Pessoas bonsai

 

 

Rafael Nacif

 

Estamos a falar de mentalidades e de alargamento de vontades.

Muitas pessoas não sabem que aquelas pequenas e graciosas plantinhas japonesas conhecidas por bonsais mais não são do que plantas normais tornadas anãs por efeito de contensão das suas raízes em vasos diminutos, associada a criteriosa poda de ramos e rebentos. Há carvalhos que livres na Natureza atingiriam os 4 ou 5 metros de altura mas que apertados e inibidos no seu potencial de crescimento são bonsais que não ultrapassam os 15 ou 20 cms.

Com as pessoas acontece o mesmo. Nas devidas proporções, desde logo fisicamente. Os pequenos japoneses em pouco mais de 2 gerações (desde a II Guerra Mundial) aproximaram-se em altura dos norte-americanos. O que mudou: o tipo de alimentação na fase de crescimento. Simples. Afinal não somos assim tão fisicamente diferentes como nos julgamos.

Mas não são tanto os fenómenos físicos o que queremos aqui salientar, interessantes mas pouco substanciais. São os psíquicos, os que nos moldam a mente e a vontade, a a forma de sermos e de fazermos, de empreendermos, todo um conjunto de “pequenos nadas” de que brota uma mentalidade, que dá corpo a uma sociedade, que faz nascer uma civilização. Os “pequenos nadas” verdadeiramente importantes.

Há uns tempos atrás passei numa estrada no campo e vi num não muito grande terreno talvez uma dúzia de vacas e, numa ponta da pequena propriedade, uma roulote habitada por um jovem louro, talvez um holandês. Dois anos depois aconteceu passar pela mesma estrada e em vez da roulote havia agora uma casinha construída, habitada já por uma família de louros, tendo as vacas substancialmente aumentado. E pensei: isto é empreendedorismo. E questionei para mim próprio: porque é que os camponeses daqui não fazem a mesma coisa? Porque é que não têm a mesma iniciativa?

Não fazem – refleti eu mais tarde – porque “lhes falta mundo”, porque lhes falta visão, mentalidade. Mas não por sua culpa. Nasceram ali, sempre viveram ali, o seu mundo foi sempre ali, tudo foi sempre assim, não sabem (não conhecem) que há outros mundos, que tudo pode ser diferente. São bonsais de cabeça.

Para nós é fácil. Para nós que conhecemos empresas, que conhecemos negócios, que conhecemos mundo, para nós é fácil vermos oportunidades num pedaço de terreno onde se podem criar vacas, que podem ser vendidas, para a seguir se poderem comprar mais vacas, etc., etc. Um camponês não é melhor nem pior que um louro holandês. É apenas um bonsai de visão, estreitada que foi por falta de conhecimentos e de horizontes.

Estamos a falar de mentalidades e de alargamento de vontades. Mas suponhamos que esse camponês que estamos a imaginar tomava mesmo a iniciativa de comprar um terreno para lá lhe colocar uma dúzia de vacas. Qual o banco que lhe emprestaria capitais sem sólidas garantias? Como faria? E a que juros? E depois a quem venderia o camponês as vacas? Qual o circuito comercial? Quem o ajudaria?

Mas para o tal holandês foi igual!

Não, não é verdade. O holandês aprendeu desde cedo a lidar com bancos, nasceu e cresceu numa sociedade em que se premeia o empreendorismo, tem amigos e conhecimentos valiosos, o mundo é seu amigo. É um “carvalho” convicto, confiante e determinado. O mundo do camponês não! Enquanto o holandês teve terra para estender as suas raízes e crescer livremante, o camponês viu-se fechado num ambiente hostil, ficou raquítico, como homem e como ser, transformou-se num homem bonsai.

O que é verdade nesta alegoria do holandês e do camponês é verdade para regiões subdesenvolvidas do mundo, para países ou civilizações que com muita facilidade acusamos os seus naturais de indolentes ou pouco espertos, sem nos lembrarmos que na esmagadora maioria das vezes a administração pública nestes sítios não é amiga do cidadão, que o ambiente económico é hostil, que os créditos são extremamente difíceis, que a formação de uma empresa é um martírio de burocracia, etc., etc., etc.

“Todos os Homens nascem Livres e  Iguais em Dignidade e Direitos”, diz no seu Artigo Primeiro Declaração Universal dos Direitos Humanos. Só que logo a seguir uns desenvolvem-se em terra livre enquanto outros ficam enclausurados como bonsais.

Além de que há ainda mais outra coisa, um pequeno pormenor: somos pessoas, não plantas!

 

Empresário e investidor internacional

 

Fonte: Público.

 

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