Treinar o cérebro para vencer maus hábitos

Identificar o problema, decidir a melhor forma de o eliminar, treinar, treinar, treinar e festejar os resultados. Só precisa de exercitar o cérebro para fazer o melhor por si.

O cérebro pode ser treinado. Matt Cardy/Getty Images.

Assim como podemos escolher ir ao ginásio ou fazer exercícios físicos em casa, também podemos treinar o cérebro para melhorar determinadas tarefas ou desempenhos no nosso dia-a-dia. Exercitamos o cérebro sempre que aprendemos a tocar um instrumento ou uma nova língua, quando resolvemos um puzzle ou um exercício matemático, quando recordamos histórias passadas ou até quando escrevemos à mão.

Esta segunda-feira o jornal espanhol ABC apresentou algumas das propostas do livro “Neurocoaching”, de Silvia Escribano Cuerva, Guglielmo Foffani e Fernando de Castro Soubriet. Fazer coisas novas parece ser a chave. Cada vez que desafiamos o nosso cérebro para uma nova tarefa, um novo percurso ou uma atividade feita de uma forma diferente, podemos estar a estimular novas áreas do cérebro. Porém, convém recordar que se o cérebro realiza determinadas tarefas de forma automática, é para libertar a atenção para outras tarefas que necessitam de maior foco.

Os autores associam as atividades automáticas e os hábitos de comportamento que geram um benefício ao desenvolvimento e enraizamento dos maus hábitos. Esses hábitos podem influenciar o nosso bem-estar físico e psicológico e é a motivação de cada um que ajudará a vencê-los. Mude as rotinas, substitua os maus hábitos, mas acima de tudo mergulhe no interior e perceba o que o perturba e aquilo que pretende mudar.

Descubra o que precisa de fazer para se sentir bem, mude os hábitos, repita os novos hábitos e festeje as novas conquistas. Acima de tudo não se imponha prazos, cada pessoa e cada mau hábito tem um tempo de “cura” próprio.

 

Fonte: Observador.

Sexo, mulheres e testosterona: uma relação complexa

O beijo, de Gustav Klimt, óleo e folha de ouro sobre tela, 1907-1908 DR

 

 

A testosterona parece desempenhar um papel importante nas relações amorosas de ambos os sexos. Mas nas mulheres, essa “equação” não é tão simples como nos homens. Cientista português pensa que isso acontece por razões psicológicas.

 

A testosterona é por excelência a hormona do sexo, da virilidade e do desejo masculinos. E nas mulheres? Será que esta hormona, que elas também produzem – embora em quantidades muito inferiores aos homens –, nomeadamente ao nível dos ovários, também tem efeitos sobre a libido feminina?

A acção da testosterona no cérebro humano é tornar as pessoas mais atentas aos sinais sexuais – visuais, auditivos –, e mais geralmente, estimular a imaginação sexual. Por outro lado, uma das coisas que os especialistas têm vindo a perceber nas duas últimas décadas é que “as pessoas em relações monogâmicas estáveis [ou que cuidam dos filhos] têm níveis mais baixos de testosterona do que as pessoas sem – ou com múltiplos – relacionamentos sexuais”, disse ao Público Rui Costa, psicólogo experimental do ISPA – Instituto Universitário, em Lisboa.

Esta relação testosterona/relacionamento tem sido sobretudo testada nos homens – e ao que tudo indica, verifica-se no sexo masculino. Mas em paralelo, um número mais limitado de estudos em mulheres tem igualmente vindo a sugerir que existe uma relação semelhante no sexo feminino.

Daí a pensar que quanto maior o nível de testosterona no sangue das mulheres, maior a apetência por sexo, vai um passo. “A busca pelo ‘Viagra feminino’ despertou o interesse em estudar a relação entre a testosterona e o desejo sexual nas mulheres”, explica-nos Rui Costa, que trabalha precisamente nesta área fronteira da psicologia e da fisiologia. “E muito recentemente, a testosterona passou a ser muito procurada para tratar problemas de desejo sexual nas mulheres.”

Resultados equívocos

Só que, nas mulheres, essa relação testosterona-libido é bastante menos linear do que nos homens: “Nas mulheres, os resultados são equívocos”, acrescenta Rui Costa. Há mulheres em que a testosterona aumenta o desejo sexual e outras que não reagem ao tratamento. De onde vem essa discrepância? Rui Costa procura respostas.

Numa primeira fase, este cientista quis confirmar, desta vez em mulheres portuguesas, outros estudos já feitos na Noruega, nas Filipinas, nos EUA ou no Canadá. “Fui investigar se as mulheres que estão numa relação estável têm menos testosterona do que as mulheres sozinhas.” Com a sua equipa, acaba de publicar, numa recente edição da revista Personality and Individual Differences, o primeiro estudo deste tipo realizado em Portugal.

O trabalho envolveu 73 mulheres jovens (com 18 a 35 anos de idade). Metade dessas mulheres eram estudantes universitárias e metade empregadas de supermercado, “colegas da minha mestranda” e co-autora Mónica Correia, que lá trabalhava em part-time, salienta Rui Costa. Os níveis de testosterona das participantes foram medidos através de amostras de saliva. E globalmente, os resultados confirmam o que já se pensava: níveis mais elevados de testosterona surgem associados a níveis inferiores de envolvimento romântico exclusivo – e portanto, em princípio, a uma maior disponibilidade sexual.

