O difícil trabalho dos psicólogos do INEM

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Depois do pior incêndio de que há memória em Portugal, voltou a falar-se do que é preciso fazer: enterrar os mortos, cuidar dos vivos, ajudar a reconstruir as paredes, o corpo, a alma. Quem são os psicólogos de que tanto se falou e como prestam socorro às vítimas de stress agudo? O INEM tem uma das poucas equipas de psicologia de emergência no mundo que faz isto todos os dias.

A tragédia entrou-nos pelos olhos dentro. E com ela, o aparato de pessoas a dar resposta a uma das maiores catástrofes das últimas décadas em Portugal: bombeiros, militares, polícia, proteção civil, médicos, enfermeiros, técnicos de emergência pré-hospitalar, pilotos, assistentes sociais, investigadores, políticos, peritos forenses. Mas também uma equipa que, não por acaso, poucos viram e de pouco se fala (exceção às declarações, no início da semana, do presidente do PSD, Pedro Passos Coelho): os psicólogos de emergência do INEM.

O Centro de Apoio Psicológico e de Intervenção em Crise (CAPIC) apoia vítimas de eventos traumáticos e os próprios elementos da instituição que são confrontados com situações mais exigentes. Para entender a essência do trabalho que desenvolvem, é preciso pensar que, naquele fatídico sábado, as pessoas que estavam na zona de Pedrógão Grande passaram a manhã a fazer coisas prosaicas – varrer a casa, a regar a horta, a rir com a vizinha, a combinar com os filhos um almoço na semana seguinte. Horas depois, muitas delas não tinham casa, não tinham horta, não tinham vizinha, não tinham filha e não haveriam de fazer na próxima semana nada daquilo que tinham planeado naquela manhã. Estavam vivos, mas a vida como a conheciam tinha sido consumida pelas chamas.

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A Internet faz com que as pessoas se sintam mais inteligentes do que realmente são…

 

 

Ilusão on-line: a Internet faz com que as pessoas se sintam mais inteligentes do que realmente são

Há um par de décadas abriu-se ao mundo uma inédita arca de “pré-conhecimento”, isto é, de informação. De repente uma infinita enciclopédia atualizada em tempo real ficou disponível, e com esta explosão de informação o nível popular de sapiência cresceu de forma literalmente espetacular -não só pela dimensão senão por que também remete a uma espécie de ilusão.

Dispor de tal quantidade de dados nos empodera, um fenômeno que implica um duplo fio. Por um lado estimula a sede de conhecimento e faz de muitos de nós potenciais navegadores informativos, mas por outro gera a ilusão de que sabemos mais do que em realidade sabemos. O que acontece é que quando alguém busca informação ocorre um fenômeno no qual ele acha que seu conhecimento se funde com a informação disponível na fonte onde busca.

Recentemente foi publicado um estudo realizado pela Universidade de Yale que demonstra o anterior. Em uma série de nove experimentos os pesquisadores comprovaram que aquelas pessoas que dispunham de informação proveniente da internet, consideravam saber mais que aquelas que recebiam a informação de outros lugares, inclusive de livros técnicos.

Matthew Fisher, que encabeçou o estudo, afirmou:

– “Este efeito demonstrou ser bastante robusto, e replicou-se todas as vezes. As pessoas que buscam informação tendem a combinar ou confundir seu próprio conhecimento com aquele que têm disponível”.

Por exemplo, em um dos experimentos uma parte dos voluntários buscou na rede a resposta à pergunta “Que é um zíper?“, e o grupo de controle recebeu diretamente a resposta sem tê-la procurado. Posteriormente, quando perguntaram a ambos os grupos o que entendiam do conceito, aqueles que obtiveram a resposta buscando on-line demonstravam muito maior confiança que aqueles que receberam exatamente a mesma informação, mas sem a internet no meio. Isto ocorreu inclusive nos casos em que alguns do último grupo nem sequer tinham achado uma resposta precisa à pergunta.

Este fenômeno se torna inoportuno e enfadonho dentro da área técnica e acadêmica. Eu trabalho com cálculos elétricos e eletrônicos há muitos anos e de vez em quando tenho que escutar “profissionais” desqualificados dizendo que “Você não entende nada, eu vi isso na internet e não tem nada a ver com que você está dizendo“.

Ademais, há casos em que esses “iluminados” querem revogar leis estabelecidas da física, quando não sabem nem o que significa Lei de Newton, Ohm, Mendel, Termodinâmica, etc. Você tenta explicar que suas postulações são impossíveis e o “luzidio” recorre a estapafúrdias citações que misturam esoterismo com física quântica (exatamente por isso, às vezes, Planck é chamado de “pai dos burros”).

– “Os efeitos cognitivos de “estar em estado de busca” na internet podem ser tão poderosos que as pessoas se sentem mais inteligentes ainda quando suas buscas on-line não revelam nada”, adverte o psicólogo e linguista Frank Keil, que ademais confessa que quando ficou sem internet durante alguns dias por causa de um furacão, teve a sensação de estar se tornando cada vez mais estúpido.

Fonte: Negócio Digital.

…e promove a “desigualdade cognitiva”

Internet: inteligentes mais inteligentes e tontos mais tontos

Em um fenômeno que poderia equiparar-se à desigualdade econômica propiciada pela globalização, e que talvez surpreenda alguns ou confirme o que muitos outros já suspeitavam, Kevin Drum sugere que, umas das possíveis transformações que a Internet está operando nas mentes humanas, as pessoas sapientes se tornam mais inteligentes e os tontos em mais burros, ampliando mais ainda a brecha da desigualdade cognitiva.

Isto tomando como referência pelo menos uma prática mais que freqüente quando se navega na Rede: a ação de buscar.

– “Um site pode fornecer uma resposta sumamente precisa, mas espetacularmente equivocada”, escreve o especialista, que acredita que a Internet contribui para ampliar o que chama de “desigualdade cognitiva”, um fosso cada vez maior que separa os inteligentes dos menos preparados, sobretudo em um aspecto muito particular: a capacidade de formular perguntas corretas para obter a resposta necessária.

