Ler ficção prolonga a vida?

 


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Uma investigação concluiu que quem lê obras de ficção vive mais anos

Há livros que salvam vidas. Em momentos em que somos forçados a estar circunscritos a uma cama, por motivo de acidente ou doença, um livro permite esquecer durante umas horas as dores ou a prisão involuntária. Graças à evasão que uma obra de ficção permite, consegue-se viajar temporariamente para fora do mundo real.

Paulo M. Morais sabe bem o que isso é. O escritor passou recentemente por um cancro, e cada um dos oito tratamentos teve direito a um livro de combate. “Vivi oito ciclos de quimioterapia sempre com um livro nas mãos. Qual o efeito das leituras? Sentir-me permanentemente acompanhado, durante os quase seis meses de quimioterapia, pelos nomes das capas, pelas personagens das páginas, pelas pessoas que me tinham passado os livros. A leitura foi uma distração; um auxílio para espaçar a respiração, aceitar o momento, aprofundar a serenidade. Cada página lida ajudou-me a controlar a ansiedade, a dúvida, o desconforto. Cada página lida incentivou-me a questionar, refletir, relembrar, escrever. Na sala de tratamentos, nunca encontrei mais ninguém com um livro entre as mãos. A maior parte das pessoas entretinha-se com tablets, telemóveis, companhias humanas. Algumas folheavam revistas e jornais; outras olhavam para o vazio. Quando terminei o tratamento, concluí que não podia ter vivido o meu cancro sem ler nem escrever.”

Agora, um estudo científico comprova as vantagens físicas da leitura. Uma investigação levada a cabo pela Universidade de Yale, com 3635 participantes, concluiu que os leitores de livros de ficção (jornais e revistas não tinham o mesmo efeito), viviam em média mais dois anos que os restantes.

Embora não saiba explicar o motivo de tal relação, Rebecca Levy, autora do estudo, afirmou que quem relatava ler livros nem que fosse meia hora por dia tinha maiores probabilidades de sobrevivência do que as que não liam.

Os resultados não surpreendem a editora do grupo Leya, Maria do Rosário Pedreira. Afinal, “a leitura é uma forma excelente de pôr o cérebro a trabalhar, especialmente se for ativa e participante — como acontece na literatura —, o que nos obriga a um esforço de atenção e concentração, implica constante visualização e imaginação, e torna-nos capazes de apreciar critica e esteticamente a estrutura, a linguagem, o estilo do autor”. Maria do Rosário compreende perfeitamente a ajuda que os livros prestam. “Nunca tive nenhuma doença especialmente grave ou duradoura, mas, em momentos em que tendia para a depressão (mortes de pessoas próximas, males de amor…), senti sempre que a leitura era uma salvação, porque me permitia mergulhar num mundo que não era o meu e alhear-me do que me estava a minar por dentro.

Lembro-me de que, numa noite em que estava especialmente triste, há muitos anos, comecei a ler ‘Porto Sudão’, de Olivier Rolin, e me fui deitar já quase de madrugada, muito mais ‘leve’ e bem-disposta, cheia de vontade de acordar no dia seguinte para ler o resto.”

 

Fonte: Katya Delimbeuf, Expresso.

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