A importância da improvisação musical

A visualização da actividade cerebral durante “conversas musicais” informais e espontâneas entre músicos de jazz mostra que o processamento da música e da linguagem possuem circuitos neuronais em comum.

A “conversas” musicais fazem apelo a certas áreas cerebrais da comunicação linguística JOÃO MATOS

As áreas do cérebro hum

Os cientistas recrutaram para o estudo onze experientes pianistas de jazz com idades entre os 25 e os 56 anos e puseram-nos a “trocar quatros” – tradução literal da expressão em inglês “trading fours”, que se refere a um exercício de improvisação em que cada um de dois intérpretes vai criando, alternadamente, quatro compassos de música. Durante as sessões, que duravam 10 minutos, um dos dois participantes estava deitado de costas numa máquina de ressonância magnética. Com os pés relativamente elevados graças a um almofadão e um teclado de plástico pousado nas coxas, esse músico conseguia ver a posição dos seus dedos no teclado olhando para um sistema espelhos colocados por cima da sua cabeça.

Nas imagens da função cerebral obtidas ao vivo e em directo durante as improvisações, os investigadores observaram que a essa tarefa musical activava áreas cerebrais associadas ao processamento sintáctico da linguagem. “Até aqui, os estudos de como o cérebro processa a comunicação auditiva entre duas pessoas têm sido feitos no contexto da linguagem falada”, diz Limb em comunicado da sua universidade. “Mas ao olharmos para o jazz, conseguimos investigar as bases neurológicas da comunicação musical interactiva fora desse contexto.”

E acrescenta: “Quando dois músicos de jazz a trocar quatros parecem imersos nos seus pensamentos, não estão simplesmente à espera da sua vez para tocar. Pelo contrário, estão a utilizar as áreas sintácticas do seu cérebro para processar o que estão a ouvir de forma a conseguir responder com uma série de notas que nunca tinham sido compostas nem interpretadas.”

Por outro lado, os cientistas também descobriram uma diferença substancial entre linguagem e música. Mais precisamente, a improvisação musical “desligava” as áreas associadas ao processamento semântico da linguagem – ou seja, aquelas que interpretam o significado do que está a ser dito.

“Neste estudo, mostrámos que existe uma diferença fundamental entre a forma como o significado da música e da linguagem é processado pelo cérebro”, salienta Limb. “Especificamente, é o processamento sintáctico, e não o semântico, que é essencial para este tipo de comunicação musical. Os conceitos convencionais da semântica poderão não ser aplicáveis ao processamento da música pelo cérebro.”

 

Fonte: Público.

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