Moral da história: Se não souber como usar ou não tem capacidade de realizar as perguntas corretas, terminará com a cabeça cheia de informação sem pé e nem cabeça. Mas se souber o que procura e como fazê-lo, terá um compêndio infinito de informação relevante.

Os resultados de suas buscas sempre retornam o que procura ou acaba se perdendo em assuntos irrelevantes às necessidades?

 

Fonte: DSinfo, via Metamorfose Digital. 

Por que é que há canções que se colam à nossa cabeça durante um dia inteiro?

Uma equipa de cientistas procurou a resposta e diz que são geralmente canções com andamento rápido, uma forma melódica vulgar, mas intervalos e repetições incomuns. A campeã actual destas “canções pegajosas” é Lady Gaga.

Lady Gaga tem três canções na lista elaborada pelos investigadores REUTERS/TORU HANAI

Estamos descansados a pensar na vida, ou descansados da vida no chuveiro, e a cabeça é invadida pelo som de uma canção, aquela canção, a da melodia que não nos largará até que o dia acabe. Acontece a todos e da ocorrência não vem mal ao mundo, mas que irrita, irrita. Kelly Jakubowski, investigadora principal do Departamento de Música da Universidade de Durham, Inglaterra, não nos salvará das canções que nos invadem o cérebro sem convite durante dias a fio, mas a sua equipa explica quais as características musicais que conduzem a que tal aconteça. E revela que, em tempos recentes, Lady Gaga pode bem ser coroada a rainha do fenómeno.

A informação para o estudo foi recolhida entre 2010 e 2013 a partir de um grupo de estudo de três mil pessoas, que foram questionadas sobre os seus mais frequentes otovermes, para usar o adequadíssimo neologismo cunhado por Miguel Esteves Cardoso nas páginas do então jornal Blitz, hoje revista, há cerca de uma década. Em seguida, essas canções foram comparadas com outras que, não tendo sido nomeadas, se equivaliam em popularidade e em proximidade temporal quanto à presença nas tabelas de vendas inglesas (o estudo circunscreveu-se a público inglês e alemão e aos estilos musicais mais ouvidos no Ocidente, o rock, pop, hip hop e R&B).

“Estas canções musicalmente pegajosas têm um andamento rápido, reunido a uma forma melódica vulgar e a intervalos e repetições incomuns, como podemos ouvir no riff de abertura de Smoke on the water, dos Deep Purple, ou no refrão de Bad romance, de Lady Gaga”, afirma a autora do estudo publicado agora na revista Psychology of Aesthetics, Creativity and the Arts, em declarações citadas em comunicado da Associação Americana de Psicologia. Tais padrões encontram-se, por exemplo, nas canções de embalar, o que, dizem os autores, as torna mais fáceis de memorizar pelas crianças.

Moves like Jagger, dos Maroon 5, um dos otovermes mais referidos, tem uma melodia que evolui de forma semelhante a Twinkle, twinkle little star, o tema infantil britânico usado no estudo como exemplo. Em ambas se regista uma subida de tom na primeira frase, seguida de uma descida na segunda. Se reunirmos a essa característica os intervalos e repetições incomuns acima referidos, como as que se ouvem em My Sharona, o clássico dos The Knack, ou em In the mood, o standard de Glenn Miller, temos um otoverme completo, preparadíssimo para a acção nas nossas mentes indefesas.

Entre as canções mais nomeadas no estudo como otovermes, há um nome que se destaca. Lady Gaga é a única presença repetida, com Bad romance, Alejandro e Poker face incluídas na lista. Fazem-lhe companhia contemporâneos como Gotye (Somebody I used to know), Maroon 5 (Moves like Jagger) e Katy Perry (California gurls). Surgem depois um clássico do rock FM da década de 1980, os Journey de Can’t stop believing, uma canção cujo título parece indiciar desde logo a sua natureza “otovérmica” (Can’t get you out of my head, de Kylie Minogue) e a aparentemente eterna Bohemian Rapshody dos Queen.

O ano passado, um outro estudo, também britânico, mas elaborado na Universidade de St. Andrews, não se propôs descobrir o que tornava uma canção um otoverme, mas identificar os maiores otovermes de sempre da música anglo-saxónica. Lady Gaga não tinha lugar na lista, mas os Queen surgiam em destaque, com We will rock you no topo da lista e com We are the champions e Bohemian rapshody em terceiro e sexto lugar, respectivamente.

 

Fonte: Público.

Espanha: pais rejeitam TPC dos filhos

JORGE AMARAL/GLOBAL IMAGENS

 

 

Confederação Espanhola de Associações de Pais e Mães de Alunos incentiva famílias a deixar que as crianças não façam os trabalhos de casa em novembro

Os pais de crianças que frequentam a escola pública em Espanha iniciaram esta semana uma greve de um mês aos trabalhos de casa passados aos seus filhos, uma iniciativa que é inédita no país vizinho.

A Confederação Espanhola de Associações de Pais e Mães de Alunos (Ceapa), que representa cerca de 12 mil associações, instou as famílias das várias comunidades autonómicas espanholas a recusarem-se a fazer os deveres durante os fins de semana de novembro, noticiou hoje o jornal El Mundo.

Os argumentos da Ceapa é que os trabalhos de casa “invadem o tempo das famílias” e “violam o direito ao recreio, à brincadeira e a participar nas atividades artísticas e culturais”, tal como vem descrito no artigo 31 da Convenção dos Direitos da Criança.

A confederação distribuiu pelos pais três cartas que estes devem entregar nas escolas: na primeira pede-se ao diretor da escola que ordene aos professores da criança que não lhe passem trabalhos de casa em Novembro, a segunda é o mesmo pedido, mas feito diretamente ao tutor da criança.

A terceira é uma carta dirigida ao professor a explicar-lhe que o aluno não fez os trabalhos devido ao “direito constitucional que as famílias têm de tomar as decisões que considerem oportunas no âmbito familiar, que tem caráter privado, e que a escola não pode invadir”.

