Tédio, para que te quero?

Ninguém gosta de se aborrecer. Isto é tanto assim que fazemos tudo (mesmo tudo) para escapar ao tédio. O estudo deste estado mental começou agora a envolver as neurociências e promete não ser nada entediante.

Pormenor do quadro Madona Sistina, de Rafael DR
Imagine a seguinte situação. Você vai participar como voluntário/a numa experiência de psicologia. A tarefa que tem pela frente parece trivial: tem de permanecer sentado/a numa salinha de paredes nuas, durante 15 minutos, consigo próprio por única companhia. Não pode levar consigo telemóveis, televisores, computadores, jornais, revistas, nem papel e lápis para se entreter ou distrair. E também não pode adormecer. Tudo o que pode fazer é olhar para as paredes e… pensar.

É-lhe contudo permitido fazer uma coisa durante esse período de ócio – mas só se e quando lhe apetecer: carregando num botão, pode infligir a si próprio/a um ligeiro choque eléctrico, equivalente àquelas descargas de electricidade estática que por vezes se apanham ao mexer num objecto metálico.

Antes de iniciar a experiência, os participantes tiveram a oportunidade de sentir na pele o desconforto produzido pelo choque – e a maioria declarou-se disposto/a a pagar para evitar receber um novo choque desses.

A reacção tem lógica: quem não acharia irracional o desejo de sentir outra vez algo de tão desagradável quando a tarefa que tem pela frente parece tão, mas tão inócua, em comparação?

Desengane-se. O mais provável é que, tal como a maioria dos outros participantes que juraram não querer repetir a experiência do choque eléctrico, antes de emergir da salinha, um quarto de hora mais tarde, você tenha carregado no fatídico botão… e talvez até mais do que uma vez.

Estes surpreendentes resultados foram revelados, em 2014, num estudo publicado na revista Science pelo psicólogo Timothy Wilson, da Universidade da Virgínia (EUA), e colegas. Mais precisamente: 12 dos 18 homens (67%) e seis das 24 mulheres (25%) testados preferiram receber choques eléctricos a não ter nada para fazer (a não ser pensar) durante a sua curta permanência em isolamento forçado.

“O mais notável”, escreveram na altura os autores, “é que o facto de estar simplesmente a sós com os seus próprios pensamentos durante 15 minutos era aparentemente tão insuportável que levou muitos participantes a auto-administrar um choque eléctrico apesar de terem anteriormente declarado que estavam dispostos a pagar para o evitar”.

Por que é que isto aconteceu? A ideia dos (ainda) raros especialistas que estudam este tipo de fenómenos é que o que está aqui subjacente é nada mais, nada menos do que a nossa aversão pelo tédio. Por alguma razão, não ter nada para fazer é o pior que nos pode acontecer.

No trabalho da equipa de Wilson, a questão do tédio não era explicitamente levantada. Mas em 2015, Chantal Nederkoorn e colegas, do Departamento de Psicologia e Neurociências da Universidade de Maastricht (Holanda), realizaram um estudo semelhante cujo objectivo era assumidamente determinar se o tédio induzido nas pessoas pelo visionamento de um vídeo monótono e repetitivo poderia promover o consumo de guloseimas – e mesmo a auto-administração de choques eléctricos por parte dos participantes. Os seus resultados, publicados na revista Appetite, corroboram o estudo norte-americano e incluem explicitamente o tédio na equação: “As pessoas podem estar dispostas a procurar estímulos negativos, por exemplo a magoarem-se, só para fugir ao tédio”, concluíam os autores.

O tédio tem acompanhado os seres humanos ao longo dos séculos, como atestam a literatura, a arte e a filosofia. Mas a primeira abordagem científica da questão data de 1885, num curto artigo, publicado na revista Nature pelo ímpar Francis Galton, primo de Charles Darwin e um dos pais da estatística moderna, entre muitas outras coisas.

No texto, intitulado Medir a irrequietude (The measure of fidget), Galton relatava como tinha passado o tempo, durante uma palestra particularmente chata, a imaginar uma forma objectiva de calcular o estado de aborrecimento da assistência. E concluía: “Gostava de sugerir aos filósofos praticantes, quando as reuniões em que participam se revelarem aborrecidas, que se entretenham a estimar a frequência, amplitude e duração da irrequietude dos seus companheiros de infortúnio. (…) Penso que desta forma poderão adquirir uma nova arte de conferir expressão numérica à quantidade de tédio geralmente expressa pelo público durante qualquer apresentação de trabalhos.”

100 anos para medir o tédio
Foi preciso esperar um século depois da publicação do ensaio de Galton para que os psicólogos (e não os filósofos) começassem a tentar medir o tédio para o estudar. Em 1986, Norman Sundberg e Richard Farmer, da Universidade do Oregon (EUA), desenvolveram para isso a chamada Escala de Propensão ao Tédio (EPT, em inglês Boredom Proneness Scale), que permitia avaliar o quão aborrecida estava uma pessoa através de uma série de perguntas “que iam para além do simples ‘sente-se entediado(a)’?”, lê-se num artigo da jornalista norte-americana Maggie Koerth-Baker publicado há dias na revistaNature.

O teste, disponível a qualquer um, por exemplo em http://www.gotoquiz.com/boredom_proness_scale, consiste em 28 afirmações com as quais podemos concordar ou discordar, do tipo: “O tempo parece passar sempre muito devagar.”

Já agora, a acreditar nos resultados obtidos ao fazer o teste, a autora deste artigo revelou-se muito pouco propensa ao tédio – talvez graças à sua estimulante profissão de jornalista de ciência, visto que uma grande fatia das situações entediantes da nossa vida está relacionada (é triste dizê-lo) com o nosso trabalho.

