O difícil trabalho dos psicólogos do INEM

28187872_BINARY_GI02062017OrlandoAlmeida_01297

Depois do pior incêndio de que há memória em Portugal, voltou a falar-se do que é preciso fazer: enterrar os mortos, cuidar dos vivos, ajudar a reconstruir as paredes, o corpo, a alma. Quem são os psicólogos de que tanto se falou e como prestam socorro às vítimas de stress agudo? O INEM tem uma das poucas equipas de psicologia de emergência no mundo que faz isto todos os dias.

A tragédia entrou-nos pelos olhos dentro. E com ela, o aparato de pessoas a dar resposta a uma das maiores catástrofes das últimas décadas em Portugal: bombeiros, militares, polícia, proteção civil, médicos, enfermeiros, técnicos de emergência pré-hospitalar, pilotos, assistentes sociais, investigadores, políticos, peritos forenses. Mas também uma equipa que, não por acaso, poucos viram e de pouco se fala (exceção às declarações, no início da semana, do presidente do PSD, Pedro Passos Coelho): os psicólogos de emergência do INEM.

O Centro de Apoio Psicológico e de Intervenção em Crise (CAPIC) apoia vítimas de eventos traumáticos e os próprios elementos da instituição que são confrontados com situações mais exigentes. Para entender a essência do trabalho que desenvolvem, é preciso pensar que, naquele fatídico sábado, as pessoas que estavam na zona de Pedrógão Grande passaram a manhã a fazer coisas prosaicas – varrer a casa, a regar a horta, a rir com a vizinha, a combinar com os filhos um almoço na semana seguinte. Horas depois, muitas delas não tinham casa, não tinham horta, não tinham vizinha, não tinham filha e não haveriam de fazer na próxima semana nada daquilo que tinham planeado naquela manhã. Estavam vivos, mas a vida como a conheciam tinha sido consumida pelas chamas.

Continuar a ler aqui.

Qualquer dia mato-me

1267_suicidios05

 Fotografia Sara Matos/Global Imagens

 

Agosto já acabou, mas os dias continuam longos e luminosos. O que pode ser terrível, para quem leva uma tristeza interior difícil de suportar. O Alentejo Litoral é a região com a mais alta taxa de suicídio do país, e Odemira é o coração do fenómeno – que se acentua a partir da primavera e no verão. A morte torna-se uma solução para a vida, especialmente entre os mais velhos, em reta final de solidão e de carências afetivas e materiais. Na semana do Dia Mundial da Prevenção do Suicídio (10 de setembro), uma reportagem no mais extenso e pouco povoado concelho do país.

«Matou-se o meu pai. Matou-se a minha mãe. Matou-se um irmão meu. Matou-se um irmão da minha mãe. Matou-se um tio do meu pai.» Desatento à cronologia, Eduardo, 63 anos, desfia o catálogo de desaparecimentos familiares. Assinala o fado genealógico ao ritmo de batidas na mesa da cozinha, diferente da da sua infância – aqui tem luz de rede e água canalizada, «luxos» que muitos nesta zona, nas áreas mais isoladas, não têm. Isolamento é palavra-chave para explicar um fenómeno que historicamente tem a maior expressão no Alentejo, em particular no Alentejo Litoral, de que Odemira, o mais extenso e parcamente povoado concelho do país, é o expoente: o suicídio, sobretudo na população mais idosa.

Continuar a ler aqui.

Ler ficção prolonga a vida?

 

GETTY

Uma investigação concluiu que quem lê obras de ficção vive mais anos

Há livros que salvam vidas. Em momentos em que somos forçados a estar circunscritos a uma cama, por motivo de acidente ou doença, um livro permite esquecer durante umas horas as dores ou a prisão involuntária. Graças à evasão que uma obra de ficção permite, consegue-se viajar temporariamente para fora do mundo real.

