Os nossos miúdos sabem demais?

 

Saber todas as marcas de automóveis com quatro anos, saber ler aos três anos ou saber os elementos da tabela periódica aos dois anos. Saber muito demasiado cedo pode ser mau?

Aos dois anos e meio, o João já sabe dizer os nomes dos elementos da Tabela Periódica. Já sabe que o Mg corresponde ao Magnésio e que o S corresponde ao Enxofre. A Matilde conta apenas três anos de vida e já sabe ler. Os dois não se conhecem, mas têm algo em comum: adquiriram uma competência mais cedo do que era suposto.

Os pais rejubilam com os feitos dos meninos. Descobrem pequenos génios que já debitam matéria de grandes. Mas será este conhecimento precoce desejável? Pode ser mau saber demais? A experiência do pediatra Mário Cordeiro responde de imediato.”As etapas de aprendizagem têm de ser respeitadas. A descodificação dos símbolos e a aquisição do conhecimento vai-se fazendo a pouco e pouco, por vezes mais numas áreas do que noutras, mas não deve ser ‘metida a martelo’”.

“Ligamos muito ao facto de uma criança saber ler ou contar, mas não nos inquieta se sabe que o verde é para passar e o encarnado para parar”
Mário Cordeiro, pediatra

Atirar informação não significa ser sábio, sentencia o membro da Sociedade Portuguesa de Pediatria e da British Association for Community Child Health. “Uma coisa é informação, outra é conhecimento, e outra – a mais importante e funcional – é a sabedoria. Esta só se adquire com a experiência e com o tempo“. Até lá, “podemos ensinar tudo porque fica tudo registado”.

“Se dissermos ao nosso filho de 2 anos que esta árvore tem musgo deste lado porque é virada a norte e não apanha sol e o musgo não gosta de sol, isso ficará gravado e, quem sabe, anos mais tarde, poderá ser útil”, explica Mário Cordeiro.

Qual é a fronteira entre saber muito e ser sobredotado?

“Uma criança sobredotada é excelente em tudo”. Mito. Uma criança sobredotada tem um desenvolvimento muito acima do normal numa determinada área relativamente à idade que tem. Ou seja, um dos traços que caracteriza estas crianças é o desequilíbrio no desenvolvimento. Um exemplo: são crianças que são capazes de ler e escrever muito cedo mas, do ponto de vista emocional, estão pouco desenvolvidas. Esta é a explicação de Rosa Gouveia, pediatra e membro da Sociedade de Pediatria do Neurodesenvolvimento.

Aos 2/3 anos, a construção dos afetos é muito importante. Deem lugar à paixão, brincar com o bebé, franzir a testa, abrir os olhos e abrir a boca. Devemos dar tempo a esta partilha, dar oportunidade à brincadeira de casa e da escola.
João Gomes Pedro, pediatra

O pediatra Gomes Pedro, que já celebrou 50 anos de carreira, diz que é “raro” existirem sobredotados. Mário Cordeiro não acredita sequer no conceito — acredita, sim, em talentos. “Ter talentos múltiplos é excelente, mas sem os outros três “ts” – trabalho, tempo e técnica -, ter um talento não servirá de muito. Há de facto crianças com dotes em algumas áreas, mas a inteligência racional, na qual se exibem, nem sempre vai a par da inteligência emocional”.

“Acho curioso que, numa altura em que se diz que não há crianças “menos dotadas” ou “atrasadas mentais”, se queiram colocar nos píncaros os que têm talentos”, comenta Mário Cordeiro.

O ideal é seguir o percurso habitual da aprendizagem. Até porque, quando não é assim, o mais pode ser mau. “Há crianças que sabem as marcas dos carros todos. Há crianças que sabem os nomes de todas as pontes e viadutos do país. Se tiverem um interesse restrito para uma determinada área do conhecimento, isso pode estar integrado numa patologia do Neurodesenvolvimento, como uma perturbação do espectro do autismo“, explica Rosa Gouveia. Uma das características desta patologia do desenvolvimento é a criança ter um interesse muito restrito e não se interessar por mais nada.

Antes dos alarmes, a pediatra salienta que “é preciso avaliar o desenvolvimento global da criança”, até porque “o conceito de normalidade é muito lato”, diz. É preciso perceber se esse “saber demais” tem algum significado patológico.

Educação, Escolas, Ensino, exames

Imaginemos uma criança de seis anos que entra para o primeiro ano da escola primária. E imaginemos agora que essa criança já sabe ler desde os quatro anos – competência que só deveria aprender na escola primária. Quando estiver na aula e a professora estiver a ensinar a ler, pode sentir-se desmotivada e desinteressada.

“Pode perturbar a aula, pode ter problemas comportamentais e escolares”, aponta Rosa Gouveia. Afinal, ela está a ouvir uma matéria que já conhece. Está na aula a fazer o quê, então? É esta a pergunta que a criança fará a si própria. “Cabe ao professor perceber isso e dar-lhe tarefas diferentes para não se aborrecer. Pode dar-lhe pequenas responsabilidades, como ajudar os colegas”.

“Se uma criança de 5 anos só quer ler enciclopédias, não tem interesses em comum com os seus pares. Isso pode levar ao isolamento social da criança”
Rosa Gouveia, membro da Sociedade de Pediatria do Neurodesenvolvimento

Mário Cordeiro simplifica a situação. “O mesmo acontecerá com uma criança filha de pais ingleses, por exemplo. Quando chega a disciplina de Inglês terá de aprender o significado de ‘yellow’ e ‘green’, que sabe desde que nasceu. E depois? Cabe aos professores dar alternativas e mostrar que, se sabe muito inglês, porventura sabe menos História“, por exemplo. Gestão — é esta a palavra-chave.

“Alguns dos problemas das crianças com dotes especiais são criados pelos adultos e não por elas ou pelas outras, desde que não se sintam ‘formidáveis’, sobredotadas, e que não caiam na arrogância ou na soberba”, refere Mário Cordeiro.

“Quanto mais estímulos, melhor”. Grande parte dos pais concordaria com esta frase para que o seu filho se desenvolva, saiba e aprenda muito. Mas não é este o conselho de Rosa Gouveia. “A criança deve interessar-se por coisas diferentes”. Se a criança se interessa pela leitura numa idade muito precoce, então cabe aos pais “não estimular demais e tentar que a criança não se fixe nessa aptidão, mas que tenha outras ocupações”, como brincar na rua. E a estratégia que os pais seguem tem de ser seguida também pelos educadores e professores. Aqui, a coordenação é importante. “O desenvolvimento da criança tem a ver com a vida familiar e com a vida no serviço de educação. Tem de haver um sentido entre o que se passa em casa e na escola”, adverte o especialista Gomes Pedro.