“Tédio? O que é isso? Você poderia estar a ver secar uma parede recém-pintada e adorar”, foi a resposta que recebemos. “O seu romance preferido é Guerra e Paz (plausível) e os seus projectos são de muito longo prazo.” Um resultado que consideramos contudo algo optimista, a julgar pela nossa reacção aos filmes de Jean-Luc Godard ou de Manoel de Oliveira…

Vários tipos de tédio?
Mas o que é exactamente o tédio? Ninguém sabe ao certo, mas tudo indica que não se trata simplesmente de um estado de depressão ou de apatia, uma vez que, para além da já referida autopunição a que as pessoas recorrem para evitar tão desagradável estado mental, é notório que o tédio também pode conduzir a comportamentos activos de risco, como o abuso de drogas ou o jogo compulsivo – e ainda, noutro contexto, ao insucesso escolar.

Uma coisa parece certa: o tédio é uma emoção suficientemente importante na vida das pessoas para o seu estudo ser levado a sério do ponto de vista científico. E mais: conhecem-se casos de lesões cerebrais, na sequência de traumatismos, em que os doentes não só ficam com uma maior propensão para o tédio do que antes, mas ficam entediados mesmo com as actividades que até aí eram a paixão da sua vida. Como faz notar aliás Maggie Koerth-Baker no artigo referido, esse foi um dos motivos pelos quais alguns neurocientistas começaram a interessar-se pelo tema nos últimos anos, procurando em particular as raízes neurológicas do tédio.

Outra coisa parece confirmar-se: existem vários tipos de tédio. Por exemplo, segundo resultados da equipa de Thomas Goetz, da Universidade de Constança (Alemanha), publicados em 2013 na revista Motivation and Emotion, existem cinco tipos de tédio, em função do estado emocional das pessoas por um lado (que vai de preguiçoso a irrequieto a irritável) e, por outro, das emoções positivas e negativas que sentem quanto estão entediadas. Este tipo de classificações, bem como as técnicas utilizadas para medir o tédio (e para induzir o tédio nas pessoas de forma a poder realizar experiências) não param contudo de evoluir.

Tédio bom, tédio mau
Mas simplifiquemos. Em termos gerais, existe um tédio “simples”, que é o tédio que todos já sentimos em diversas situações do nosso dia-a-dia devido a circunstâncias transitórias e muitas vezes previsíveis. Mas há também o chamado tédio “existencial”, que se caracteriza por “um sentimento ininterrupto de isolamento, vazio, alienação e até impotência”, explicava Peter Toohey, professor de Estudos Clássicos na Universidade de Calgary (Canadá), numa entrevista em 2011 à revista New Yorker a propósito do livro que acabara de publicar.

O seu livro intitula-se Boredom: A Lively History (Tédio: Uma História Vivaz) e a tese de Toohey é que o tédio é uma emoção universal que os humanos de todas as culturas e de todas as épocas conhecem bem.

O tédio existencial, escreve, “é um conceito construído a partir de uma mistura de tédio, tédio crónico, depressão, sentido do supérfluo, frustração, excesso, nojo, indiferença, apatia e a sensação de aprisionamento”. Segundo Toohey, lê-se numa recensão do mesmo livro publicada no diário britânicoThe Guardian, este tipo de tédio extremo foi inventado no século XVIII, aquando da ascensão do individualismo e da crescente secularização da sociedade.

Quanto ao tédio simples, argumenta ainda Toohey, trata-se de uma emoção positiva, que nos permite “sonhar, imaginar e proteger de situações chatas ou desagradáveis”. E nesse sentido, Toohey retoma e generaliza as ideias e o trabalho sobre as emoções que celebrizaram o neurocientista português António Damásio, radicado nos EUA desde 1975 e hoje director do Instituto do Cérebro e da Criatividade na Universidade da Califórnia do Sul (EUA).

“O tédio deriva as suas características da emoção primária [de nojo e] António Damásio explica que o nojo é ‘uma emoção primária que evoluiu em associação com a rejeição automática e benéfica de alimentos tóxicos’”, escreve Toohey no seu livro. Para daí concluir que, da mesma forma, “a emoção adaptativa de tédio evoluiu portanto para facilitar as relações, ao encorajar a rejeição benéfica de situações sociais tóxicas.”

Ironiza o Guardian, com aquele toque de humor anti-francês de que padecem muitos britânicos: “O tédio simples, tal como Toohey o define, parece ser o tipo de tédio que sofremos quando temos duas aulas seguidas de francês, enquanto o tédio existencial é o tipo de tédio que sentimos quando vemos um filme francês” (outra vez Jean-Luc Godard?).

Seja como for, para Toohey o tédio simples é uma coisa boa, porque não só nos obriga a escapar a situações que já se esgotaram e se tornaram becos sem saída, como também nos leva, para o evitar, a procurar e abrir novos trilhos de pensamento. O que significa que o tédio pode estar na raiz da criatividade humana e ser, afinal, a causa de todo o progresso.

 

Fonte: Público.

Falsas memórias

 

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Algures na nossa memória estão recordações de coisas que nunca aconteceram. Ou porque percebemos mal ou porque fomos influenciados ou simplesmente porque já lhes acedemos tantas vezes que, literalmente, adulterámos as lembranças com o uso. Bem-vindo ao maravilhoso mundo do seu cérebro – que «inventa» coisas que nunca aconteceram.

Colamos post-its em locais estratégicos, fazemos listas de assuntos a tratar, pomos lembretes no telemóvel, preenchemos a agenda. A nossa relação com a memória é pautada pelo receio de esquecer. Entretanto, a memória atraiçoa-nos de forma diferente e inesperada: só vemos o medo de não recordar, mas o perigo de lembrar demasiado também existe. Sim, fabricamos memórias. É fácil criá-las e fazemo-lo sem nos darmos conta disso.