Paulo M. Morais sabe bem o que isso é. O escritor passou recentemente por um cancro, e cada um dos oito tratamentos teve direito a um livro de combate. “Vivi oito ciclos de quimioterapia sempre com um livro nas mãos. Qual o efeito das leituras? Sentir-me permanentemente acompanhado, durante os quase seis meses de quimioterapia, pelos nomes das capas, pelas personagens das páginas, pelas pessoas que me tinham passado os livros. A leitura foi uma distração; um auxílio para espaçar a respiração, aceitar o momento, aprofundar a serenidade. Cada página lida ajudou-me a controlar a ansiedade, a dúvida, o desconforto. Cada página lida incentivou-me a questionar, refletir, relembrar, escrever. Na sala de tratamentos, nunca encontrei mais ninguém com um livro entre as mãos. A maior parte das pessoas entretinha-se com tablets, telemóveis, companhias humanas. Algumas folheavam revistas e jornais; outras olhavam para o vazio. Quando terminei o tratamento, concluí que não podia ter vivido o meu cancro sem ler nem escrever.”

Agora, um estudo científico comprova as vantagens físicas da leitura. Uma investigação levada a cabo pela Universidade de Yale, com 3635 participantes, concluiu que os leitores de livros de ficção (jornais e revistas não tinham o mesmo efeito), viviam em média mais dois anos que os restantes.

Embora não saiba explicar o motivo de tal relação, Rebecca Levy, autora do estudo, afirmou que quem relatava ler livros nem que fosse meia hora por dia tinha maiores probabilidades de sobrevivência do que as que não liam.

Os resultados não surpreendem a editora do grupo Leya, Maria do Rosário Pedreira. Afinal, “a leitura é uma forma excelente de pôr o cérebro a trabalhar, especialmente se for ativa e participante — como acontece na literatura —, o que nos obriga a um esforço de atenção e concentração, implica constante visualização e imaginação, e torna-nos capazes de apreciar critica e esteticamente a estrutura, a linguagem, o estilo do autor”. Maria do Rosário compreende perfeitamente a ajuda que os livros prestam. “Nunca tive nenhuma doença especialmente grave ou duradoura, mas, em momentos em que tendia para a depressão (mortes de pessoas próximas, males de amor…), senti sempre que a leitura era uma salvação, porque me permitia mergulhar num mundo que não era o meu e alhear-me do que me estava a minar por dentro.

Lembro-me de que, numa noite em que estava especialmente triste, há muitos anos, comecei a ler ‘Porto Sudão’, de Olivier Rolin, e me fui deitar já quase de madrugada, muito mais ‘leve’ e bem-disposta, cheia de vontade de acordar no dia seguinte para ler o resto.”

 

Fonte: Katya Delimbeuf, Expresso.

As 97 novas regiões do cérebro e um mapa extraordinário

Novo mapa do cérebro humano | MATTHEW F. GLASSER, DAVID C. VAN ESSEN/REUTERS

Numa proeza científica, um grupo de investigadores da Universidade de Washington, em Saint Louis, nos Estados Unidos, atualizou o mapa centenário do cérebro humano, adicionando 97 novas regiões às 83 anteriormente conhecidas. As 180 zonas cerebrais identificadas são relevantes no controlo da linguagem, perceção, consciência, pensamento, atenção e sensação.

De acordo com o The Guardian, espera-se agora que este mapa, o mais completo do córtex humano alguma vez apresentado, substitua o de Brodmann (realizado há mais de 100 anos) no trabalho diário das mais diversas áreas científicas.

O esquema divulgado pelos investigadores na revista Nature foi construído a partir da combinação de múltiplas ressonâncias magnéticas a 210 jovens adultos, que participaram no Human Connectome Project, um programa dedicado à compreensão da conectividade neuronal.

Na revista, Matthew Glasser e os outros cientistas envolvidos no projeto explicam como combinaram ressonâncias à estrutura cerebral, às funções e à conectividade para criar o novo mapa. Alguns pacientes foram testados enquanto descansavam, outros enquanto faziam exercícios de matemática ou ouviam histórias para que se assegurasse o maior alcance possível da pesquisa.

O esquema, que ficará disponível a custo zero, deverá auxiliar o trabalho científico na áreas dedicadas ao mapeamento do córtex humano. A neurocirurgia deverá também beneficiar desta conquista (já que os cirurgiões poderão identificar com maior facilidade as zonas que estão a operar.) A longo prazo, o mapa possibilitará a investigação de um vasto manancial de perturbações, como a demência e a esquizofrenia.