A aprendizagem de competências cedo estará, em parte, relacionada com o mundo digital em que as crianças crescem. Internet, redes sociais, tablets e outros dispositivos são elementos diários na vida delas. Resultado? “A criança entra demasiado naquilo que vê os irmãos mais velhos fazer, o pai fazer, a avó fazer, que é este não parar de clicarpara ter mais um estímulo visual ou auditivo, refere Gomes Pedro, pediatra e anterior diretor da Clínica Universitária de Pediatria e do Serviço de Pediatria do Hospital de Santa Maria (Lisboa).

“Esta aprendizagem digital não é pecado nem defeito mas, por falta de tempo hoje, começa a fazer falta outro tipo de brincadeiras como contar histórias – uma partilha de descoberta entre pais e criança, amigos e criança”.
João Gomes Pedro, pediatra

Mas este “fenómeno” pode não ser só próprio da geração mais recente. Mário Cordeiro confessa-se “culpado”: começou a ler aos quatro anos. O seu filho mais velho começou também a ler aos quatro anos e tem um neto com três anos que já sabe ler. Mas o pediatra não vê nada de genial nestes factos. Na altura, a única vantagem que encontrou foi “ter acesso à informação escrita mais cedo, o que deu algumas vantagens com os pares nos primeiros anos. Mas tudo isso se desvanece quando as outras crianças adquirem essas competências. Outras crianças terão aprendido a tocar piano ou violino nessas idades, coisa que eu não fiz”, justifica.

Parece uma frase feita, mas todos os especialistas insistem em reforçá-la: não há duas crianças iguais. É difícil definir em que idade é suposto executar determinada tarefa. Cada criança tem o seu ritmo, mas aqui está um guia geral traçado pelos especialistas com algumas balizas de conhecimento e desenvolvimento:

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É importante estabelecer os principais vínculos. Aos nove meses, por exemplo, um bebé diz adeus e atira beijinhos porque é pressionado e incentivado pelos pais ou pelos avós. Estesjogos intra-familiares são importantes porque despertam a atenção do bebé.

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Aos 12 meses, o bebé localiza sons virando a cabeça, diz «ma -ma» e «pa -pa» e pode também fazer outros sons. Quando alguém se esconde atrás de uma fralda ou de uma porta, a criança ri-se com a brincadeira. Aqui podem começar aqui as tentativas do bebé para se pôr em pé — pode dar já uns passos agarrados aos móveis e sofás, por exemplo. Aos 18 meses, é tempo de o bebé tentar tirar os sapatos sozinho, tentar comer sozinho e andar sem apoio. A partir dos dois anos (24 meses), é importante alargar o estabelecimento de vínculos afetivos a outros membros da família.

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Aos 3 anos ainda é idade de brincar, jogar e relacionar-se com os outros pares da vida. A criança já deve conseguir subir e descer escadas alternando os pés nos degraus, dar um pontapé numa bola, correr com facilidade e pedalar num triciclo. Já deve saber pegar num lápis corretamente e desenhar linhas verticais, horizontais e circulares; deve perceber conceitos físicos como “sobre”, “dentro” e “debaixo” e saber o seu nome, idade e sexo. As pessoas que não a conhecem devem conseguir entender a maior parte do seu discurso.

idade-4anosAos quatro anos pode começar a ser estimulada a consciência fonológica – saber identificar sons. Os sons de algumas letras, principalmente algumas vogais, podem ser introduzidos na pré-primária, tal como a aprendizagem de rimas e de cantigas. Por exemplo: a palavra “gato” tem quatro fonemas – a criança pode começar a aprender a descodificar esses quatro sons, para depois convertê-los em letras quando chegar à escola primária. Aqui, a criança deve saber as cores principais, entender o conceito de contar e saber alguns números.

idade-5anosAos cinco/seis anos começa um desenvolvimento cognitivo enorme. Antes de entrar para o primeiro ano da escola primária, não é esperado que a criança saiba ler mas é esperado que saiba relacionar alguns números com quantidade. Deve saber desenhar, por exemplo, algumas letras, um triângulo e outras formas geométricas

As crianças são pressionadas para saberem muito?

Os dois pediatras ouvidos pelo Observador respondem em uníssono: sim. João Gomes Pedro fala em dois responsáveis: os serviços de educação e os pais. “Querem que os meninos conheçam as letras ou que saibam a tabuada muito cedo”, aponta o pediatra.

Mário Cordeiro vai mas longe. “Ligamos muito ao facto de uma criança saber ler ou contar, ou seja, descodificar os símbolos alfa-numéricos, mas não nos inquieta saber se sabe que o verde é para passar e o encarnado para parar, que também representam símbolos. Se defendo, por um lado, que se ensine e transmita informação e conhecimento sobre tudo, desde cedo, o “carregar no play” deve ser feito na idade em que a criança assim o entenda… sem stress”, assinala o autor de “O Grande Livro do Bebé” e de “Educar com Amor”.

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Aqui, a receita do sucesso parece estar em dosear e, sobretudo, saber ouvir. João Gomes Pedro, um dos maiores especialistas em desenvolvimento infantil, deixa claro. “Aprender não é defeito”. Mas, e esta é a parte mais importante, “é preciso equacionar a aprendizagem numa das dimensões mais decisivas da vida — a adaptação”.

A conclusão do pediatra Mário Cordeiro vem quase em jeito de apelo. “Deixemos as crianças serem naturais e normais (…) e não andemos sempre a ver, quais cavalos de corrida, quem vai à frente, quem sabe mais e quem é o melhor posicionado para presidente da República. Ainda faltarão umas décadas para tal. Até lá, deixem-nas ser, simplesmente, crianças”.

Grafismo: Andreia Costa

Fonte: Catarina Marques Rodrigues, Observador.

Nem todas as crianças são extrovertidas

Criança quietinha é criança doente. Certo? Errado! Essa máxima que sua avó passou para a sua mãe, e você provavelmente já incorporou, pode fazer sentido, mas nem sempre é verdadeira. O mais comum, claro, são as crianças arteiras, que deixam qualquer um de cabelo em pé. Por isso, quando elas não fazem bagunça ou não interagem com os amiguinhos, a gente se preocupa.