“Em virtude dos direitos que me assistem, dei prioridade às atividades familiares, como não podia deixar de ser, e, portanto, os trabalhos de casa não foram feitos”, acrescenta a carta que, segundo a Ceapa, os pais que aderiram à greve poderão entregar às escolas como forma de livre-trânsito.

O presidente da Ceapa, José Luis Pazos, declarou ao El Mundo que os pais querem “recuperar o tempo familiar dos fins-de-semana”.

“Também queremos que o modelo mude e que se dê um salto qualitativo no sistema educativo. Escolas de outros países funcionam sem trabalhos de casa, sem livros de texto e sem exames e obtêm resultados magníficos”, realçou.

Os estudos científicos demonstram que fazer mais trabalhos de casa não melhora, necessariamente, o rendimento escolar.

A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) alerta, por outro lado, que os trabalhos de casa “reforçam a disparidade socio-económica entre os estudantes” e “aumentam o intervalo entre os ricos e os pobres”.

A Espanha é um dos países em que os professores mais passam trabalhos de casa, ocupando aos alunos uma média de 6,5 horas por semana, faca à média de 4,9 horas.

Fonte: DN.

O cérebro adapta-se à desonestidade e a mentira cresce

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Mentir várias vezes em benefício próprio vai diminuindo a reacção do nosso cérebro à desonestidade. E, assim, mente-se cada vez mais.

A detecção da mentira, da sua escalada e da resposta do cérebro à desonestidade foi feita usando um frasco cheio de moedas em experiências com um grupo de 80 pessoas. Os resultados, publicados esta semana na revista Nature Neuroscience, mostram que as pequenas transgressões podem levar a mentiras cada vez maiores e que o cérebro “se habitua” a mentir. Sobretudo, se a desonestidade for em benefício próprio. É a primeira prova empírica sobre a previsível escalada gradual da mentira num trabalho que mostra também o que acontece no nosso cérebro durante este processo.

Um estudo realizado por investigadores da University College de Londres apresenta fortes argumentos para uma percepção que muitas pessoas terão sobre a mentira. É que às vezes parece que as pessoas se habituam a mentir. E de uma pequena aldrabice resvalam para mentiras cada vez maiores, com facilidade. Os cientistas comprovam esta hipótese com uma simples experiência que envolveu um frasco cheio de centavos de libra (o equivalente aos cêntimos) em vários cenários. Esta investigação, refere o comunicado da universidade, “fornece a primeira prova empírica de que as mentiras para proveito próprio vão escalando gradualmente e revela como é que isto acontece nos nossos cérebros”.

 A equipa colocou 80 participantes, com idades entre os 18 e os 65 anos, à prova durante uma série de exercícios em que comunicavam com outra pessoa à distância, por computador. O objectivo do jogo era adivinhar a quantidade de moedas dentro de um frasco exibido numa fotografia. Experimentaram vários cenários, entre os quais, não mentir e tentar que o parceiro do jogo acertasse na quantia, mentir para o outro tivesse lucro sem o seu prejuízo, mentir para que o outro tivesse lucro mas com prejuízo para si ou mentir apenas para seu proveito, prejudicando ou não o outro.

Os resultados mostraram que quando o participante no jogo podia tirar algum proveito da situação, ele não só era desonesto como mentia cada vez mais. E enquanto a desonestidade escala, a reacção no cérebro cai. Um grupo mais restrito de 25 participantes na experiência fez uma ressonância magnética, procurando-se a resposta da região da amígdala (associada às emoções) ao comportamento demonstrado.

Investigadores usaram esta imagem de um frasco com moedas nas experiências DR

A equipa britânica percebeu que a amígdala respondia de forma clara quando as pessoas mentiam pela primeira vez para proveito próprio. Com a repetição, a resposta no cérebro diminuía. “O cérebro adapta-se à desonestidade. Há uma adaptação emocional. Tal como acontece com os neurónios do bolbo olfactivo e nos habituamos ao cheiro de um perfume quando entramos num sítio”, explicou Tali Sharot, uma das autoras do artigo, em conferência de imprensa organizada pela Nature.

Os investigadores perceberam também que a par da adaptação emocional também a “magnitude das mentiras” aumentava. E mais: a equipa conseguiu uma forma de cálculo que relacionava a magnitude da mentira à redução da actividade da amígdala e percebeu que uma diminuição significativa na actividade cerebral significa que viria aí uma mentira maior ainda. “Quando mentimos para nosso proveito, a nossa amígdala produz um sentimento negativo que limita o ponto até onde estamos preparados para mentir. Porém, essa resposta esbate-se quando continuamos a mentir e, quanto mais desce, maiores se tornam as mentiras”, explica Tali Sharot.

Mas, e se não beneficiarmos com a mentira? “Temos duas situações neste estudo que avaliaram isso”, responde ao PÚBLICO Neil Garrett, outro dos autores do artigo. “Uma em que mentir é prejudicial para o próprio participante mas beneficia o parceiro. Outra em que a desonestidade não tem qualquer efeito no participante, mas beneficia o parceiro. No primeiro caso, não detectamos desonestidade nem a escalada da mentira. No segundo caso, vemos que são desonestos mas a desonestidade não aumenta”, acrescenta. Assim, não basta mentir muitas vezes para mentir cada vez mais. Para que este efeito se concretize, é preciso também que se ganhe alguma coisa com isso.

Estamos perante um efeito “bola de neve”, dizem os investigadores, que usam a expressão “terrenos escorregadios” (em inglês, slippery slope). E, presumem os cientistas, o mesmo princípio também poderá aplicar-se outras situações como comportamentos de risco ou violentos.

No estudo não foram notadas diferenças entre as faixas etárias ou entre homens e mulheres, mas os investigadores admitem que encontraram “muitas diferenças individuais”. Percebe-se, diz Neil Garrett, que nas mesmas situações “alguns mentem muito e as mentiras aumentam muito e outros fazem-no menos”. Agora, falta perceber melhor por que é que isso é assim.