O mapa dos investigadores da Unidade de Washington deverá ainda ser preferido aos anteriores, já que anteriormente apenas um dos aspetos do cérebro era tido em conta: ora o aspeto da superfície quando observada ao microscópio ora o desempenho das diversas zonas quando estimuladas.

O mapa de Brodmann, o primeiro a esquematizar o cérebro humana, identificara há mais de 100 anos, apenas 50 regiões distintas na superfície enrugada do córtex humano.

Fonte: DN.

Estimular centro de prazer do cérebro aumenta imunidade

15064512

 

Estimular artificialmente o centro de prazer do cérebro aumenta a imunidade em ratos, o que pode ajudar a explicar o poder dos placebos, de acordo com um estudo publicado na revista britânica “Nature Medicine” nesta segunda-feira (4).

“Nossas descobertas indicam que a ativação de áreas do cérebro associadas a expectativas positivas pode afetar a forma como o corpo lida com as doenças”, disse a autora sênior Asya Rolls, professora assistente na faculdade de Medicina do Instituto Technion-Israel de Tecnologia.

As conclusões, publicadas na revista britânica, “podem um dia levar ao desenvolvimento de novas drogas que utilizem o potencial de cura do cérebro”, disse Rolls.

Os cientistas já sabiam que o sistema de recompensa do cérebro humano, que controla o prazer, pode ser ativado com um placebo se a pessoa que o tomar acreditar que se trata de um medicamento verdadeiro. “Mas não estava claro se isto poderia interferir no bem-estar físico”, disse Rolls.

Rolls e colegas incubaram células do sistema imunológico de ratos expostos à bactéria mortal E. coli depois de terem seus centros de recompensa estimulados. Essas células do sistema imunológico eram pelo menos duas vezes mais eficazes para matar as bactérias do que as células normais, de acordo com os cientistas.

Em um segundo teste, os cientistas vacinaram diferentes camundongos com essas mesmas células do sistema imunológico. Trinta dias depois, o novo grupo de ratos também tinha duas vezes mais capacidade de combater a infecção.

COMIDA E SEXO

A parte do cérebro estimulada foi a chamada área tegmental ventral, onde está o sistema de recompensa. Essa área é ativada, por exemplo, quando um rato, ou um ser humano, sabe que uma refeição saborosa ou um encontro sexual estão próximos.

A partir daí, a mensagem é encaminhada através do sistema nervoso simpático, que é responsável por dar respostas em situações de crise, até desencadear uma resposta imune de combate às bactérias, revela o estudo.

Os pesquisadores observaram, ainda, uma relação entre tal associação e a evolução. “A alimentação e o sexo expõem um indivíduo a bactérias”, disse Rolls. “Isso lhe daria uma vantagem evolutiva se, quando o sistema de recompensa é ativado, a imunidade também aumentar”, completou.

O próximo passo será realizar experimentos com ratos para encontrar moléculas –potenciais drogas– que possam reproduzir essa relação de causa e efeito.

 

Fonte: Folha de S. Paulo

Tristeza não é depressão, depressão é não sentir nada

ulrich-hegerl01_1280x640_acf_croppedUlrich Hegerl é o presidente da Aliança Europeia Contra a Depressão @Hugo Amaral/ Observador

 

Não ter reação, não sentir a dor da perda, não sentir nada de nada, apenas uma culpa profunda. Estes podem ser sinais de uma depressão, especialmente se duram muito tempo.

Tristeza não é depressão, embora a prostração seja um dos estados comuns de quem sofre da doença. Assim, não podemos classificar todas as pessoas tristes como deprimidas, mas nem por isso os números da doença são menos preocupantes – há mais de 350 milhões de pessoas com depressão em todo o mundo, refere a Organização Mundial de Saúde.

A depressão é uma das doenças mais comuns em todo o mundo e uma das principais causas de incapacidade. As faltas ao trabalho, ou a presença não produtiva dos trabalhadores, significam perdas significativas para as empresas. Um impacto económico que chega aos 92 mil milhões de euros na Europa refere a Eutimia – Aliança Europeia Contra a Depressão em Portugal.

Continuar a ler aqui.

