A depressão ligeira não se cura com comprimidos

O conhecido psiquiatra e psicanalista Amaral Dias critica o abuso de medicamentos para tratar perturbações que deviam ser acompanhadas por psicoterapias.

O primeiro estudo nacional sobre o assunto conclui que 23% dos portugueses já tiveram uma perturbação mental. Como interpreta este dado?

Grande parte destes transtornos têm um problema associado que é a forma como são seguidos, a maior parte com medicação psiquiátrica. E isso vai contra todos os estudos. As depressões major precisam de medicação. Mas nas depressões ligeiras e na ansiedade sem pânico uma psicoterapia, a uma média de duas vezes por semana, é muito mais efectiva.

O consumo desses medicamentos é elevado no país. É a prova de que as pessoas são mal tratadas?

Exactamente. Há uma correlação. E isso é um problema. Temos que nos perguntar porquê.

Por que tomar um comprimido é mais fácil? Ou por que não há apoios para as psicoterapias, e elas são caras?

Os psiquiatras mais jovens são cada vez mais treinados dentro da psiquiatria biológica. A formação na psiquiatria mais compreensiva tem vindo a diminuir. Isso é preocupante. Ao mesmo tempo, não há, e seria importante que houvesse, uma forma de o Estado subsidiar efectivamente pelo menos uma parte das sessões. A consulta de psiquiatria é paga como qualquer acto médico, mas as psicoterapias têm uma comparticipação irrisória. Há uma discriminação negativa das psicoterapias.

O princípio dos cuidados universais e tendencialmente gratuitos não se aplica à saúde mental?

O Estado não fornece os cuidados necessários aos pacientes. E isso é uma coisa importantíssima na saúde mental em Portugal. Preocupa-me o uso indiscriminado de psicofármacos. Muitas situações que fazem parte dos processos de vida são hoje tratadas com fármacos. É excessivamente frequente dar comprimidos para tratar um trabalho de luto quando é um processo normal na vida, que requer um tempo para a elaboração da perda e desinvestimento no objecto de amor perdido. Esta situação pode ser susceptível de psicoterapia, mas não é susceptível de medicação.

Esse tipo de tratamento funciona apenas como um adormecimento? Tem consequências para o paciente?

Tem. Por exemplo, numa pessoa com ataques de pânico podemos distinguir entre o sintoma e aquilo que chamo o sintoma enigma: a história do paciente. Se não decifrar o enigma, não vai livrar-se da razão pela qual tem os ataques de pânico. Eles podem não ocorrer enquanto estiver medicado, mas quando se tira a medicação descompensa outra vez. Se trabalharmos esses sentimentos com a pessoa, a ajuda efectiva é maior do que apenas quando se dá um fármaco. A capacidade de estar com o doente é muito importante. Tive uma adolescente de 18 anos que tinha um conjunto de questões complexas, um longo passado psiquiátrico, com medicação. Mas nunca tinha falado dos seus problemas. Tinha ataques de pânico, medicaram-na e mandaram-na voltar três meses depois.

Há perturbações mentais típicas de cada época? Que tipo de consequência tem actual crise, o aumento do desemprego, da instabilidade?

As guerras, crises económicas e sociais não aumentam nem diminuem as doenças psiquiátricas graves, como a esquizofrenia. Mas aumentam os transtornos mentais comuns. Uma pessoa deixa de ter dinheiro para pagar a casa, não pode cumprir os compromissos habituais, cuidar dos filhos como deseja… É um factor de fragilização emocional, facilmente pode entrar numa situação depressiva. Os transtornos da ansiedade e a depressão são os mais frequentes. Mas só a crise não justifica os 23% de perturbações, porque essa crise também se encontra noutros países e a prevalência é menor. Provavelmente Portugal não é assim tão semelhante aos países do Sul da Europa como se pensa, tem uma especificidade que merecia ser estudada. Somos muito mais reservados, introvertidos, há um maior sentimento de pessimismo, de dúvida sobre o futuro. O sentimento de que o país está mais fragilizado é maior.

Há alterações no perfil do paciente que chega aos consultórios?

O que se alterou significativamente são as chamadas patologias Borderline, os estados de fronteira. Nem são neuróticos nem psicóticos, não são graves nem ligeiros, encontram-se entre uma coisa e outra, têm muitas vezes associadas outras coisas, como patologias do impulso, misturadas com coisas depressivas, perturbações de dependência, toxicodependências, anorexia. Estão em nítido crescimento. No tempo de Freud, a histeria correspondia ao doente tipo, hoje a patologia Borderline está a crescer. E esses pacientes são graves.

São mais difíceis de tratar?

