Damásio investiga efeitos da rapidez da TV nas crianças

O neurocientista português António Damásio disse hoje à agência Lusa que os resultados do primeiro estudo científico sobre o sentimento da admiração, por si liderado, abrem caminho para investigações sobre os efeitos da rapidez da televisão nas crianças.

«O cérebro precisa de mais tempo e mais contexto para processar as emoções de admiração e de compaixão», salientou António Damásio, admitindo que os resultados do estudo que liderou, recentemente publicados, possam levar investigadores de outras áreas científicas a estudar os efeitos de histórias contadas muito rapidamente.

Para o investigador da Universidade do Sul da Califórnia, poderá ser investigado no futuro o que acontece ao desenvolvimento do cérebro «se se contar uma história rapidamente e sem contexto».

«A ênfase seria sempre para o cérebro formativo das crianças e não dos adultos», salientou Damásio, admitindo que o objecto de estudo possam ser «imagens rápidas de notícias na televisão».

António Damásio lamentou que alguns órgãos de comunicação social, nomeadamente no Reino Unido e nos Estados Unidos da América, tenham associado os resultados do estudo que conduziu a novas ferramentas de comunicação na Internet, como a rede de microblogs Twitter.

«A nossa investigação é sobre o cérebro e não temos nada a concluir sobre os media», frisou o investigador português, notando que o artigo publicado na semana passada nas Actas da Academia Nacional das Ciências dos Estados Unidos não faz qualquer referência ao Twitter, tendo apenas um dos avaliadores feito uma ligação abusiva às redes sociais na Internet.

«Devo confessar que nunca fiz Twitter, mas, que eu saiba, o Twitter não tem nada a ver com a rapidez, mas sim com o limite de 140 caracteres por mensagem», acrescentou.

Os quatro autores do artigo, entre os quais o casal António e Hanna Damásio, concluíram que o cérebro leva mais tempo a processar sentimentos como a admiração ou a compaixão ante o sofrimento psicológico alheio.

Os seres humanos podem processar a informação muito depressa e responder em fracções de segundos a sinais de dor física, porém, a admiração e a compaixão, duas das emoções que definem a humanidade, requerem muito mais tempo, precisaram os investigadores da Universidade do Sul da Califórnia.

Os cientistas usaram histórias reais convincentes para induzir em 13 voluntários um sentimento de admiração perante uma virtude ou habilidade e compaixão face ao sofrimento físico e moral.

O grau de emoção foi verificado através de uma série de entrevistas antes e depois da captação de imagens do cérebro.

Estas mostraram que os voluntários necessitaram de seis a oito segundos para reagir plenamente às histórias sobre a virtude ou sofrimento moral.

Contudo, uma vez despertada esta emoção, a resposta durou muito mais do que as reacções suscitadas pelas histórias que se centraram na dor física.

O estudo é o primeiro que investiga as bases nervosas da admiração e que incide na compaixão num contexto mais amplo do que a dor física.

Os cientistas também observaram que estas emoções estão fortemente enraizadas no cérebro e nos sentidos, afectando sistemas nervosos primordiais que regulam a química sanguínea, o sistema digestivo e outras zonas do organismo.

Fonte: Destak.

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