Saúde mental: “Os portugueses são mais vulneráveis ao sofrimento”

O retrato da saúde mental em Portugal, traçado no mais recente relatório da Direção-Geral da Saúde, não é animador. O consumo de antidepressivos está a disparar e o suicídio está a crescer, sobretudo nas pessoas em idade ativa

Em entrevista ao Expresso Diário, o diretor do Programa Nacional para a Saúde Mental, Álvaro de Carvalho, sugere que os portugueses são mais vulneráveis ao sofrimento psicológico e diz que a crise económica vivida nos últimos anos fez aumentar o desespero.

De acordo com o relatório “Saúde Mental em Números”, divulgado esta quinta-feira, o suicídio em Portugal continua a ser maior entre os idosos, mas está a crescer entre as pessoas em idade ativa. A que se deve este aumento?
O relatório indica que, tanto nos homens como nas mulheres, tem crescido o número de anos de vida perdidos por suicídio, o que significa que se estão a suicidar pessoas mais jovens, em idade ativa. Nas consultas de prevenção do suicídio, muitas pessoas na casa dos 40, 50 anos queixam-se de que são muito novas para se reformarem, mas já são consideradas demasiado velhas pelo mercado para poderem trabalhar. É um discurso muito comum.

Continuar a ler aqui.

Los adictos a los videojuegos tienen un cerebro distinto

Están más preparados para reaccionar, pero también controlan peor los impulsos.

Investigadores de Corea del Sur y EE.UU. han comprobado que el cerebro de los jugadores compulsivos de videojuegos está organizado de forma distinta que el de las personas sanas. En algunos casos eso es positivo, porque les hace estar más preparados para sucesos inesperados, pero también significa que tienen un control peor de los impulsos. Los investigadores no saben si son los videojuegos los que cambian el cerebro, o si son los que tienen el cerebro así los que se enganchan a ellos.

 

Las líneas unen las redes cerebrales conectadas. Imagen: Jeffrey Anderson. Fuente: Universidad de Utah.

Las líneas unen las redes cerebrales conectadas. Imagen: Jeffrey Anderson. Fuente: Universidad de Utah.

Los escáneres cerebrales de cerca de 200 muchachos adolescentes demuestran que el cerebro de los jugadores compulsivos de videojuegos está conectado de forma diferente.

La adicción a los videojuegos se asocia con hiperconectividad entre varios pares de redes cerebrales. Algunos de los cambios, se prevé, ayudan a los jugadores a responden a la nueva información. Otros cambios están asociados con la distracción y el pobre control de impulsos. La investigación, una colaboración entre la Universidad de Utah (EE.UU.) y la Universidad Chung-Ang (Corea del Sur), se ha publicado en línea en Addiction Biology.

“La mayoría de las diferencias que vemos podrían considerarse beneficiosas. Sin embargo, los cambios buenos podrían ser inseparable de los problemas que vienen con ellos”, dice el autor principal Jeffrey Anderson, profesor asociado de neurorradiología en la Facultad de Medicina de la Universidad de Utah, en la nota de prensa de ésta.

Las personas con trastorno por juegos de Internet están obsesionadas con los videojuegos, a menudo hasta el punto de que dejan de comer y de dormir para jugar. Este estudio informa que en los varones adolescentes con el trastorno, ciertas redes cerebrales que procesan la visión o la audición son más propensas a tener una mayor coordinación de la llamada red de prominencia. El trabajo de la red de prominencia es centrar la atención en los acontecimientos importantes, impulsando a la persona a la acción.

En un videojuego, la mejora de la coordinación podría ayudar a un jugador a reaccionar más rápidamente contra un luchador que se aproxima. Y en la vida, a una pelota lanzada delante de un coche, o una voz desconocida en una habitación llena de gente.

“La hiperconectividad entre estas redes cerebrales podría conducir a una capacidad más sólida para dirigir la atención hacia los objetivos, y para reconocer información nueva en el entorno”, dice Anderson. “Los cambios podrían básicamente ayudar a alguien a pensar de manera más eficiente.” Uno de los próximos pasos será determinar directamente si los chicos con estas diferencias cerebrales hacen mejor las pruebas de rendimiento.

