Aprender a ler muda o cérebro

Equipa de investigadores descobriu que o cérebro não tem nenhum mecanismo próprio de leitura e que tem de usar funções semelhantes para o poder fazer

Aprender a ler, mesmo na idade adulta, é uma experiência tão importante para o cérebro que este concentra todas as suas forças neste acto e muda para conseguir realizar esta actividade. A conclusão é de um estudo realizado pelo português Paulo Ventura em conjunto com uma equipa internacional que foi publicado ontem na revista Science. Isto significa que o cérebro, quando aprendemos a ler, não usa os mecanismos antigos mas arranja novos para conseguir processar as informações visuais. O trabalho pode ser uma ajuda para compreender os processos da linguagem e, por exemplo, a perceber as causas da dislexia.

A leitura é um processo “recente”, com seis mil anos, e o cérebro ainda não teve tempo de se adaptar ao processo de recolher informações visuais das palavras: “O que acontece é que quando se aprende a ler existe uma reciclagem neuronal: o cérebro aproveita as áreas que realizam funções semelhantes à leitura para poder ler. Isto acontece independentemente do sistema alfabético”, conta ao DN Paulo Ventura, que trabalha neste projecto há três anos. Um dado interessante da pesquisa tem a ver com esta mudança cerebral: este órgão aproveita a área do córtex temporal dedicada ao processamento facial, que se reduz porque é aproveitada para ler. Os autores dizem que ainda precisam de investigar mais para saber se a aprendizagem da leitura afecta a nossa capacidade de reconhecer caras.

Os investigadores chegaram à conclusão testando 63 participantes adultos portugueses e brasileiros, que se dividiam em três grupos: iletrados, pessoas que aprenderam a ler na infância e outras que aprenderam a ler em adultos. “Os testes foram feitos no Brasil e em França. Aos participantes foi-lhes pedido que realizassem algumas tarefas enquanto uma máquina de Ressonância Magnética funcional ia analisando o comportamento dos seus cérebros”, diz o investigador. Os testes a cada pessoa duravam cerca de oito horas, período em que lhes era pedido, por exemplo, para ouvir frases, tomar decisões como responder se identificavam certa palavra como sendo portuguesa, ou identificar objectos visuais.

O que a equipa de cientistas descobriu, além do facto de o cérebro criar zonas para poder ler, é que no caso dos iliterados, que não conseguem traduzir o que lêem, o cérebro não activa qualquer tipo de área como acontece com os literados. No caso destes, o cérebro não mostra diferenças quer a aprendizagem tenha sido na infância ou apenas em adulto. “O cérebro é plástico e adapta-se”, acrescenta.

Um dos pontos importantes da investigação é aquilo que irá ser retirado dela. Apesar de não haver nada de muito concreto, um dos próximos passos tem a ver com o trabalho com os iliterados. Este pode permitir saber porque acontece a dislexia e elucidar como funcionam os mecanismos de leitura defeituosa.

Fonte: Bruno Abreu, DN.

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