Diga-se antes de mais que, embora uma relação deste tipo possa existir em ambos os sexos, a causa e o efeito parecem inverter-se dos homens para as mulheres. Assim, nas mulheres, será a relação monogâmica a induzir uma redução da testosterona em circulação no organismo – ao passo que os homens “têm de ter um nível baixo de testosterona à partida [dentro da normalidade, claro] para entrarem mais facilmente numa relação monogâmica”, explica Rui Costa. “Tem havido alguma investigação que sugere que, no caso das mulheres, a relação sentimental é mais a causa e o nível baixo de testosterona o efeito”, acrescenta.  “Tenciono aprofundar esta questão.” Voltando ao estudo agora publicado, a equipa portuguesa quis ir mais longe do que os estudos anteriores, ao incluir uma variável adicional nesta “equação” – uma variável de ordem psicológica e não fisiológica como o nível de testosterona.

Mais precisamente, os cientistas quiseram saber se, em presença de um de dois traços da personalidade (extroversão e procura de sensações) que tornam as pessoas mais atentas aos estímulos sexuais, os níveis de testosterona nas mulheres deixariam de ser, por assim dizer, um indicador da sua situação sentimental. “A extroversão e a procura de sensações são dois traços da personalidade que, estatisticamente, tornam uma pessoa mais propensa ao sexo casual – e a procura de sensações tem sido por vezes associada à infidelidade”, diz Rui Costa. “E a minha hipótese de partida era que, nas mulheres mais extrovertidas [ou mais propensas a procurar sensações], não haveria diferenças de níveis de testosterona conforme elas tivessem ou não um parceiro estável. Decidi ir ver se esta relação [testosterona/relacionamento] era moderada pela propensão ao sexo casual” das mulheres.

Para isso, a equipa pediu às participantes para preencher questionários especificamente destinados a avaliar esses dois traços da personalidade. Resultado: nas mulheres que apresentavam esses traços de forma mais pronunciada, os níveis de testosterona já não eram um indicador da situação relacional.

Reconhecer as emoções

Rui Costa já passou para a fase seguinte do seu trabalho: determinar o que faz com que certas mulheres com perturbações do desejo sexual respondam positivamente à testosterona e outras não. “Estou agora a investigar quais são os traços da personalidade que explicam a correlação observada entre os níveis de testosterona e a libido”, explicou-nos ainda. Como se trata, segundo ele, de traços associados a “uma boa capacidade de reconhecer as suas próprias emoções”, o investigador está a estudar precisamente um traço que surte o efeito oposto – ou seja, que conduz a uma incapacidade de reconhecer essas emoções.

Em termos médicos, este tipo de perturbações é conhecido por “alexitimia”. Ora, mesmo sem atingirem níveis patológicos, salienta Rui Costa, muitas pessoas apresentam níveis de maior ou menor alexitimia. E as pessoas alexitímicas costumam ter um desejo sexual muito baixo. É por isso que, argumenta o cientista, perturbações como a alexitimia poderão explicar o défice de desejo sexual observado em parte das mulheres, independentemente dos seus níveis de testosterona. “É muito plausível que nas pessoas muito alexitímicas não exista uma correlação entre os níveis de testosterona e a libido”, frisa o investigador.

Esta série de experiências, também com voluntárias jovens, tem consistido na medição dos níveis de testosterona antes e depois da apresentação às participantes de dois tipos de “estímulos” que suscitam pensamentos de ordem sexual: um questionário online e excertos de filmes românticos. No questionário, é-lhes pedido para descreverem uma fantasia sexual em torno de um parceiro imaginário. “Estou interessado no estudo dos problemas sexuais na população jovem”, refere ainda Rui Costa. “Estudos psicológicos indicam que 10 a 20 % dos jovens sofrem de falta de desejo sexual.” Ora, pouca atenção é dada a esta população, quando precisamente os jovens “têm mais vergonha de consultar um médico do que as pessoas mais velhas”, frisa.

Este trabalho ainda está em curso, mas Rui Costa diz-nos que os resultados que obteve até aqui já lhe permitem concluir que, efectivamente, “a alexitimia explica a discordância observada [nas mulheres] entre os níveis de testosterona e a libido”. E acrescenta: “Constatei que nas participantes mais alexitímicas essa discordância é maior do que nas menos alexitímicas. E confirmei que pode haver dois tipos de situações: testosterona alta e libido baixa e testosterona baixa e libido alta.”

Rui Costa, que pensa que no cerne do problema está essa dificuldade em sentir as emoções, também estuda, para além da alexitimia, outras situações em que essa dificuldade se manifesta, como por exemplo quando existem mecanismos de defesa psicológicos que bloqueiam os pensamentos desagradáveis e, ao mesmo tempo, a capacidade de sentir as próprias emoções.

Estes resultados poderão ter implicações importantes em termos do tratamento da falta de desejo sexual, diz-nos ainda Rui Costa. “Se for possível explicar por que há pessoas com um nível de libido baixo apesar de terem níveis de testosterona normais – e que a causa reside na dificuldade em sentirem as suas próprias emoções –, o problema da falta de libido poderá então ser abordado através da psicologia.” Acontece que, ultimamente, o tratamento dos problemas do desejo sexual nas mulheres tem sido muito baseado na medicação, diz Rui Costa. Mas a confirmar-se a sua teoria, o investigador acha que os clínicos poderão então avaliar a personalidade das pacientes, antes de lhes prescreverem testosterona, para determinar se uma abordagem não puramente médica, mas psicológica, não seria mais eficaz. “Há estudos que mostram que, nas mulheres, a meditação de tipomindfulness, que treina a pessoa a sentir as suas emoções sem fazer juízos de valor, tem tido resultados positivos, aumentando o desejo sexual”, conclui.

Fonte: Público.

Novo tratamento do Alzheimer restaura totalmente a função da memória

 

 

Pesquisadores australianos criaram uma tecnologia de ultra-som não-invasiva que limpa o cérebro das placas amilóides neurotóxicos responsáveis ​​pela perda de memória e pelo declínio da função cognitiva em pacientes com Alzheimer.