A psicóloga e especialista em memória Elizabeth Loftus usa uma analogia curiosa para explicar por que são fabricadas memórias falsas: ao contrário do que pensamos, a memória não funciona como um gravador, mas antes como uma página da wikipédia. Ou seja, podemos ir lá e mudar informações, assim como outras pessoas também podem. Por isso não é infalível.

Se já achou que alguém lhe mentiu descaradamente ou teve arrufos com amigos por mais ninguém se lembrar de algo que descrevia, saiba que, tanto num caso como noutro, a responsabilidade pode ser das falsas memórias. «No dia-a-dia, se as pessoas soubessem da existência das falsas memórias evitariam atritos e discussões umas com as outras», diz a psicóloga clínica e neuropsicóloga Patrícia Moreira. «Mesmo quem tem uma boa memória e confia nas suas lembranças, tem de ter em atenção os complexos mecanismos que as elaboram.»

A memória implícita (ou procedimental) não depende da consciência. É automática. É ela que nos permite aprendizagens como andar de bicicleta e quase tudo o que fazemos em modo de piloto-automático, sem ter de pensar sobre isso. Forma-se através da repetição. «Estas memórias são fidedignas e praticamente imutáveis», diz a psiquiatra Ana Sofia Nava. «Como os cheiros da infância, que nunca desaparecem.» Depois – e é aqui que quase todos os problemas de memória, por excesso ou por defeito, residem – temos a memória explícita ou declarativa, mais intelectual, que codifica factos e acontecimentos autobiográficos, e que usamos para aprender novas tarefas e relatar acontecimentos antigos. «A sua formação depende de processos cognitivos como a avaliação, a comparação e a inferência. Mas esta memória é pouco fidedigna», diz a psiquiatra e autora do livro O Cérebro Apanhado em Flagrante.

Para otimizar o volume de trabalho, o cérebro utiliza vários processos que retiram a fidelidade do que é memorizado. «Por exemplo, condensamos informações, associamos informações parecidas, selecionamos as mais importantes. De outro modo não poderíamos memorizar toda a informação que nos chega.» Como se isto não bastasse, têm de se somar fatores que interferem no processo de memorização: os órgãos dos sentidos, através dos quais nos chega a informação; a capacidade que o cérebro tem de integrar, o que quer dizer que a inteligência afeta as memórias; as emoções, que condicionam a capacidade de memorizar, e os mecanismos de defesa, que atuam nas memórias desconfortáveis, racionalizando-as ou negando-as.

A memória não se reconstrói apenas. Constrói-se, como percebeu em 1930 o psicólogo cognitivo britânico Frederic Bartlett. Cada vez que falamos ou nos falam de um episódio da nossa vida, não estamos apenas a reconstruir o que aconteceu, estamos a construir em cima do que já existe: o nosso cérebro vai juntando informações ao registo inicial. «Deixamos de ter noção de qual a memória original e quais as sucessivas atualizações. As nossas memórias explícitas são uma sombra da realidade, uma visão subjetiva e inexata do que realmente aconteceu», conclui Ana Sofia Nava.

E se entre amigos e família esta construção individual pode dar azo a conversas infinitas
com opiniões contraditórias sobre o que aconteceu, campos há nos quais estas rasteiras da memória podem ter implicações graves. É o caso das questões judiciais, nas quais um pormenor «inventado», uma recordação confusa ou uma identificação errada pode conduzir à prisão de um inocente. «Apesar de algumas décadas de pesquisas sobre a falibilidade do testemunho, o que continuamos a constatar são graves erros judiciais que, baseados no valor da prova testemunhal, continuam a levar à condenação de inocentes», diz a psicóloga Anabela Marinho, cuja investigação se tem debruçado sobre falsas memórias e a sua importância no contexto criminal.

Em Portugal não há estatísticas sobre o tema, mas nos EUA os números são O National Registry of Exonerations, um projeto da Escola de Direito da Universidade de Michigan que estuda casos de inocentes condenados por erros judiciais, registou, em 2013, 87 erros judiciais. A origem das condenações erradas deveu-se, em grande parte, a fatores como o falso testemunho e identificação errada.
A forma como é recolhido o testemunho pode ter consequências. A quantidade de vezes
que a pessoa é questionada, a forma como são colocadas as perguntas e as palavras escolhidas podem influenciar a perceção dos factos e alterar a memória que se tem deles. «“Viu o carro” é diferente de “viu um carro”», diz Anabela Marinho. Da mesma forma, devem ser evitadas frases complexas ou ambíguas. «Se perguntar a um homem: “Parou de bater na sua mulher?” e ele responder “não” admite que ainda bate, se responder “sim” admite que batia.»

As falsas memórias são diferentes das mentiras. Na mentira enganamos intencionalmente, na falsa memória somos vítimas do cérebro. Patrícia Moreira divide a criação de falsas memórias em dois tipos: «As espontâneas, geradas pelo processo normal de compreensão, quando o sujeito faz o seu entendimento do que ocorreu e não necessariamente o relato fidedigno. E as falsas memórias sugeridas, quando o sujeito é influenciado acidental ou deliberadamente.» E como podemos distinguir memórias falsas de verdadeiras? Esta é a parte pior: não podemos. Apesar de alguns estudos relatarem que as memórias verdadeiras têm mais pormenor, a verdade é que as falsas também podem ter (ver caixa). É na nossa memória que se funda a nossa identidade. Somos o que recordamos. Mas entre o que não lembramos e o que lembramos a mais, temos de aceitar que parte do que somos é ficção.

