Ouvir música pode ajudar a sofrer menos nas cirurgias

Diminuir a ansiedade, aumentar a satisfação com o tratamento e ter menos dores, são as vantagens conhecidas por se ouvir música antes, durante e depois de uma cirurgia. Um tratamento simples e barato.

Uma roda de piano no hospital americano da Cruz Vermelha, em Londres, no dia 24 de janeiro de 1918. Topical Press Agency/Getty Images.

Ouvir música antes, durante ou depois de uma intervenção cirúrgica parece ser benéfico para os doentes e reduzir significativamente a dor e ansiedade, assim como a necessidade de medicação contra as dores. A conclusão foi apresentada pela equipa de Catherine Meads, do Grupo de Investigação em Economia da Saúde na Universidade de Brunel (Reino Unido), depois de rever estudos anteriores que envolveram quase sete mil doentes.

A música é uma intervenção não invasiva, segura e barata que deveria estar disponível a todos os que são submetidos a uma cirurgia”, defende Catherine Meads, citada em comunicado de imprensa. “Os doentes deviam poder escolher a música que querem ouvir de forma a maximizar os efeitos no próprio bem-estar. Contudo, é preciso ter em conta que a música não pode interferir com a comunicação da equipa médica.”

Os ensaios clínicos analisados comparavam o impacto da música com os cuidados convencionais ou com outras intervenções que não incluíssem o uso de drogas, como as massagens, na recuperação de adultos em pós-operatório, refere o artigo publicado na conceituada revista médica The Lancet. Os 6.902 doentes que ouviram música, quando comparados com os que não ouviram (controlo), mostraram-se significativamente mais satisfeitos com o tratamento e menos ansiosos depois da cirurgia. Estes doentes referiram ter menos dores e recorrer menos a analgésicos e anti-inflamatórios.

As conclusões vão mais longe:

  • Ouvir música em qualquer momento parece surtir efeito, mas os doentes que ouviram música antes da cirurgia mostraram melhores resultados do que os que ouviram durante ou depois.
  • Os doentes que ouviram música mesmo sob o efeito da anestesia continuaram a apresentar níveis mais baixos de dor, ainda que os resultados fossem ainda melhores nos doentes que estavam conscientes quando ouviram a música.
  • Embora de efeito moderado, e estatisticamente não significativo, os doentes que escolhiam a própria música pareciam ter uma redução ainda maior nas dores e no uso de medicamentos.
  • Apesar das melhorias apresentadas, a estadia no hospital não foi menor só porque os doentes ouviram música.

Num comentário ao artigo, Paul Glasziou, investigador no Centro de Investigação das Práticas Baseadas em Evidências da Universidade Bond (Austrália), refere que o facto de os doentes beneficiarem da música mesmo quando estão anestesiados pode mostrar que este efeito não é mais do que um placebo (tratamento “inerte” ministrado com fins sugestivos ou psicológicos). “Porém, um efeito placebo seria desejável de qualquer forma.”

Os diretores podem ter ficado desapontados que a duração da estadia [no hospital] não tenha sido reduzida, mas a música é uma intervenção simples e barata, que reduz desconfortos passageiros em pacientes sujeitos a cirurgia”, refere Paul Glasziou.

Dos mais de quatro mil artigos encontrados, os investigadores escolheram os 72 ensaios clínicos que cumpriam os critérios de inclusão: serem controlados e aleatórios, terem dados qualitativos, incluírem adultos sujeitos a uma cirurgia que não incluísse o sistema nervoso central, a cabeça ou o pescoço. Os artigos escolhidos podiam estar escritos em qualquer língua, a cirurgia podia ter recorrido a anestesia ou não e os medicamentos para as dores podia ser de qualquer tipo.

Embora o ensaio com mais pessoas tivesse apenas 458 participantes e um estudo deste tipo pudesse beneficiar de uma amostra mais alargada, os investigadores consideram que como todos os pequenos ensaios mostram as vantagens da utilização de música, esta compilação poderá ser o suficiente.

Um dos pontos verificados pelos autores é que “apesar de existir um número relevante de estudos, a música ainda não foi implementada como uma intervenção terapêutica na prática cirúrgica quotidiana porque a informação sobre a eficácia não foi sintetizada e disseminada universalmente”, escrevem no artigo. E reforçam que “nenhum dos estudos incluídos referiu efeitos secundários”.

Os autores consideram que este é o trabalho de revisão mais completo sobre a utilização de música no tratamento de doentes sujeitos a cirurgia. E acrescentam que “existe alguma evidência experimental que a distração com videojogos pode reduzir a dor induzida em adultos”, mas ainda não há estudos sobre a eficácia da utilização de vozes na rádio ou audiolivros durante as cirurgias de adultos.

Fonte: Observador.

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