A tortura da hipocondria, ou uma estranha forma de amor

Procurar doenças é o "amo-te" de um hipocondríaco

É a melhor descrição que me ocorre para definir o momento na nossa relação em que convenci, naquela noite, o meu namorado de que ele tinha lepra. A lepra representou uma medalha de ouro na minha maratona de hipocondria que durava toda uma vida e nunca antes tinha estado, nem remotamente, lá perto.

Um facto pouco conhecido sobre os hipocondríacos é que não nos limitamos a dizer a nós próprios que temos alergias alimentares, epilepsia e síndrome da mão alheia (sim, existe). Ficamos felizes ao persuadir os outros de que também têm.

Tinha finalmente encontrado um homem que me deixava brincar aos médicos, por assim dizer. Eu passava horas a catalogar todos os seus sintomas, a esquadrinhar o seu corpo à procura de cancro da pele e à cata de ligações médicas nas suas queixas que um médico verdadeiro podia não ver.

Por exemplo, doíam-lhe os pés. Ele pensava que era devido aos sapatos apertados ou ao facto de passar o dia a percorrer as calçadas de Nova Iorque como agente comercial imobiliário. Tão ingénuo, pensei correndo para o meu portátil, onde descobri que ele tinha a doença da arranhadura do gato. Só tinha um sintoma, mas mesmo assim era possível.

“Por favor, por favor, por favor pede ao teu médico para fazer análises de sangue”, supliquei.

Ele recusou. Por que razão teria ficado tão exasperado com uma simples sugestão? Será que sofre de demência precoce?

A minha hipocondria começou no secundário. Não sei se foi uma reação ao stresse ou ao tédio ou, então, um problema congénito ou talvez mesmo um sintoma de uma doença tropical rara, mas dei comigo tantas vezes no consultório do meu médico que ele deveria ter pendurado a minha fotografia na parede. Doía-me a garganta, a minha cabeça latejava e o meu estômago parecia uma bomba de ácido.

Infelizmente, isto foi pré-Google. Não consegui convencer os médicos de que tinha uma das poucas doenças exóticas que conhecia dos livros de História – peste bubónica, escorbuto, raquitismo. Todas as moléstias acabaram por se revelar muito chatas: amigdalite, anemia, tensão baixa, má alimentação. Os hipocondríacos adoecem como os outros, mas os sintomas da constipação comum são na verdade o início do hantavírus.

O advento do Google foi um golpe de sorte para mim – e um problema. Eu sofri de cancro da mama, de um mesotelioma e de um defeito cardíaco. Contraí gripe suína, malária e uma amiba comedora de cérebros. Contudo, os médicos não conseguiram encontrar nenhuma destas doenças apesar de todas as pesquisas que fizeram.

Por mais de uma década, as minhas únicas resoluções de Ano Novo foram não chamar uma ambulância ou não ir à urgência do hospital nos 12 meses seguintes. Na maior parte dos anos, não consegui passar de fevereiro.

Com todos os ataques cardíacos, AVC e úlceras hemorrágicas que estava a sofrer, quem poderia culpar-me? Mas os médicos não conseguiam encontrar qualquer verdade nas minhas queixas (juro, doutor, eu estava a ter um ataque cardíaco antes de sair de casa), esgueirava-me então envergonhada para casa com outra promessa quebrada adicionada à lista.

Um ano antes de conhecer o namorado com lepra, acordei paralisada do lado esquerdo, cega e incapaz de falar.

Não conseguia ver o telefone, assim pedir ajuda era tarefa impossível. Arrastei-me da cama usando o braço e a perna direitos, aterrei com força no chão e rastejei durante o que pareceu uma hora, conseguindo finalmente chegar à porta da frente e, de algum modo, abri-la. Fiquei deitada no corredor, até que um vizinho me encontrou e chamou o 112.

Eu sabia que era um acidente vascular cerebral. Desta vez a sério.

O neurologista disse que eu tinha sofrido uma enxaqueca complicada, pois os meus sintomas iniciais pareciam ter desaparecido. Tinha recuperado a visão, conseguia mover os meus membros esquerdos e falar novamente. Ele disse para eu ir para casa e comer três refeições diárias, dormir oito horas todas as noites e fazer meia hora de exercício todas as manhãs.

Eu insisti em fazer ressonâncias magnéticas e TAC, que não mostraram nada. A minha família, sabendo que eu tinha uma predileção por doenças exóticas, aceitou o conselho do médico e sugeriu que eu parasse de me concentrar em doenças.

Nos nove meses seguintes fui ficando cada vez mais doente. Por ser solteira e viver sozinha, não tinha ninguém para testemunhar a minha profunda fadiga, as enxaquecas implacáveis, a fraqueza do lado esquerdo, a dificuldade em andar, a confusão, a perda de memória, a afasia, a névoa no cérebro, os distúrbios visuais, o zumbido nos ouvidos, os tremores e os espasmos, a dormência na mão esquerda, as tonturas, a insónia, a incapacidade de me concentrar, a fotossensibilidade, o gaguejar, a ataxia, a dificuldade de falar, o esquecer como executar as tarefas diárias, a baixa temperatura corporal, a resposta alérgica aumentada e as palpitações do coração. Sentia a cara a arder e, frequentemente, dava comigo perdida num bairro onde vivia há dez anos.