Se esse é o caso do seu filho, a boa notícia é que é normal, sim, criança mais quietinha e que não se envolve em várias atividades. “Tudo depende da personalidade, que pode ser introvertida e introspectiva. Afinal, são  aceitáveis adultos mais quietos, qual o problema das crianças também serem?”, aponta  a psicóloga e psicopedagoga Nívea Maria de Carvalho Fabrício, mãe de Sidney e Vanessa.

Mas atenção: isso não quer dizer que ele não brinque, pelo fato do seu filho ser quieto. Todas as crianças brincam. A diferença é que as mais tímidas preferem brincar sozinhas, ou com um ou dois amigos. De fato, Nívea aponta que crianças mais introvertidas tendem a usar mais a imaginação e a criatividade, justamente por não saírem por aí correndo e gritando. Pode apostar que lá no cantinho deles, estão vivendo altas aventuras.

Essa timidez costuma ser detectada apenas no ambiente escolar. Isso porque, antes disso, elas têm pouco contato com outras crianças, geralmente irmãos e primos, relação onde é mais fácil a interação. Depois que elas entram na escola, local em que passam a maior parte do dia, tendem a ficar um pouco isoladas, ou se unirem com apenas um coleguinha.

Camila, filha da advogada Maria de Lourdes, sempre adorou festas e reuniões de família e vivia pra lá e pra cá com as primas. Porém, quando entrou no primeiro ano na escola, não se soltou como os pais esperavam. “Nas reuniões, ficava aflita quando os professores diziam que ela não se integrava ao grupo. Com o tempo, o colégio foi se adaptando a Cacá. Hoje eu aceito que ela é tímida, e acho isso lindo.”

Cabe aos professores e coordenadores observarem esse comportamento, manter os pais informados e trabalhar para que as crianças quietas não sejam engolidas pelas extrovertidas ou tenham o seu desempenho prejudicado.

Tímida x apática

Embora seja absolutamente normal uma criança ser quieta (sim, conforme-se!), você deve reparar em alguns aspectos para ter certeza de que isso não é consequência de uma doença.

“Uma criança apenas quieta participa de uma ou outra brincadeira, apesar de nunca estar na liderança da bagunça, e parece confortável na situação. Já uma criança apática nunca participa. Ela pode até ter vontade, mas não consegue, pois não tem energia”, diz o pediatra Sylvio Renan Monteiro de Barros, pai de Yuri, Bruna e Giovana.

Nesse caso, é preciso levá-la ao pediatra e explicar a situação. É provável que haja deficiência de algum nutriente, e, por isso, a criança esteja com anemia. Outras doenças mais graves como hipotireoidismo também causam apatia. Além disso, alguns problemas psicológicos também podem contribuir com essa falta de energia, como a depressão e a baixa auto-estima. Fique de olho.

Se o seu filho sempre foi agitado e bagunceiro e repentinamente passou a permanecer mais quieto, não deixe de verificar com o médico se está acontecendo alguma coisa.

Estimular x respeitar

Uma criança quieta pode precisar de um empurrãozinho na hora das atividades, tanto em casa quanto na escola. É importante também que novos amiguinhos, alunos e situações sejam apresentados para que ela se sinta confortável.

“Eu sempre recomendo que se respeite a personalidade da criança. Vamos envolvê-la no que ela precisa ser envolvida e se houver dificuldades de socialização”, ensina Nívea.

O importante é avaliar se o seu filho se sente bem sendo quietinho e participando pouco. Se a resposta é sim, desencana! Quem disse que todo mundo tem que ser extrovertido?

 

Fonte: Revista Pais & Filhos.

 

Amigos são… família?

 

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De acordo com James Fowler, professor de genética médica e ciência política na Universidade da Califórnia (EUA) e coautor do estudo, ao olhar todo o genoma humano, ele descobriu que, de uma maneira geral, é bastante parecido entre amigos. “Nós temos mais DNA em comum com as pessoas que escolhemos como amigos do que com estranhos em uma mesma população”, esclarece.
Que demais, não é?

Detalhes do estudo

O estudo que revela a semelhança genética entre amigos de verdade parte de uma análise de todo o genoma de quase 1,5 milhões de marcadores de variação genética, e se baseia em dados do Framingham Heart Study. O conjunto de dados de Framingham é o maior disponível até o momento, e os autores estão cientes de que ele contém um nível de detalhamento genético e informações sobre quem é amigo de quem.

Para conduzir a pesquisa, os cientistas se concentraram em temas únicos e nada menos que 1.932 pares de comparação de amigos sem grau de parentesco contra pares de estranhos também sem parentesco. As mesmas pessoas, que não eram nem parentes nem cônjuges, foram utilizadas em ambos os tipos de amostras. A única coisa que difere entre os participantes é a sua relação social.
Os resultados não são, segundo os pesquisadores, um artefato de tendência das pessoas de fazerem amizade com pessoas de etnias semelhantes. Os dados de Framingham são dominados por pessoas de origem europeia. Embora isto seja um problema para alguns pesquisadores, pode ser vantajoso para esse estudo em questão, pois todos os sujeitos, amigos ou não, foram geneticamente desenhados a partir da mesma população. Os pesquisadores também controlaram os dados por ascendência, usando as técnicas mais conservadoras atualmente disponíveis.

A observação proposta por esse estudo vai além do que você esperaria encontrar entre as pessoas de herança genética compartilhada. Segundo Fowler, o coautor do estudo, os resultados encontrados são uma “rede de ancestralidade”.

Quão geneticamente similares são os amigos de verdade?

Os pesquisadores encontraram que os amigos de verdade, aqueles amigos do coração, os irmãos que a gente escolhe, têm semelhanças genéticas que equivalem a um grau de parentesco semelhante ao de primos de quarto grau, ou pessoas que têm o mesmo tataravô. Em outras palavras, isso se traduz em cerca de 1% de nossos genes.

Achou pouco?

1% pode realmente parecer pouco, mas, para os geneticistas, esse é um número realmente MUITO significativo. Ainda mais se você pensar que a maioria das pessoas nem sequer sabem quem são seus primos de quarto grau. De certa forma, dá o que pensar. Pense: eu mesma não sei quem são meus primos de quarto grau, mas, por uma acaso do destino, escolhi me relacionar com pessoas que muito bem poderia ter esse grau de parentesco comigo. Essas pessoas poderiam ser da minha família de verdade, sem eu saber disso.