 Se uma pessoa tem a doença de Alzheimer, isso é geralmente o resultado de uma acumulação de dois tipos de lesões – placas amilóides e emaranhados neurofibrilares. As placas amilóides ficam entre os neurônios e criam aglomerados densos de moléculas de beta-amilóide.
Os emaranhados neurofibrilares são encontrados no interior dos neurónios do cérebro, e são causados por proteínas Tau defeituosas que se aglomeram numa massa espessa e insolúvel. Isso faz com que pequenos filamentos chamados microtúbulos fiquem torcidos, perturbando o transporte de materiais essenciais, como nutrientes e organelas.
Como não temos qualquer tipo de vacina ou medida preventiva para a doença de Alzheimer – uma doença que afeta 50 milhões de pessoas em todo o mundo – tem havido uma corrida para descobrir a melhor forma de tratá-la, começando com a forma de limpar as proteínas beta-amilóide e Tau defeituosas do cérebro dos pacientes.
Agora, uma equipa do Instituto do Cérebro de Queensland, da Universidade de Queensland, desenvolveu uma solução bastante promissora. Publicando na Science Translational Medicine, a equipa descreve a técnica como a utilização de um determinado tipo de ultra-som chamado de ultra-som de foco terapêutico, que envia feixes feixes de ondas sonoras para o tecido cerebral de forma não invasiva.
Por oscilarem de forma super-rápida, estas ondas sonoras são capazes de abrir suavemente a barreira hemato-encefálica, que é uma camada que protege o cérebro contra bactérias, e estimular as células microgliais do cérebro a moverem-se. As células da microglila são basicamente resíduos de remoção de células, sendo capazes de limpar os aglomerados de beta-amilóide tóxicos.
Os pesquisadores relataram um restauro total das memórias em 75 por cento dos ratos que serviram de cobaias para os testes, havendo zero danos ao tecido cerebral circundante. Eles descobriram que os ratos tratados apresentavam melhor desempenho em três tarefas de memória – um labirinto, um teste para levá-los a reconhecer novos objectos e um para levá-los a relembrar lugares que deviam evitar.
Fonte: R7, via CienciaOnline

Sonhar acordado faz bem ao cérebro

Sonhar acordado faz bem ao cérebro

O hábito de sonhar acordado serve, afinal, para mais do que afastar o tédio e imaginar cenários fantásticos. De acordo com um novo estudo internacional, deixar a mente divagar pode trazer vantagens cognitivas, contribuindo mesmo para tornar o cérebro mais eficiente.
Investigadores da Universidade de Bar-Ilan, em Israel, conseguiram demonstrar que estímulos elétricos externos de baixa voltagem alteram o modo como pensamos, medindo, com precisão, a frequência com que o cérebro nos leva a sonhar acordados ou a ter pensamentos espontâneos.
No âmbito do trabalho publicado, este mês, na revista científica Proceedings of National Academy of Sciences, a equipa descobriu que, além de oferecer um “escape mental” durante a realização de tarefas aborrecidas, o ato de sonhar acordado tem um “efeito positivo e simultâneo” no desempenho do cérebro.
Para chegar a estas conclusões, os cientistas submeteram um grupo de voluntários a um procedimento de estimulação transcraniana por corrente direta (“tDCS”, na sigla inglês), uma técnica “não invasiva e indolor” que estimula partes específicas do cérebro.
Durante o procedimento foi pedido aos participantes que seguissem e respondessem a números que apareciam num ecrã de computador e, periodicamente, que relatassem – numa escala de um a quatro – a frequência com que experienciavam pensamentos espontâneos não associados à tarefa durante a sua realização.
“Concentrámos a estimulação elétrica na área dos lobos frontais porque esta região do cérebro já tem sido associada à divagação da mente e porque é, também, um ponto central da rede cerebral de execução de tarefas que nos permite organizarmo-nos e prepararmo-nos para o futuro”, explica, em comunicado, o investigador Moshe Bar, um dos autores do estudo.
Além de não prejudicar o desempenho dos indivíduos na realização de uma determinada tarefa, a experiência provou que sonhar acordado contribui mesmo para uma maior eficácia.

Segundo Bar, este “resultado surpreendente” pode estar relacionado com o facto de convergirem, numa única região do cérebro, os mecanismos de execução de uma função e o pensamento livre.

“Este envolvimento duplo do cérebro parece estar relacionado com a criatividade e o humor e contribui para a capacidade de uma pessoa se manter concentrada na tarefa que tem em mãos mesmo que a mente divague”, finaliza o investigador.

Clique AQUI para aceder ao estudo (em inglês).

 

ADEB: a doença bipolar não é o fim da vida

A doença bipolar não é o fim de uma vida. Na Associação de Doentes Depressivos e Bipolares (ADEB) aprende-se a viver com um problema de saúde que ainda é estigmatizado pela sociedade. Os próprios familiares podem receber apoio psicológico, se necessário, e formação para poderem ser a mão amiga nos momentos mais difíceis.


Delfim Oliveira, o presidente da ADEB, tinha 40 anos quando foi diagnosticado com doença bipolar. “O meu estado de saúde físico e psíquico era deplorável e um amigo ajudou-me. Fui internado, por vontade própria, no Hospital Júlio de Matos. Foram seis meses de estado de mania, estive 15 dias internado, um ano em ambulatório e mais um em convalescença.” O diagnóstico foi rápido, “felizmente”, mas garante que “lhe desabou o teto do mundo na cabeça”.

Não aceitou a doença, mas reconheceu que teria de tomar medicação para o resto da vida e que “tinha de aprender a viver com esta nova realidade”, refere. Já lá vão 25 anos e o presidente da ADEB só voltou a ter duas recidivas no início – o que é habitual – e de hipomania. Uma das razões está na maneira como enfrenta o problema. “A minha vida deu uma reviravolta e percebi que só com medicação e apoio conseguiria – como aconteceu – aprender a viver com doença bipolar.”