 

Fonte: Público.

Portugueses identificam via cerebral que permite criarmos rotinas

 


LUÍS EFIGÉNIO/NFACTOS

 

Experiência contraria dogma da neurobiologia sobre aprendizagem e poderá ajudar a compreender características comportamentais de doenças neurológicas como a Parkinson.

Abrir uma porta é um processo universal: há uma maçaneta que se roda, depois puxa-se a porta e passa-se para uma nova divisão. A prática de abrir portas é tanta que em geral é possível fazer esta sequência de acções com uma caneca na mão, a falar ao telemóvel ou a pensar num assunto qualquer. Não gastamos um segundo do nosso tempo consciente a tomar decisões sobre como pôr a mão na maçaneta, como rodá-la, etc. É aquilo a que se chama um hábito, uma rotina.

Algures na complexa rede neuronal do nosso cérebro, esta aprendizagem está pronta a ser usada. Agora, uma equipa de cientistas portugueses liderada por Rui Costa defende ter descoberto a via de neurónios que permite desenvolver estas acções habituais, trabalho que foi publicado esta segunda-feira na revista científica Current Biology.

O resultado da experiência “foi contra um dogma”, diz ao PÚBLICO Rui Costa, do Centro Champalimaud, em Lisboa, onde os investigadores testaram as importantes “via directa” e “via indirecta” neuronais.

Estas duas vias neuronais situam-se nos gânglios da base do cérebro e são importantes para as acções. As designações “directa” e “indirecta” não estão relacionadas com a sua função mas devem-se à anatomia. Enquanto na via directa os neurónios seguem um trajecto simples, projectando-se directamente na saída dos gânglios da base, na via indirecta os neurónios percorrem vários núcleos cerebrais.

“O que se pensava é que a via directa dizia ‘faz isto porque isto é bom’. E a via indirecta dizia ‘não faças isto porque é mau”, explica Rui Costa. Ou seja, pensava-se que as duas vias tinham funções antagónicas, enquanto a primeira dava um reforço positivo, a segunda desestimulava a acção.

Mas quando os cientistas estimularam de forma independente as duas vias neuronais em murganhos, o resultado surpreendeu-os.

Para a experiência, os cientistas recorreram a uma técnica recente: a optogenética. A equipa usou dois grupos de murganhos transgénicos, ambos com um gene que comanda a produção de uma proteína sensível à luz. Mas no primeiro grupo, esta proteína só funcionava nos neurónios da via directa. No segundo grupo, a proteína só estava activa nos neurónios da via indirecta.

Quando os neurónios da via com a proteína recebiam um estímulo de luz, a via neuronal activava-se. Assim, o método permite activar os neurónios e testar o comportamento que as vias provocam quando são activadas.

Foi este princípio que a equipa de Rui Costa testou num dispositivo laboratorial com uma caixa com duas alavancas. Cada murganho transgénico dos dois grupos tinha várias sessões de meia hora dentro da caixa, onde podia pisar à vontade nas duas alavancas. Porém, havia uma diferença. Uma das alavancas não fazia nada. Mas a outra, através de um dispositivo, ligava uma luz no cérebro do murganho, activando a via neuronal (directa ou indirecta) com a proteína sensível à luz.

Com este dispositivo, os cientistas fizeram algumas perguntas. No caso do grupo dos murganhos em que a luz activava a via directa, a equipa testou se os roedores passavam a pisar mais a alavanca que accionava a luz em detrimento da outra que não dava estímulos. Um resultado destes confirmaria a noção de que a via directa reforça as acções.

No caso do outro grupo de roedores, os investigadores esperavam que a alavanca, ao ligar a luz e accionar a via indirecta, iria fazer com que os murganhos rapidamente desistissem de pisar essa alavanca, tal como seria de esperar se a via indirecta inibisse as acções.

Tudo correu dentro da expectativa com os murganhos em que a luz estimulava a via directa: em apenas cinco sessões de meia hora os roedores passaram a pisar mais de 100 vezes a alavanca que activava a luz, ignorando completamente a outra alavanca. Comprovou-se assim que a activação da via directa reforça a acção.

E depois há a generalização

Mas no caso dos roedores em que a luz estimulava a via indirecta de neurónios, a experiência foi uma surpresa. Os murganhos não abandonaram a alavanca que accionava a luz. Em vez disso, de sessão para sessão, estes roedores foram pisando cada vez mais a alavanca que accionava a luz como a outra alavanca.

Ao fim de 30 sessões, estes murganhos pisavam cada uma das alavancas cerca de dez vezes. Um valor superior ao de um terceiro grupo de murganhos que serviu de grupo controlo, em que as duas alavancas não accionavam nenhuma via neuronal no cérebro. Este terceiro grupo pisava as alavancas menos de cinco vezes por cada sessão.

Segundo Rui Costa, o comportamento do segundo grupo de murganhos não traduz uma inibição, mostra antes aquilo que parece ser uma aprendizagem gradual importante para se ganhar hábitos. “Muito cedo na aprendizagem a via directa é mais rápida (…) e está a ganhar. Mais tarde, depois de muito treino, pensamos que a via indirecta ganha a competição”, diz, o que é uma vantagem. “Os hábitos estão lá para estarmos libertos deste peso cognitivo.”

Mas como se explica que estes roedores pisem as duas alavancas e não apenas aquela que acciona a luz? “Chama-se a isso a generalização”, explica, dando o exemplo de se aprender a abrir uma porta. “Todas as portas são semelhantes. Podemos generalizar uma coisa que já aprendemos.” No caso dos murganhos, se uma alavanca é boa para pisar, então, por rotina, todas as alavancas são boas para pisar.

O próximo passo, segundo Rui Costa, é tentar compreender se estas vias estão envolvidas em doenças neurológicas como o autismo, onde há repetição de gestos, ou a Parkinson, em que os movimentos ficam descontrolados.

 

Fonte: Nicolau Ferreira, Público.

