Perdoar faz bem

O “perdão” é um sentimento complexo, uma palavra pouco usada e demasiado associada à religião. Embora o caminho não seja fácil, os benefícios do perdão estão comprovados em vários estudos realizados nos últimos 20 anos nos Estados Unidos. Dois dos principais investigadores desta área garantem ao Boas Notícias que, saber perdoar, pode mudar a vida de indivíduos, casais, sociedades e até nações.

Toda a gente tem na sua cronologia pessoal uma mágoa por perdoar. Talvez uma pessoa próxima tenha traído a sua confiança. Talvez um ente querido o tenha magoado ou humilhado. Talvez tenha sido alvo de um roubo ou de outro crime por parte de um estranho.

Saber perdoar quem (ou o que) nos magoa não é um processo simples. Mas, garantem os estudos dos últimos anos, esta capacidade confere vantagens mentais e físicas: um sistema imunitário mais forte, menos riscos de ataques cardíacos, mais autoestima, um maior domínio das capacidades mentais e de tomadas de decisão, melhores relações interpessoais. Por fim, a capacidade de perdoar previne o abuso de substância e a depressão.

Contudo, não é fácil definir o próprio conceito de perdão. Everett L Worthington (na foto), psicólogo e professor da Universidade da Virgínia que estuda o perdão há mais de 15 anos, afirma que este conceito não tem uma definição consensual mas defende que é necessário distinguir dois tipos de perdão: o exterior e o emocional.

Segundo o mesmo investigador, o primeiro conceito é superficial – e pode até funcionar como uma forma de magoar o agressor mostrando desprezo ou superioridade. Embora ajude “a reduzir a hostilidade” este tipo de perdão “não reduz, necessariamente, as situações de stress”. Já o perdão emocional exige uma “alteração a nível interpessoal e de comportamento” trazendo os benefícios referidos acima.

“Dar a outra face” não é sinónimo de perdão

Em declarações ao Boas Notícias, o investigador sublinha, no entanto, que perdoar não significa dar a outra face. Questionado sobre se devemos aprender com as situações que nos magoaram, para evitar que se repitam, o psicólogo é categórico: “absolutamente”.

“O perdão acontece dentro de nós, é uma decisão sobre como vamos passar a agir e implica uma alteração emocional” mas “aprender a mudar o nosso comportamento no futuro” é um dos pontos fundamentais para evitar novas agressões, defende o psicólogo.

Também o psicólogo norte-americano Fred Luskin (na foto), responsável por vários estudos e livros relacionados com o perdão, sublinha, ao Boas Notícias, este ponto afirmando que é “importante tirar lições da experiência” e acrescentando ainda que é também fundamental que “as pessoas saibam perdoar-se a si próprias quando cometem um erro”.

Ou seja, em situações de agressão (física e emocional) a vítima tem, por vezes, alguma responsabilidade – por exemplo um comportamento demasiado permissivo pode resultar em abusos emocionais e uma atitude de descuido com os seus bens pessoais que pode resultar num furto. Por isso, aprender a perdoar passa também por assumir a nossa responsabilidade nas agressões e evitar que voltem a acontecer.

Raiva construtiva

Luskin sublinha ainda que sentimentos negativos como a raiva podem ser úteis se aprendermos com eles. É aquilo a que chama “raiva construtiva”. “A raiva pode ser positiva se a usarmos para nos tornarmos mais fortes, mais assertivos, para mostrar que estamos contra determinado comportamento”, diz o psicólogo numa das suas palestras. Mas a raiva, continua Luskin, deixa de ser positiva quando se torna um “sentimento persistente que não conduz a situações construtivas”.

“Perdoar não significa permitir ou aceitar”, salienta o psicólogo no seu site pessoal Learn to Forgive (Aprender a Perdoar), associado à Universidade de Stanford. Pelo contrário, perdoar é reconhecer que “algo está errado” e “implica recuperar a capacidade de confiar e de amar, deixando de culpar os outros pelos nossos problemas emocionais”.

Ou seja, perdoar é uma escolha e confere à pessoa que segue este “caminho” mais liberdade e poder: o poder de se tornar uma pessoa mais forte. Oferece, sobretudo, a possibilidade de abandonar a posição de vítima. Mas para isso, a pessoa deve aprender, crescer, e assumir as suas responsabilidades, nem que seja a responsabilidade de mudar o seu destino.

Um dos casos que Luskin seguiu de perto, foi o de um casal cuja filha perdeu a vida, com apenas quatro anos, ao ser atropelada por uma mulher que atingiu a criança ao volante de um carro descontrolado, quando a família almoçava num restaurante. Seguiram-se momentos difíceis de raiva e mágoa que deixaram o casal esgotado.

“Dia após dia não conseguia dormir, sentia-me fisicamente magoada, foi uma luta”, diz a mãe da criança, Jody Ferlaak, num vídeo divulgado na internet. No entanto, orientado pelo psicólogo, o casal acabou por substituir esses sentimentos negativos por outros mais positivos. “Não foi fácil [perdoar], é um processo… Mas abraçar o perdão foi o que nos curou”, garante o casal no mesmo vídeo.