Conseguiu de tal maneira que, além de ter recuperado muito do que (quase) perdera, consegue ainda hoje estar à frente da associação que mais tem lutado para dar a conhecer a doença unipolar e bipolar e pôr um fim no estigma que existe em torno de tudo o que seja doença mental.

A ADEB existe desde 1991 e tem dado apoio a muitos doentes e familiares/cuidadores, “além de contribuir para veicular a informação dos vários profissionais de saúde, quer sejam psiquiatras e psicólogos ou médicos de Medicina Geral e Familiar”.

A doença bipolar: viver num (des) equilíbrio de emoções

Estima-se que afete cerca de 1 a 1,5% da população e nem sempre é fácil chegar-se ao diagnóstico. “A dificuldade em se obter informação não ajuda a reconhecer os sinais da doença, o que dificuldade o aceitar da mesma de modo a que se possam procurar as respostas adequadas para o tratamento necessário”, explica Sérgio Paixão, psicólogo clínico da ADEB.

E continua: “Acompanhamos pessoas que só souberam do seu estado clínico já muito tarde, porque costumavam ir ao médico apenas quando estavam em depressão. Sendo assim, o médico de família receitava-lhes, como é recomendado, medicamentos para esse problema. Quando estavam em hipomania, achavam que estavam bem e não iam ao médico. Logo, nestes casos, é muito difícil fazer o diagnóstico correto.”

Esta é uma das dificuldades que mais se enfrenta quando se fala de doença bipolar. Os pacientes não conseguem perceber o que sentem e não procuram ajuda numa fase precoce. Mas um diagnóstico tardio também se pode dever à negação da própria pessoa em reconhecer a doença, como refere Sérgio Paixão. Felizmente que a situação está a melhorar, há mais informação e mais pedidos de ajuda.

“Os médicos de família são muito importantes neste processo, ao referenciar o doente numa fase inicial e fazendo o devido encaminhamento”, reconhece. Não é fácil receber a notícia de que se tem uma doença mental crónica que ainda é muito estigmatizada na sociedade. “A reação mais habitual é de negação”, afirma Sérgio Paixão. O psicólogo considera que os familiares também podem ser muito afetados com o diagnóstico. “Muitos não sabem como lidar com a situação e, no caso dos pais, é o pensar que os sonhos que tinham para os filhos estão todos a cair.”

A ADEB tem prestado, ao longo dos seus 25 anos, um apoio que começa, muitas vezes, no serviço SOS apoio telefónico ADEB e, sempre que se justifique, é aconselhado um encaminhamento para o Serviço de Reabilitação Psicossocial. Nesta valência, o acompanhamento individual, realizado por um dos psicólogos clínicos, consiste no desenvolvimento de sessões para aquisição de novas competências para lidar com a gravidade da doença unipolar ou bipolar, de modo a promover o autocuidado e reintegração da pessoa na vida ativa, com ganhos de saúde e mais qualidade de vida.

De realçar também os grupos de autoajuda, que são uma das mais-valias nestas situações e uma das valências da ADEB, como forma de as pessoas partilharem entre si experiências e de se ajudarem umas às outras, segundo Delfim Oliveira. Além disso, a associação tem sempre a “porta aberta” para se pedir apoio psicológico.

A importância dos familiares numa doença de difícil diagnóstico

“É muito importante ter o apoio de quem está próximo. Nas crises é mais fácil alguém dar-nos a mão para nos podermos levantar”, refere Delfim Oliveira.

Sérgio Paixão concorda: “Na fase de depressão a pessoa sente-se muito mal e até tem noção de que não está bem, mas nas fases de mania (euforia) sente-se demasiado bem e não procura ajuda. É preciso que esteja alguém ao seu lado e o faça por ela.”

“Ambos os episódios podem trazer um sofrimento muito grande. Na euforia há uma enorme tendência para se ter comportamentos desadequados, que podem pôr em risco a estabilidade pessoal a vários níveis.” Esses momentos acabam por ser «demolidores», “porque, depois, ao surgir normalmente a depressão, ao necessitarem de ajuda, já nem sempre a têm, pelos conflitos relacionais que surgiram no episódio anterior e que levaram ao afastamento de quem estava mais próximo”, esclarece o psicólogo.

Na infância e na adolescência, é ainda mais difícil obter um diagnóstico. “Geralmente, costuma-se ter mais cuidado com o diagnóstico final, mas por vezes é inevitável não se dizer que é perturbação bipolar”, refere Sérgio Paixão.

Precisamente a pensar nesta realidade, a ADEB aposta também bastante na ajuda aos familiares. “Acompanhamo-los, dando apoio psicológico se for necessário e dando formação para saberem lidar com as diferentes fases da doença e para prevenirem possíveis complicações.” De facto, há quem entre em depressão ou venha a sofrer de distúrbios de ansiedade, “principalmente pelas consequências que a doença provoca nas relações familiares”.

Outro obstáculo é a formação. “Dos quatro mil associados da ADEB, apenas 10% são familiares. Na saúde mental, é fundamental ter o apoio dos familiares e estes, por sua vez, necessitam saber lidar com a doença”, frisa Delfim Oliveira. Apesar dos apoios da associação, “tendem a ficar na retaguarda e depois desconhecem o que fazer e surgem comentários depreciativos, como, por exemplo, durante as recidivas”. Comentários que não ajudam em nada nos momentos mais graves e que revelam incompreensão por parte de quem está mais próximo”.

É importante também aprender a diferença entre o que é característico da doença e o que faz parte da personalidade da pessoa, “para se evitar comportamentos e atitudes que não ajudam e, por outro, para a própria pessoa com a doença não a utilizar para desculpar certos atos”, aponta o psicólogo. Sem formação, “dificilmente se consegue evitar estas situações e a família tem de ter consciência da necessidade de se (in) formar.”

