusiasmados que não pude senão recorrer à ironia: vocês ampliaram tanto a lista de patologias, eu disse a eles, que eu mesmo me reconheço em muitos desses transtornos. Com frequência me esqueço das coisas, de modo que certamente tenho uma demência em estágio preliminar; de vez em quando como muito, então provavelmente tenho a síndrome do comedor compulsivo; e, como quando minha mulher morreu a tristeza durou mais de uma semana e ainda me dói, devo ter caído em uma depressão. É absurdo. Criamos um sistema de diagnóstico que transforma problemas cotidianos e normais da vida em transtornos mentais.

P. Com a colaboração da indústria farmacêutica…

Os laboratórios estão enganando o público, fazendo acreditar que os problemas se resolvem com comprimidos.

R. É óbvio. Graças àqueles que lhes permitiram fazer publicidade de seus produtos, os laboratórios estão enganando o público, fazendo acreditar que os problemas se resolvem com comprimidos. Mas não é assim. Os fármacos são necessários e muito úteis em transtornos mentais severos e persistentes, que provocam uma grande incapacidade. Mas não ajudam nos problemas cotidianos, pelo contrário: o excesso de medicação causa mais danos que benefícios. Não existe tratamento mágico contra o mal-estar.

P. O que propõe para frear essa tendência?

R. Controlar melhor a indústria e educar de novo os médicos e a sociedade, que aceita de forma muito acrítica as facilidades oferecidas para se medicar, o que está provocando além do mais a aparição de um perigosíssimo mercado clandestino de fármacos psiquiátricos. Em meu país, 30% dos estudantes universitários e 10% dos do ensino médio compram fármacos no mercado ilegal. Há um tipo de narcótico que cria muita dependência e pode dar lugar a casos de overdose e morte. Atualmente, já há mais mortes por abuso de medicamentos do que por consumo de drogas.

P. Em 2009, um estudo realizado na Holanda concluiu que 34% das crianças entre 5 e 15 anos eram tratadas por hiperatividade e déficit de atenção. É crível que uma em cada três crianças seja hiperativa?

R. Claro que não. A incidência real está em torno de 2% a 3% da população infantil e, entretanto, 11% das crianças nos EUA estão diagnosticadas como tal e, no caso dos adolescentes homens, 20%, sendo que metade é tratada com fármacos. Outro dado surpreendente: entre as crianças em tratamento, mais de 10.000 têm menos de três anos! Isso é algo selvagem, desumano. Os melhores especialistas, aqueles que honestamente ajudaram a definir a patologia, estão horrorizados. Perdeu-se o controle.

P. E há tanta síndrome de Asperger como indicam as estatísticas sobre tratamentos psiquiátricos?

R. Esse foi um dos dois novos transtornos que incorporamos no DSM IV, e em pouco tempo o diagnóstico de autismo se triplicou. O mesmo ocorreu com a hiperatividade. Calculamos que, com os novos critérios, os diagnósticos aumentariam em 15%, mas houve uma mudança brusca a partir de 1997, quando os laboratórios lançaram no mercado fármacos novos e muito caros, e além disso puderam fazer publicidade. O diagnóstico se multiplicou por 40.

P. A influência dos laboratórios é evidente, mas um psiquiatra dificilmente prescreverá psicoestimulantes a uma criança sem pais angustiados que corram para o seu consultório, porque a professora disse que a criança não progride adequadamente, e eles temem que ela perca oportunidades de competir na vida. Até que ponto esses fatores culturais influenciam?

Os melhores especialistas, aqueles que honestamente ajudaram a definir a patologia, estão horrorizados. Perdeu-se o controle.