Problema

Más problemática es la mayor coordinación entre dos regiones del cerebro, la corteza prefrontal dorsolateral y la unión temporoparietal, un cambio que también se observa en los pacientes con enfermedades neuropsiquiátricas, como la esquizofrenia, el síndrome de Down y autismo, y en personas con pobre control de impulsos.

“Tener estas redes demasiado conectadas puede aumentar la distracción”, dice Anderson. En este momento no se sabe si la adicción a los videojuegos provoca el cableado del cerebro, o si las personas que están conectadas de manera diferente se sienten atraídas por los videojuegos.

Según Doug Hyun Han, de la Facultad de Medicina de la Universidad Chung-Ang y de la Universidad de Utah, esta investigación es la mayor y más completa realizada hasta la fecha sobre las diferencias cerebrales de los jugadores compulsivos de videojuegos.

Los participantes del estudio eran de Corea del Sur, donde los videojuegos son una actividad social popular, mucho más que en los Estados Unidos. El gobierno de Corea apoya que se investiguen con el objetivo de encontrar formas de identificar y tratar a los adictos.

Resonancia

Los investigadores realizaron una resonancia magnética a 106 niños de entre 10 y 19 años que estaban en tratamiento para el trastorno por juegos de Internet, una enfermedad psicológica que, según el Manual Diagnóstico y Estadístico de los Trastornos Mentales (DSM-5), necesita una mayor investigación. Los escáneres cerebrales se compararon con los de 80 niños sin el trastorno, y se buscaron las regiones que se activaban simultáneamente cuando los participantes estaban en reposo, una medida de la conectividad funcional.

El equipo analizó la actividad de 25 pares de regiones cerebrales, 300 combinaciones en total. En concreto, los niños con trastorno por juegos de Internet tenían conexiones estadísticamente significativas y funcionales entre los siguientes pares de regiones del cerebro:

-Córtex auditivo (audición) – corteza motora (movimiento)
-Córtex auditivo (audición) – cortezas motoras suplementarias (movimiento)
-Córtex auditivo (audición) – cingulada anterior (red de prominencia)
-Campo frontal del ojo (la visión) – cingulada anterior (red de prominencia)
-Campo frontal del ojo (la visión) – ínsula anterior (red de prominencia)
-Dorsolateral de la corteza prefrontal – unión temporoparietal.

 

Referencia bibliográfica:
Doug Hyun Han, Sun Mi Kim, Sujin Bae, Perry F. Renshaw, Jeffrey S. Anderson: Brain connectivity and psychiatric comorbidity in adolescents with Internet gaming disorder. Addiction Biology (2015). DOI: 10.1111/adb.12347.
Fonte: Tendencias 21.

Pacientes de Alzheimer beneficiam do contacto emocional

Ao contrário do que 2 em cada 5 pessoas acredita, o contacto com a família e os amigos é benéfica para os pacientes de Alzheimer, mesmo quando estes já não capazes de os reconhecer.

Sean Gallup/Getty Images

É errado pensar que os pacientes com Alzheimer não retiram benefícios do contacto com familiares e amigos que já não reconhecem. O alerta é dado por um estudo levado a cabo pela instituição de caridade britânicaSociedade de Alzheimer.

A pesquisa revela que 42% das pessoas inquiridas acredita erradamente que quando os doentes de Alzheimer deixa de reconhecer os entes queridos, já não beneficiam do contacto com eles.

A investigação refere ainda que 64% das pessoas com Alzheimer se sentiram isolados de familiares e amigos, após a doença ter sido diagnosticada. E 41% referiram que ser incapaz de reconhecer amigos e familiares iria fazê-los sentir-se mais isolados do que o corte de relações com familiares ou divórcio.

A instituição britânica afirma que os resultados do estudo mostram que quem sofre de Alzheimer precisa de passar mais tempo com parentes e entes queridos para evitarem a solidão. Mesmo que mais tarde não consigam lembrar-se da visita e já não reconheçam as pessoas, os doentes de Alzheimer continuam a manter a “memória emocional”, que lhes permite sentirem-se felizes mesmo depois de esquecerem o que provocou esse sentimento.