LEMBRA-SE DA BEBIDA QUE (NUNCA) ENTORNOU?
O psicólogo Ira Hyman, da Western Washington University, tem feito experiências de implantação de falsas memórias de infância em adultos. No estudo False Memories of Childhood Experiences relata como uma quantidade significativa de estudantes universitários passou a ter lembranças de uma coisa que nunca aconteceu. Depois de lhes fazer perguntas sobre acontecimentos que, de acordo com familiares, aconteceram
mesmo, fez-lhes depois perguntas sobre episódios nunca ocorridos. Um exemplo: «Lembra-se de quando tinha 5 anos e num casamento andava a correr com outras crianças, chocou contra uma mesa e entornou a taça de ponche em cima dos pais da noiva?» Na primeira entrevista os participantes não tinham qualquer memória do sucedido, mas, numa segunda, cerca de 20 por cento lembravam-se de alguma coisa em relação a esse episódio inventado como parte das suas memórias. Mais: alguns davam até pormenores que não haviam sido descritos, como: «Sim, foi num casamento ao ar livre.»

O CASO TITUS
Um dos muitos casos de condenação injusta ocorrido nos Estados Unidos foi o de Steve Titus, de 31 anos, gerente de um restaurante em Seattle. Nos anos 1980 foi mandado parar pela polícia ao regressar de um jantar com a noiva. O carro de Titus era parecido com o que conduzia um homem que violara uma mulher nessa noite e o gerente também era parecido com o violador. Titus estava inocente, mas foi considerado culpado e passou um ano atrás das grades antes de ser descoberto o engano. Pelo caminho, perdeu dinheiro, o emprego e a noiva.

O caso deu que falar pelo processo que moveu contra o Estado e pelo envolvimento da imprensa na descoberta do verdadeiro culpado (com o jornalista Paul Henderson a acabar por receber o Prémio Pulitzer pela investigação neste caso). A psicóloga Elizabeth Loftus também recorreu a ele para tentar entender o evento que esteve na origem da condenação: uma falsa memória. Antes do julgamento, quando a vítima olhou para a fotografia de Titus no meio de outras disse: «Este é o mais parecido.» O caso avançou para julgamento e, durante o processo, a mulher, levada pelas falsas memórias que entretanto construíra, mudou a sua convicção: «Tenho a certeza absoluta que foi este homem» – acabaria por afirmar em julgamento.

A LER

O Cérebro Apanhado em Flagrante, Ana Sofia Nava, Climepsi Editores

The Science of False Memory, C.J. Brainerd e V.F. Reyna, Oxford Psychology Series, Oxford
University Press

My Lie: A True Story of False Memory, Meredith Maran, Jossey-Bass

False Memory Creation in Children and Adults – Theory Research and Implications, David F. Bjorklund, Lawrence Erlbaum Associates

 

Fonte: Notícias Magazine.

Cientistas querem perceber melhor o stress no local de trabalho


LEONARDO NEGRÃO / GLOBAL IMAGENS

Como vive o seu local de trabalho? Um grupo de investigadores portugueses quer saber

Para estudar o stress e as pressões no local de trabalho, um grupo de investigadores portugueses lançou um inquérito abrangente destinado a qualquer pessoa que esteja empregada. A iniciativa está a ser realizada no âmbito de um protocolo com o projeto canadiano Guarding Minds @ Work (GM@W, ou protegendo mentes no trabalho, em tradução literal).

O questionário dos investigadores portugueses José Magalhães, Victoria Paul e Nuno Terenas está disponível online para ser realizado por qualquer pessoa que queira realizá-lo, atravésdesta ligação. Segundo os investigadores, o inquérito leva aproximadamente 20 minutos a realizar.

O objetivo é perceber melhor, junto da população portuguesa, qual a situação no que toca à prevalência dos efeitos negativos do stress e das pressões psicológicas no local de trabalho. Com a situação mais bem estudada, será possível desenvolver estratégias para preservar a saúde mental no trabalho.

Em comunicado, os investigadores destacam que “cerca de 22% dos trabalhadores da União Europeia (em Portugal são cerca de 28%) estão afetados pelas consequências negativas do stress (representam 40 milhões de profissionais de todas as atividades)”.

Fonte: DN.

Cérebro tem região relacionada com a felicidade?

 

felicidade

A felicidade é buscada por todas as pessoas. Porém, esta busca pode ser muito complicada, justamente pelo conceito de “felicidade” ser de difícil definição. Tal questão intriga os filósofos há milhares de anos, e até hoje, tem múltiplas interpretações. Porém, recentes avanços na neurociência finalmente começaram a lançar luz sobre a questão, podendo ter encontrado a resposta para o que determina a felicidade.

Um novo estudo acredita que a felicidade “está na sua cabeça”. Isso pode parecer óbvio, mas, neste caso, as especificidades também são determinantes e literais. Ao comparar resultados de ressonância magnética com questionários sobre estados emocionais, pesquisadores da Universidade de Kyoto, no Japão, afirmam ter relacionado a experiência de felicidade a uma parte específica do cérebro humano.

A felicidade geral, segundo eles, ocorre quando as emoções positivas combinam com um sentido de satisfação anterior da vida. Tudo isso acontece na região do pré-cúneo cerebral, uma parte posterior da cabeça, localizada entre os hemisférios do órgão, relacionada com tarefas importantes, como memória, autorreflexão e consciência.

Para identificar a localização de felicidade, Wataru Sato, autor do estudo, e seus colegas, usaram a ressonância magnética para mapear o cérebro dos participantes, que, em seguida, foram questionados sobre o seu sentido geral de felicidade, a intensidade de suas emoções e seu grau de satisfação com a vida. Após análise dos dados, os pesquisadores descobriram que aqueles que tiveram maior pontuação no exame felicidade, também tinham mais massa cinzenta naquela região. Basicamente, as pessoas mais felizes possuíam um pré-cúneo maior. “Ao longo da história, muitos eminentes estudiosos, como Aristóteles, tentaram definir o que é felicidade. Eu estou muito feliz agora que sabemos mais sobre o que significa ser feliz”, disse ele.