Nível de amizade

No estudo, os pesquisadores também desenvolveram uma escala que chamaram de “nível de amizade”, que eles podem usar para prever as chances de pessoas serem amigas mais ou menos no mesmo nível de confiança que atualmente os cientistas usam para prever as chances de uma pessoa ser obesa ou ter esquizofrenia.

Amigos com benefícios

Atributos compartilhados entre amigos ou “parentesco funcional” pode conferir uma variedade de vantagens evolutivas. Algo do tipo se o seu amigo está com frio quando você faz uma fogueira, você dois se beneficiam do fogo. Esse também é o caso de alguns traços que só funcionam se o seu amigo também o tiver. Fowler exemplifica: “O primeiro mutante a falar precisava de alguém para falar com ele. Essa capacidade seria inútil se não houvesse ninguém para compartilhá-la”. Esses tipos de traços em pessoas são uma espécie de efeito de se viver em sociedade.

Porque você e seus amigos não ficam doentes ao mesmo tempo

Além das semelhanças “macro”, os pesquisadores também olharam para um conjunto de genes focados. Assim, eles descobriram uma coisa inusitada: eles acham que os amigos são mais semelhantes em genes que afetam o sentido do olfato.
O oposto vale para os genes que controlam a imunidade.

Ou seja, os amigos são relativamente mais desiguais em sua proteção genética contra várias doenças. A descoberta apoia o que as pessoas têm encontrado recentemente em relação a seus pares. E há uma vantagem evolutiva bastante simples para isso: ter conexões com pessoas que são capazes de resistir a diferentes patógenos reduz sua propagação interpessoal. Mas como é que vamos selecionar as pessoas para este benefício da imunidade? O mecanismo ainda permanece obscuro.

A questão da semelhança entre genes olfativos também segue aberta a debates e precisa de mais pesquisa para que conclusões sejam tiradas. Mas, até o momento, os cientistas supõem que a explicação pode estar no fato de que o nosso sentido de cheiro, quando semelhante, pode nos atrair a ambientes semelhantes. Sendo assim, não é difícil imaginar que pessoas que gostam de café, por exemplo, frequentem lugares com cheiro de café e lá encontrem pessoas que tenham o mesmo gosto – ainda que essa seleção não esteja no plano da consciência.
Cientistas observam também que, provavelmente, existem vários mecanismos que operam de forma paralela, nos guiando para escolher amigos geneticamente similares.

“With a Little Help From Our Friends”

Talvez o resultado mais intrigante do estudo seja que os genes que eram mais semelhantes entre amigos parecem estar evoluindo mais rapidamente do que outros genes. Fowler e sua equipe dizem que isso pode ajudar a explicar por que a evolução humana parece ter acelerado nos últimos 30 mil anos, e sugerem que o próprio ambiente social é uma força evolutiva.
Portanto, fica a melhor dica de todos os tempos: mantenha os amigos por perto.

 

Fonte: Hype Science, via Pavablog.

 

“Por um homem melhor” (entrevista de Carl Rogers à revista Veja em 1977)

“Por um homem melhor.”

O Pai da psicologia humanista fala de batatas, pessoas, governos, ladrões e acadêmicos.


Nascido em 1902, e psicólogo prático desde 1927, Dr.Carl Rogers passou cerca de 15 anos acreditando que o papel do psicoterapeuta era apenas o de manter-se à parte quanto a seus sentimentos em relação ao paciente. Assim distanciado, pensava ele, ficava mais fácil enxergar as soluções adequadas. Depois de experiências vividas com alunos e com pessoas que vinham à procura de ajuda, Rogers acabaria percebendo, no entanto, que quanto mais se abria como pessoa no relacionamento com o paciente mais efetivo e rápido tornava-se o sucesso do tratamento. E através do desenvolvimento dessa idéia se afastando cada vez mais da psicologia tradicional ou freudiana e da psicologia do comportamento, ao ponto de hoje confessar que acredita ser “um fenômeno embaraçosamente doloroso para os psicólogos acadêmicos”.A partir da publicação, em 1942, de “Conseling and Psychotherapy”, seu primeiro livro sobre aconselhamento centrado no cliente, ele passaria a influenciar, os mais diversos campos profissionais , tanto nos Estados Unidos – onde nasceu e vive até hoje como em outros lugares do mundo , onde é conhecido como um autêntico desmistificador de psicoterapia.

Com efeito, Rogers abriu a psicoterapia à observação pública e à pesquisa investigatória, sendo o primeiro a gravar e depois a filmar sessões terapêuticas. Assim expunha seus métodos à pesquisa cientifica. Antes dele, nenhum psicoterapeuta havia tido a coragem de mostrar publicamente suas falhas e seus sucessos, a observar e a estudar não só as reações da pessoa tratada mas suas próprias atitudes do processo terapêutico.

Hoje, Carl Rogers, dedica-se, junto seus colegas do Centro para Estudos da Pessoa, em La Jolla. Califórnia, onde é professor residente, à organização de grupos de encontro onde os pacientes entram em comunicação uns com os outros e pouco a pouco vão se descobrindo e se livrando de seus mal-estares emocionais. Há um mês no Brasil acompanhado por quatro membros de sua equipe, Rogers participa, na Aldeia de Arcozelo, no Rio de Janeiro, do primeiro Encontro Centrado na Pessoa, no Brasil. Lá, durante duas horas, ele concedeu esta entrevista a “VEJA”.

VEJA – Como se situaria a pessoa humana diante da psicologia humanista?

ROGERS – O ser humano, como todos os organismos, tende a crescer e a se atualizar. É claro que todos os fatores sociais, econômicos e familiares podem interromper esse crescimento, mas a tendência fundamental é em direção ao crescimento, ao seu próprio preenchimento ou satisfação. Costumo exemplificar esse processo lembrando batatas que guardávamos no porão da nossa casa na fazenda. Elas criavam brotos porque havia uma janelinha no quarto. Era uma tentativa inútil, mas parte da tentativa do organismo de se satisfazer. Você consegue um produto muito diferente quando planta uma batata na terra, e comparo esse processo ao que pode ser encontrado em delinqüentes e em pessoas que são tidas como doentes mentais: o modo como suas vidas se desenvolveram pode ser muito bizarro, anormal; no entanto, tudo o que elas estão fazendo é uma tentativa para crescer, para atualizar seus potenciais. O fato de essa tentativa causar maus resultados situa-se mais no meio ambiente do que na tendência básica do individuo. A pedra fundamental da psicologia humanista pelo menos como eu vejo, é, portanto essa crença de que o ser humano tem um organismo positivo e construtivo.

