30 mil pessoas tentam suicídio em Portugal todos os anos

 

Por Sandra Gonçalves
Cerca de 30 mil pessoas tentam suicídio anualmente em Portugal

Todos os anos registam-se mais de mil casos de suicídio e cerca de 30 mil comportamentos suicidários não consumados em Portugal, apesar dos especialistas referirem que esta é ainda uma realidade pouco referenciada. A prevenção destes comportamentos esteve em discussão durante o primeiro dia do Congresso Nacional de Psiquiatria, a decorrer no Porto até sábado.

A escassez de autópsias psicológicas e o elevado número de mortes por causas indeterminadas escondem ainda muitos dos casos de suicídio em Portugal. Um grave problema de saúde pública que os especialistas querem combater através da prevenção.

De acordo com Bessa Peixoto, director do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Braga, «existem princípios básicos que devem ser tidos em consideração na óptica da estratégia das consultas de prevenção do suicídio», nomeadamente a redução da disponibilidade e acessibilidade aos meios de suicídio; a implementação de estratégias que visem a diminuição do estigma associado à doença mental; o estabelecimento de procedimentos relativos à informação com os órgãos de comunicação social; desenvolvimento e implementação de programas de prevenção, entre outras.

No entanto, segundo o especialista, «existem ainda algumas dúvidas se o foco principal da prevenção deve estar nestas questões ou se deve ser dirigido para os cuidados primários. Há que reflectir se estes serviços estão apetrechados de forma a poder desenvolver consultas de intervenção em crise que, em tempo útil, respondam ou criem uma acessibilidade capaz de dar resposta a estes aspectos».

No simpósio dedicado aos «comportamentos suicidários: da prevenção à pósvenção» foram ainda abordadas as questões dos impactos do suicídio nas famílias e nos profissionais da área. De acordo com Ema Lima das Neves, Psicóloga Clínica do Hospital de Santa Maria, «o suicídio de um membro da família é ainda hoje visto como um tabu, a fonte de muita culpa e de muito segredo dentro das famílias», acrescentando que o neste campo «o foco é colocado nos sobreviventes – aqueles que são deixados para trás como consequência do suicídio – e na intervenção a esse nível».

Segundo a Organização Mundial de Saúde, em 2000 existiam entre 6 a 10 sobreviventes directos por cada suicídio, o que quer dizer «que há uma necessidade de caracterizar as famílias dos suicidas e de pensar qual a intervenção nestas situações».

Ainda neste campo foi apresentado por Inês Rothes, investigadora da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, o primeiro estudo sobre o impacto do suicídio de um doente em profissionais de saúde portugueses e que revelou as principais reacções emocionais, o impacto na prática clínica e os recursos disponíveis aos técnicos. Segundo o estudo, que incluiu 242 profissionais de várias áreas, 27% dos inquiridos já tinham passado pelo suicídio de um doente e segundo a especialista «são os clínicos gerais que tendem mais a estar em risco devido à organização do nosso sistema de saúde».

Os principais sentimentos e reacções emocionais nos técnicos são sobretudo o sofrimento emocional; preocupações, medos, inseguranças e dúvidas, sobretudo relativamente a doentes futuros; frustração e desilusão, existindo mesmo a situação de culpabilização da família. Muitos dos técnicos chegam a efectuar diversas alterações na sua prática clínica e 7% referem implicações na vida pessoal. «Os profissionais tendem a recorrer pouco a ajuda mas quando recorrem consideram-na útil», explica.

Durante este primeiro dia do Congresso Nacional de Psiquiatria foi ainda apresentado o estudo WAVE-bd que, segundo Luísa Figueira, directora do Serviço de Psiquiatria do Centro Hospitalar de Lisboa Norte (Hospital de Santa Maria), «procurou descrever e avaliar os resultados do tratamento da doença bipolar». Realizado em 10 países, entre os quais Portugal, os resultados permitem concluir que no nosso país «os episódios de depressão são os mais frequentes na doença bipolar» e que «os doentes com episódios de depressão tiveram a mais baixa adesão ao tratamento e os doentes com episódios mistos tiveram a mais alta adesão ao tratamento».

De acordo com as estimativas a prevalência da doença bipolar está entre os 0,2% e 6,0%, sendo considerada já a 9ª causa de perda de vida saudável e morte prematura, especialmente nas faixas etárias entre os 15 e 44 anos.

A cannabis é a droga ilícita mais consumida pelos adolescentes e a maior parte das primeiras experiências ocorre durante a adolescência, fase crucial para o desenvolvimento e amadurecimento do órgão cerebral.

Segundo Julio Bobes, professor catedrático de Psiquiatria da Universidade de Oviedo, «trata-se de um facto preocupante, uma vez que como consequência deste consumo, os adolescentes estão mais propensos a ter uma redução significativa e irreversível do seu potencial cerebral».

Alterações na capacidade de pensamento e raciocínio, ansiedade, deficiências em mecanismos da memória e de aprendizagem são alguns dos efeitos mais comuns desta droga. O consumo de cannabis – particularmente em adolescentes e jovens adultos – facilita igualmente a manifestação de perturbações mentais em indivíduos vulneráveis. É também comum um indivíduo apresentar sintomas psicóticos quando consome pela primeira vez.

Abordando o tema da «Recuperação da cognição na doença mental – o papel da quetiapina na esquizofrenia, transtorno bipolar e perturbação depressiva major», Eduard Vieta explicou que esta recuperação «deve incluir as esferas sintomática, cognitiva e funcional. Apesar de muitos tratamentos permitirem uma recuperação sintomática, alcançar a recuperação cognitiva e funcional é mais difícil», acrescentando que «muitos doentes melhoram os sintomas característicos da doença mas sofrem de dificuldades neurocognitivas e de adaptação psicossocial».

Sobre como esta recuperação é realizada, João Marques Teixeira, da Universidade do Porto, referiu que são utilizadas «técnicas específicas de remediação e estimulação cognitiva (face a face ou com o auxílio de computadores), da estimulação da cognição social em pequenos grupos e em interacções contextuais com o envolvimento da família». Trata-se de uma área altamente especializada «que requer um treino prolongado e uma equipa terapêutica dedicada apenas a essa tarefa. Este investimento justifica-se dado os resultados animadores quanto à integração socioprofissional destes doentes».

No que se refere ao papel da quetiapina, João Marques Teixeira explica que «a psicofarmacologia tem um papel importante na facilitação da remediação cognitiva, muito embora a investigação não se tenha virado completamente ainda para esta área de intervenção», tendo apresentado um racional para a utilização da psicofarmacoterapia como complemento da remediação cognitiva, «no qual a quetiapina, pelos estudos que existem e pela sua configuração farmacológica, assume um papel de destaque». Uma situação corroborada por Eduard Vieta, segundo o qual «a quetiapina é uma das substâncias melhor toleradas do ponto de vista cognitivo, tanto na esquizofrenia como nos transtornos afectivos».

O Congresso Nacional de Psiquiatria, que se prolonga até sábado, no Sheraton Porto, terá na sexta-feira em destaque temas como «o balanço de 20 anos de política comunitária em saúde mental», «a sobrecarga das perturbações mentais dos idosos», «perturbação esquizo-afectiva: sua caracterização e seus limites», «medicina sexual e psiquiatria», «perturbações psicóticas na prática clínica» e «recovery – um desafio actual na promoção da saúde mental».

 

Fonte: Diário Digital.

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