R. Sobre isto tenho três coisas a dizer. Primeiro, não há evidência em longo prazo de que a medicação contribua para melhorar os resultados escolares. Em curto prazo, pode acalmar a criança, inclusive ajudá-la a se concentrar melhor em suas tarefas. Mas em longo prazo esses benefícios não foram demonstrados. Segundo: estamos fazendo um experimento em grande escala com essas crianças, porque não sabemos que efeitos adversos esses fármacos podem ter com o passar do tempo. Assim como não nos ocorre receitar testosterona a uma criança para que renda mais no futebol, tampouco faz sentido tentar melhorar o rendimento escolar com fármacos. Terceiro: temos de aceitar que há diferenças entre as crianças e que nem todas cabem em um molde de normalidade que tornamos cada vez mais estreito. É muito importante que os pais protejam seus filhos, mas do excesso de medicação.

P. Na medicalização da vida, não influi também a cultura hedonista que busca o bem-estar a qualquer preço?

R. Os seres humanos são criaturas muito maleáveis. Sobrevivemos há milhões de anos graças a essa capacidade de confrontar a adversidade e nos sobrepor a ela. Agora mesmo, no Iraque ou na Síria, a vida pode ser um inferno. E entretanto as pessoas lutam para sobreviver. Se vivermos imersos em uma cultura que lança mão dos comprimidos diante de qualquer problema, vai se reduzir a nossa capacidade de confrontar o estresse e também a segurança em nós mesmos. Se esse comportamento se generalizar, a sociedade inteira se debilitará frente à adversidade. Além disso, quando tratamos um processo banal como se fosse uma enfermidade, diminuímos a dignidade de quem verdadeiramente a sofre.

P. E ser rotulado como alguém que sofre um transtorno mental não tem consequências também?

R. Muitas, e de fato a cada semana recebo emails de pais cujos filhos foram diagnosticados com um transtorno mental e estão desesperados por causa do preconceito que esse rótulo acarreta. É muito fácil fazer um diagnóstico errôneo, mas muito difícil reverter os danos que isso causa. Tanto no social como pelos efeitos adversos que o tratamento pode ter. Felizmente, está crescendo uma corrente crítica em relação a essas práticas. O próximo passo é conscientizar as pessoas de que remédio demais faz mal para a saúde.

P. Não vai ser fácil…

R. Certo, mas a mudança cultural é possível. Temos um exemplo magnífico: há 25 anos, nos EUA, 65% da população fumava. Agora, são menos de 20%. É um dos maiores avanços em saúde da história recente, e foi conseguido por uma mudança cultural. As fábricas de cigarro gastavam enormes somas de dinheiro para desinformar. O mesmo que ocorre agora com certos medicamentos psiquiátricos. Custou muito deslanchar as evidências científicas sobre o tabaco, mas, quando se conseguiu, a mudança foi muito rápida.

P. Nos últimos anos as autoridades sanitárias tomaram medidas para reduzir a pressão dos laboratórios sobre os médicos. Mas agora se deram conta de que podem influenciar o médico gerando demandas nos pacientes.

R. Há estudos que demonstram que, quando um paciente pede um medicamento, há 20 vezes mais possibilidades de ele ser prescrito do que se a decisão coubesse apenas ao médico. Na Austrália, alguns laboratórios exigiam pessoas de muito boa aparência para o cargo de visitador médico, porque haviam comprovado que gente bonita entrava com mais facilidade nos consultórios. A esse ponto chegamos. Agora temos de trabalhar para obter uma mudança de atitude nas pessoas.

P. Em que sentido?

R. Que em vez de ir ao médico em busca da pílula mágica para algo tenhamos uma atitude mais precavida. Que o normal seja que o paciente interrogue o médico cada vez que este receita algo. Perguntar por que prescreve, que benefícios traz, que efeitos adversos causará, se há outras alternativas. Se o paciente mostrar uma atitude resistente, é mais provável que os fármacos receitados a ele sejam justificados.

P. E também será preciso mudar hábitos.

R. Sim, e deixe-me lhe dizer um problema que observei. É preciso mudar os hábitos de sono! Vocês sofrem com uma grave falta de sono, e isso provoca ansiedade e irritabilidade. Jantar às 22h e ir dormir à meia-noite ou à 1h fazia sentido quando vocês faziam a sesta. O cérebro elimina toxinas à noite. Quem dorme pouco tem problemas, tanto físicos como psíquicos.

