Crianças portuguesas demasiado medicadas

Há tempos, num congresso de saúde mental, em Faro, soube que as crianças portuguesas eram as segundas mais medicadas para a hiperactividade, síndrome recente e de contornos polémicos. À nossa frente, apenas as dos EUA. Lembrei-me disso quando hoje li um estudo publicado na revista Pediatrics, que revelava preocupação com a excessiva medicação das crianças inglesas com anti-psicóticos.

No Algarve, os especialistas também me pareceram angustiados, até porque não se trata de algum fenómeno genético que, por azar, atraiçoou os nossos miúdos. Se as causas não estão (todas) dentro, estão fora. E, provavelmente, a escola primária estará pouco preparada para apoiar crianças com dificuldades de aprendizagem, aliás como os números de chumbos no final do 2.º ano claramente indicam (1 em cada 10 não aprende, até aí, a ler e a escrever). Ficar quieto e mudo durante longos períodos é um exercício que exige uma maturidade que muitas vezes, sobretudo os rapazes, demoram a dominar. Dai à professora chamar os pais para lhes dizer que o menino tem problemas, vai um passo.

O seguinte é ainda mais rápido. Enquanto o diabo esfrega um olho, os pais estão no médico, aproveitando para mostrar a sua perplexidade perante aquela criança que não pára (provavelmente é a primeira com que convivem 24 horas sobre 24). Nesse momento joga-se muito. Ou o técnico é capaz de os ajudar a entender aquele filho, reforçando a auto-estima de todos os envolvidos, e deixando claro que colocar limites e dizer que «não» é um dever paterno, assim como enfrentar as eventuais dificuldades e ultrapassá-las, ou opta por uma medicação, e aí é possível que se instale um círculo vicioso, difícil de quebrar. Porque, revela o estudo, é provável que estes remédios tenham efeitos graves num cérebro e numa personalidade em desenvolvimento. Mais ainda, raramente se justificam, afirma a pesquisa, havendo alternativas com vantagens para os filhos. E quando os filhos ganham, os pais também.

Fonte: Isabel Stilwell no Destak.

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