VEJA – A psicologia humanista pode ajudar a sociedade a resolver seus problemas ? De que modo?

ROGERS – Ela não é uma solução para todos os problemas do mundo, mas pode ajudar muito na solução dos problemas psicológicos e sociais. Pode ajudar o individuo a crescer em direção a uma personalidade mais normal , mais expansiva. A psicologia humanista tem os instrumentos para reconciliar diferenças, para ajudar as pessoas a observarem os pontos de vista dos outros.

VEJA – Um governo com uma visão humanista não seria , então, mais poderoso que uma psicologia humanista?

ROGERS – Para mim, isso é um sonho, mas seria bom esquematizar uma utopia com um governo humanista.Quanto mais um governo acredita num ponto de vista humanista possibilidades existirão de promover um clima no qual os cidadãos possam crescer e trabalhar junto mais harmoniosamente, e no qual haverá mais compreensão,ou respostas, as suas necessidades. Mas não vejo nenhuma possibilidade do que eu chamaria de um governo humanista.

VEJA – O que o senhor pensa da psicologia acadêmica?

ROGERS – Nos Estados Unidos , a psicologia Acadêmica poderia dar excelente aconselhamento e ajuda a governos ditatoriais. Acho que, se qualquer autoridade diz “ queremos que as pessoas sejam mudadas desta forma”, a psicologia acadêmica sabe muito bem como mudar as pessoas, gradualmente, no sentido que se quiser. E vejo isso como um grande perigo. A psicologia humanista seria uma valiosa conselheira a uma forma de governo democrático, pois ela o ajudaria a ser cada vez mais democráticos, a compreender as capacidades, os direitos e a habilidade do cidadão de ser responsável.

VEJA – O senhor tem se dedicado profundamente à organização de grupos de encontros. O que vem a ser, para o senhor um grupo de encontro?

ROGERS – É uma oportunidade para as mais diversas pessoas se encontrarem, sem nenhum planejamento, a não ser elas mesmas e seus inter-relacionamentos. Não existe um tópico a ser discutido nem problemas imediatos a serem resolvidos. Então, sobre o que se vai falar? Quando as pessoas percebem que qualquer coisa pode ser discutida, então começam a falar mais de si mesmas e o encontro torna-se mais profundo. A pessoa começa a acreditar que o grupo pode compreendê-la e o processo pode ser descrito como uma percepção dos próprios sentimentos, que as pessoas nunca pensaram possuir, tentando novas maneiras de se comportar no grupo, desenvolvendo relacionamentos mais íntimos, sejam eles positivos e de amor, ou de raiva e confrontação, mas, de um jeito ou de outro, se aproximando mais como pessoas.

VEJA – Qual a diferença entre os grupos de encontro e a terapia individual?

ROGERS – Na terapia de um-para-um, o cliente sente que é um milagre que ele possa ser aceito e compreendido – mas será que alguém mais o compreenderá? Em um grupo de encontro, ele logo percebe: “Todas essas pessoas me aceitam? E nem ao menos estão sendo pagas para isso?” E isso é muito forte, pois provoca o sentimento de que, “quem sabe, eu sou uma pessoa aceitável”. Nesse sentido, o grupo de encontro pode ser de maior efeito que a terapia individual.

VEJA – Que mudanças ocorrem num grupo de encontro em relação à percepção ou conscientização?

ROGERS – Tanto na terapia quanto no grupo de encontro, a mudança mais notável é a expansão da conscientização do individuo. Ele vem para o grupo achando que sabe quem é e que está consciente de si mesmo. Mas, quando começa a se abrir e a notar como as pessoas ouvem com atenção, ele descobre, dentro de si mesmo, coisas que não havia percebido antes. Começa a sentir que é mais do que pensava ser, que tem sentimentos que nunca havia notado. Uma pessoa que nunca mostra raiva, por exemplo, perceberá, no grupo, que tem raiva dentro de si. Ela não se esquecerá disso e reconhecerá, no fundo, quando sentir raiva, que não poderá mais escondê-la – e terá condições para lidar com ela.

VEJA – Por que o senhor chama de “facilitadores” os lideres dos grupos de encontro?

ROGERS – Porque o termo “líder” implica que uma pessoa sabe para onde o grupo irá se dirigir e o orientará nessa direção. Então eu prefiro chamá-lo de “facilitador”, porque minha idéia de seu propósito no grupo é a de que ele deve permitir que as pessoas se expressem sem saber onde isso as levará. Ele facilita essas expressões do grupo mas não controla sua direção. O facilitador pode saber alguma coisa sobre o processo de grupos e o mesmo é verdadeiro para a terapia. O tipo de terapeuta que eu gosto é o que age como um facilitador, pois não tem noção do que surgirá na terapia, ou que direções a pessoa escolherá para si mesma.

VEJA – E, se ocorrer uma crise dramática dentro do grupo, o facilitador deve então fazer o papel de líder?ROGERS – Não, não! O facilitador inexperiente pode se sentir tentado a fazê-lo, mas o experiente procurará acreditar no grupo. Lembro-me do que aconteceu com um membro de nossa equipe quando um homem sofreu uma terrível crise psicótica, numa sessão de grupo de encontro. As pessoas entraram em pânico e exigiram que o facilitar fizesse alguma coisa, mas ele se manteve calmo e fez com que o grupo discutisse sobre que atitude tomar. Algumas pessoas que se sentiram mais próximas ao homem tentaram conversar com ele, mas o grupo ainda achava que ele deveria ser internado. Pediram-lhe então que voltasse ao grupo, discutiram seus sentimentos e suas preocupações com ele. No fim, tudo foi resolvido e mais tarde ele fez terapia, sem hospitalização. O ponto é que o grupo, como um todo, é capaz de agir muito mais sabiamente do que uma pessoa sozinha.VEJA – As qualidades essenciais para um facilitador podem ser ensinadas ou são naturais?

ROGERS – As qualidades essenciais para terapia individual – ou para grupos de encontro – foram especificadas há bastante tempo e têm sido confirmadas por pesquisas. Primeiro, se a pessoa está ligada a outra, como pessoa, genuína e real –sem envergar um avental branco de doutor-, isso será de grande ajuda. Depois, se a pessoa sente uma importância real pela outra, vai tornar seu crescimento e seu desenvolvimento mais possíveis.
E, por último, se ela pode realmente compreender o mundo interior do outro, verdadeiramente se sentir parte do universo de uma pessoa, essa capacidade para a empatia será muito importante para o crescimento construtivo. Dessas três, acredito que uma pode ser facilmente treinada – a empatia. As pessoas podem aprender a ouvir melhor e com mais compreensão, e a se afastarem de alguns de seus próprios conceitos, e realmente entenderem os outros como eles são. As outras duas qualidades vêm com a experiência de vida, e outras vezes através da terapia ou de vivencias como grupos de encontro.