 

Fonte: El País.

 

 

A psicologia do atraso

 

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Segundo pesquisas, a cada cinco pessoas, uma sofre com problemas de atraso. Pensando nisso, cientistas e empreendedores realizaram estudos a fim de compreender as causas e os efeitos dos atrasos. Os estudos mostraram que ser pontual pode trazer uma série de benefícios financeiros e emocionais.

Em 2012, um trabalho expôs que mais da metade da população britânica se atrasa para compromissos do trabalho ao menos cinco vezes por mês. Para os responsáveis pela pesquisa, essa é a principal justificativa aos problemas de transporte.

Contudo, essas pesquisas foram capazes de identificar fatores psico e fisiológicos que explicam esse “problema”:

Seu corpo quer se atrasar

Na realidade, pessoas que têm o costume de “viver em cima da hora” estão correndo atrás de adrenalina. Da mesma forma que existem os alucinados por montanhas russas, também existe quem adore chegar cinco minutinhos atrasado.

Pés no chão?

Os atrasados costumam fazer planos impraticáveis acreditando piamente que conseguirão realizá-los. Em um estudo realizado por Diana DeLonzor, quando escrevia a obra Never Be Late Again: 7 Cures for the Punctually Challenged, descobriu-se que a percepção de tempo é completamente diferente para pessoas pontuais e para os atrasados.

Fácil distração

Em 2008, um trabalho da World Health Organization mostrou que pessoas que sofrem de Desvio de Déficit de Atenção e Hiperatividade conseguem perder, em média, a produtividade durante 143 dias em um ano. Para psicólogos, assim como os atrasados, eles são considerados “insensíveis ao tempo”.

Insegurança pura

Alguns indivíduos simplesmente gostam de fazer as pessoas esperarem por ele. Traz confiança, poder e na maioria das vezes são homens; conta a pesquisa de DeLonzo.

E quais são reais consequências?

Ser um pouquinho atrasado, não pagar aquela conta no dia correto e esquecer-se de entregar o relatório podem até parecer coisas inofensivas; mas os efeitos em longo prazo são piores do que se imagina.

Atraso = Prejuízo

Se você ganha cerca de 50 mil reais por ano e costuma se atrasar dez minutos por dia; seu prejuízo para a empresa é de 400 reais. Pesquisadores acreditam que esse problema custa mais de três bilhões de dólares por ano, nos Estados Unidos. Então cuidado para não dar essa ~margem ao seu chefe…

Falta de pontualidade faz mal à saúde

De acordo com o autor Alex Lickerman, muitas pessoas sofrem de ansiedade e excesso de apreensão por não saber se conseguirão chegar no horário para os seus compromissos. E por mais que adrenalina possa gerar uma boa sensação, seus efeitos nas pessoas que vivem nesse estado podem ser muito nocivos: problemas no coração, diabetes, insônia e imunidade baixa são alguns deles.

Há como melhorar?

Sim, quaisquer que sejam as razões para os seus atrasos, existem possibilidades para melhorar esse problema “crônico”:

Aprenda a usar seu tempo

Uma boa maneira de começar é colocar no papel quanto tempo você leva para realizar seus compromissos – e seja realista. Existem sites como o RescueTime que nos ajudam a mapear e definir objetivos para aproveitarmos melhor o nosso tempo.

Mantenha listas

Papel e caneta para anotar tudo que você vai fazer durante o dia. Marque tudo que precisa fazer ao longo de curtos períodos, e vá riscando tudo que já tiver conquistado. Isso trará sensações de plenitude muito agradáveis.

Deixa a vida te levar (vida leva eu)

Agende pagamentos, coloque o alarme mais cedo, use calendários e crie uma estrutura para a sua vida. Segundo DeLonzor, passamos 45% da nossa vida em rotina; então é melhor aproveitar seu tempo para fazer as coisas do que para ficar planejando.

