Falsas memórias

 

NM1236_Comportamento

 

Algures na nossa memória estão recordações de coisas que nunca aconteceram. Ou porque percebemos mal ou porque fomos influenciados ou simplesmente porque já lhes acedemos tantas vezes que, literalmente, adulterámos as lembranças com o uso. Bem-vindo ao maravilhoso mundo do seu cérebro – que «inventa» coisas que nunca aconteceram.

Colamos post-its em locais estratégicos, fazemos listas de assuntos a tratar, pomos lembretes no telemóvel, preenchemos a agenda. A nossa relação com a memória é pautada pelo receio de esquecer. Entretanto, a memória atraiçoa-nos de forma diferente e inesperada: só vemos o medo de não recordar, mas o perigo de lembrar demasiado também existe. Sim, fabricamos memórias. É fácil criá-las e fazemo-lo sem nos darmos conta disso.

A psicóloga e especialista em memória Elizabeth Loftus usa uma analogia curiosa para explicar por que são fabricadas memórias falsas: ao contrário do que pensamos, a memória não funciona como um gravador, mas antes como uma página da wikipédia. Ou seja, podemos ir lá e mudar informações, assim como outras pessoas também podem. Por isso não é infalível.

Se já achou que alguém lhe mentiu descaradamente ou teve arrufos com amigos por mais ninguém se lembrar de algo que descrevia, saiba que, tanto num caso como noutro, a responsabilidade pode ser das falsas memórias. «No dia-a-dia, se as pessoas soubessem da existência das falsas memórias evitariam atritos e discussões umas com as outras», diz a psicóloga clínica e neuropsicóloga Patrícia Moreira. «Mesmo quem tem uma boa memória e confia nas suas lembranças, tem de ter em atenção os complexos mecanismos que as elaboram.»

A memória implícita (ou procedimental) não depende da consciência. É automática. É ela que nos permite aprendizagens como andar de bicicleta e quase tudo o que fazemos em modo de piloto-automático, sem ter de pensar sobre isso. Forma-se através da repetição. «Estas memórias são fidedignas e praticamente imutáveis», diz a psiquiatra Ana Sofia Nava. «Como os cheiros da infância, que nunca desaparecem.» Depois – e é aqui que quase todos os problemas de memória, por excesso ou por defeito, residem – temos a memória explícita ou declarativa, mais intelectual, que codifica factos e acontecimentos autobiográficos, e que usamos para aprender novas tarefas e relatar acontecimentos antigos. «A sua formação depende de processos cognitivos como a avaliação, a comparação e a inferência. Mas esta memória é pouco fidedigna», diz a psiquiatra e autora do livro O Cérebro Apanhado em Flagrante.

Para otimizar o volume de trabalho, o cérebro utiliza vários processos que retiram a fidelidade do que é memorizado. «Por exemplo, condensamos informações, associamos informações parecidas, selecionamos as mais importantes. De outro modo não poderíamos memorizar toda a informação que nos chega.» Como se isto não bastasse, têm de se somar fatores que interferem no processo de memorização: os órgãos dos sentidos, através dos quais nos chega a informação; a capacidade que o cérebro tem de integrar, o que quer dizer que a inteligência afeta as memórias; as emoções, que condicionam a capacidade de memorizar, e os mecanismos de defesa, que atuam nas memórias desconfortáveis, racionalizando-as ou negando-as.

A memória não se reconstrói apenas. Constrói-se, como percebeu em 1930 o psicólogo cognitivo britânico Frederic Bartlett. Cada vez que falamos ou nos falam de um episódio da nossa vida, não estamos apenas a reconstruir o que aconteceu, estamos a construir em cima do que já existe: o nosso cérebro vai juntando informações ao registo inicial. «Deixamos de ter noção de qual a memória original e quais as sucessivas atualizações. As nossas memórias explícitas são uma sombra da realidade, uma visão subjetiva e inexata do que realmente aconteceu», conclui Ana Sofia Nava.

E se entre amigos e família esta construção individual pode dar azo a conversas infinitas
com opiniões contraditórias sobre o que aconteceu, campos há nos quais estas rasteiras da memória podem ter implicações graves. É o caso das questões judiciais, nas quais um pormenor «inventado», uma recordação confusa ou uma identificação errada pode conduzir à prisão de um inocente. «Apesar de algumas décadas de pesquisas sobre a falibilidade do testemunho, o que continuamos a constatar são graves erros judiciais que, baseados no valor da prova testemunhal, continuam a levar à condenação de inocentes», diz a psicóloga Anabela Marinho, cuja investigação se tem debruçado sobre falsas memórias e a sua importância no contexto criminal.