Este foi o primeiro estudo a mostrar a relação entre felicidade e a região do pré-cúneo cerebral. Fenômenos complexos – como a felicidade – raramente resumem-se a uma região do cérebro, mas outras pesquisas recentes também apontaram um papel descomunal do pré-cúneo na sensação de alegria. Um estudo publicado este ano relacionou a região cerebral à depressão. E outro estudo de 2014 sugere que a região é ativada durante a autorreflexão e controla a sensação de “sonhar acordado”.

Apesar de parecer algo “esotérico”, os neurocientistas interessam-se em saber quais partes do cérebro humano podem gerar a sensação de felicidade, as pesquisas são importantes para o desenvolvimento de formas mais precisas de métodos que possam aumentar a sensação – como viagens, exercícios ou meditação.

“Vários estudos têm demonstrado que a meditação aumenta a massa cinzenta no pré-cúneo. Esta nova visão sobre onde a felicidade está localizada no cérebro será útil para o desenvolvimento de programas de felicidade baseados em pesquisa científica”, concluiu Sato.

 

Fonte: Jornal Ciência.

Cérebro humano pode armazenar 4,7 mil milhões de livros

Afinal a capacidade de armazenamento do cérebro é dez vezes maior do que se esperava, conclui estudo publicado no eLife

Cientistas do Salk Institute, da Califórnia, descobriram que a parte do cérebro humano que é reservada à memória tem muito mais capacidade do que se pensava, podendo armazenar qualquer coisa como 4,7 mil milhões de livros ou 670 milhões de páginas de internet.

Caso o cérebro fosse usado na sua máxima capacidade, o que não acontece, poderia acomodar um petabyte de informação, ou seja, cerca de um milhão de gigas. Este cálculo tem por base a medição das sinapses, que são as ligações cerebrais que estão associadas ao armazenamento de memórias. Em média, cada uma consegue armazenar 4,7 bits de informação.

A equipa de Terry Sejnowski, professor de neurobiologia computacional, investigou as ligações fundamentais do cérebro, as sinapses, no hipocampo, a região da memória. E descobriu que afinal há mais dimensões para as sinapses, que são determinantes para o armazenamento. Por outro lado, os tamanhos podem ir mudando consoante a atividade dos neurónios.

“Descobrimos que há dez vezes mais dimensões de sinapses do que se pensava”, diz Tom Bartol, um dos cientistas desta equipa. Neste caso, foram identificados 26, que correspondem ais tais 4,7 bits de informação, em vez de um ou dois, como se pensava.

“Esta é uma ordem de magnitude maior do que alguma vez alguém imaginou”, disse Sejnowski.

Outras conclusões relevantes desta investigação prendem-se com a eficiência do cérebro. O de um adulto gera apenas 20 watts de potência contínua, tanto como uma lâmpada de pouca potência. Esta descoberta, lê-se no comunicado relativo ao estudo, “poderá ajudar os cientistas computacionais a criar computadores mais eficientes, capazes de análises e aprendizagens sofisticadas como linguagem, reconhecimento de objetos e tradução.”

O estudo teve por base uma reconstrução de um fragmento de hipocampo elaborado para reproduzir as características exatas de cada sinapse no cérebro de um rato, acreditando a equipa que não seriam muito distintas das do relativas ao ser humano.

Fonte: DN.

Los adictos a los videojuegos tienen un cerebro distinto

Están más preparados para reaccionar, pero también controlan peor los impulsos.

Investigadores de Corea del Sur y EE.UU. han comprobado que el cerebro de los jugadores compulsivos de videojuegos está organizado de forma distinta que el de las personas sanas. En algunos casos eso es positivo, porque les hace estar más preparados para sucesos inesperados, pero también significa que tienen un control peor de los impulsos. Los investigadores no saben si son los videojuegos los que cambian el cerebro, o si son los que tienen el cerebro así los que se enganchan a ellos.

 

Las líneas unen las redes cerebrales conectadas. Imagen: Jeffrey Anderson. Fuente: Universidad de Utah.

Las líneas unen las redes cerebrales conectadas. Imagen: Jeffrey Anderson. Fuente: Universidad de Utah.

Los escáneres cerebrales de cerca de 200 muchachos adolescentes demuestran que el cerebro de los jugadores compulsivos de videojuegos está conectado de forma diferente.

La adicción a los videojuegos se asocia con hiperconectividad entre varios pares de redes cerebrales. Algunos de los cambios, se prevé, ayudan a los jugadores a responden a la nueva información. Otros cambios están asociados con la distracción y el pobre control de impulsos. La investigación, una colaboración entre la Universidad de Utah (EE.UU.) y la Universidad Chung-Ang (Corea del Sur), se ha publicado en línea en Addiction Biology.

“La mayoría de las diferencias que vemos podrían considerarse beneficiosas. Sin embargo, los cambios buenos podrían ser inseparable de los problemas que vienen con ellos”, dice el autor principal Jeffrey Anderson, profesor asociado de neurorradiología en la Facultad de Medicina de la Universidad de Utah, en la nota de prensa de ésta.

Las personas con trastorno por juegos de Internet están obsesionadas con los videojuegos, a menudo hasta el punto de que dejan de comer y de dormir para jugar. Este estudio informa que en los varones adolescentes con el trastorno, ciertas redes cerebrales que procesan la visión o la audición son más propensas a tener una mayor coordinación de la llamada red de prominencia. El trabajo de la red de prominencia es centrar la atención en los acontecimientos importantes, impulsando a la persona a la acción.

En un videojuego, la mejora de la coordinación podría ayudar a un jugador a reaccionar más rápidamente contra un luchador que se aproxima. Y en la vida, a una pelota lanzada delante de un coche, o una voz desconocida en una habitación llena de gente.