O estigma ainda fala mais alto 

Passaram 25 anos desde que Delfim Oliveira descobriu que sofria de doença bipolar. As mudanças têm-se feito sentir. “Existe uma maior evolução nos tratamentos e a patologia já é mais conhecida da população, assim como dos vários profissionais de saúde.” Contudo, “ainda há muito a fazer”. Existem muitas pessoas que, apesar de serem excelentes profissionais, receiam falar da doença no seu local de trabalho, nem que seja para levar um papel de justificação de que foram a uma consulta na associação. Uma atitude compreensível para o presidente da ADEB, tendo em conta que as entidades profissionais e os colegas de profissão ainda veem com maus olhos a bipolaridade.

“Há também quem dê apoio, mas a maioria discrimina”, garante. Neste campo da (in) formação ainda há muito a fazer, de acordo com Delfim Oliveira. Sérgio Paixão pensa o mesmo: ”É preciso dar mais informação e os profissionais de saúde, as associações e todos os parceiros envolvidos na saúde mental devem falar da doença bipolar e desmistificar a ideia de que são pessoas que estão sempre incapacitadas para terem uma vida social e profissional e que são perigosas, criando grandes problemas.”

E acrescenta: “Hoje, conquistou-se a possibilidade de se ter uma atitude preventiva, evitando cada vez mais as recidivas graves, o que proporciona mais qualidade de vida. Esta conquista é possível para cada um na medida da adesão ao tratamento e cuidados a ter no dia-a-dia.”

Delfim Oliveira relembra que “há muitos doentes bipolares empregados e que são excelentes profissionais. Basta terem acompanhamento e aprenderem a viver com este problema de saúde”.

Várias valências que melhoram o bem-estar e a qualidade de vida

A ADEB aposta em várias vertentes, “porque a reabilitação é um todo, composto de várias etapas”, como refere o presidente da ADEB. Nesse sentido, existem sete valências: reabilitação psicossocial, promoção de ações de educação médica e especializada, apoio à célula familiar, apoio e reorientação aos utentes desempregados, apoio ao adolescente, fórum sócio ocupacional e apoio domiciliário.

No caso dos fóruns socioprofissionais, existem várias atividades de grupo, como yoga, música, pintura, fotografia e poesia. “Temos compilado antologias poéticas e também textos em prosa. É a forma de melhorar a autoestima das pessoas, de elas próprias darem a conhecer a sua veia artística e de desabafarem”, salienta o responsável da ADEB.

Um futuro incerto … com falta de verbas

A crise tem afetado a ADEB, como tem acontecido com a maioria das associações. “Antes de mais, a maioria dos associados não paga as quotas, o que nos impede de ser financeiramente independentes”, sublinha Delfim Oliveira. A alternativa tem sido pedir apoios, nomeadamente aos laboratórios. “Estão estabelecidos protocolos, mas, na prática, não são cumpridos desde 2013. O dinheiro não aparece e ninguém dá uma explicação.”

Apesar das dificuldades, o responsável acredita que o mais importante é que “se continua com portas abertas à população”. Espera é que esta realidade se prolongue por muito mais tempo e “que a falta de verbas não venha a pôr em causa esta ajuda tão importante para doentes e familiares”.

Uma mão amiga que é fundamental que continue a existir, pois, “faz toda a diferença na recuperação e na prevenção de recidivas, pelo menos das mais graves“. E Delfim Oliveira é o exemplo de como este apoio é a pedra angular que ajuda na caminhada da vida e que ensina a viver com a bipolaridade, sem se deixar que a doença impeça a felicidade.

Fonte: site ADEB.

 

Alzheimer: técnica não-invasiva pode restaurar memória

 

Alzheimer: Técnica não-invasiva pode restaurar memória

É uma nova esperança para os pacientes com Alzheimer. Um grupo de investigadores australianos acredita ter descoberto uma técnica “revolucionária” para tratar a doença, tendo conseguido devolver a memória a ratinhos através da destruição das placas armazenadas no cérebro com recurso a uma solução indolor e não-invasiva baseada na utilização de ultrassons.
Para testar o tratamento, a equipa da Universidade de Queensland, na Austrália, injetou beta-amilóides – peptídeos que têm sido associados ao desenvolvimento e progressão da doença de Alzheimer – no cérebro de ratinhos para criar um modelo animal desta patologia submetendo-os, depois, a uma terapia repetida com ultrassons.
Segundo os investigadores, as ondas ultrassonográficas oscilam de forma muito rápida, ativando as células microgliais, responsáveis por “digerir” e remover as placas beta-amilóides do cérebro, conhecidas por destruírem as sinapses, ou seja, as ligações entre os neurónios.
Quando examinou os animais tratados por intermédio de uma série de testes, a equipa constatou que a ativação das células microgliais tinha consumido uma grande quantidade de beta-amilóide presente no cérebro e que, em 75% dos casos, este órgão ficou “limpo”, o que permitiu a recuperação da memória e das capacidades cognitivas e fez com os animais conseguissem um desempenho idêntico ao dos ratinhos saudáveis.
Embora o cérebro destes animais seja diferente do cérebro humano, os cientistas acreditam que, se for aplicada precocemente, a utilização de ultrassons, solução não-invasiva e não tóxica, pode ser “muito mais eficaz” do que os medicamentos atualmente usados para atrasar a progressão do Alzheimer, que apenas funcionam durante um curto período de tempo e não removem as placas de beta-amilóide acumuladas.
“Estamos extremamente entusiasmados com esta inovação para o tratamento do Alzheimer que não exige a utilização de fármacos”, explica, em comunicado, Jurgen Gotz, um dos coordenadores da investigação.”A palavra ‘revolucionário’ é muitas vezes usada erradamente, mas, neste caso, acredito que esta investigação vai alterar decisivamente a forma como tratamos esta doença e antecipo um grande futuro para esta abordagem”, acrescenta.