Perdoar é um processo de aprendizagem

Segundo a investigação de Everett e Luskin, é possível perdoar algo que acabou de acontecer ou situações remotas que estão enterradas há muitos anos. O perdão é também possível em situações “simples”, como um relacionamento amoroso, e em situação mais dramáticas como entre as vítimas de conflito armado ou de crimes violentos. No entanto, quanto maior for a mágoa, mais complicado e longo se torna o processo de perdão.

Worthington avisa ainda que perdoar é mais difícil e demora mais tempo do que a reação instintiva de raiva ou vingança. É um processo demorado “como aprender a jogar um jogo”, explica o professor no manual que disponibiliza gratuitamente online sobre aprender a perdoar através do seu método conhecido como REACH.

Ambos os investigadores desenvolveram métodos para ensinar a perdoar que têm sido aplicados com sucesso no “tratamento” de indivíduos, casais, grupos, empresas e até de nações vítimas de conflito armado. Luskin chegou mesmo a dar formação a um grupo que atuou recentemente na Serra Leoa, no apoio a vítimas da guerra civil.

Analisando ambos os métodos, poderemos apontar as seguintes etapas como sendo os pontos mais importantes da aprendizagem:

– Descrever o que aconteceu de forma objetiva (pode ser feito por escrito ou partilhado com alguém de confiança)
– Reconhecer as emoções negativos associadas (raiva, humilhação, ódio, medo, revolta)
– Comprometer-se a perdoar incondicionalmente e reconhecer os benefícios do perdão
– Sentir empatia pela outra pessoa (pôr-se na pele do outro, recordar momentos em que também magoámos outras pessoas, admitir que toda a gente erra, recordar alturas em que fomos perdoados)
– Relativizar: admitir que, na maior parte dos casos, o maior stress vem de dentro da própria pessoa “agredida”, da mágoa e desilusão que sente, do que propriamente do gesto que magoou
– Fazer gestos altruístas
– Encontrar outros meios de lidar com injustiça (poderá passar por sessões de meditação, exercício físico, técnicas de relaxamento ou mesmo a oração, no caso de pessoas religiosas)
– No caso de vítimas de crimes, delegar o assunto para as autoridades removendo a carga pessoal e emocional
– Aprender com a situação e tirar lições positivas (evitar que as situações se repitam)
– Não esperar que a outra pessoa corrija a sua atitude: o perdão é uma decisão pessoal
– Reescrever a história de uma perspetiva mais positiva, abandonando o papel de vítima (retirando a parte subjetiva da dor emocional)

Este é apenas um resumo esquemático e simplificado dos métodos aplicados pelos dois psicólogos, já que ambos os autores exigem esforço, empenho, várias horas de dedicação. Para além destes pontos, os métodos passam por muitas outras etapas – como por exemplo identificar o tipo de vingança que a pessoa magoada pensa que gostaria de aplicar no agressor ou identificar, entre exemplos de várias situações, quais são as que refletem um verdadeiro perdão.

Estes métodos também devem ser aplicados, sobretudo em casos de mágoa mais profunda, em conjunto com um terapeuta profissional. No entanto, cada um poderá estuda-los individualmente retirando as lições que acha mais importantes (veja os links abaixo para aceder aos respetivos métodos).

Perdão entre povos

Tanto Luskin como Worthington apontam como um exemplo extremo de perdão o trabalho realizado na África do Sul, pela Comissiton for Truth and Reconciliation (CTR – Comissão para a Verdade e Reconciliação, em português), liderada pelo arcebispo Desmond Tutu, Nobel da Paz em 1984.

Esta comissão, cujo trabalho tem sido replicado em vários pontos de conflito do mundo – embora nem sempre com o mesmo grau de sucesso – foi instalada após o Apartheid para promover uma reconciliação dos sul-africanos com o seu passado de abuso dos direitos humanos. Milhares de pessoas, de ambos os lados da barricada, foram ouvidas por esta comissão. Os testemunhos impressionantes destas vítimas e destes agressores podem ser acedidos no site oficial da CTR.

Num vídeo divulgado no YouTube (ver acima) Desmond Tutu afirma – referindo-se ao fim do apartheid – o seguinte: “Imagine que tínhamos escolhido o caminho da retribuição e da vingança… o nosso país seria só pó e cinzas”. “Quando alimentamos a raiva a nossa pressão sanguínea aumenta, quando perdoamos a nossa pressão sanguínea desce e temos um bem-estar físico que reflete o nosso bem-estar espiritual”, continua o arcebispo. “Por isso podemos dizer que perdoar faz bem à saúde!”, conclui com uma gargalhada.

Embora o perdão não seja uma “arma infalível” para conseguir a paz, admite Worthington no livro “Trauma Rehabilitation After War and Conflict”, esta capacidade deverá ser disseminada e promovida nas sociedades como uma das “maneiras de ajudar a restaurar a harmonia após um trauma social”, já que reduz a vontade de perpetuar a violência promovendo um espírito de reconciliação.

Odiar é simples mas magoa. Perdoar é difícil mas cura. A raiva é um ciclo vicioso. O perdão é liberdade. E a escolha está nas mãos de cada um.

Clique AQUI para fazer o download do manual REACH, de Everett L Worthington, e AQUI para visitar o projeto Learn to Forgive de Fred Luskin (ambos os projetos estão em inglês).

 Fonte: Boas Notícias.

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