A tecnologia está a alterar o nosso cérebro

Quando, há uns anos, uma das mensagens de correio electrónico mais importantes da sua vida lhe chegou à caixa de correio, Kord Campbell não deu por ela.

Não só durante um ou dois dias, mas durante quase duas semanas. Acabou por dar com ela ao percorrer mensagens antigas. Teor: uma grande empresa queria comprar-lhe a empresa, em fase de arranque, que lançara na internet.

A mensagem tinha-lhe passado ao lado no meio da inundação electrónica: dois ecrãs apinhados de mensagens de correio, chats online, um explorador para a web e o código informático que estava a escrever.

Embora dessa vez tenha conseguido salvar o negócio de 1,3 milhões de dólares depois de pedir desculpa ao comprador interessado, Campbell continua a debater-se com os efeitos do dilúvio de dados. Mesmo depois de desligar o computador, não passa sem o estímulo que os seus restantes aparelhómetros electrónicos lhe proporcionam. Esquece-se de coisas como combinações para jantar e tem dificuldade em dar atenção à família.

É assim que funciona um cérebro sintonizado com os computadores.

Os cientistas dizem que os malabarismos com correio electrónico, chamadas telefónicas e outras fontes que debitam informações podem alterar o modo de pensar das pessoas. Dizem que a nossa capacidade de concentração está a ser corroída pelo surto de informações.

Embora muita gente diga que o multitasking, ou simultaneidade de tarefas, a torna mais produtiva, os estudos demonstram o contrário. Segundo os cientistas, os praticantes de multitasking intenso têm mais dificuldades em concentrar-se e em descartarem as informações irrelevantes, além de sofrerem de mais ansiedade.

Os cientistas estão a constatar que, mesmo depois de terminado o multitasking, a fragmentação do raciocínio e a falta de concentração persistem. Por outras palavras, é assim que funciona o cérebro depois de quebrar a sintonia com os computadores.

Os telemóveis e os computadores transformaram a vida. Permitem que as pessoas se evadam dos seus cubículos e trabalhem em qualquer lugar. Encurtam as distâncias e tratam de inúmeras tarefas triviais, deixando tempo livre para actividades mais interessantes.

A interactividade ininterrupta é uma das mudanças mais significativas de sempre no ambiente humano, diz Adam Gazzaley, neurocientista da Universidade da Califórnia (São Francisco).

Campbell, de 43 anos, atingiu a maioridade com o computador e é um utilizador de tecnologia mais intenso do que a maioria. Mas os investigadores dizem que os hábitos e problemas de Campbell e da sua família são ilustrativos dos de muitos outros – em número muito maior no futuro, se a tendência continuar.

Para ele, as tensões são cada vez mais agudas e os respectivos efeitos mais difíceis de debelar.

Os Campbells mudaram-se recentemente do Oklahoma para a Califórnia para lançarem um negócio de software. A vida de Campbell gira em torno dos computadores.

Adormece com um portátil ou um iPhone no peito e, quando acorda, liga-se à internet. Ele e Brenda Campbell, de 39 anos, dirigem-se então para a cozinha, arrumadíssima, do T4 que alugam em Orinda, um arrabalde afluente de São Francisco, onde ela prepara o pequeno–almoço e vê o telejornal da manhã num cantinho do ecrã do computador, enquanto ele usa o resto do monitor para ver o correio electrónico.

Já ocorreram acesas discussões porque Campbell se refugia em videojogos nos períodos emocionalmente mais intensos. Durante as férias da família, tem dificuldade em manter-se longe dos seus dispositivos electrónicos. Quando faz a viagem de comboio até São Francisco, sabe que vai ficar sem rede durante 221 segundos, quando a composição atravessa um túnel.

O filho, Connor, de 16 anos, alto e bem–educado como o pai, teve pela primeira vez más notas, facto que a família atribui às distracções electrónicas. Tal como a mãe, a filha Lily, de oito anos, ironiza, dizendo ao pai que ele prefere a tecnologia à família.

