Razão e emoção

A emoção é a vida em ebulição. É densa, quente, imprevisível e tocante. É o movimento, as tempestades e os raios de sol da existência. É genitora de risos e lágrimas, de iras e paixões. Pode ser feia e lúgubre, pode ser deslumbrante e reluzente. Pode ser tudo que não passe despercebido, porque é hiperbólica. A razão, sua antípoda, já não gosta de aparecer. É discreta, silenciosa, comedida, desprovida de calor e ímpetos, como todo agente que calcula, pensa, se defende e se protege. Decerto, na maioria das vezes, um ser racional já foi escravo de suas emoções em algum tempo remoto. E ficou tão assustado com os espasmos delas, com sua força transformadora – quando não destruidora -, que se rendeu ao sossego morno do pensamento lógico, objetivo, estruturado, para poder melhor decidir e, quem sabe, reduzir um pouco do sofrimento que a vida muitas vezes impõe.

Razão e emoção não deveriam ser conflitantes. Uma não é melhor nem pior que a outra. São apenas diferentes. Uma revolve, outra resolve. Uma envolve, outra desenvolve. Ocorre que, na medição de forças entre esses dois parâmetros tão antagônicos, o indivíduo que os vivencia é o grande perdedor. Quando a razão briga com a emoção, ou vice-versa, surge uma espécie de paralisia, fruto de um caos entre ideias (razão) e sentimentos (emoção). E, a partir daí, uma série de outros estados indesejáveis se sucedem: medo, insegurança, anulação, desconfiança, e por aí vai.

Levando-se em conta que a razão não deve adentrar o território da emoção, levanta-se a dúvida: qual seria a situação ideal então? A resposta que aparece como óbvia aos meus olhos é única: razão e emoção devem andar de mãos dadas, no mesmo nível, respeitando-se mutuamente e sabendo, cada uma, a sua hora de entrar em cena. Não podem atuar de forma concomitante, é fato. Afinal, não é da natureza do coração pulsar no cérebro, assim como não é da natureza do cérebro planejar um coração. Não se ama com a cabeça, é verdade. Mas, por outro lado, é com ela que se decide por um amor em paz ou pela autopreservação.

 

Fonte: blogue Quelquechose.

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