10% dos portugueses são viciados no trabalho

Há cada vez mais ‘workaholics’. Em Portugal, são sobretudo homens na casa dos 30 anos, como médicos, gestores e advogados. Mas é entre as mulheres que o número aumenta. Os médicos advertem que têm mais problemas de saúde, ansiedade e isolamento.

Durante a noite, fala alto como se estivesse no tribunal, tem insónias porque matuta nos processos por resolver, almoça ao computador, sai tarde do escritório e descobriu recentemente que tem uma úlcera nervosa e uma tendinite no pulso direito. Marta F., 36 anos, é advogada e assume-se como workaholic. Mas não perante o patrono do escritório de advogados, onde trabalha em Coimbra.

Calcula-se que em Portugal 10% da população seja workaholic, ou seja, viciada no trabalho. “São pessoas cujos objectivos e estratégias de vida passam unicamente pela profissão, numa busca constante da perfeição”, descreve o psicólogo clínico Victor Cláudio. Embora seja entre as mulheres que o número de casos mais tem crescido, devido à busca pela valorização profissional, os workaholics ainda são sobretudo homens na casa dos 30 anos, em lugares de topo como gestores, administradores, médicos, advogados ou profissionais da banca. No entanto, quem trabalha de forma excessiva e compulsiva tem propensão a ter mais problemas de saúde, físicos e mentais, advertem os médicos.

Um estudo da Universidade Jau- me I, de Espanha, e da Universidade de Utrecht, na Holanda, publicado no mês de Março na revista científica Psicothema, analisou o ritmo profissional de cerca de três mil pessoas, e concluiu que quanto maior é a obsessão pelo trabalho maior o impacto que terá na saúde: mais doenças cardíacas e do sistema digestivo, bruxismo (bater e ranger os dentes de forma involuntária) e mais problemas emocionais.

Patrício Gomes, de 32 anos, não se considera uma pessoa infeliz, mas reconhece que o ritmo acelerado de trabalho não lhe oferece qualidade de vida. “Levanto-me todos os dias às 06.30 para estar no trabalho às 08.30, só acabo perto das 20.00 e ao final do dia ainda levo trabalho para casa, como ordens de pagamento e outras papeladas”, conta o engenheiro civil, que coordena uma equipa de trabalhadores numa obra de construção.

“O stress em que vivem torna- -as hipertensas. Obriga o coração a trabalhar mais rápido e as pessoas cansam-se mais. Como dormem pouco, também não relaxam”, adverte o médico Luís Negrão, da Fundação Portuguesa de Cardiologia, que garante que, a longo prazo, a adição ao trabalho também acaba por afectar a produtividade.

Ana Margarida, de 27 anos, admite que anda sempre em estado acelerado. Secretária de direcção numa empresa, chega a levantar-se a meio da noite para ir buscar o chefe ao aeroporto. “Não sou obrigada a fazê-lo, mas fico com dor na consciência se não o fizer.” Considera-se perfeccionista e muito exigente. Para subir na carreira, está a tirar mestrado em regime pós-laboral em Recursos Humanos, pelo que o dia de trabalho nunca termina antes das 23.00. E, no correr do dia-a-dia, normalmente esquece-se de comer. “Às vezes só faço uma refeição por dia.”

“Estar muitas horas sem comer faz com que, na refeição seguinte, a pessoa opte por comer muito e sobretudo alimentos calóricos”, analisa o nutricionista Luís Maioral, lembrando ainda que este descontrolo no apetite pode originar problemas estomacais.

A má alimentação – sobretudo porque nestes casos opta-se por comidas rápidas, doces e salgados, associada ao sedentarismo – é indicativa de mais casos de obesidade, acredita o médico. “Deve optar-se por levar fruta e legumes para o trabalho. Comer sopa, que já se vende embalada, ou comer sandes com fiambre ou queijo magro”, aconselha.

O psicólogo Victor Cláudio não acredita que os workaholics sejam todos infelizes, “porque têm reconhecimento no trabalho”, mas assegura que são, em regra, “pessoas isoladas”. “Demonstram uma baixa competência da expressão emocional e, por conseguinte, relacional.”

Ao consultório do médico chegam vários casos de depressão e ansiedade cuja origem está na adição ao trabalho e no colapso da estrutura de vida: “Porque a pessoa fica sem o emprego ou se apercebe de que está sozinho e não tem suporte familiar nem de amigos.” O tratamento é feito com várias sessões de psicoterapia “em que se tenta recuperar os laços e as relações emocionais e relacionais com os outros”, conclui.

Fonte: DN.

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