Em Portugal não há estatísticas sobre o tema, mas nos EUA os números são O National Registry of Exonerations, um projeto da Escola de Direito da Universidade de Michigan que estuda casos de inocentes condenados por erros judiciais, registou, em 2013, 87 erros judiciais. A origem das condenações erradas deveu-se, em grande parte, a fatores como o falso testemunho e identificação errada.
A forma como é recolhido o testemunho pode ter consequências. A quantidade de vezes
que a pessoa é questionada, a forma como são colocadas as perguntas e as palavras escolhidas podem influenciar a perceção dos factos e alterar a memória que se tem deles. «“Viu o carro” é diferente de “viu um carro”», diz Anabela Marinho. Da mesma forma, devem ser evitadas frases complexas ou ambíguas. «Se perguntar a um homem: “Parou de bater na sua mulher?” e ele responder “não” admite que ainda bate, se responder “sim” admite que batia.»

As falsas memórias são diferentes das mentiras. Na mentira enganamos intencionalmente, na falsa memória somos vítimas do cérebro. Patrícia Moreira divide a criação de falsas memórias em dois tipos: «As espontâneas, geradas pelo processo normal de compreensão, quando o sujeito faz o seu entendimento do que ocorreu e não necessariamente o relato fidedigno. E as falsas memórias sugeridas, quando o sujeito é influenciado acidental ou deliberadamente.» E como podemos distinguir memórias falsas de verdadeiras? Esta é a parte pior: não podemos. Apesar de alguns estudos relatarem que as memórias verdadeiras têm mais pormenor, a verdade é que as falsas também podem ter (ver caixa). É na nossa memória que se funda a nossa identidade. Somos o que recordamos. Mas entre o que não lembramos e o que lembramos a mais, temos de aceitar que parte do que somos é ficção.

LEMBRA-SE DA BEBIDA QUE (NUNCA) ENTORNOU?
O psicólogo Ira Hyman, da Western Washington University, tem feito experiências de implantação de falsas memórias de infância em adultos. No estudo False Memories of Childhood Experiences relata como uma quantidade significativa de estudantes universitários passou a ter lembranças de uma coisa que nunca aconteceu. Depois de lhes fazer perguntas sobre acontecimentos que, de acordo com familiares, aconteceram
mesmo, fez-lhes depois perguntas sobre episódios nunca ocorridos. Um exemplo: «Lembra-se de quando tinha 5 anos e num casamento andava a correr com outras crianças, chocou contra uma mesa e entornou a taça de ponche em cima dos pais da noiva?» Na primeira entrevista os participantes não tinham qualquer memória do sucedido, mas, numa segunda, cerca de 20 por cento lembravam-se de alguma coisa em relação a esse episódio inventado como parte das suas memórias. Mais: alguns davam até pormenores que não haviam sido descritos, como: «Sim, foi num casamento ao ar livre.»

O CASO TITUS
Um dos muitos casos de condenação injusta ocorrido nos Estados Unidos foi o de Steve Titus, de 31 anos, gerente de um restaurante em Seattle. Nos anos 1980 foi mandado parar pela polícia ao regressar de um jantar com a noiva. O carro de Titus era parecido com o que conduzia um homem que violara uma mulher nessa noite e o gerente também era parecido com o violador. Titus estava inocente, mas foi considerado culpado e passou um ano atrás das grades antes de ser descoberto o engano. Pelo caminho, perdeu dinheiro, o emprego e a noiva.

O caso deu que falar pelo processo que moveu contra o Estado e pelo envolvimento da imprensa na descoberta do verdadeiro culpado (com o jornalista Paul Henderson a acabar por receber o Prémio Pulitzer pela investigação neste caso). A psicóloga Elizabeth Loftus também recorreu a ele para tentar entender o evento que esteve na origem da condenação: uma falsa memória. Antes do julgamento, quando a vítima olhou para a fotografia de Titus no meio de outras disse: «Este é o mais parecido.» O caso avançou para julgamento e, durante o processo, a mulher, levada pelas falsas memórias que entretanto construíra, mudou a sua convicção: «Tenho a certeza absoluta que foi este homem» – acabaria por afirmar em julgamento.

A LER

O Cérebro Apanhado em Flagrante, Ana Sofia Nava, Climepsi Editores

The Science of False Memory, C.J. Brainerd e V.F. Reyna, Oxford Psychology Series, Oxford
University Press

My Lie: A True Story of False Memory, Meredith Maran, Jossey-Bass

False Memory Creation in Children and Adults – Theory Research and Implications, David F. Bjorklund, Lawrence Erlbaum Associates

 

Fonte: Notícias Magazine.

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