Cientistas portugueses descodificaram mais um mecanismo para a comunicação entre neurónios

Uma equipa de investigadores que inclui portugueses percebeu que o mecanismo que ajuda a eliminar proteínas defeituosas das células também pode regular a comunicação dos neurónios.

Uma equipa de investigadores, que inclui cientistas portugueses,demonstrou pela primeira vez uma nova função para a proteína ubiquitina. Pensava-se que a ubiquitina só interferia na destruição das proteínas dentro das células, mas afinal também tem um papel no desenvolvimento dos pontos de comunicação entre os neurónios (as sinapses), explicaram os cientistas num artigo publicado na revista The Journal of Cell Biology.

Os doentes com autismo ou síndrome de Angelman apresentam normalmente uma formação incorreta de sinapses e os doentes com epilepsia apresentam demasiadas sinapses de um determinado tipo, explicou ao Observador Ramiro Almeida, investigador no Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra. Embora o objetivo desta equipa não seja a compreensão e tratamento destas doenças, os resultados apresentados e outros que deles decorram no futuro ajudarão a compreender melhor os mecanismos de formação de sinapses e a passagem de informação no sistema nervoso.

“Decidimos arriscar uma abordagem pouco convencional e investigar o processo pelo qual a maquinaria de destruição das células contribui para o desenvolvimento do sistema nervoso”, disse Ramiro Almeida em comunicado de imprensa. Mas vamos lá simplificar.

A principal função da ubiquitina, uma proteína que existe no interior das células, é marcar as proteínas que têm defeito ou as mais antigas. Depois, estas proteínas marcadas são reconhecidas pelos proteossomas e “desmembradas”. Assim, estes dois componentes — ubiquitina e proteossoma — atuam em conjunto para controlar as proteínas no interior das células. Este é um processo cuja descoberta foi premiada com o Nobel da Química de 2004, entregue a Aaron Ciechanover, Avram Hershko e Irwin Rose.

Representação da ubiquitina.

Desconfiando que o sistema ubiquitina-proteossoma podia ter outra função que não a convencional, a equipa de Ramiro Almeida resolveu estudar a sua função nos neurónios, mais especificamente nos axónios. Os axónios são o prolongamento dos neurónios por onde passa a informação que será transmitida às outras células. As sinapses são a região de contacto entre dois neurónios, normalmente entre os axónios e as dendrites (prolongamentos dos neurónios que funcionam como “antenas”).

Os investigadores verificaram que, bloqueando o sistema ubiquitina-proteossoma nos axónios, aumentavam o número de sinapses nos neurónios. Assim este sistema parece contribuir ativamente para a regulação das sinapses, responsáveis pela comunicação entre neurónios.

O objetivo da equipa de cientistas é perceber melhor como se formam as sinapses, uma “peça fundamental do sistema nervoso em termos de comunicação”, disse Ramiro Almeida ao Observador. Desta forma também será possível perceber melhor o funcionamento do cérebro e os primeiros estádios do desenvolvimento. O próximo passo é descobrir que proteínas, marcadas pela ubiquitina, inibem a produção de sinapses.

 

Fonte: Observador.

Saúde mental: “Os portugueses são mais vulneráveis ao sofrimento”

O retrato da saúde mental em Portugal, traçado no mais recente relatório da Direção-Geral da Saúde, não é animador. O consumo de antidepressivos está a disparar e o suicídio está a crescer, sobretudo nas pessoas em idade ativa

Em entrevista ao Expresso Diário, o diretor do Programa Nacional para a Saúde Mental, Álvaro de Carvalho, sugere que os portugueses são mais vulneráveis ao sofrimento psicológico e diz que a crise económica vivida nos últimos anos fez aumentar o desespero.

De acordo com o relatório “Saúde Mental em Números”, divulgado esta quinta-feira, o suicídio em Portugal continua a ser maior entre os idosos, mas está a crescer entre as pessoas em idade ativa. A que se deve este aumento?
O relatório indica que, tanto nos homens como nas mulheres, tem crescido o número de anos de vida perdidos por suicídio, o que significa que se estão a suicidar pessoas mais jovens, em idade ativa. Nas consultas de prevenção do suicídio, muitas pessoas na casa dos 40, 50 anos queixam-se de que são muito novas para se reformarem, mas já são consideradas demasiado velhas pelo mercado para poderem trabalhar. É um discurso muito comum.

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Harvard aposta em “educação avançada de 3º grau”

 

Não é uma universidade para a 3ª idade, mas a possibilidade para um “segundo acto” de carreira, um “encore” ou uma nova oportunidade de deixar a marca na sociedade depois de se atingir o topo na carreira e em alternativa ao “lazer” que muitos pretendem evitar quando chega a idade de reforma. A Harvard Advanced Leadership Initiative está a revolucionar a educação “sénior” apostando num curso interdisciplinar para os que têm vontade de utilizar a experiência adquirida para dar forma a projectos que abordem questões sociais complexas

Depois de 36 anos de carreira na IBM, onde ocupou vários cargos de liderança, Lauren States chegou à fase normal da vida em que se pensa no tão desejado tempo livre que a reforma oferece. Com o marido aposentado desde 2011 e entretanto dedicado a novos projectos de serviço público, Lauren começou a pensar, todavia, naquilo que poderia ser o seu segundo acto de vida. Enquanto executiva sénior da gigantesca Big Blue, States sempre se interrogou por que motivo a indústria das tecnologias tinha escassez de mulheres e, mais grave ainda, de mulheres negras. Foi então que resolveu transformar a questão numa cruzada, não sabendo, contudo, por onde começar.

Uma história similar conta Ken Kelley, no Finantial Times. O fundador da Paxvax, uma empresa de vacinas com enfoque na indústria das viagens, sempre se questionou por que motivo certo tipo de doenças, como o Ébola ou o dengue, não tinham ainda protecção via vacinas. Kelley, que trabalhou durante 35 anos em Silicon Valley como capitalista de risco e empreendedor na área da biotecnologia, admitiu a sua obsessão face a esta ausência e falou sobre a mesma com clientes, colegas, amigos e qualquer outra pessoa que tivesse paciência para o ouvir. E, durante uma dessas conversas, um amigo encorajou-o a seguir esta paixão começando por a abordar num programa de Harvard denominado Advanced Learning Initiative (ALI).