VEJA – Por que o senhor começou a chamar as pessoas de “clientes” , em vez de “pacientes”?

ROGERS – A razão mais profunda foi nunca ter sentido que as pessoas que me procuram eram “pacientes”. Não eram doentes, e sim pessoas em dificuldade. Então, qual o termo mais apropriado ? Em inglês, “cliente” é aquele que vem buscar o seu serviço. Mas ele ainda é responsável por si mesmo.

VEJA – Qual sua maior fonte de aprendizagem?

ROGERS – São as pessoas e os estudantes com quem convivo e trabalho. Quando você se abre ao mundo de outros, um dos riscos – e a maior vantagem – é que você terá mais possibilidade de aprender alguma coisa.VEJA – O senhor tem se preocupado , ultimamente,de maneira crescente,com a educação como forma de comunicação entre as pessoas. Como vê o sistema escolar vigente em seu pais?
ROGERS – Até recentemente, a ênfase em mais escolas, mais educação para todos e o fato de que uma pessoa nada pode fazer se não tiver um diploma universitário resultaram num modo mais mecânico de educação , tentando preparar as pessoas para uma sociedade mecanicamente orientada. De uns tempos para cá, no entanto , têm ocorrido mudanças que dão maior ênfase à liberdade no aprendizado, onde o individuo, pode escolher o que é de maior significação para a sua vida e aprender isso. Assim , ele é levado a um processo de aprendizagem constante em vez de uma educação mecanicamente orientada, que geralmente faz as pessoas sentirem que finalmente acabaram o curso , já têm seu diploma , então não precisam estudar mais. O aprendizado autodirigido, em contrate , faz com que as pessoas tenham sempre vontade de estudar e apreender . Isso a entusiasma , assim como satisfaz ás suas necessidades.

VEJA – Os adversários desse tipo de ensino tradicionalmente argumentam com o fato de que a pessoa, nesse caso , terá uma educação limitada somente a seus interesses e pode tornar-se incapaz de perceber mudanças. O que acha disso?

ROGERS – Se observarmos estudantes que saíram de escolas tipicamente tradicionais , depois de um ano ou dois, notaremos que eles também adquiriram uma educação limitada a seus próprios interesses. Eles se lembram de algumas coisas, mas a maior parte delas já foi esquecida, pois geralmente foram estudadas somente para um teste, um exame .Então , tanto um como outro modo de ensino pode ser limitado aos próprios interesses da pessoa. Mas o estudante autodirigido pelo menos conhece mais a si mesmo , conhece suas forças e suas fraquezas. E, porque ele é automotivado, freqüentemente quer preencher os lapsos de sua educação.

VEJA – O senhor acredita que a autodisciplina surge naturalmente com o aprendizado autodirigido?

ROGERS – Sim, a liberdade e a responsabilidade sempre caminham juntas, e isso é valido tanto para a educação quanto para outros aspectos da vida. A pessoa tem que viver com as conseqüências do que aprende. Se não pode perceber as mudanças , então será enganada pelos outros. E, quando isso torna claro, mais ela será responsável – ao contrario de alguém que teve liberdade mas não reconheceu suas conseqüências.

VEJA – Seguindo a tradição humanista, o senhor costuma enaltecer a bondade nas pessoas, mas não estará deixando um pouco de lado o maquiavelismo e o espírito de competição, que naturalmente existe em nossa sociedade?

ROGERS – Fui muitas vezes acusado de não compreender a maldade nas pessoas – e levo a sério este tipo de critica , isso pode até ser verdade. Mas cheguei a uma posição, não através de pensamentos passivos mas através de meus contatos diretos com pessoas , tanto em terapia quanto em grupos, ou mesmo em salas de aula, nos quais percebi que, se confio plenamente em sua capacidade de se compreenderem melhor e ser mais autodirigidas, essas escolhem direções que são sociais e não anti-sociais, ou más. Dizem que com esse tipo de terapia o individuo pode muito bem ser um melhor ladrão ou um melhor assassino , e para mim essa é uma possibilidade bastante lógica. Mas, de acordo com minhas experiências , isso simplesmente não acontece. Se ofereço a uma pessoa a possibilidade de se expressar, de buscar suas próprias direções, ela não escolhe ser um melhor ladrão ou coisa semelhante, mas procura seguir a direção de maior harmonia com seus companheiros.

VEJA – Uma terapia ou um grupo de encontro resolveria todos os problemas da pessoa , tornaria sua vida bem mais fácil?

ROGERS – Não, isso não é verdade . A pessoa se desenvolverá mas o crescimento será sempre doloroso. Quando os potenciais humanos são desenvolvidos, a vida se torna mais complexa. As pessoas se descartam de seus velhos problemas deixando-os para trás, mas , quando vão em frente, encaram novos problemas , talvez tão difíceis com os anteriores – porém mais excitantes, pois elas aí estão mais conscientes e mais prontas a lidar com eles. Portanto o prazer de ser mais independente, mais real e mais livre é mais que suficiente para contrabalançar a dor e a dificuldade que advêm deste tipo de crescimento. Para a máxima curiosidade e aprendizagem desse tipo , tanto as crianças quanto os adultos precisam de amor de um individuo , ou de um grupo, que possa criar segurança suficiente para que a pessoa que está se desenvolvendo se atreva a tomar riscos que a levem a essas áreas de crescimento. E essa é uma das coisas que um grupo de encontro proporciona – a segurança de um ambiente de compreensão, com pessoas que procuram de amar mutuamente. A habilidade de tomar riscos é um dos efeitos básicos mais importantes de um grupo de encontro. Faço questão da palavra “risco” porque toda aprendizagem é um risco; no entanto, é a nova aprendizagem e o novo comportamento que tornam a vida excitante. É o que leva as pessoas a um desenvolvimento mais completo.

VEJA – Em seus trabalhos o senhor costuma se referir ao que chama de “pessoa emergente”. O que será isso?

