Portugueses estudam «culpados» por morte de neurónios nas doenças de Alzheimer e Parkinson

Um estudo de dois jovens investigadores portugueses acerca do papel dos percursores tóxicos e dos aglomerados proteicos na morte dos neurónios em doenças como Alzheimer e Parkinson é hoje publicado na revista científica internacional PLoS ONE

Intitulado Formation of Toxic Oligomeric a-Synuclein Species in Living Cells (Formação de Espécies Tóxicas de Alfa-Sinucleina em Células Vivas), o estudo pode desde já ser lido na versão digital da revista – alojada em http://www.plosone.org – e será posteriormente publicado na edição impressa.

Em doenças como Parkinson e Alzheimer, uma das questões centrais prende-se com a identificação dos «culpados» pela morte dos neurónios que se perdem nestas patologias e, até há pouco tempo, a presença de aglomerados proteicos no cérebro era a explicação lógica para o mau funcionamento ou a morte neuronal.

Porém, o trabalho desenvolvido pelos investigadores portugueses Tiago Fleming Outeiro, de 31 anos, e Filipe Carvalho, de 27 anos, em conjunto com seis colegas da Escola Médica de Harvard, nos EUA, mostra que a morte dos neurónios pode ter uma explicação mais complexa. «Pela primeira vez, conseguimos visualizar, em células vivas, os precursores dos aglomerados proteicos, concluindo que são até mais tóxicos para as células», declarou Tiago Outeiro, que a 22 de Junho publicou um estudo sobre a doença de Parkinson na revista Science.

No âmbito da investigação, desenvolvida ao longo de dois anos (entre 2005 e 2007), o grupo aplicou uma técnica inovadora, «que consiste na complementação da actividade de uma proteína fluorescente (proteína fluorescente verde ou GFP) através da junção de duas metades não funcionais da mesma proteína», explicou Tiago Fleming Outeiro, exemplificando que é «como juntar duas metades de uma moeda partida ao meio». A utilização desta técnica permitiu detectar a formação de micro-aglomerados, que não era possível observar noutros moldes devido às suas reduzidas dimensões.

Os investigadores observaram também que proteínas como a HSP70, pertencente a uma família conhecida como «chaperones moleculares» (que participam no funcionamento normal de diversas proteínas dentro das células), têm a capacidade de prevenir a formação destes micro-aglomerados, reduzindo a toxicidade que lhes está associada.
Segundo Tiago Outeiro, «além de constituir um avanço técnico na observação das partículas tóxicas», a investigação permite «o desenvolvimento de novas estratégias para reduzir a toxicidade das mesmas».

As descobertas são válidas para Alzheimer, Parkinson e outras doenças com percursores tóxicos e aglomerados proteicos e abrem a porta a novas oportunidades terapêuticas, «permitindo avançar para a criação de uma substância química – que assumirá posteriormente a forma de um medicamento – para actuar ao nível dos percursores, nomeadamente impedindo a sua formação», explicou o jovem investigador.

Os medicamentos poderão vir a ser utilizados logo que surjam os primeiros sintomas, de modo a travar a progressão da doença, ou a título preventivo em pessoas que, devido a factores genéticos ou ambientais, façam parte de grupos de risco.

Em Dezembro, Tiago Outeiro revelou que um teste para detectar a probabilidade de uma pessoa vir a desenvolver a doença de Alzheimer estava disponível no Instituto de Medicina Molecular, embora a sua realização dependa de indicação médica.
O teste – destinado a pessoas que reúnem condições específicas, como terem mais de 60 anos ou terem doentes de Alzheimer na família – consiste na determinação dos níveis de 18 proteínas no plasma sanguíneo em pessoas que estão em estádios iniciais da doença, ou seja, quando os sintomas ainda não se manifestaram. «Quando o teste dá resultado positivo, a fiabilidade ronda os 85 por cento», esclareceu Tiago Outeiro, acrescentando que entre o resultado e o surgimento dos primeiros sintomas podem passar até cinco anos.
À data, o investigador afirmou igualmente que a sua equipa estava a tentar desenvolver um teste capaz de facultar resultados fiáveis também para o risco de incidência da doença de Parkinson.

Neste momento estima-se que existam em Portugal 70 mil pessoas afectadas pela doença de Alzheimer e 20 mil a sofrer de Parkinson.

Doutorado em Ciências Biomédicas no Instituto Tecnológico de Massachusetts, nos Estados Unidos, Tiago Fleming Outeiro concluiu um pós-doutoramento em Harvard e está há sete meses no Instituto de Medicina Molecular, em Lisboa, onde lidera um grupo de sete pessoas que se dedica ao estudo da base molecular de doenças neurodegenerativas com o objectivo de desenvolver novas formas de intervenção nas patologias ainda sem cura.

Filipe Carvalho, que em 2006, quando era estudante de Medicina no Porto, trabalhou durante dois meses com Tiago Fleming Outeiro na Escola Médica de Harvard, integra esta equipa do Instituto de Medicina Molecular.

Fonte: Lusa / SOL.

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