A missão da ALI visa estabelecer “um novo degrau na educação superior, com base na colaboração entre disciplinas e profissões distintas, com o objectivo de originar uma nova ‘força’ de líderes experientes que estão a iniciar a transição dos seus anos de actividade remunerada para os seus próximos anos de serviço público”

Lauren States e Ken Kelley são apenas dois de um conjunto significativo de executivos seniores, que ou se encontram no topo do topo das suas carreiras, próximos da idade da reforma ou mesmo já reformados e que decidiram trocar o prazer dos dias de lazer a jogar golfe ou a viajar para destinos exóticos – prática comum entre os mais afortunados líderes de sucesso – por um “regresso às aulas” naquilo que a tradicional Universidade de Harvard, com mais de 400 anos de existência, denomina como a “invenção de uma ‘3ª’ fase na educação superior.

A Harvard Advanced Learning Initiative nasceu – ou melhor, foi “semeada” em 2005, pela mão de Rosabeth Moss Kanter, Rakesh Khurana e Nitin Nohria [actual Dean da HBS], todos eles professores de renome mundial na universidade mais famosa do mundo e que, em conjunto, decidiram escrever um paper sobre esta “invenção”.

O paper, intitulado “Moving Higher Education to its Next Stage” não só analisa a história da educação superior (a evolução das universidades, das pós-graduações e a que existe para além destas), como a crescente existência de desafios globais complexos e ainda as alterações demográficas: em particular, o aumento da longevidade e o potencial para que profissionais seniores possam “continuar a aprender”, aproveitando o seu talento, energia, competências, experiência e um tempo “pós-carreira”, para prestarem um serviço “extra” em actividades que abordem e confiram impacto positivo aos mais complexos “reptos” da sociedade.

O segmento “explosivo” de Baby Boomers próximo da idade da reforma (que só nos Estados Unidos ascende a mais de 75 milhões de pessoas) que está a ser “contagiado” pelo impulso de “dar de volta à sociedade” em conjunto com o facto de “se estar a reformar mais tarde, ao mesmo tempo que mantém uma actividade física e mental elevada, preferindo colocar o seu talento e experiência ao serviço da sociedade” são três razões explicitadas também neste paper para a criação desta iniciativa inovadora.

Cerca de quatro anos mais tarde, mais precisamente em Janeiro de 2009, o programa arrancou, em modo “piloto”, com uma turma de 14 alunos, entre os quais se contavam um antigo general e astronauta, um antigo funcionário da Agência para o Desenvolvimento Internacional das Nações Unidas, um médico empreendedor do Texas, um alto cargo de uma empresa de utilities da Califónia, um ex-ministro da Saúde da Venezuela e um antigo executivo de topo de uma empresa de computadores da Suíça.

Com backgrounds completamente diferentes – sendo esta uma das características procuradas pela ALI – o que unia, em 2009, estes “novos velhos alunos” era um “espírito de que é possível fazer acontecer”, uma experiência de liderança de pelo menos mais de duas décadas e a vontade de experimentar uma “alternativa à reforma”, a qual pudesse contribuir não só para uma busca de propósito individual, mas também para gerar impacto positivo nos vários problemas sistémicos e globais que assolam o mundo. Apostar em candidatos de diversas partes do globo, com backgrounds e profissões diversificados e com vontade de aprender e apreender novas competências e recursos “fora das suas zonas de conforto” consiste igualmente numa das premissas da ALI.

Porque pensar “fora da caixa” já não é suficiente

Quando os três professores de Harvard decidiram escrever o seu paper, o mesmo assentava numa proposta para que as universidades experimentassem um novo modelo de introdução de um 3º grau na educação superior que pudesse representar a “próxima grande inovação do ensino universitário não só na América, mas a nível global”, repetindo a visão que, no último quartel do século XIX, pautava o conceito de universidade: “a de que o seu principal propósito é o de servir a sociedade”, e que o mesmo só poderia ser atingido através da inovação.

Como escreve Rosabeth Moss Kanter, responsável do ALI, na altura em que se começou a divisar esta iniciativa, “ousámos arriscar e apostar na audácia”, na medida em que os três fundadores acreditavam ser necessário “pensar fora do edifício, porque pensar fora de uma mera caixa já não era suficiente e porque a inovação não acontece num estabelecimento que protege a sua forma de fazer as coisas”. Tendo em conta a tradição secular de Harvard, escrever o paper “de acordo com a linguagem da instituição” foi só um dos desafios enfrentados pelos três professores.

Apostar em candidatos de diversas partes do globo, com backgrounds e profissões diversificados e com vontade de aprender e apreender novas competências e recursos “fora das suas zonas de conforto” consiste igualmente numa das premissas da ALI

O que este trio pretendia demonstrar era que “não basta uma aldeia para educar uma criança ou para fazer a mudança”, mas sim “uma coligação multi-stakeholder e multissectorial”. E foi essencialmente por causa desta visão que a Advanced Leadership Initiative reuniu, depois de gerar um enorme entusiasmo em muitos outros professores de Harvard, cinco das suas faculdades – a escola de Negócios, de Educação, de Política e Administração Pública, de Direito, e de Medicina e Saúde Pública -, na medida em que para se abordar os diversos desafios societais são necessárias competências de liderança interdisciplinares, aproveitando, em simultâneo, as alterações demográficas (dado que a esperança de vida aumentou significativamente e a “idade” passou a ser um conceito mais relativo) que dão origem a novas oportunidades para se educar e “formar” líderes já “realizados” que se encontrem no topo e/ou na recta final das suas carreiras. Adicionalmente, problemas sistémicos como a pobreza, a saúde global, a degradação ambiental e a educação básica possuem também dimensões técnicas e políticas que não podem ser resolvidas apenas a partir de uma abordagem singular.

