Caminhar promove a criatividade

 

 

 

 

Em todos os experimentos, a caminhada parece ter eriçado raciocínios menos óbvios.

 

Caminhar ativa a criatividade, aponta estudo nos EUA Henrique Tramontina/Arte ZH

Demétrio Pereira, no ZH

Friedrich Nietzsche deve ter pisado muito chão antes de se permitir um aforismo decisivo destes: “Todos os pensamentos verdadeiramente grandes são concebidos durante uma caminhada”.

O alemão sapateava os morros da Riviera Francesa ocupado com ideias graúdas – o óbito de Deus, por exemplo –, mas até para filosofias de menos ambição está servindo uma passeada a pé, dizem pesquisadores da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Investigando as respostas cognitivas à atividade corporal, os professores Daniel Schwartz e Marilyn Opezzo acabam de achar vínculo entre a criatividade e o ato de caminhar.

Foram quatro experimentos com 176 participantes. Em um dos testes, 48 pessoas foram monitoradas dentro de uma sala fechada, de frente para a parede, ora sentadas, ora caminhando em uma esteira; e também traçando percurso pré-determinado ao ar livre, ora empurradas em cadeira-de-rodas, ora volteando a pé pelo campus afora.

A tarefa de “medir” criatividade ficou a cargo de testes de “pensamento divergente”: os participantes tinham quatro minutos para sugerir aplicações para objetos. O sujeito criativo se saía com propostas únicas, não levantadas pelos demais e, além disso, válidas (diante do objeto “pneu”, houve quem arriscasse “anel para o dedo mínimo”, e aí já é forçar a barra).

Em todos os experimentos, a caminhada parece ter eriçado raciocínios menos óbvios. Nunca baixou de 81% o índice de cobaias que descobriram perambulando, e não acomodadas numa cadeira, o seu palavrório mais fértil. Mesmo o uso da esteira, sem cenário nem avanço, impulsionou em 60% a média de respostas raras.

Um último teste mostrou que todos que marcharam pelo campus, ao serem confrontados com frases curtas, devolveram pelo menos uma analogia “original e de alta qualidade”, contra metade dos que estiveram sentados na sala. A mágica, conclui o estudo, não é obra apenas da troca de ambiente, mas do próprio ato de caminhar.

– Seja lá qual for a mudança fisiológica que acontece, ela retém algum efeito até oito minutos depois do fim da caminhada. Pode ser um desligamento do nosso típico repressor de pensamentos (sangue desviado para o controle motor, por exemplo) ou então um impulso no ânimo (de repente há uma menor hierarquia de ideias quando estamos de bom humor) – aventa a professora Opezzo.

Daniel Schwartz, que agora quer conferir se a música altera o fenômeno, diz que o efeito foi “intenso e abrangente, o que significa que muitas pessoas, de diferentes especialidades, podem pesquisar quando e por que isso acontece”. Exercícios em geral, ressalta Schwartz, produzem mudanças biológicas, inclusive desacelerando o declínio cognitivo na velhice, então não seria nenhum absurdo dar uma esticada nas pernas para resolver o tédio do brainstorming ou a brancura da página.

– O bloqueio criativo frequentemente resulta de nos focarmos demais em uma única ideia, inclusive a ideia destrutiva de que “não consigo pensar em nada para escrever”. Caminhar parece relaxar o controle de um pensamento e abrir espaço para outros. Importante notar que, nos nossos estudos, as pessoas estavam explicitamente tentando achar novas ideias. Não é o caso de uma ideia surgindo do nada – observa o professor.

Os pesquisadores hesitam quanto à inclusão da caminhada no receituário médico.

– Ainda é cedo para dizer. A depressão já foi referida como a perda temporária de criatividade ou imaginação. Talvez a inabilidade de imaginar outras interpretações, cenários, caminhos. Não testamos distúrbios de humor, mas há estudos mostrando que exercícios aeróbicos são um bom remédio para a mente. É uma conexão promissora – conclui Opezzo.

GÊNIOS DE PASSO VÃO

O modernismo foi em parte pavimentado pela exploração distraída das ruas de Paris. Para Balzac, flanar era uma “gastronomia do olho”. Charles Baudelaire fez da calçada uma terra firme para a poesia. Deixar-se à toa pela cidade rendeu letra boa também para lá do Canal da Mancha, com outro Charles, o Dickens. Cá no Brasil, tivemos João do Rio.

Heróis da modernidade, segundo o filósofo Walter Benjamin, combatendo o progresso técnico com o cronismo solitário da cidade industrializada: anomalias no sistema. Vai na mesma linha Rebecca Solnit, autora do livro Wanderlust: A History of Walking, no qual a caminhada aparece como a reclamação do espaço público frente ao avanço das áreas privadas.

Mais do que isso: Solnit escreve que, quando andamos, o mundo se dá a conhecer a partir do corpo, e o corpo se dá a conhecer a partir do mundo. Assim, no contrapé de quem flana investigando a paisagem, há quem se lance à paisagem investigando a si próprio, como nota Merlin Coverley, que lançou recentemente o livro The Art of Wandering. Seria o caso do filósofo Jean-Jacques Rousseau e do poeta William Wordsworth. Coverley considera que caminhar e escrever são uma mesma atividade, assim como caminhar e filosofar teria sido para Aristóteles, famoso por zanzar para lá e para cá enquanto falava. Os seguidores do sábio de Estagira acabariam apelidados de “peripatéticos”, palavra grega que veio parar nos dicionários de português, dando nome a quem ensina passeando.

REMÉDIO: NOVIDADE

Um estudo liderado pelo neurocientista Iván Izquierdo, do Centro de Memória do Instituto do Cérebro da PUCRS, descobriu um fluxo de proteínas entre as sinapses das células responsáveis pelo processamento do medo e das novidades. Isso significa que um paciente, exposto a novidades (como uma canção, um livro ou um filme) pouco antes do tratamento psicológico, pode estar mais sujeito a se “curar” de um trauma.

– A novidade deve ser administrada num momento bastante preciso, e seu efeito é totalmente explicável por uma interação entre sinapses de células piramidais do hipocampo – explica o Dr. Izquierdo, que concorda que a neurociência vem amparando uma “diluição” do dualismo corpo / mente.

Uma narrativa mecanicista da criatividade, entretanto, é história ainda por ser contada:

– A criatividade é uma atividade que depende muito das memórias. É a partir delas que se cria. Se há áreas mais vinculadas com a criatividade do que outras, devem ser as responsáveis pelo armazenamento ou evocação de memórias: hipocampo, córtex pré-frontal, córtex parietal posterior. Não há dados para afirmar se é uma ou outra ou todas elas – conclui.

 

Fonte: Demétrio Pereira, no ZH, via Pavablog.

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