“La hiperconectividad entre estas redes cerebrales podría conducir a una capacidad más sólida para dirigir la atención hacia los objetivos, y para reconocer información nueva en el entorno”, dice Anderson. “Los cambios podrían básicamente ayudar a alguien a pensar de manera más eficiente.” Uno de los próximos pasos será determinar directamente si los chicos con estas diferencias cerebrales hacen mejor las pruebas de rendimiento.

Problema

Más problemática es la mayor coordinación entre dos regiones del cerebro, la corteza prefrontal dorsolateral y la unión temporoparietal, un cambio que también se observa en los pacientes con enfermedades neuropsiquiátricas, como la esquizofrenia, el síndrome de Down y autismo, y en personas con pobre control de impulsos.

“Tener estas redes demasiado conectadas puede aumentar la distracción”, dice Anderson. En este momento no se sabe si la adicción a los videojuegos provoca el cableado del cerebro, o si las personas que están conectadas de manera diferente se sienten atraídas por los videojuegos.

Según Doug Hyun Han, de la Facultad de Medicina de la Universidad Chung-Ang y de la Universidad de Utah, esta investigación es la mayor y más completa realizada hasta la fecha sobre las diferencias cerebrales de los jugadores compulsivos de videojuegos.

Los participantes del estudio eran de Corea del Sur, donde los videojuegos son una actividad social popular, mucho más que en los Estados Unidos. El gobierno de Corea apoya que se investiguen con el objetivo de encontrar formas de identificar y tratar a los adictos.

Resonancia

Los investigadores realizaron una resonancia magnética a 106 niños de entre 10 y 19 años que estaban en tratamiento para el trastorno por juegos de Internet, una enfermedad psicológica que, según el Manual Diagnóstico y Estadístico de los Trastornos Mentales (DSM-5), necesita una mayor investigación. Los escáneres cerebrales se compararon con los de 80 niños sin el trastorno, y se buscaron las regiones que se activaban simultáneamente cuando los participantes estaban en reposo, una medida de la conectividad funcional.

El equipo analizó la actividad de 25 pares de regiones cerebrales, 300 combinaciones en total. En concreto, los niños con trastorno por juegos de Internet tenían conexiones estadísticamente significativas y funcionales entre los siguientes pares de regiones del cerebro:

-Córtex auditivo (audición) – corteza motora (movimiento)
-Córtex auditivo (audición) – cortezas motoras suplementarias (movimiento)
-Córtex auditivo (audición) – cingulada anterior (red de prominencia)
-Campo frontal del ojo (la visión) – cingulada anterior (red de prominencia)
-Campo frontal del ojo (la visión) – ínsula anterior (red de prominencia)
-Dorsolateral de la corteza prefrontal – unión temporoparietal.

 

Referencia bibliográfica:
Doug Hyun Han, Sun Mi Kim, Sujin Bae, Perry F. Renshaw, Jeffrey S. Anderson: Brain connectivity and psychiatric comorbidity in adolescents with Internet gaming disorder. Addiction Biology (2015). DOI: 10.1111/adb.12347.
Fonte: Tendencias 21.

Pessoas bonsai

 

 

Rafael Nacif

 

Estamos a falar de mentalidades e de alargamento de vontades.

Muitas pessoas não sabem que aquelas pequenas e graciosas plantinhas japonesas conhecidas por bonsais mais não são do que plantas normais tornadas anãs por efeito de contensão das suas raízes em vasos diminutos, associada a criteriosa poda de ramos e rebentos. Há carvalhos que livres na Natureza atingiriam os 4 ou 5 metros de altura mas que apertados e inibidos no seu potencial de crescimento são bonsais que não ultrapassam os 15 ou 20 cms.

Com as pessoas acontece o mesmo. Nas devidas proporções, desde logo fisicamente. Os pequenos japoneses em pouco mais de 2 gerações (desde a II Guerra Mundial) aproximaram-se em altura dos norte-americanos. O que mudou: o tipo de alimentação na fase de crescimento. Simples. Afinal não somos assim tão fisicamente diferentes como nos julgamos.

Mas não são tanto os fenómenos físicos o que queremos aqui salientar, interessantes mas pouco substanciais. São os psíquicos, os que nos moldam a mente e a vontade, a a forma de sermos e de fazermos, de empreendermos, todo um conjunto de “pequenos nadas” de que brota uma mentalidade, que dá corpo a uma sociedade, que faz nascer uma civilização. Os “pequenos nadas” verdadeiramente importantes.

Há uns tempos atrás passei numa estrada no campo e vi num não muito grande terreno talvez uma dúzia de vacas e, numa ponta da pequena propriedade, uma roulote habitada por um jovem louro, talvez um holandês. Dois anos depois aconteceu passar pela mesma estrada e em vez da roulote havia agora uma casinha construída, habitada já por uma família de louros, tendo as vacas substancialmente aumentado. E pensei: isto é empreendedorismo. E questionei para mim próprio: porque é que os camponeses daqui não fazem a mesma coisa? Porque é que não têm a mesma iniciativa?

Não fazem – refleti eu mais tarde – porque “lhes falta mundo”, porque lhes falta visão, mentalidade. Mas não por sua culpa. Nasceram ali, sempre viveram ali, o seu mundo foi sempre ali, tudo foi sempre assim, não sabem (não conhecem) que há outros mundos, que tudo pode ser diferente. São bonsais de cabeça.

Para nós é fácil. Para nós que conhecemos empresas, que conhecemos negócios, que conhecemos mundo, para nós é fácil vermos oportunidades num pedaço de terreno onde se podem criar vacas, que podem ser vendidas, para a seguir se poderem comprar mais vacas, etc., etc. Um camponês não é melhor nem pior que um louro holandês. É apenas um bonsai de visão, estreitada que foi por falta de conhecimentos e de horizontes.