Na verdade, e através desta Iniciativa, o que os três professores desejavam era explorar a experiência de uma geração de líderes socialmente consciente e ajudar a redireccionar e a alargar as suas competências para preencher gaps de liderança na resolução das grandes problemáticas sociais.

Numa definição mais alargada, a missão da ALI visa estabelecer “um novo degrau na educação superior, com base na colaboração entre disciplinas e profissões distintas, com o objectivo de originar uma nova ‘força’ de líderes experientes que estão a iniciar a transição dos seus anos de actividade remunerada para os seus próximos anos de serviço público”. Adicionalmente, a ALI pretende igualmente ser pioneira na chamada aprendizagem ao longo da vida para alunos numa fase ‘avançada’ que irão utilizar os seus conhecimentos para mudar a sociedade e as suas instituições, fazendo uma diferença, individual e colectiva, no que respeita a problemas comunitários, nacionais e globais.

Esta mesma iniciativa visa assegurar que a missão de servir o mundo contribui para uma excelente “Universidade do Futuro”: ajudando a formar e a contribuir para um crescente corpo de conhecimentos sobre como transformar a sociedade ao nível institucional, através de inovações que melhorem a educação, a saúde, a conservação ambiental, a revitalização urbana, os direitos humanos, o acesso à justiça e outras temáticas complexas e multi-stakeholders que possam beneficiar de uma liderança que seja capaz de trabalhar a partir de profissões e disciplinas variadas.

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Voltar aos bancos da escola para “dar de volta”

No seu 8º ano (iniciado em Janeiro último), a iniciativa de Harvard reúne já um considerável número de “fellows” (na medida em que estes não são nem estudantes “normais” nem executivos que frequentam programas de pós-graduação em negócios): dos 13 iniciais que participaram na experiência-piloto da ALI, a turma de 2015 cresceu para 43 e, os mais recentes “inscritos” são já 48. Com motivações, paixões e projectos diversificados, estes fellows passam dois semestres em Harvard (o que os obriga a estarem presentes, pelo menos, três dias por semana nas aulas), sendo que a sua primeira etapa consiste em frequentar um “curso”específico em conjunto denominado COAL – Challenges and Opportunities in Advanced Leadrship”, ao mesmo tempo que podem escolher outras aulas relevantes para os seus interesses individuais, bem como para os seus projectos “nascentes”. Para além da oferta educativa das cinco escolas já mencionadas – às quais se juntou também a Faculdade de Artes e Ciências – os fellows participam, diariamente, em “think tanks” específicos sobre, por exemplo, educação ou cuidados de saúde, e todos os anos, a meio do curso, fazem uma “viagem educativa” a uma qualquer parte do mundo – Bombaim, na Índia, São Paulo, no Brasil ou Xangai, na China, são alguns dos destinos já visitados – com vista a conhecer novas realidades e a quebrar as barreiras convencionais de “pensamento e cultura”.

“Os fellows têm, tipicamente, entre 20 a 25 anos de experiência em liderança, uma capacidade comprovada de trabalho em contextos ‘não familiares’ e o desejo expresso de trabalhar em prol de um problema social”, esclarece Rosabeth Moss Kanter

Ao longo do ano, os fellows servem também de mentores aos estudantes “normais” de Harvard, são aconselhados por vários professores no que respeita às suas pesquisas e projectos específicos, e participam nas inúmeras actividades que um colosso da educação como é Harvard vai disponibilizando aos seus alunos. Em Novembro, e num simpósio específico para o efeito, cada fellow deverá apresentar não uma dissertação, mas um plano de negócio para o seu “segundo acto de carreira”.

Até agora, estes velhos novos alunos já se dedicaram a questões tão variadas como a má nutrição, ao problema dos muitos estudantes que se endividam para pagar a sua educação superior, a novos caminhos na área da educação ou da saúde, às energias renováveis, à escassez de água em países em desenvolvimento, a melhorar o acesso a medicamentos em países de baixos rendimentos, ao tráfico de seres humanos, à obesidade infantil, a diversas questões que impedem a igualdade de género, à atribuição de bolsas de mérito, entre muitas outras problemáticas que assombram as sociedades do século XXI.

Apesar do programa não estipular pré-requisitos para a aceitação de candidatos, entre os mesmos destacam-se antigos CEOs, presidentes de fundações, advogados de topo e funcionários governamentais de alto nível. Como refere a própria Rosabeth Moss Kanter ao Finantial Times, “os fellows têm, tipicamente, entre 20 a 25 anos de experiência em liderança, uma capacidade comprovada de trabalho em contextos não familiares e o desejo expresso de trabalhar em prol de um problema social”. Kanter refere ainda que existem dois estádios, por excelência, na vida adulta, em que as pessoas param para avaliar e pensar sobre “grandes problemas”: ao longo do tempo em que “completam a sua formação universitária” e mais tarde “quando se atinge o topo da carreira e já não é preciso nem o esforço para subir mais um degrau nem para se ganhar mais dinheiro”. No “entretanto”, e enquanto nos esforçamos por ascender profissionalmente e por criar uma família, “não há tempo”, acrescenta.

Em Harvard acredita-se que esta “3ª fase da educação superior” deverá ser a missão natural de todas as universidades num futuro próximo

Com a 8ª edição desta iniciativa em curso, é já possível também observar que, na maioria dos casos, os fellowschegam a Harvard apenas com uma vaga ideia sobre os problemas que pretendem abordar – e sem saberem bem como o fazer – terminando, contudo, o curso com um verdadeiro plano de acção, o qual pode tomar a forma de uma campanha pública em favor de uma determinada causa, o lançamento de uma fundação ou de uma empresa social ou, simplesmente, a escrita de um livro. A falta de líderes e gestores com experiência comprovada nas organizações sociais, as quais se vão multiplicando a um ritmo quase tão elevado quanto o dos próprios problemas que abordam, consistiu igualmente numa das razões para a criação desta iniciativa, escassez esta definida por Kanter como “um défice de liderança colectivo” num artigo de 2008 publicado pelo The New York Times.