Cientistas vão testar o mesmo método noutras demências
Segundo Gotz, este método permite “abrir temporariamente a barreira hematoencefálica, uma estrutura de permeabilidade altamente seletiva que protege o sistema nervoso central de substâncias potencialmente neurotóxicas presentes no sangue, “ativando mecanismos que limpam as proteínas tóxicas acumuladas e restaurando a memória”.
“Esta barreira é aberta durante apenas algumas horas, pelo que o seu papel protetor é rapidamente restaurado”, assegura o investigador, salientando que um outro benefício associado a esta técnica é o facto de ser uma opção “barata” e “altamente eficiente” que pode contribuir para aliviar o peso exercido sobre os sistemas de saúde dos diversos países e causado pelo envelhecimento da população.
Os ensaios clínicos em humanos poderão começar dentro de dois anos e os investigadores esperam conseguir testar a mesma técnica com vista ao tratamento de outras demências.”Estamos a tentar compreender se este método também elimina o excesso de proteínas tóxicas acumuladas no cérebro noutras doenças neurodegenerativas e se é, igualmente, capaz de restaurar as funções executivas deste órgão, nomeadamente a tomada de decisões e o controlo motor”, adianta Gotz.

Clique AQUI para aceder ao estudo (em inglês).

Fonte: Boas Notícias.

A tortura da hipocondria, ou uma estranha forma de amor

Procurar doenças é o "amo-te" de um hipocondríaco

É a melhor descrição que me ocorre para definir o momento na nossa relação em que convenci, naquela noite, o meu namorado de que ele tinha lepra. A lepra representou uma medalha de ouro na minha maratona de hipocondria que durava toda uma vida e nunca antes tinha estado, nem remotamente, lá perto.

Um facto pouco conhecido sobre os hipocondríacos é que não nos limitamos a dizer a nós próprios que temos alergias alimentares, epilepsia e síndrome da mão alheia (sim, existe). Ficamos felizes ao persuadir os outros de que também têm.

Tinha finalmente encontrado um homem que me deixava brincar aos médicos, por assim dizer. Eu passava horas a catalogar todos os seus sintomas, a esquadrinhar o seu corpo à procura de cancro da pele e à cata de ligações médicas nas suas queixas que um médico verdadeiro podia não ver.

Por exemplo, doíam-lhe os pés. Ele pensava que era devido aos sapatos apertados ou ao facto de passar o dia a percorrer as calçadas de Nova Iorque como agente comercial imobiliário. Tão ingénuo, pensei correndo para o meu portátil, onde descobri que ele tinha a doença da arranhadura do gato. Só tinha um sintoma, mas mesmo assim era possível.

“Por favor, por favor, por favor pede ao teu médico para fazer análises de sangue”, supliquei.

Ele recusou. Por que razão teria ficado tão exasperado com uma simples sugestão? Será que sofre de demência precoce?

A minha hipocondria começou no secundário. Não sei se foi uma reação ao stresse ou ao tédio ou, então, um problema congénito ou talvez mesmo um sintoma de uma doença tropical rara, mas dei comigo tantas vezes no consultório do meu médico que ele deveria ter pendurado a minha fotografia na parede. Doía-me a garganta, a minha cabeça latejava e o meu estômago parecia uma bomba de ácido.

Infelizmente, isto foi pré-Google. Não consegui convencer os médicos de que tinha uma das poucas doenças exóticas que conhecia dos livros de História – peste bubónica, escorbuto, raquitismo. Todas as moléstias acabaram por se revelar muito chatas: amigdalite, anemia, tensão baixa, má alimentação. Os hipocondríacos adoecem como os outros, mas os sintomas da constipação comum são na verdade o início do hantavírus.

O advento do Google foi um golpe de sorte para mim – e um problema. Eu sofri de cancro da mama, de um mesotelioma e de um defeito cardíaco. Contraí gripe suína, malária e uma amiba comedora de cérebros. Contudo, os médicos não conseguiram encontrar nenhuma destas doenças apesar de todas as pesquisas que fizeram.

Por mais de uma década, as minhas únicas resoluções de Ano Novo foram não chamar uma ambulância ou não ir à urgência do hospital nos 12 meses seguintes. Na maior parte dos anos, não consegui passar de fevereiro.

Com todos os ataques cardíacos, AVC e úlceras hemorrágicas que estava a sofrer, quem poderia culpar-me? Mas os médicos não conseguiam encontrar qualquer verdade nas minhas queixas (juro, doutor, eu estava a ter um ataque cardíaco antes de sair de casa), esgueirava-me então envergonhada para casa com outra promessa quebrada adicionada à lista.

Um ano antes de conhecer o namorado com lepra, acordei paralisada do lado esquerdo, cega e incapaz de falar.

Não conseguia ver o telefone, assim pedir ajuda era tarefa impossível. Arrastei-me da cama usando o braço e a perna direitos, aterrei com força no chão e rastejei durante o que pareceu uma hora, conseguindo finalmente chegar à porta da frente e, de algum modo, abri-la. Fiquei deitada no corredor, até que um vizinho me encontrou e chamou o 112.

Eu sabia que era um acidente vascular cerebral. Desta vez a sério.

O neurologista disse que eu tinha sofrido uma enxaqueca complicada, pois os meus sintomas iniciais pareciam ter desaparecido. Tinha recuperado a visão, conseguia mover os meus membros esquerdos e falar novamente. Ele disse para eu ir para casa e comer três refeições diárias, dormir oito horas todas as noites e fazer meia hora de exercício todas as manhãs.

Eu insisti em fazer ressonâncias magnéticas e TAC, que não mostraram nada. A minha família, sabendo que eu tinha uma predileção por doenças exóticas, aceitou o conselho do médico e sugeriu que eu parasse de me concentrar em doenças.