São. Primeiro porque não têm uma sintomatologia clara. Estão muito associados à perturbação da dependência. Se este paciente encontra no seu caminho drogas, vai transformar-se num toxicodependente. Mas a perturbação da dependência era anterior, as drogas são um acontecimento fortuito. O mesmo acontece com as anorexias. Muitos casos eram raparigas muito certinhas, não davam problemas, muito dependentes do que os pais pensavam delas. De repente fazem uma anorexia. Quando estudamos para trás encontramos personalidades muito dependentes. Às vezes, é também um factor fortuito, a jovem entra numa loja para comprar umas calças e alguém lhe diz que estão um bocadinho apertadas. Só isso pode ser suficiente para funcionar como um click na cabeça daquela pessoa. Mas é uma coisa secundária em relação a um quadro primário, que é a perturbação de dependência. É um sintoma complexo. Na histeria, havia um problema que era ligado à sexualidade, na patologia Borderline está ligado à dependência. São problemas muito mais primitivos na organização psicológica e têm a ver com o factor de proximidade da relação mãe/filho, o tempo que a mãe dispõe para o filho, o que se estabelece de verdadeiramente significativo entre uma mãe e uma criança. E no nosso tempo esta patologia está a aumentar.

O que explica esse aumento?

Historicamente, as mulheres passaram a privilegiar os factores de progressão, a carreira, a estabilidade emocional, social e financeira. E um filho acaba por ser um problema que vem perturbar esta carreira. São mães mais tardias e têm pouco tempo para os filhos. Privilegiaram o sucesso delas próprias. A culpa é delas? Ou é da pressão social? Certo é que o tempo que dispõem para os filhos é menor. Logo, a perturbação da dependência é maior. Certas funções que cabiam ao materno passam a ser cumpridas pelas creches, infantários, pelos berçários…

Essas funções primárias não podem ser assumidas pelo pai?

Uma coisa são as pessoas, outra são as funções. A mãe não é apenas uma pessoa, é um conjunto de funções para a criança, a de cuidar, alimentar, estar atenta aos sinais, adormecer. Isso pode ser desempenhado pela mãe ou pelo pai. Mas a questão não é essa. Os homens e as mulheres do nosso tempo dispõem verdadeiramente desse tempo? O problema também se coloca no homem.

Temos crianças mais carentes?

Mais carentes de organização de uma dependência normal. Há um tempo de satisfazer uma carência, um tempo de desenvolvimento em que temos uma dependência normal, que nos satisfaz, e então podemos partir dessa dependência. Quando não a satisfazemos, andamos à procura dela toda a vida. E isso acontece hoje muito mais.

Essa ideia da diferença entre o papel masculino e feminino ainda faz sentido com os novos conceitos de família?

As funções primárias, como as de alimentar, podem ser desempenhadas tanto por uns e outros. As sexuadas, que são secundárias, não. É a diferença entre o objecto de necessidade e o de desejo. As primeiras podem ser desempenhadas pelo pai, embora se deva dizer que uma criança ao quinto dia discrimina o cheiro de uma t-shirt vestida pela mãe, interage mais com os sons mais agudos da mulher. Provavelmente preferiria ser cuidada por uma mulher. Mas, à falta de melhor, podem ser desempenhadas pelos homens, desde que cumpra as funções. Agora, nos objectos de desejo, a questão já é outra. Implica representatividade do masculino e do feminino.

É a favor da adopção por casais do mesmo sexo?

Eu sou favorável. Há uma série de estudos, não são um nem dois, são muitos, sobre as crianças criadas por pais do mesmo sexo. Não se verificam alterações nas escalas de comportamento moral, no desempenho na escola, e não há um maior número de homossexuais.

Os dados científicos provam então que não há quaisquer malefícios para a criança.

Provam, e isso vale a pena ser dito. Eu não tenho nenhuma visão ideológica sobre o assunto. Tenho um ponto de vista objectivo: não há prejuízo para a criança. Este é um debate muito marcado pela ideologia e muito pouco pela ciência. E devia ser marcado pela ciência.

Quando fala na representatividade do masculino e do feminino – o próprio conceito do complexo de Édipo assenta na ideia de a criança perceber que o pai e a mãe são diferentes, identificar-se com um e desejar o outro -, como se processa num casal homossexual?

Da mesma forma que acontece numa criança que perde o pai ou a mãe. Há figuras substitutivas, quantas e quantas existem no quotidiano? O avô, a avó, o tio… Não têm que existir necessariamente em casa. Não há apenas o pai e a mãe, há muitos outros canais.

Essa posição é consensual dentro da classe?

Não. Devo estar numa posição minoritária. Mas nunca deixei que factor ideológico prevalecesse sobre o científico.

Por que não há consenso científico ou também por uma questão ideológica?

Porque a ideologia se sobrepõe.

Fonte: Ionline.

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