Estamos a falar de mentalidades e de alargamento de vontades. Mas suponhamos que esse camponês que estamos a imaginar tomava mesmo a iniciativa de comprar um terreno para lá lhe colocar uma dúzia de vacas. Qual o banco que lhe emprestaria capitais sem sólidas garantias? Como faria? E a que juros? E depois a quem venderia o camponês as vacas? Qual o circuito comercial? Quem o ajudaria?

Mas para o tal holandês foi igual!

Não, não é verdade. O holandês aprendeu desde cedo a lidar com bancos, nasceu e cresceu numa sociedade em que se premeia o empreendorismo, tem amigos e conhecimentos valiosos, o mundo é seu amigo. É um “carvalho” convicto, confiante e determinado. O mundo do camponês não! Enquanto o holandês teve terra para estender as suas raízes e crescer livremante, o camponês viu-se fechado num ambiente hostil, ficou raquítico, como homem e como ser, transformou-se num homem bonsai.

O que é verdade nesta alegoria do holandês e do camponês é verdade para regiões subdesenvolvidas do mundo, para países ou civilizações que com muita facilidade acusamos os seus naturais de indolentes ou pouco espertos, sem nos lembrarmos que na esmagadora maioria das vezes a administração pública nestes sítios não é amiga do cidadão, que o ambiente económico é hostil, que os créditos são extremamente difíceis, que a formação de uma empresa é um martírio de burocracia, etc., etc., etc.

“Todos os Homens nascem Livres e  Iguais em Dignidade e Direitos”, diz no seu Artigo Primeiro Declaração Universal dos Direitos Humanos. Só que logo a seguir uns desenvolvem-se em terra livre enquanto outros ficam enclausurados como bonsais.

Além de que há ainda mais outra coisa, um pequeno pormenor: somos pessoas, não plantas!

 

Empresário e investidor internacional

 

Fonte: Público.

 

Pacientes de Alzheimer beneficiam do contacto emocional

Ao contrário do que 2 em cada 5 pessoas acredita, o contacto com a família e os amigos é benéfica para os pacientes de Alzheimer, mesmo quando estes já não capazes de os reconhecer.

Sean Gallup/Getty Images

É errado pensar que os pacientes com Alzheimer não retiram benefícios do contacto com familiares e amigos que já não reconhecem. O alerta é dado por um estudo levado a cabo pela instituição de caridade britânicaSociedade de Alzheimer.

A pesquisa revela que 42% das pessoas inquiridas acredita erradamente que quando os doentes de Alzheimer deixa de reconhecer os entes queridos, já não beneficiam do contacto com eles.

A investigação refere ainda que 64% das pessoas com Alzheimer se sentiram isolados de familiares e amigos, após a doença ter sido diagnosticada. E 41% referiram que ser incapaz de reconhecer amigos e familiares iria fazê-los sentir-se mais isolados do que o corte de relações com familiares ou divórcio.

A instituição britânica afirma que os resultados do estudo mostram que quem sofre de Alzheimer precisa de passar mais tempo com parentes e entes queridos para evitarem a solidão. Mesmo que mais tarde não consigam lembrar-se da visita e já não reconheçam as pessoas, os doentes de Alzheimer continuam a manter a “memória emocional”, que lhes permite sentirem-se felizes mesmo depois de esquecerem o que provocou esse sentimento.

Cerca de 68% responderam que tencionam manter as visitas aos seus familiares e amigos, mesmo quando deixarem de os reconhecer. “Apesar dessas boas intenções, a falta de consciência de quão importante é a memória emocional para os doentes, as pessoas nem sempre concretizam as suas intenções e mais da metade dos pacientes de Alzheimer sentem-se isolados e sozinhos,” refere a instituição.

Esta “memória emocional” permite “estimular sentimentos de familiaridade, felicidade, conforto e segurança”, frisa a Sociedade de Alzheimer. E estes sentimentos têm um grande impacto na disposição e bem-estar geral de quem sofre de Alzheimer.

 

Fonte: Observador. 

Perdoar faz bem à saúde

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Alimentar rancor, vingança, ódio é o pior que podemos fazer a nós próprios. Perdoar, diz a ciência, faz-nos mais felizes e torna-nos mais saudáveis. E, afinal, não é isso tudo o que queremos?

O perdão, tradicionalmente estudado pela filosofia e um dos tópicos prediletos da teologia, há muito que saltou também para o campo da psicologia e da ciência. E esta defende que perdoar é o melhor remédio.

A forma mais objetiva de definir perdão é como processo mental que elimina ressentimentos ou rancores em relação a outra pessoa ou a nós próprios. Mas talvez a mais poética seja esta que Fred Luskin, o diretor do Stanford University Forgiveness Project propõe: perdoar é a experiência de poder estar em paz, independentemente do que aconteceu na nossa vida há cinco minutos ou há cinco anos. Perdoar não é esquecer, é viver tranquilamente com o que não se esquecerá. «Tal como é estudado na psicologia, é um ato de amor e compaixão para com alguém cujo procedimento nos magoou, mas também uma forma de nos libertarmos de sentimentos de vingança e ressentimento, que geram emoções negativas», diz a psicóloga Catarina Rivero.

É também importante, no entanto, perceber aquilo que o perdão não é: não se trata de esquecer ou aceitar as injustiças que nos são dirigidas. «É um processo de olhar para além dos atos e comportamentos dos outros, centrando-nos na importância da nossa libertação emocional, recusando ser prisioneiros de emoções que podem ser destrutivas», continua Rivero. Expressão chave a reter: emoções que podem ser destrutivas. O rancor é cansativo. Desgastante. Suga força e energia. De tal forma que, no limite, pode pôr-nos doentes, não só psicológica e emocionalmente, mas também fisicamente. A boa notícia é que, na realidade, como a falta de paz e o rancor são provocados por nós – não pelo outro –, não dependemos de ninguém para remediar a situação. «A investigação tem vindo a demonstrar correlações positivas como maior bem-estar subjetivo (geralmente considerada como felicidade), menores níveis de depressão e ansiedade, bem como menor abuso de substâncias, quando se perdoa. Verifica-se ainda uma tendência para maior harmonia ao nível das relações familiares», diz Catarina Rivero.

