Um estudo sobre o conceito de perversão

Resumo: A perversão é um fenômeno sexual, político, social, físico, trans-histórico, estrutural, presente em todas as sociedades humanas. O construto da perversão percorre um caminho complexo, passou por várias etapas, de modo que existiram pré-conceitos; juízos de valor e idéias moralistas frente à sua principal função. Nesse enfoque, esse estudo tem o objetivo de caracterizar a perversão sob a ótica da psicanálise. Desse modo, pôde-se estudar o conceito de perversão antes e depois de Freud, entender o conceito de estrutura perversa e discutir a perversão à luz da teoria psicanalítica.

Palavras-chave: Psicanálise, perversão, Freud

1. Considerações Iniciais

A palavra “perversão” deriva do verbo latino pervertere, resulta de “per” + “vertere” (quer dizer: pôr às avessas, desviar.), o que significa tornar-se perverso, desmoralizar, corromper, depravar, ou seja, designa o ato de o sujeito perturbar a ordem ou o estado natural das coisas. A perversão em si distingue-se da neurose e da psicose de acordo com sua organização e seu funcionamento. A perversão seria exatamente o resultado da falta de recalque.

A perversão é um fenômeno sexual, político, social, físico, trans-histórico, estrutural, presente em todas as sociedades humanas (ROUDINESCO, 2007).

Em psicanálise o termo perversão tornou-se um conceito para a área por volta de 1896 quando Sigmund Freud o colocou lado da psicose e da neurose. Desse modo, a perversão encontra-se em um amplo campo de estudo, tendo em vista que engloba comportamento, práticas e fantasias correlacionados à norma social.

Com base na historicidade da perversão, detém-se, inicialmente, à Medicina, que trouxe uma visão patológica que a caracterizava como “desvio”. Freud (1905) em os “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” traz uma inovação sobre a criança enquanto sujeito sexual e a classifica enquanto possuidora de uma sexualidade perverso-polimorfa, isto é, que pode ter várias finalidades para atingir seu objetivo e que pode permanecer no adulto.

O construto da perversão percorre um caminho complexo, passando por várias etapas, de modo que existiram pré-conceitos; juízos de valor, dentre outros. A partir desse enfoque, surge uma teoria pautada em um conjunto de comportamentos psicossexuais que visam o prazer de modo contínuo, ao passo que considera a verdade ao mesmo tempo que a nega, substituindo-a pelo seu próprio desejo.

2. O Conceito de Perversão Antes e Depois de Freud

Antes de Freud estudar esse conceito, a palavra perversão era tida como algo pejorativo, doença, censura, como algo de desordem orgânica e anormal. A medicina da época tratou a perversão como uma forma de degeneração do sistema nervoso.

A sexualidade era vista somente como modo de reprodução, portanto, toda manifestação sexual que não tivesse o objetivo de reprodução, era vista como patológica, já que colocaria em risco a preservação da espécie e a procriação.

A partir de Freud (1905) em os “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” a perversão adquire um aspecto diferente, tendo em vista que irá fazer parte da sexualidade infantil, isto é a sexualidade infantil tem caráter perverso polimorfo, isto é, possui várias formas de obtenção de prazer. Porém, a perversão infantil não deve ser confundida com a perversão do adulto, mesmo que uma seja um ponto de partida para o entendimento da outra, cada uma possui sua especificidade.

Nessa linha de pensamento, a perversão situa-se como algo inerente à condição humana. Após as idéias de Freud, ela deixa de ser vista como algo patológico, sobretudo, o que dá o caráter de patologia à perversão é a fixação objetal.

3. Estrutura Perversa

A partir dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Freud institui uma distinção entre as inversões e as perversões propriamente ditas. Esta diferença tem seu fundamento na plasticidade do mecanismo pulsional e em sua aptidão a se prestar a “desvios” em relação ao fim e ao objeto das pulsões.  As inversões corresponderiam a desvios concernindo ao objeto da pulsão, enquanto que as perversões remeteriam a um desvio quanto ao fim (DOR, 1991).

No perverso o desejo aparece pela via da atuação, ou, dito de outro modo, o perverso age, ele encena o desejo.

Do ponto de vista freudiano, a estrutura perversa parece, então, encontrar sua origem em torno de dois pólos: de um lado, na angustia da castração; de outro, na mobilização de processos defensivos destinados a contorná-la. A este título, ele evidencia dois processos defensivos característicos da organização do funcionamento perverso: a fixação (e a regressão) e a denegação da realidade (DOR, 1991).