Para finalizar, descanse

Permitir-se um tempo extra de sono e ser mais generoso com a sua agenda de vez em quando pode ajudar a diminuir a ansiedade. Isso pode colocar um rumo menos atrasado para a sua vida.

 

Fonte: Galileu, via Pavablog.

Consciência dura 3 minutos após a morte?

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Aquele túnel com uma luz brilhante no fundo e uma sensação de paz descritos por filmes e outras pessoas que alegaram ter passado por experiência de quase morte podem ser reais. No maior estudo já feito sobre o tema, cientistas da Universidade de Southampton disseram ter comprovado que a consciência humana permanece por ao menos três minutos após o óbito biológico. Durante esse meio tempo, pacientes conseguiriam testemunhar e lembrar depois de eventos como a saída do corpo e os movimentos ao redor do quarto do hospital.

Ao longo de quatro anos, os especialistas examinaram mais de duas mil pessoas que sofreram paradas cardíacas em 15 hospitais no Reino Unido, Estados Unidos e Áustria. Cerca de 16% sobreviveram. E destes, mais de 40% descreveram algum tipo de “consciência” durante o tempo em que eles estavam clinicamente mortos, antes de seus corações voltarem a bater.

O caso mais emblemático foi de um homem ainda lembrou ter deixado seu corpo totalmente e assistindo sua reanimação do canto da sala. Apesar de ser inconsciente e “morto” por três minutos, o paciente narrou com detalhes as ações da equipe de enfermagem e descreveu o som das máquinas.

– Sabemos que o cérebro não pode funcionar quando o coração parou de bater. Mas neste caso, a percepção consciente parece ter continuado por até três minutos no período em que o coração não estava batendo, mesmo que o cérebro normalmente encerre as atividades dentro de 20 a 30 segundos após o coração – explicou ao jornal inglês The Telegraph o pesquisador Sam Parnia.

Dos 2.060 pacientes com parada cardíaca estudados, 330 sobreviveram e 140 disseram ter experimentado algum tipo de consciência ao ser ressuscitado. Embora muitos não se lembrassem de detalhes específicos, alguns relatos coincidiram. Um em cada cinco disseram que tinha sentido uma sensação incomum de tranquilidade, enquanto quase um terço disse que o tempo tinha se abrandado ou se acelerado.

Alguns lembraram de ter visto uma luz brilhante, um flash de ouro ou o sol brilhando. Outros relataram sentimentos de medo, afogamento ou sendo arrastado pelas águas profundas. Cerca de 13% disseram que se sentiam separados de seus corpos.

De acordo com Parnia, muito mais pessoas podem ter experiências quando estão perto da morte, mas as drogas ou sedativos utilizados no processo de ressuscitação podem afetar a memória:

– As estimativas sugerem que milhões de pessoas tiveram experiências vivas em relação à morte. Muitas assumiram que eram alucinações ou ilusões, mas os relatos parecem corresponder a eventos reais. E uma proporção maior de pessoas pode ter experiências vivas de morte, mas não se lembrarem delas devido aos efeitos da lesão cerebral ou sedativos em circuitos de memória.

 

Fonte: O Globo, via Pavablog.

A fórmula da felicidade

A partir do estudo das respostas neurológicas associadas à satisfação, um grupo de cientistas da Universidade de Cambridge apurou uma fórmula matemática que define a felicidade.

O estudo, intitulado “Um modelo neuronal e computacional para um momento subjetivo de felicidade” tratou de perceber o que se passa no cérebro durante um momento de alegria. Para isso desenvolveu um jogo que envolveu ganhos monetários de curto prazo, o que implicou gerir expectativas e desejos de modo a perceber os impulsos cerebrais envolvidos na sensação de felicidade descrita pelos participantes — que era medida numa escala de um a dez. O estudo envolveu um rácio de esquecimento, determinando que quanto mais distante no tempo era o momento de felicidade, menos relevante ele se tornava para o sentimento presente. Outra conclusão interessante é a relação da felicidade com as expectativas. Dito de outra forma: se a recompensa for inesperada, a sensação de felicidade é bem maior.