Impõe-se um parêntesis que contextualize estes e outros estudos sobre o perdão realizados na área da psicologia positiva. Sobretudo, para que nada disto se confunda com algumas crenças desprovidas de bases científicas características da filosofia New Age. Na realidade, a psicologia positiva nasce de uma constatação que só peca por tardia: a psicologia há décadas que se dedicava a investigar quem estava deprimido, quem tinha fobias, quem não superava traumas e todas as outras pessoas com as quais alguma coisa não estava bem. No entanto, não sabia nada sobre as pessoas funcionais, aquelas que, apesar dos reveses da vida, estavam mentalmente saudáveis, eram otimistas e conseguiam ser felizes.

Foi psicólogo Martin Seligman, algures no não muito longínquo ano de 1998, durante a sua presidência da American Psychological Association, que começou a chamar a atenção para esse assunto, perguntando qual o sentido de insistir em centrar a psicologia só no transtorno, na disfuncionalidade, na doença. Assim começou a ganhar expressão novo campo de investigação, a Psicologia Positiva, que olha para as pessoas não só nas suas limitações e dificuldades, mas também nos seus sucessos: na superação das adversidades, nos recursos de que se valem, nos processos de adaptação positiva que fazem.
E adivinhem: temos aprendido muito com isso. Por exemplo, que o perdão pode ser terapêutico.

Um estudo chamado «Perdão e Saúde Física», realizado pela Universidade do Wisconsin, demonstrou que perdoar pode ajudar os indivíduos de meia-idade a evitar doenças cardíacas, outro, levado a cabo na Universidade de Stanford, mostrou que o perdão pode promover também uma diminuição significativa de sintomas como insónias, náuseas, falta de apetite e dores de cabeça e de costas.

Perdoar não é fácil. Talvez porque nas nossas cabeças, o foco do perdão está no outro, não em nós. E repare-se como a lógica subjacente a não perdoar tende a ser tautológica: não perdoamos porque o que foi feito é imperdoável. Mas a realidade é que por detrás da rejeição ao perdão estão muitas vezes crenças poderosas acerca do que ele representa: humilhação, fraqueza, perpetuação da injustiça. Somos levados a pensar que perdoar é abrir a porta a uma nova ofensa, é ser palerma, « bonzinho», ingénuo ou até ter falta de coragem e de determinação. E assim vamos sustentando e alimentando a raiva.

No entender de Helena Marujo, professora do Instituto Superior de Ciência Sociais e Políticas, cuja principal área de investigação é a Psicologia Positiva, a tendência anti-perdão é também uma tentativa de luta contra o esquecimento. «O preconceito emerge porque receamos – e muitas vezes com razão – que o perdão apague da nossa memória individual e coletiva as atrocidades, injustiças, violências, desumanizações. Para uma espécie racional como a nossa, o sentido de evolução é essencial, se achamos que ao perdoar passamos uma borracha sobre o dano, temos medo de que esse perdão não nos leve a essa melhoria, que nos assegura também mais hipóteses de sobrevivência. Pensamos também, por vezes, que perdoar é perder poder, numa situação em que muitas vezes já nos sentimos desempoderados.» Mas perdoar não é nem deve ser esquecer.

Na verdade, trata-se sobretudo de parar de escarafunchar na ferida e deixar que a cicatriz se forme. Seligman, o pai da psicologia positiva, defende que o perdão não faz mais do que enfraquecer o poder que os acontecimentos negativos têm de provocar raiva e amargura. E permite reescrever a história e renovar a memória. «Perdoar é sempre ser protagonista de uma nova história. Deverá ser uma tomada de decisão determinada, que é muitas vezes libertadora, desconstrutora de narrativas e histórias de vida rigidificadas, que só se renovam com o perdão. Podemos afastar-nos e proteger-nos de quem nos feriu, humilhou, destruiu, manipulou, trouxe sofrimento e ao mesmo tempo perdoar», defende Helena Marujo.

A investigadora conta que, num exercício com alunos da universidade, em que estava envolvida a experiência da escrita privada de uma carta de perdão (a si ou a outrem, à escolha do próprio), uma descoberta foi precisamente a de poder olhar para um passado doloroso e arruinado – como o de um pai que se suicidou, o de um marido maltratante, o de uma avó que nunca aceitou um neto com deficiência – e reescrevê-lo de uma forma não vitimizadora mas vitoriosa. «Assim se criam novas memórias, e ao mesmo tempo, um novo futuro.»

Não é que a maldição se transforme numa bênção, mas lá dizia Martin Luther King que o perdão é um catalisador para uma nova partida, para um reinício. E às vezes disso que precisamos. Bom ano novo.

Como perdoar?

Com base nos estudos de Robert Enright, co-fundador do International Forgiveness Institute, Catarina Rivero faz notar que o processo de perdão é um caminho que começa sempre pela dor e pelo reconhecimento de que temos direito a sentir mágoa, tristeza ou mesmo revolta, mas que implica também a capacidade de compreender que os outros falham, mesmo que não aceitemos essa passagem de limites. As quatro fases deste processo – que podem levar diferentes tempos, de acordo com as circunstâncias e vicissitudes da situação e da relação específica – são:

» Desocultação da raiva, considerando a sua influência na nossa forma de viver e sentir;

» Decidir perdoar, a partir de dentro e no tempo de cada um;

»  Trabalhar o perdão desenvolvendo empatia e compaixão;

» Descobrir e libertar-se da prisão emocional.

 

Fonte: Notícias Magazine.

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