Nos nove meses seguintes fui ficando cada vez mais doente. Por ser solteira e viver sozinha, não tinha ninguém para testemunhar a minha profunda fadiga, as enxaquecas implacáveis, a fraqueza do lado esquerdo, a dificuldade em andar, a confusão, a perda de memória, a afasia, a névoa no cérebro, os distúrbios visuais, o zumbido nos ouvidos, os tremores e os espasmos, a dormência na mão esquerda, as tonturas, a insónia, a incapacidade de me concentrar, a fotossensibilidade, o gaguejar, a ataxia, a dificuldade de falar, o esquecer como executar as tarefas diárias, a baixa temperatura corporal, a resposta alérgica aumentada e as palpitações do coração. Sentia a cara a arder e, frequentemente, dava comigo perdida num bairro onde vivia há dez anos.

Fui a 17 médicos que sugeriram que eu poderia ter uma variedade de doenças: enxaqueca basilar, fadiga adrenal, mononucleose e stress. Nenhuma delas parecia a certa.

A maioria dos médicos disse que não havia nada de errado comigo. Eu parecia bem e as minhas análises ao sangue estavam normais. À noite, sozinha à frente do computador, tendo diminuído o brilho do monitor porque me fazia doer os olhos, tentava juntar as peças do quebra-cabeças da minha saúde em ruínas.

Finalmente, depois de me debruçar sobre os resultados das minhas análises pedidas por uma médica de doenças infecciosas, notei uma coisa que ela tinha ignorado: uma infeção antiga por recaídas de febre da carraça. Há imensos anos que resgatava cães abandonados e por três vezes tinha retirado o mesmo número de carraças da minha própria pele.

Encontrei um especialista em infeções por febre da carraça em Manhattan e, pouco depois, foi-me dito que tinha a doença de Lyme e cinco outras infeções correlacionadas. Foi uma vitória de Pirro. Eu estava doente! Bolas, eu estava doente.

A bactéria da doença de Lyme tinha vindo a florescer durante meses e tinha entrado no meu cérebro e no meu sistema nervoso central. Comecei o tratamento, que foi longo e doloroso. Fiz pesquisas online mais afincadamente do que nunca, agora determinada a encontrar soluções e não doenças.

Ainda estava em tratamento quando comecei a sair com o meu namorado. Ele sabia que eu estava doente e aceitava as minhas limitações. Eu desfiava o rosário dos meus sintomas todas as manhãs nos seus simpáticos ouvidos.

A certa altura, ele começou a partilhar comigo algumas das suas próprias queixas médicas, e começámos a estabelecer laços na doença, uma linguagem que eu entendia. Nas raras ocasiões que em que discutíamos, eu gemia: “Tu nunca pesquisas nenhum dos meus sintomas no Google! Tu não me amas!”

Na noite do diagnóstico da lepra, o meu namorado tinha o que parecia ser uma irritação que circum–navegava a área das ancas perto do cós das suas calças de treino.

“Mudaste o detergente da roupa?”, perguntei.

Ele afirmou que não.

Tirei fotografias da erupção com o meu iPhone para as poder ampliar. Eliminei a dermatite de contacto, picadas de aranha, zona, eczema, infeções fúngicas, sífilis, urticária e líquen plano. Excluí 50 outras doenças até ter aterrado naquela que eu tinha a certeza que era: lepra.

Eu sabia que uma doença negligenciada pode ser mortal. A minha infeção cerebral originada pela febre da carraça era a validação de que eu não era apenas uma hipocondríaca. Tinha tido uma doença que muitos médicos não tinham conseguido ver, uma experiência de centenas de horas de pesquisa registada e o dom de ótimos poderes de dedução.

A lepra do meu namorado, decidi, era do tipo que começa como uma pequena lesão e acaba por levar à desfiguração facial e à cegueira.

Sentei-me ao seu lado na cama e chorei enquanto ele tentava dormir. “Vais ficar bem”, disse-lhe enquanto lhe esfregava as costas. “Provavelmente tens o tipo de lepra que responde ao tratamento.”

Encontrei uma clínica de lepra no Bellevue Hospital em Manhattan, à distância de uma viagem rápida de autocarro através da cidade, uma entre as onze que existiam em todos os Estados Unidos. Senti que era uma sorte para nós o facto de ser tão perto. Enviei-lhe o endereço do sítio da internet, que incluía o número de telefone e implorei durante dias para que marcasse uma consulta. Ele finalmente cedeu.

“Não toques em nenhuma parte do autocarro no caminho para lá”, disse-lhe. “Por favor, usa o desinfetante de mãos que te dei.”

No dia da consulta dele, eu senti uma espécie de leveza que não sentia há anos, um alívio não só por ter sido capaz de persuadir outra pessoa a levar-me a sério, o que é uma bênção para qualquer hipocondríaco, mas também por não ter lepra.

Se tivesse descoberto lepra noutra pessoa qualquer que não o meu namorado, teria ido a correr para a clínica, apontando para sardas e sinais de nascença. Mas agora eu tinha alguém para cuidar e amar. Podia transferir uma parte da minha energia neurótica para ele – e, claro, salvar-lhe a vida.

O meu namorado disse que o médico não se riu propriamente dele, mas não parou de sorrir a consulta toda e mandou-o embora logo após olhar para a erupção, que, garantiu-lhe o médico, não era nada sério, provavelmente só uma irritação que desapareceria com o tempo. Eu fiquei profundamente aliviada por alguns minutos.

Mas se a erupção não era lepra, então o que era? E porque não tinha o médico feito uma biopsia?

Tirei mais fotografias das pequenas saliências vermelhas e digitei “irritação cutânea” no Google Imagens pela décima vez. É a maneira de um hipocondríaco dizer: “Amo-te.”

Fonte: Nikki Moustaki, DN.