Este trabalho científico envolveu 26 pessoas que se sujeitaram a um scan cerebral enquanto jogavam no computador. Os resultados de base foram depois usados para prever intervalos para padrões de felicidade de 18.420 sujeitos que participaram num jogo no smartphone, demonstrando a utilidade dos valores originais apurados. Estudos mais avançados poderão contribuir para determinar valores mais rigorosos que apurem a felicidade de uma pessoa sem ter de recorrer a testes subjetivos como os que são usados hoje por psicólogos.

Se esta parece uma questão mais filosófica que matemática, é porque é. E é o próprio estudo de Cambrigde que começa por referir o “a felicidade tem uma importância central no bem estar subjetivo do ser humano”, algo que tem sido estudado há milénios por filósofos — “de Aristóteles a Bentham”. Claro que  encontrar o estado emocional puro de felicidade individual é utópico porque isso depende de cada pessoa e das suas circunstâncias, pelo que a única possibilidade de efetuar uma medida seria pela felicidade subjetiva dos povos — que as Nações Unidas já medem através do Relatório Mundial da Felicidade — ou pelo transitório estado emocional de satisfação. A metodologia foi a que permitiu atingir resultados mensuráveis, embora seja criticável por associar satisfação a somas monetárias em jogos.

Já no ano passado um outro estudo da Universidade de Missouri tentou apurar a relação entre a busca da felicidade e a música. Sendo que aqui é mais fácil associar comportamentos a épocas ou até gerações — o que facilita a criação de uma banda sonora da felicidade. Deixamos três sucessos musicais que muitos associam a felicidade:

No final dos anos sessenta, os Turtles lançaram um hit chamado “Happy Together” que resumiu o espírito da geração.

Vinte anos depois foi Bobby McFerin a dizer ao mundo: “Don’t Worry, be Happy”. E o mundo obedeceu.

E recorrendo à simplicidade dos tempos atuais, Pharrel Williams sintetiza a mensagem no novo clássico que até já entrou num filme de animação: “Happy” é o hino do verão 2014 para expressar a felicidade, certamente mais simples de entoar do que a fórmula lá de cima.

 

 

Fonte: Observador.

Criado chip informático inspirado no cérebro humano

Criado chip informático inspirado no cérebro humano

Num artigo da revista Science, Paul Merolla e a sua equipa da Universidade de Stanford (Califórnia) apresentaram um novo modelo de chip de computador inspirado pelo cérebro humano que permitirá a novos dispositivos tecnológicos processar a transmissão de dados sensoriais, noticiou o El Mundo.

O TrueNorth, revelado no dia 8 de agosto, foi construído de forma diferente dos chips convencionais que separam a memória do processador, exigindo conectores para transferir dados entre eles. Este novo modelo de chips não necessita deles, tal como o cérebro humano. Também à semelhança desse órgão, o chip será capaz de executar ações somente quando for necessário, reduzindo bastante a potência e, consequentemente, o consumo energético.

Esta nova tecnologia poderá depois possibilitar, por exemplo, a criação de óculos para cegos que façam uma análise do ambiente que os rodeia, permitindo-lhes “caminhar com segurança pelas ruas de qualquer cidade sem necessidade de uma conexão wi-fi”, explicaram os investigadores ao El Mundo.

A pesquisa dos investigadores americanos foi aprovada num trabalho da Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (DARPA), que consistiu em reconhecer objetos e pessoas num determinado cenário. Os resultados do teste revelaram que o projeto não é apenas eficiente em termos de energia, mas também é extensível no sentido em que o TrueNorth se pode diversificar, construindo novos sistemas.

 

Fonte: DN.