Morrer de sozinhismo, o direito aos avós

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Dados finais dos Censos 2011 confirmam as expectativas e dados já conhecidos. A população sénior aumentou de 16 para 19 % sendo que as projecções apontam para que em 2030 metade da população portuguesa esteja acima dos 50 anos. Acresce que também segundo os Censos 2011, cerca de 400.000 velhos vivem sós, mais 29% que há dez anos.

Num olhar mais específico e exemplificativo, a Operação Censos Sénior realizada pela GNR de 2013 encontrou mais de 28.000 idosos a viver sós ou em situação de isolamento. Deve registar-se que esta operação decorre fora das áreas urbanas e o número encontrado representa um aumento de 22,6 % relativamente a 2012. Em Lisboa, alguns trabalhos estimam uma “realidade de total isolamento diário para 59% da população que reside sozinha, evidenciando um risco de solidão” e completamente dependentes das relações de vizinhança comunitária, elas próprias em extinção.

Neste universo importa ainda salientar que segundo o INE e reportando-se a 2009 a taxa de risco de pobreza em Portugal continua alta, tendo subido na população idosa, 20,1 % deste grupo etário vive esta situação. Se considerarmos os efeitos conjugados das dificuldades económicas e dos cortes em políticas sociais de 2010, 2011 e 2012, esta taxa tenderá muito provavelmente a subir.

Finalmente nesta introdução, é de recordar a frequência impressionante com que surgem notícias de velhos que morrem sós, sem que ninguém se dê conta de tal tragédia.

Não sou, não quero ser, especialista nestas matérias mas creio que muitas destas pessoas morrem de sozinhismo, a doença que ataca os que vivem sós e perderam o amparo. Algumas pessoas terão morrido de solidão e não de outras causas que possam vir a figurar nas certidões. Quem não vive só mais facilmente resiste às mazelas que a idade traz quase sempre. As pessoas são, espera-se, fonte de saúde e calor.

Na verdade, o sozinhismo poderá ser verdadeiramente a causa de morte de muitos idosos. No entanto e como sempre, para além das necessárias políticas sociais emergentes do estado e das instituições privadas de solidariedade impõe-se a percepção pelas comunidades, designadamente pelas famílias, do drama da solidão e do isolamento. Os dados recolhidos e, portanto, conhecidos deveriam servir de base a políticas ajustadas à realidade.

É também uma questão de redes sociais, mas não das virtuais.

Em muitas circunstâncias, as famílias, seja pelos valores, seja pelas suas próprias dificuldades e estilos de vida, não se constituem como um porto de abrigo, sendo parte significativa do problema e não da solução produzindo cada vez mais situações de solidão e isolamento entre os velhos, com consequências que têm feito manchetes, muitos velhos morrem de sozinhismo, de solidão. Estão em extinção as relações de vizinhança e a vivência comunitária, fontes privilegiadas de protecção dos mais velhos. Aliás e felizmente, começam a emergir algumas iniciativas ou programas destinados justamente a restabelecer ou substituir esta rede de suporte comunitário que se revela de extrema importância.

É certo que existe um pequeno número de idosos que além do apoio familiar, ainda possuem meios que lhes permitem aceder a bens e equipamentos que contribuem para uma desejável e merecida qualidade de vida no fim da sua estrada, respostas que estudos recentemente divulgados pela DECO evidenciam como caras e de difícil acesso.

Uma hipótese de lidar com esta questão cada vez mais presente, na medida em que assistimos ao prolongamento da esperança de vida poderia ser, defendo-o frequentemente mas sem grande sucesso, a institucionalização do Direito aos Avós. Isto quer simplesmente dizer que todos os miúdos deveriam, obrigatoriamente, ter avós e que todos os velhos deveriam ter netos.

Num tempo em que milhares de miúdos estão sós e muitos velhos vão morrendo devagar de sozinhismo, qualquer partido verdadeiramente interessado nas pessoas, sentir-se ia obrigado a inscrever tal medida no seu programa ou, porque não, inscrevê-la nos direitos fundamentais.

Com tantas crianças abandonadas dentro de casa, institucionalizadas, mergulhadas na escola tempos infindos ou escondidas em ecrãs, ao mesmo tempo que os velhos estão emprateleirados em lares ou também abandonados em casa, isolados de tal forma que morrem sem que ninguém se dê conta, trata-se apenas de os juntar, seria uma espécie de dois em um. Creio que os benefícios para miúdos e velhos seriam extraordinários e alguns bons exemplos mostram isso mesmo.

Um avô ou uma avó, de preferência os dois, são bens de primeira necessidade para qualquer miúdo.

 

Fonte: José Morgado, Público.

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