“Adorava que ele ficasse completamente desligado dessas coisas para ficar inteiramente ligado à família”, diz Brenda Campbell, acrescentando que ele fica “instável, como que ressacado, até poder consumir a sua dose”. Mas não pretende forçá-lo a mudar. “Ele adora aquilo. A tecnologia está-lhe na massa do sangue”, afirma. “Se eu detestasse a tecnologia, detestá-lo-ia a ele, bem como a uma parte do meu filho.”

Tal como os computadores mudaram, também a compreensão do cérebro humano se alterou. Até há uns 15 anos, os cientistas pensavam que o cérebro parava de se desenvolver a partir da infância. Actualmente sabem que a rede neuronal continua a desenvolver-se, influenciada por factores como a aquisição de novas competências.

Por isso, Eyal Ophir, pouco depois de chegar à Universidade de Stanford, em 2004, pôs-se a pensar se o multitasking intenso não poderia estar a conduzir a mudanças numa característica cerebral há muito tida por imutável, a de que os seres humanos só conseguem processar um único fluxo de informações de cada vez. Ophir, como outras pessoas de todo o país que estudam a maneira como a tecnologia modifica o cérebro, ficou espantado com o que descobriu.

As pessoas submetidas ao teste foram divididas em dois grupos: as que faziam multitasking intenso, com base nas respostas que deram a perguntas sobre o modo como utilizavam a tecnologia; e as outras.

Num teste criado por Ophir e seus colegas, aos participantes sentados em frente dos seus computadores, era mostrada uma imagem de rectângulos vermelhos. A seguir, era-lhes mostrada uma imagem semelhante e perguntavam-lhes se algum dos rectângulos se tinha movido. Era um teste simples, até ter sido introduzido um elemento adicional: rectângulos azuis, que lhes foi dito para ignorarem.

Os multitaskers tiveram uma prestação francamente pior do que os outros no que diz respeito a detectarem se os rectângulos vermelhos tinham mudado de posição. Por outras palavras, tiveram dificuldade em ignorar os azuis – a informação irrelevante.

Os multitaskers levaram também mais tempo do que os outros a passarem de uma tarefa para outra, como seja distinguir vogais de consoantes e, depois, números pares de ímpares. Os multitaskers demonstraram ser menos eficientes a gerirem “malabarismos”.

Um estudo da Universidade da Califórnia (Irvine) demonstrou que as pessoas interrompidas pelo correio electrónico referiram um aumento de stresse, em comparação com as que tinham liberdade de se concentrarem. As hormonas do stresse demonstraram já reduzir a memória de curto prazo, afirma o Dr. Gary Small, psiquiatra da Universidade da Califórnia (Los Angeles).

As investigações preliminares demonstram que algumas pessoas têm mais facilidade em lidar com o malabarismo de vários fluxos simultâneos de informações. Esses “supertarefeiros” representam menos de 3% da população, segundo os cientistas da Universidade do Utah.

Outros estudos demonstram que a utilização de computadores traz vantagens neurológicas. Em estudos de imagiologia, Small observou que os utilizadores da internet revelam maior actividade cerebral do que os não utilizadores, o que parece indicar que os seus circuitos neuronais aumentam. Na Universidade de Rochester, os investigadores constataram que quem joga alguns videojogos de ritmo acelerado pode seguir o movimento de mais um terço dos objectos que desfilam no ecrã do que os não jogadores. Dizem que os jogos podem melhorar a velocidade de reacção e a capacidade de extrair pormenores do meio de uma confusão.

“Em última análise, o cérebro está programado para se adaptar”, declara Steven Yantis, professor de ciências cerebrais da Universidade Johns Hopkins. “Não há dúvida de que a recablagem se dá permanentemente”, acrescenta. Mas diz também que é cedo demais para dizer se as mudanças provocadas pela tecnologia são, em concreto, diferentes das do passado.

Não se preocupa só com os outros. Pouco depois de chegar a Stanford, um professor agradeceu-lhe ser o único aluno da turma a estar 100% atento à aula e a não usar computador nem telefone. Mas recentemente ele começou a usar um iPhone e notou uma mudança; dá pelo poder de atracção do objecto mesmo quando está a brincar com a filha.

“O multimédia está a mudar-me”, afirma. “Tenho sempre um ping interno que me diz: verifica o correio electrónico e o correio de voz.

”Tenho de me esforçar para o suprimir.”

Fonte: Ionline.

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