Fui a 17 médicos que sugeriram que eu poderia ter uma variedade de doenças: enxaqueca basilar, fadiga adrenal, mononucleose e stress. Nenhuma delas parecia a certa.

A maioria dos médicos disse que não havia nada de errado comigo. Eu parecia bem e as minhas análises ao sangue estavam normais. À noite, sozinha à frente do computador, tendo diminuído o brilho do monitor porque me fazia doer os olhos, tentava juntar as peças do quebra-cabeças da minha saúde em ruínas.

Finalmente, depois de me debruçar sobre os resultados das minhas análises pedidas por uma médica de doenças infecciosas, notei uma coisa que ela tinha ignorado: uma infeção antiga por recaídas de febre da carraça. Há imensos anos que resgatava cães abandonados e por três vezes tinha retirado o mesmo número de carraças da minha própria pele.

Encontrei um especialista em infeções por febre da carraça em Manhattan e, pouco depois, foi-me dito que tinha a doença de Lyme e cinco outras infeções correlacionadas. Foi uma vitória de Pirro. Eu estava doente! Bolas, eu estava doente.

A bactéria da doença de Lyme tinha vindo a florescer durante meses e tinha entrado no meu cérebro e no meu sistema nervoso central. Comecei o tratamento, que foi longo e doloroso. Fiz pesquisas online mais afincadamente do que nunca, agora determinada a encontrar soluções e não doenças.

Ainda estava em tratamento quando comecei a sair com o meu namorado. Ele sabia que eu estava doente e aceitava as minhas limitações. Eu desfiava o rosário dos meus sintomas todas as manhãs nos seus simpáticos ouvidos.

A certa altura, ele começou a partilhar comigo algumas das suas próprias queixas médicas, e começámos a estabelecer laços na doença, uma linguagem que eu entendia. Nas raras ocasiões que em que discutíamos, eu gemia: “Tu nunca pesquisas nenhum dos meus sintomas no Google! Tu não me amas!”

Na noite do diagnóstico da lepra, o meu namorado tinha o que parecia ser uma irritação que circum–navegava a área das ancas perto do cós das suas calças de treino.

“Mudaste o detergente da roupa?”, perguntei.

Ele afirmou que não.

Tirei fotografias da erupção com o meu iPhone para as poder ampliar. Eliminei a dermatite de contacto, picadas de aranha, zona, eczema, infeções fúngicas, sífilis, urticária e líquen plano. Excluí 50 outras doenças até ter aterrado naquela que eu tinha a certeza que era: lepra.

Eu sabia que uma doença negligenciada pode ser mortal. A minha infeção cerebral originada pela febre da carraça era a validação de que eu não era apenas uma hipocondríaca. Tinha tido uma doença que muitos médicos não tinham conseguido ver, uma experiência de centenas de horas de pesquisa registada e o dom de ótimos poderes de dedução.

A lepra do meu namorado, decidi, era do tipo que começa como uma pequena lesão e acaba por levar à desfiguração facial e à cegueira.

Sentei-me ao seu lado na cama e chorei enquanto ele tentava dormir. “Vais ficar bem”, disse-lhe enquanto lhe esfregava as costas. “Provavelmente tens o tipo de lepra que responde ao tratamento.”

Encontrei uma clínica de lepra no Bellevue Hospital em Manhattan, à distância de uma viagem rápida de autocarro através da cidade, uma entre as onze que existiam em todos os Estados Unidos. Senti que era uma sorte para nós o facto de ser tão perto. Enviei-lhe o endereço do sítio da internet, que incluía o número de telefone e implorei durante dias para que marcasse uma consulta. Ele finalmente cedeu.

“Não toques em nenhuma parte do autocarro no caminho para lá”, disse-lhe. “Por favor, usa o desinfetante de mãos que te dei.”

No dia da consulta dele, eu senti uma espécie de leveza que não sentia há anos, um alívio não só por ter sido capaz de persuadir outra pessoa a levar-me a sério, o que é uma bênção para qualquer hipocondríaco, mas também por não ter lepra.

Se tivesse descoberto lepra noutra pessoa qualquer que não o meu namorado, teria ido a correr para a clínica, apontando para sardas e sinais de nascença. Mas agora eu tinha alguém para cuidar e amar. Podia transferir uma parte da minha energia neurótica para ele – e, claro, salvar-lhe a vida.

O meu namorado disse que o médico não se riu propriamente dele, mas não parou de sorrir a consulta toda e mandou-o embora logo após olhar para a erupção, que, garantiu-lhe o médico, não era nada sério, provavelmente só uma irritação que desapareceria com o tempo. Eu fiquei profundamente aliviada por alguns minutos.

Mas se a erupção não era lepra, então o que era? E porque não tinha o médico feito uma biopsia?

Tirei mais fotografias das pequenas saliências vermelhas e digitei “irritação cutânea” no Google Imagens pela décima vez. É a maneira de um hipocondríaco dizer: “Amo-te.”

Fonte: Nikki Moustaki, DN.

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