No que respeita ao sucesso de longo prazo da iniciativa – e independentemente da forma como os actuais e antigos fellows utilizam e utilizarão as suas novas competências, aprendizagens e relacionamentos para os colocar ao serviço da sociedade -, em Harvard acredita-se que esta “3ª fase da educação superior” deverá ser a missão natural de todas as universidades num futuro próximo (algumas outras universidades começam a ter iniciativas similares, como por exemplo, o Distinguished Carreers Institute, em Stanford).

A ideia é que esta aprendizagem ao longo da vida ou a 3ª fase da educação superior passe a integrar o plano educativo “comum” do século XXI. E com acesso permitido a todos os que pretendam contribuir para melhorar o mundo e não só os que tenham condições financeiras extraordinárias para participarem em iniciativas como a Advanced Learning Initiative de Harvard.


Contribuir para melhorar o mundo, acto II
O que resultou, na prática, da vontade dos muitos fellows que se voltaram a sentar nos bancos de Harvard? Seguem-se alguns exemplos.

Formação de aprendizes na era da Internet – Miguel Rey, originário da Colômbia, mas a residir no sul da Florida, apostou no poder dos mentores. A partir da empresa de TI na qual é vice-presidente, lançou um programa destinado a melhorar a proficiência tecnológica da sua própria força de trabalho (na sua maioria, sem educação académica), treinando-os ao longo de um ano em regime de full time, e sem perderem nem salário nem benefícios.

Iluminar uma nação africana às escuras – Foi o que Rich Fahey escolheu para o “encore” da sua vida profissional. Depois de ter servido como voluntário no Corpo da Paz na Libéria, nos anos de 1960, quando ali voltou quase meio século mais tarde, encontrou um país arrasado por uma guerra civil de 14 anos e com as infra-estruturas de energia eléctrica completamente destruídas. Com uma economia paralisada e milhares de agregados às escuras, Fahey fundou uma organização sem fins lucrativos para ajudar a devolver a energia eléctrica a milhares de pessoas.

Melhorar o acesso à alimentação e à água potável em países em desenvolvimento – Com uma carreira passada no desenvolvimento e financiamento de negócios, Monty Simus fundou a AgeResilience, depois de passar muitos anos a escrever e a dar conferências sobre questões relacionadas com a escassez de água. Uma aposta na tecnologia e na sustentabilidade levou-o a participar na ALI para dar substância ao seu sonho.

Gerir a saúde mental – Na medida em que o governo americano deixou de custear o apoio a pessoas com doenças mentais severas, Ronald Lauderlade, antigo vice-presidente na IBM e a sua mulher Valerie participaram na ALI com vista a melhorar os cuidados a pacientes e cuidadores, com serviços pagos pelos “mais afluentes”, mas gratuitos para os pobres, em conjunto com formação contínua para profissionais de saúde e serviços de cuidados continuados que libertam os hospitais dos muitos indigentes que, inevitavelmente, ali vão procurar ajuda.

Ajudar as crianças a pensar “em grande” – Destinada a crianças de agregados pobres, a ferramenta educativa “Lead a Brilliant Life”, foi desenvolvida por Susan G. Johnson, antiga presidente de uma empresa de gestão de fundos privados, com o objectivo de fazer corresponder aos recursos educativos “normais” a possibilidade dos alunos sem recursos financeiros e/ou tecnológicos, aprenderem sobre determinadas profissões que, em principio, lhes estão vedadas. A ferramenta está a ser distribuída gratuitamente em centros de ocupação de tempos livres e em programas extracurriculares.

Reumanizar os cuidados de saúde – Alarmado com o descontentamento dos médicos face à sua profissão, Vincent de Luise, um oftalmologista do Connecticut projectou o “Curso de Compaixão”, com o objectivo de o incluir nos currículos das escolas de medicina, introduzindo a formação em arte, observação, narrativa, consciencialização e empatia, como bases imprescindíveis para o humanismo que um médico deve possuir.


Fontes consultadas:

Harvard Advanced Leadership Initiative

Moving Higher Education to its Next Stage

Harvard leadership programme help boomer bosses to save the world (Finantial Times)

Universities Teach Retired CEOs To Make The World a Better Place (Forbes)

Starting Over, With a Second Career Goal of Changing Society (The New York Times)

Shifting Careers to Drive Change (Harvard Gazette)

Advanced Leadership (Harvard Business Review)

Fellows’ Travels (Harvard Business Review)

 

 

Fonte: Helena Oliveira, VER.

Cientistas querem perceber melhor o stress no local de trabalho

LEONARDO NEGRÃO / GLOBAL IMAGENS

Como vive o seu local de trabalho? Um grupo de investigadores portugueses quer saber

Para estudar o stress e as pressões no local de trabalho, um grupo de investigadores portugueses lançou um inquérito abrangente destinado a qualquer pessoa que esteja empregada. A iniciativa está a ser realizada no âmbito de um protocolo com o projeto canadiano Guarding Minds @ Work (GM@W, ou protegendo mentes no trabalho, em tradução literal).

O questionário dos investigadores portugueses José Magalhães, Victoria Paul e Nuno Terenas está disponível online para ser realizado por qualquer pessoa que queira realizá-lo, atravésdesta ligação. Segundo os investigadores, o inquérito leva aproximadamente 20 minutos a realizar.

O objetivo é perceber melhor, junto da população portuguesa, qual a situação no que toca à prevalência dos efeitos negativos do stress e das pressões psicológicas no local de trabalho. Com a situação mais bem estudada, será possível desenvolver estratégias para preservar a saúde mental no trabalho.

Em comunicado, os investigadores destacam que “cerca de 22% dos trabalhadores da União Europeia (em Portugal são cerca de 28%) estão afetados pelas consequências negativas do stress (representam 40 milhões de profissionais de todas as atividades)”.

Fonte: DN.