Poucos combatentes curam traumas

Muitos dos antigos combatentes vivem presos ao passado sem se conseguirem libertar das imagens, sons, emoções e experiências vividas em palcos de guerra, onde se mata para não morrer. Já passaram mais de 30 anos sobre os combates da Guerra Colonial portuguesa, mas as recordações estão mais frescas na memória do que os acontecimentos do dia anterior. Sofrem de stress pós-traumático. Um mal que afecta outras pessoas quando sujeitas a acontecimentos marcantes.
O número de ex-militares que sofre de stress pós-traumático em Portugal não está contabilizado e há poucas referências estatísticas, porque a maioria não admite sequer estar doente.
Muitos dos antigos combatentes do Ultramar, que sofrem daquela doença psicológica, vivem ainda o inferno, as experiências de guerra, juntamente com as mulheres e filhos. Alguns estão sozinhos e não têm qualquer apoio familiar. Outros procuram ajuda clínica, muitos anos ou décadas mais tarde.
Pelo gabinete da psicóloga Teresa Infante, na Associação dos DeficientesdasForçasArmadas (ADFA),em Lisboa,passou em 2007 certamente mais de uma centena de ex-combatentes.
O trauma das experiênciasdramáticas que viveram na guerra, para a qual dizem não ir minimamente preparados, é praticamente comum a todos. “De uma forma geral, todos os antigos combatentes que sofrem de stress pós-traumático, têm os mesmos sintomas. Foi tão intensa a experiência da guerra que não esquecem,mesmo passados mais de 30 anos desde os acontecimentos.”

Rede de apoio

Alguns dos antigos combatentes procuram ajuda mas a porta de entrada no Serviço Nacional de Saúde (SNS) para obter apoio psiquiátrico ou psicológico não é fácil de encontrar, mesmo depois de o Governo ter criado, em 1999, a Rede Nacional de Apoio aos Militares e Ex-Militares, que entrou em funcionamento dois anos depois. “É um drama”, sublinha a psicóloga.
Na instituição há ainda militares que combateram nas guerras da ex-Jugoslávia e Afeganistão e que procuram ajuda para afastar os seus fantasmas.
Sem rede de apoio, familiar ou institucional, alguns ex-combatentes refugiaram-se no álcool e nas drogas. Há quem viva hoje nas ruas de Lisboa.

Pesadelos, choros e medo

O stress pós-traumático é uma forma de ansiedade após um acontecimento traumático. Entre as várias causas que estão na sua origem destacam-se a guerra, tortura, abuso sexual, catástrofes naturais, explosões, quedas de aviões, acidentes de trânsito, morte de um familiar ou um aborto. Pode tornar-se numa doença psiquiátrica crónica. Os sintomas são também vários sendo frequentes pensamentos ou pesadelos relacionados com os traumas, insónia, perda de apetite, ansiedade, medos, depressão, alterações da memória e choro.

Unidades sem informação
Alguns centros de saúde e hospitais não conhecem os formulários obrigatórios (Modelo 1 para os centros e Modelo 2 para os hospitais), que os médicos têm de preencher para encaminhar o doente para a Rede Nacional de Apoio. A Rede permite a assistência psiquiátrica e psicológica no Serviço Nacional de Saúde e a determinação do grau de incapacidade. O controlo dos processos está mais apertado pelo Ministério da Defesa e o diagnóstico tem de ser feito em 60 dias. “Muitas pessoas desconhecem esse período e aguardam meses pela marcação da consulta. Se não tiverem o Modelo 2 preenchido em 60 dias perdem a possibilidade de entrar na Rede”, diz a psicóloga Teresa Infante.

Guerra Colonial
Nos 13 anos que durou a Guerra Colonial participaram 1,2 milhões de militares, segundo a Associação Portuguesa dos Veteranos de Guerra. Designa-se por Guerra de África, Colonial ou do Ultramar, designação oficial portuguesa do conflito até ao 25 de Abril.
Morreram 8831 militares portugueses na Guerra do Ultramar. Os seus nomes estão gravados em Belém.

1961-1974
A Guerra do Ultramar foi o confronto entre as Forças Armadas Portuguesas e as forças organizadas pelos movimentos de libertação das antigas províncias ultramarinas de Angola, Guiné e Moçambique. Decorreu entre os anos de 1961 e de 1974.


Fonte: Cristina Serra, no Correio da Manhã.

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