ROGERS – Vejo a pessoa emergente como a que tomou o risco de viver de um modo novo e mais humano numa sociedade que não encoraja esse tipo de aprendizagem. Portanto, seu caminho não é fácil. São pessoas que não estão ligadas a coisas materiais , embora possam aprecia-las se as possuírem. Em termos de autoridade, vejo pessoas emergentes como alguém que tem um sentimento bastante profundo, de que somente dentro de si existe a maior fonte de autoridade, na qual pode confiar. Esta pessoa está pronta a ouvir qualquer autoridade, mas quando se trata de seu próprio comportamento, a escolha está unicamente, dentro de si mesma. Ela é quem avalia toda experiência e autoridade, e toma decisões baseadas no que ela quer fazer. Na verdade , sempre existiu uma ou outra pessoa assim. No entanto, ter um grande grupo de indivíduos tomando decisões por si mesmo , como aconteceu nos Estados Unidos, durante a guerra do Vietnam, quando um vasto numero de jovens simplesmente se recusou a ir para a guerra, é realmente um novo aspecto da sociedade.

VEJA – A pessoa emergente seria um produto exclusivo da sociedade americana ou ela pode surgir também em sociedade de paises em desenvolvimento?

ROGERS – Os Estados Unidos, principalmente na região oeste, são um terreno bastante fértil para esse tipo de indivíduos. Mas eu os tenho encontrado também em outros paises, como Holanda , Alemanha, Japão, Austrália, e sinto mesmo que o Brasil é um bom solo para esse tipo de pessoas. Em qualquer cultura , essa pessoa irá encontrar dificuldades – mas sinto no Brasil, uma coragem igual à que encontro nos Estados Unidos. Sou muito a favor dessas pessoas , pois elas apreciam o fato de que a vida é um processo de mudança. Portanto, não estão atadas a nenhuma ortodoxia ou tradição e nem qualquer modo fixo de fazer as coisas. ”

FONTE: Fabíola I. de Oliveira, VEJA no. 441, via Facebook Cláudia Castro.

Uma pancada na cabeça pode criar um génio


O fotógrafo Eadweard Muybridge – autor da célebre sequência fotográfica com os complexos movimentos de um cavalo a galope – é um dos raríssimos casos de genialidade adquirida.
O comportamento obsessivo, excêntrico e errático do fotógrafo britânico Eadweard Muybridge era atribuído a um acidente de viação e investigadores acreditam que foi uma lesão cerebral permanente que lhe despertou a genialidade artística.

A tese é referida num artigo da “The Atlantic” que dá conta de estudos efectuados neste campo.

O caso de Muybridge é enquadrado pelos psiquiatras como de genialidade adquirida, alguém cujo talento extraordinário não é inato, nem desenvolvido através de aprendizagem.

O psiquiatra Darold Treffer, da Wiscosin Medical School, tem estudado ao longo dos últimos 40 anos a síndrome da genialidade. Descobriu que se a genialidade é algo de muito raro, a genialidade adquirida é ainda muito mais. Da lista que elaborou com 330 génios, dos mais diversos pontos do mundo, 300 já terão nascido génios, apenas 30 adquiriram os seus talentos extraordinários.

Recrutamento de tecidos corticais

Há o caso de Orlando Serrell, que levou com um taco de baseball na cabeça aos 10 anos, e que veio a descobrir que memorizara as condições meteorológicas de todos dias após esse incidente. O de Derek Amato, que recuperou os sentidos após ter batido com a cabeça no fundo de uma piscina, e tornou-se num grande pianista, aos 40 anos, sem qualquer tipo de formação musical.

E ainda o de Alonzo Clemens, cujas capacidades verbais e cognitivas pararam de se desenvolver aos três anos, devido a uma lesão cerebral, mas que consegue criar esculturas extremamente pormenorizadas de animais, em escassos minutos.

Bruce Miller, professor de neurologia da Universidade da Califórnia, descobriu em 2003 que alguns dos seus pacientes, com uma doença cerebral degenerativa – a demência frontotemporal -, desenvolviam incríveis capacidades artísticas, à medida que o seu estado se agravava.

“O que acontece é que existe uma lesão”, explicou Treffert à “The Atlantic”, ” ocorre o recrutamento de tecidos corticais ainda intactos.

Dá-se uma redefinição da rede (que transporta os sinais cerebrais) através dos tecidos intactos, ocorrendo então uma libertação do potencial latente dessa área do cérebro”. Ou seja, essas pessoas passam a utilizar uma área do cérebro que para a generalidade dos seres humanos se mantém inactiva ao longo de toda a vida.

Fonte: Expresso online.

Ódio de Hitler aos judeus cresceu com derrotas no exterior

Ódio de Hitler aos judeus cresceu com derrotas no exterior
Fotografia © DN

Reveses militares levaram Hitler a concentrar-se sobre o “inimigo interior”, indica um estudo de 1942 da autoria de psicólogos britânicos.

Um estudo psicológico dos discursos de Hitler levado a cabo pelos serviços de escuta da BBC, em 1942, chamou a atenção para a sua “paranóia” face aos judeus no momento que coincidiu com a concretização da Solução Final, decidida na conferência de Wansee, em janeiro daquele ano.

A conferência de Wansee, localidade balnear nos arredores de Berlim, é considerada o ato fundador do extermínio sistemático dos judeus na Alemanha e nos restantes países ou territórios ocupados pelo regime nazi.

O serviço de escuta da BBC estava encarregue de seguir as emissões de rádio na Europa ocupada e na Alemanha, delas elaborando um relatório semanal. Neste serviço funcionava uma unidade composta por psicólogos que tentavam determinar o seu estado de espírito e as suas preocupações pelo tom e tema dos seus discursos.

O estudo agora entregue à Universidade de Cambridge deteta “tendências mórbidas” em Hitler e uma crescente obsessão com o “veneno judaico”. O documento estará brevemente disponível para consulta dos historiadores, indicou a instituição em comunicado.

“No momento em que o estudo foi elaborado, os ventos da guerra começavam a mudar na Alemanha”, considera o historiador Scott Anthony. “O documento revela que os serviços secretos pressentiram o que se passava (…), face a derrotas na frente de batalha exterior, Hitler concentra-se sobre o que considera ser o inimigo interior, os judeus”.

O ano de 1942 fica marcado pelo início da batalha de Estalinegrado, que se inicia no verão deste ano e culmina na derrota alemã em fevereiro de 1942. O fracasso alemão em chegar a Moscovo e o impasse em Estalinegrado, com a sorte das armas virar-se, lenta mas irreversivelmente, contra os alemães constituem as primeiras derrotas significativas do III Reich. Os avanços e recuos do Afrika Korps no Norte de África entre finais de 1941 e o ano de 1942 são reveses importantes, mas sem a dimensão de que se revestem as derrotas na campanha da Rússia, até pela diferença de dimensão do esforço de guerra nazi em ambas as frentes.