Quase dois milhões de pessoas com depressão em 2013 em Espanha

Reuters Arquivo.

Um total de 1.868.173 pessoas era afetada por depressão em 2013 em Espanha, doença que tem aumentado a prevalência, devido à crise, e será a primeira causa de incapacidade em 2030, segundo previsões da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Os especialistas da OMS referem que entre oito e 15% da população sofreram (ou vão sofrer) de depressão ao longo da vida, uma “altíssima” prevalência que constitui “um desafio de saúde pública”, devido às “graves repercussões” a médio e longo prazo, tanto individuais como sociais, familiares e laborais.
O retrato da depressão foi realizado por especialistas num encontro em Madrid, sendo a doença definida como “uma tristeza patológica” pelo presidente da Sociedade Espanhola de Psiquiatria, Miguel Gutiérrez.
Incapacidade, isolamento social, perda de produtividade laboral e de qualidade de vida, morbilidade, mortalidade e custos económicos são as principais consequências desta doença.
“É um fenómeno epidémico e alguns dados apontam para que esteja a registar-se um crescimento exponencial e que, nas próximas décadas, vai ser a primeira causa de incapacidade”, salientou o presidente da Sociedade Espanhola de Psiquiatria Biológica, Miquel Bernardo.
O aumento da esperança média de vida, o maior nível de stresse das sociedades ocidentais e o consumo de substâncias tóxicas são alguns dos fatores que explicam aquele aumento.
Mas, a crise económica e financeira também tem responsabilidade e um estudo realizado entre 2007 e 2011 pela Fundação Espanhola de Psiquiatria e Saúde Mental em pacientes detetou um aumento de 10% em transtornos de ansiedade ou depressivos, que estavam relacionados com problemas de hipotecas ou desemprego.
A depressão é, por outro lado, “a grande porta de entrada de condutas suicidas”, explicou o presidente da Fundação, Miquel Roca.
A doença aparece entre os 30 e 40 anos, mais entre mulheres que entre homens e um em cada 10 trabalhadores já esteve de baixa médica por apresentar um quadro depressivo, mas somente metade daqueles que foram ao centro de saúde com este problema receberam tratamento.
Miquel Roca realçou as dificuldades dos médicos de família para detetar a doença no pouco tempo que dispõem para as consultas, apesar do “extraordinário esforço” que estão a fazer.
Fonte: Sic Notícias/Lusa.

Pedir e receber perdão

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Pedir desculpas e desculpar podem ser difíceis. O rancor é automático, o perdão é mais sofisticado. Mas pesquisas mostram que tanto um como outro têm grande impacto em nossa vida mental e na saúde como um todo.

 

É difícil pedir desculpas? Talvez essa cena deletada do premiado seriado Louie, escrito, dirigido, interpretado e editado pelo brilhante comediante americano Louis CK – o cara da comédia, atualmente – possa ajudar. Ao ensinar a filha mais nova a se desculpar, mesmo que tenha sido “sem querer”, a vinheta mostra bem a genialidade de CK, que parece um maestro capaz de orquestrar nossas diversas emoções, choro, riso, raiva.

Se soubéssemos o poder real do pedido de desculpas seríamos mais dispostos a utilizá-lo. No ano passado foi publicada uma pesquisa mostrando como desculpar-se interfere na decisão da pessoa ofendida. A taxa de perdão foi duas vezes e meia maior entre as pessoas que receberam uma mensagem se desculpando. Mas é interessante notar que elas demoraram mais para tomar sua decisão – exames de Ressonância Magnética mostraram que mais áreas do cérebro foram recrutadas pelas pessoas que decidiram perdoar, o que levou mais tempo. Quando alguém se desculpa, não pensamos mais apenas racionalmente para decidir se aquilo foi justo; nesse momento a empatia entra em cena, para decidir se é perdoável. O rancor é automático, o perdão é sofisticado.

Mas se pedir perdão é eficaz, perdoar, então, é um mecanismo psicológico muito mais poderoso do que se imagina. Quando sentimos alguma injustiça – seja por sofrermos algo, sermos privados do que merecíamos etc – temos a tendência de buscar reparação. Como essa nem sempre é possível, cria-se uma sensação de ressentimento, raiva, amargura, desconforto associados à injustiça – o tal rancor automático. Esse estado, contudo, é bastante estressante, e se torna prejudicial ao organismo como um todo. Perdoar é um processo – e não um momento – de redução gradual dessas emoções negativas. Existem outras formas de reduzir a sensação de injustiça – vingança, condenação judicial do ofensor, crença na reparação divina, justificação da conduta do outro – mas elas não são eficazes como o perdão real. Quando de fato se perdoa, o estresse associado ao ressentimento diminui a ponto de suas consequências serem fisicamente notáveis – diversos estudos mostram redução da pressão arterial, da frequência cardíaca, da tensão muscular. Além do que quem perdoa experimenta maior relaxamento, mais bem estar e sensação de controle.

A decisão racional de perdoar é diferente do perdão emocional, contudo. Ao decidir perdoar, a pessoa reduz a hostilidade mas não necessariamente se livra das emoções negativas; o perdão emocional, aquele em que se abandona de fato o rancor, este sim está associado à redução do estresse e restauração das emoções positivas.

Claro que nem sempre é fácil. Mas mais do que isso, nem sempre desejamos perdoar – ficamos com aquela sensação de que, se o fizermos, estaremos saindo no prejuízo. Ok, você pode decidir guardar sua mágoa. Mas o faça consciente de que, sem a menor sombra de dúvida, quem sofre com isso é você.

 

 

Fonte: Daniel M. Barros, Estadão. Strang S, Utikal V, Fischbacher U, Weber B, & Falk A (2014). Neural correlates of receiving an apology and active forgiveness: an FMRI study. PloS one, 9 (2) PMID: 24505303