Cerca de 68% responderam que tencionam manter as visitas aos seus familiares e amigos, mesmo quando deixarem de os reconhecer. “Apesar dessas boas intenções, a falta de consciência de quão importante é a memória emocional para os doentes, as pessoas nem sempre concretizam as suas intenções e mais da metade dos pacientes de Alzheimer sentem-se isolados e sozinhos,” refere a instituição.

Esta “memória emocional” permite “estimular sentimentos de familiaridade, felicidade, conforto e segurança”, frisa a Sociedade de Alzheimer. E estes sentimentos têm um grande impacto na disposição e bem-estar geral de quem sofre de Alzheimer.

 

Fonte: Observador. 

Perdoar faz bem à saúde

NM1231_Comportamento

 

Alimentar rancor, vingança, ódio é o pior que podemos fazer a nós próprios. Perdoar, diz a ciência, faz-nos mais felizes e torna-nos mais saudáveis. E, afinal, não é isso tudo o que queremos?

O perdão, tradicionalmente estudado pela filosofia e um dos tópicos prediletos da teologia, há muito que saltou também para o campo da psicologia e da ciência. E esta defende que perdoar é o melhor remédio.

A forma mais objetiva de definir perdão é como processo mental que elimina ressentimentos ou rancores em relação a outra pessoa ou a nós próprios. Mas talvez a mais poética seja esta que Fred Luskin, o diretor do Stanford University Forgiveness Project propõe: perdoar é a experiência de poder estar em paz, independentemente do que aconteceu na nossa vida há cinco minutos ou há cinco anos. Perdoar não é esquecer, é viver tranquilamente com o que não se esquecerá. «Tal como é estudado na psicologia, é um ato de amor e compaixão para com alguém cujo procedimento nos magoou, mas também uma forma de nos libertarmos de sentimentos de vingança e ressentimento, que geram emoções negativas», diz a psicóloga Catarina Rivero.

É também importante, no entanto, perceber aquilo que o perdão não é: não se trata de esquecer ou aceitar as injustiças que nos são dirigidas. «É um processo de olhar para além dos atos e comportamentos dos outros, centrando-nos na importância da nossa libertação emocional, recusando ser prisioneiros de emoções que podem ser destrutivas», continua Rivero. Expressão chave a reter: emoções que podem ser destrutivas. O rancor é cansativo. Desgastante. Suga força e energia. De tal forma que, no limite, pode pôr-nos doentes, não só psicológica e emocionalmente, mas também fisicamente. A boa notícia é que, na realidade, como a falta de paz e o rancor são provocados por nós – não pelo outro –, não dependemos de ninguém para remediar a situação. «A investigação tem vindo a demonstrar correlações positivas como maior bem-estar subjetivo (geralmente considerada como felicidade), menores níveis de depressão e ansiedade, bem como menor abuso de substâncias, quando se perdoa. Verifica-se ainda uma tendência para maior harmonia ao nível das relações familiares», diz Catarina Rivero.

Impõe-se um parêntesis que contextualize estes e outros estudos sobre o perdão realizados na área da psicologia positiva. Sobretudo, para que nada disto se confunda com algumas crenças desprovidas de bases científicas características da filosofia New Age. Na realidade, a psicologia positiva nasce de uma constatação que só peca por tardia: a psicologia há décadas que se dedicava a investigar quem estava deprimido, quem tinha fobias, quem não superava traumas e todas as outras pessoas com as quais alguma coisa não estava bem. No entanto, não sabia nada sobre as pessoas funcionais, aquelas que, apesar dos reveses da vida, estavam mentalmente saudáveis, eram otimistas e conseguiam ser felizes.

Foi psicólogo Martin Seligman, algures no não muito longínquo ano de 1998, durante a sua presidência da American Psychological Association, que começou a chamar a atenção para esse assunto, perguntando qual o sentido de insistir em centrar a psicologia só no transtorno, na disfuncionalidade, na doença. Assim começou a ganhar expressão novo campo de investigação, a Psicologia Positiva, que olha para as pessoas não só nas suas limitações e dificuldades, mas também nos seus sucessos: na superação das adversidades, nos recursos de que se valem, nos processos de adaptação positiva que fazem.
E adivinhem: temos aprendido muito com isso. Por exemplo, que o perdão pode ser terapêutico.