Os autores do documento, como antecipando aquilo que estava em marcha na Alemanha, escrevem que para Hitler “os judeus são a encarnação do mal, enquanto ele encarna o espírito divino. Ele é o deus pelo qual uma vitória sacrificial sobre o mal pode ser alcançada”.

Para o historiador Scott Anthony, “atendendo àquilo que hoje sabemos sobre a Solução Final, este documento é pungente”.

Fonte: DN.

Ciência e espiritualidade

Matthieu Ricard trocou uma carreira científica de topo por uma vida de espiritualidade, meditação e ajuda humanitária nos Himalaias. Quarenta anos depois, o seu cérebro foi alvo de estudo e é considerado o homem mais feliz do mundo. Fomos descobrir o seu segredo.

Filho do filósofo francês Jean-François Revel, Matthieu Ricard cresceu entre a nata da nata dos intelectuais da Paris, como Stravinsky e Cartier-Breson. Doutorou-se em biologia molecular e trabalhou com um nobel da Medicina. Mas, aos 26 anos, percebeu que isto não era suficiente. Que os génios que o rodeavam podiam ter cérebros iluminados, mas isso não aumentava as suas qualidades humanas.

Trocou então a ciência pela espiritualidade e rumou aos Himalaias. Estudou com alguns dos maiores guias do budismo e hoje é tradutor e braço direito de Dalai Lama. Pelo meio arranja ainda tempo para fotografar, escrever livros e com isso angariar dinheiro para o projeto humanitário Karuna Shechen, que ajuda mais de 90 mil pessoas (clique aqui para saber como pode colaborar).

Agora, com 65 anos e mais de 10 mil horas de meditação, voltou à ciência como objeto de estudo e foi monitorizado com 256 sensores colados na cabeça, que mediram a actividade do córtex pré-frontal do seu cérebro. A escala de felicidade, criada para a investigação da Universidade de Wisconsin e testada em centenas de outras pessoas, ia de um mínimo de felicidade, +0.3, ao máximo de -0.3. Matthieu Ricard atingiu -0.45. Em suma, em estado contemplativo, o monge conseguiu um equilíbrio entre emoções jamais visto, com um claro desvio para as positivas, como o entusiasmo e a alegria, que anulavam as negativas, como o medo e a ansiedade. Foi considerado o homem mais feliz do mundo.

Com traje budista, ténis desportivos e sorriso aberto, encontrámo-lo no II Congresso Internacional da Felicidade Coca-Cola, em Madrid.

Cinco perguntas a Matthieu Ricard:

Foi considerado o homem mais feliz do mundo. Qual é o seu segredo?
(risos) Não, isso não é bem assim.Mas posso dar alguns conselhos sobre as pessoas em geral. Primeiro há que se reconhecer que quer ser feliz. Acima de tudo não devemos negligenciar as nossas emoções, o nosso interior. Egoísmo, arrogância, agressividade são tudo sentimentos que nos fazem sentir mal, que controlam as nossas mentes e impedem a nossa felicidade. Não são sentimentos que nos sejam impostos, nós somos os responsáveis por eles e toda a gente sabe o mal que nos fazem. A verdade é que nós podemos treinar a nossa mente. Não interessa o que se passa cá fora, o nosso controlo aí é muito limitado. Já lá dentro só depende de nós.

Temos de pôr de lado os prazeres mundanos para sermos felizes?
Não há mal nenhum no prazer. Mas o prazer não tem nada a ver com felicidade. Imagine por exemplo um banho quente. Se viermos gelados da rua e nos pusermos debaixo de água quente, sabe maravilhosamente. Mas se ficarmos lá 24 horas, é insuportável. Tal como a música alta. Um bocadinho é bom, 24 horas pode ser tortura. Aliás, é um dos métodos usados em Guantanamo. Viver apenas de prazer deixa-nos exaustos. A felicidade é uma forma de estar na vida, não é apenas uma sensação momentânea.

Durante décadas, muitos psicólogos defenderam que nos devemos focar mais no “eu”. Já você tem uma visão totalmente contrária. Afinal quem tem razão?
Essa é uma visão muito estúpida. É óbvio que devemos pensar em nós próprios, mas não devemos passar o dia focados no”eu,eu, eu”. Que forma mais aborrecida de viver! O individualismo e o egoísmo destroem a felicidade. Essa ideia de que primeiro vou tomar conta de mim e depois, se me sentir bem, é que me dedico aos outros, não funciona. É uma atitude em que todos têm a perder. Parte de treinar a mente está em amar os outros, preocuparmo-nos com os outros, dar aos outros e aí a felicidade será conjunta. Dar e receber é uma bola de neve. Mas atenção: preocuparmo-nos connosco, gostarmos de nós, é importante. Só não pode é ser feito de forma narcísica.

Estamos no meio de uma profunda crise económica. Ainda há pouco tempo um homem suicidou-se em frente ao Parlamento grego por causa da falta de dinheiro. Nestas condições, como é que podemos ser felizes?
Se ligarmos a felicidade exclusivamente ao dinheiro nunca conseguiremos. Há muitas coisas supérfluas nas nossas vidas. Coisas de que não precisamos. Passamos a vida a tentar ter essas coisas materiais e se não as temos sentimo-nos miseráveis. Mas realmente precisamos delas? De tanto luxo?

E quando se deixa de ter dinheiro para pagar as contas? Não é uma questão de luxo…
Viver de forma mais simples não significa que tenhamos de voltar a viver na floresta. Mas não podemos nós mudar o estilo de vida e viver com menos? Essenciais são a amizade, a paz, a sensação de ter o coração cheio, de que cada momento vale a pena ser vivido. Está mais do que estudado – e atenção que não falo de ensinamentos budistas – que quanto maior o nível de consumismo, menor é a felicidade que se alcança.

Fonte: Expresso online.

Relações entre Freud e Jung, segundo Cronenberg

“Um Método Perigoso” aborda os dois grandes pioneiros da análise da mente humana, Carl Jung e Sigmund Freud, a relação entre os dois rivais e amigos e ainda a história da paciente que tinham em comum.  David Cronenberg regressa aqui num filme que aborda o nascimento da psicanálise.
Realização: David Cronenberg
Intérpretes: Michael Fassbender, Viggo Mortensen, Keira Knightley, Vincent Cassel, Sarah Gadon