O perverso tem uma vivência da ordem do horror no confronto com a diferença dos sexos e nisto está a confirmação de que ele está condenado a perder o objeto do desejo (a mãe) assim como o seu pênis.

4. Perversão Sob a Ótica da Psicanálise

Historicamente, as perversões de conceitos morais foram atribuídas a perturbações de ordem psíquica, as quais dariam origem a tendências afetivas e moralmente contrárias às do ambiente social do pervertido (FOUCAULT, 1984).

Os estudos sobre perversão na psicanálise podem ser divididos em três momentos: o primeiro momento se relaciona com a publicação de “a neurose é o negativo da perversão” publicado em “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”; o segundo momento se refere à teoria do Complexo de Édipo, que se caracteriza o núcleo das neuroses e das perversões; no terceiro momento Freud define a recusa da castração como mecanismo essencial da perversão.

Segundo Castro (2004), “num primeiro momento de construção teórica freudiana, a expressão perversão sexual designava a qualidade aberrante da própria sexualidade”, o que, em algum nível, encontrava-se em consonância com a visão médica vigente. Vamos observar como a escuta psicanalítica do sintoma perverso foi aos poucos modificando esse entendimento até que Freud chegasse à noção de perversão como condição básica da sexualidade.

De acordo com Freud (1905), a neurose é o negativo da perversão, tendo uma estreita relação com a teoria do Complexo de Édipo, que define a recusa da castração como mecanismo essencial da perversão.

Nesta obra, Freud trata da perversão como desvio da conduta sexual que não visa a genitalidade. Assim, toda criança, ao autossatisfazer-se sexualmente, poderia ser considerada perversa. Portanto, o conceito de recusa aparece como um mecanismo normal da construção da sexualidade. Posteriormente é superado, pois a castração aceita e os desejos incestuosos, juntamente com os desejos de completude, sucumbem ao recalque na normalidade, o que difere da perversão (PFITSCHER; BRAGA, 2012).

O sujeito de estrutura perversa mantém-se, contudo, excluído do Complexo de Édipo e da alteridade, passando a satisfazer sua libido sexual consigo mesmo, sob caráter narcísico. Tal estrutura dá-se por meio de uma fixação numa pulsão parcial que escapou ao recalque, tornando-se uma fixação exclusiva. A recusa da criança, em aceitar a falta fálica da mãe, ocasiona a recusa da percepção da castração, que retorna à ideia da figura da mulher com o pênis, origem da fantasia da mulher fálica (SEQUEIRA, 2009).

O que ocorre na estrutura perversa é a castração edipiana: o perverso não aceita ser submetido às leis paternas e, em consequência, às leis e normas sociais (SEQUEIRA, 2009).

5. Considerações Finais

Portanto, o conceito de perversão esteve imbuído de preconceitos, estigmas e idéias moralistas ao longo do tempo. Com o advento da psicanálise, esse termo ganhou um novo redirecionamento, se caracterizando com um conjunto de comportamentos que buscam o prazer de modo continuado. É a partir da infância que essa estrutura se constrói e se desenvolve no mundo adulto com base na fixação do desvio quanto ao objeto do desejo. Com base nas idéias psicanalíticas o nosso objeto de interesse pode variar ao longo da vida, caracterizando uma perversão ou não.

Referências:

BRAGA, A.M, PFITSCHER, D.B. Estrutura perversa: Efeitos midiáticos e articulados com o social. Universidade Federal de Santa Maria, 2012.

CASTRO S. (2004).Aspectos teóricos e clínicos da perversão. Dissertação de Mestrado não-publicada, Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica, Pontifícia Universidade Católica, RJ.

DOR, J. Estruturas e clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Timbre Editores, 1991.

FOUCAULT, M. O uso dos prazeres. Rio de Janeiro, Graal. 1984

FREUD, S. Três ensaios sobre uma teoria da sexualidade. In: Obras psicológicas completas: Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

ROUDINESCO, Elisabeth. La part obscure de nous-même. Une histoire des pervers. Paris: Editions Albin Michel, 2007, 248pp.

SEQUEIRA, C. V. Pedro e o Lobo: O criminoso perverso e a perversão social. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Vol. 25 n. 2 2009. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ptp/v25n2/a10v25n2.pdf

Fonte: Alex Barbosa Sobreira de Miranda. https://psicologado.com/abordagens/psicanalise/um-estudo-sobre-o-conceito-de-perversao © Psicologado.com

 

 

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