Um estudo chamado «Perdão e Saúde Física», realizado pela Universidade do Wisconsin, demonstrou que perdoar pode ajudar os indivíduos de meia-idade a evitar doenças cardíacas, outro, levado a cabo na Universidade de Stanford, mostrou que o perdão pode promover também uma diminuição significativa de sintomas como insónias, náuseas, falta de apetite e dores de cabeça e de costas.

Perdoar não é fácil. Talvez porque nas nossas cabeças, o foco do perdão está no outro, não em nós. E repare-se como a lógica subjacente a não perdoar tende a ser tautológica: não perdoamos porque o que foi feito é imperdoável. Mas a realidade é que por detrás da rejeição ao perdão estão muitas vezes crenças poderosas acerca do que ele representa: humilhação, fraqueza, perpetuação da injustiça. Somos levados a pensar que perdoar é abrir a porta a uma nova ofensa, é ser palerma, « bonzinho», ingénuo ou até ter falta de coragem e de determinação. E assim vamos sustentando e alimentando a raiva.

No entender de Helena Marujo, professora do Instituto Superior de Ciência Sociais e Políticas, cuja principal área de investigação é a Psicologia Positiva, a tendência anti-perdão é também uma tentativa de luta contra o esquecimento. «O preconceito emerge porque receamos – e muitas vezes com razão – que o perdão apague da nossa memória individual e coletiva as atrocidades, injustiças, violências, desumanizações. Para uma espécie racional como a nossa, o sentido de evolução é essencial, se achamos que ao perdoar passamos uma borracha sobre o dano, temos medo de que esse perdão não nos leve a essa melhoria, que nos assegura também mais hipóteses de sobrevivência. Pensamos também, por vezes, que perdoar é perder poder, numa situação em que muitas vezes já nos sentimos desempoderados.» Mas perdoar não é nem deve ser esquecer.

Na verdade, trata-se sobretudo de parar de escarafunchar na ferida e deixar que a cicatriz se forme. Seligman, o pai da psicologia positiva, defende que o perdão não faz mais do que enfraquecer o poder que os acontecimentos negativos têm de provocar raiva e amargura. E permite reescrever a história e renovar a memória. «Perdoar é sempre ser protagonista de uma nova história. Deverá ser uma tomada de decisão determinada, que é muitas vezes libertadora, desconstrutora de narrativas e histórias de vida rigidificadas, que só se renovam com o perdão. Podemos afastar-nos e proteger-nos de quem nos feriu, humilhou, destruiu, manipulou, trouxe sofrimento e ao mesmo tempo perdoar», defende Helena Marujo.

A investigadora conta que, num exercício com alunos da universidade, em que estava envolvida a experiência da escrita privada de uma carta de perdão (a si ou a outrem, à escolha do próprio), uma descoberta foi precisamente a de poder olhar para um passado doloroso e arruinado – como o de um pai que se suicidou, o de um marido maltratante, o de uma avó que nunca aceitou um neto com deficiência – e reescrevê-lo de uma forma não vitimizadora mas vitoriosa. «Assim se criam novas memórias, e ao mesmo tempo, um novo futuro.»

Não é que a maldição se transforme numa bênção, mas lá dizia Martin Luther King que o perdão é um catalisador para uma nova partida, para um reinício. E às vezes disso que precisamos. Bom ano novo.

Como perdoar?

Com base nos estudos de Robert Enright, co-fundador do International Forgiveness Institute, Catarina Rivero faz notar que o processo de perdão é um caminho que começa sempre pela dor e pelo reconhecimento de que temos direito a sentir mágoa, tristeza ou mesmo revolta, mas que implica também a capacidade de compreender que os outros falham, mesmo que não aceitemos essa passagem de limites. As quatro fases deste processo – que podem levar diferentes tempos, de acordo com as circunstâncias e vicissitudes da situação e da relação específica – são:

» Desocultação da raiva, considerando a sua influência na nossa forma de viver e sentir;

» Decidir perdoar, a partir de dentro e no tempo de cada um;

»  Trabalhar o perdão desenvolvendo empatia e compaixão;

» Descobrir e libertar-se da prisão emocional.

 

Fonte: Notícias Magazine.