Consumo de ansiolíticos em maiores de 65 anos duplicou em 2012

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O psiquiatra Pedro Afonso alertou hoje para o aumento exponencial do consumo de antidepressivos e ansiolíticos em pessoas maiores de 65 anos, afirmando que sem esta ferramenta terapêutica o número de suicídios seria maior nesta faixa etária.

O especialista no Hospital Júlio de Matos, do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, falava à agência Lusa a propósito de dados que serão divulgados no encontro “Avanços e controvérsias em Psiquiatria”, que decorre na sexta-feira, na Ericeira.

Os dados, fornecidos pela consultora IMS Health indicam que em 2012 foram prescritos 7.753.193 ansiolíticos e 6.095.634 antidepressivos.

Em relação a 2011, registou-se um aumento da venda de antidepressivos e estabilizadores de humor na ordem dos 7,7 por cento e de 1,2 por cento na venda de ansiolíticos.

O aumento foi exponencial na prescrição destes fármacos a maiores de 65 anos que subiu de 1.739.406 em 2011 para 3.577.838 em 2012, no caso dos ansiolíticos, e de 1.439.591 em 2011 para 2.297.880 em 2012, nos antidepressivos e estabilizadores de humor.

Para Pedro Afonso, existem vários fatores que têm levado ao aumento do consumo destes fármacos, a começar pela redução dos rendimentos através da diminuição das reformas.

“São pessoas que, em muitos casos, já estão fragilizadas pela doença e que veem frustradas as suas expectativas em relação ao futuro”, disse à Lusa.

Mais frágeis, estas pessoas deparam-se com a dificuldade acrescida de terem de ajudar os filhos e sofrem também com a sua condição de desempregados e sem maneira de honrar os compromissos.

“Muitas vezes estes idosos têm de acolher os filhos em casa e até de sustentá-los, apesar de receberem menos dinheiro”, adiantou.

Pedro Afonso garante que estes casos são aos milhares em todo o país e refletem a pressão enorme a que este idosos estão sujeitos, a que acresce, em muitos casos, a solidão em que vivem.

Sobre o consumo destes medicamentos, o psiquiatra não tem dúvidas de que esta ferramenta terapêutica tem evitado um maior número de suicídios.

“Não podemos resolver os problemas destas pessoas, mas apenas oferecer algum alívio ao seu sofrimento e às vezes conseguimos esse alívio através do tratamento”, concluiu.

 

Fonte: DN.

Treinar o cérebro pode dar-nos mais anos de vida

Treinar o cérebro pode dar-nos mais anos de vida

Os velhos ditados dizem que “se não não usas algo, podes acabar por perde-lo”. O psiquiatra californiano Daniel G. Amen levou a ideia a sério e desenvolveu um método que mostra as “áreas negras” do cérebro que precisam de ser estimuladas, prevenindo assim o seu “adormecimento”.

Veja a reportagem da BBC:

Como relata a BBC, através de uma imagem tridimensional Amen percebe quais as zonas do cérebro onde o fluxo de sangue é mais baixo. Depois, conforme o diagnóstico, o psiquiatra desenha um tratamento adequado às necessidades do paciente, que irá estimular as áreas adormecidas.A fórmula que promete combater os efeitos do envelhecimento do cérebro é promovida por Daniel Amen. Distinguido pela American Psychiatric Association, Amen utiliza o seu programa de digitalização cerebral para detetar as “zonas adormecidas do cérebro”, que lhe vão poder indicar os quais os problemas que impedem uma pessoa de viver mais tempo e de se sentir mais jovem.

Para uns, ler, dormir ou fazer alguns jogos será mais que suficiente. Para outros, o exercício físico ou a estimulação do córtex com luzes, sons e outras terapias, pode ser o tratamento mais indicado.

Daniel Amen pensa que o tempo de vida do ser humano é, em parte, determinado pelas funções cerebrais. As pessoas devem ser capazes de tomar decisões certas decisões que protejam o seu cérebro, tais como não comer ou beber demais.

Fonte: DN.

Cérebro humano simulado em supercomputador

Estrutura cerebral influencia opções políticas?

A simulação do cérebro humano num supercomputador para o conhecer melhor e curar doenças é o objetivo do Projeto do Cérebro Humano, que vai receber 1,19 mil milhões de euros da União Europeia e envolve a participação de Portugal.

Reconstruir o cérebro humano, peça por peça, através de modelos e simulações produzidas por um supercomputador, de modo a perceber o seu funcionamento, é o objetivo do Projeto do Cérebro Humano.

A iniciativa vai receber um financiamento de 1,19 mil milhões de euros da Comissão Europeia nos próximos 10 anos e irá produzir ferramentas, baseadas em tecnologia de informação e computação, que irão revolucionar o conhecimento do cérebro e permitir que este venha a ser aplicado na medicina.

Todo o conhecimento existente sobre o cérebro humano será concentrado nesse supercomputador e os referiodos modelos abrirão as portas ao conhecimento das doenças do cérebro, bem como permitirão o desenvolvimento de novas tecnologias computacionais e robóticas.

Participação da Fundação Champalimaud

O projeto envolve 80 instituições científicas europeias e mais de 200 investigadores. A participação portuguesa é feita através de Zachary Mainen e Rui Costa, do Programa de Neurociência da Fundação Champalimaud.

Os investigadores da Champalimaud irão participar a dois níveis, explica Zachary Mainen: “Por um lado contribuiremos para o estabelecimento de uma relação entre ações, comportamentos e os circuitos neurais que estão na sua génese; por outro, pretendemos desenvolver modelos computacionais que nos permitam integrar e processar esta informação.”

Para Rui Costa, “será uma oportunidade única para a partilha de conhecimento e para o desenvolvimento de modelos que permitirão compreender a complexidade dos circuitos neurais que compõem o cérebro humano.”

Competitividade da ciência feita em Portugal

Para Ministério da Educação e Ciência, o Projeto do Cérebro Humano “tem grande potencial para a saúde e a compreensão do comportamento humano.” A Fundação para a Ciência e Tecnologia, por sua vez, considera que a participação portuguesa “é o reflexo direto da competitividade internacional que a ciência feita em Portugal detém.”

A coordenação do consórcio de 80 centros de investigação está a cargo de quatro instituições: Ecole Polytechnique Fédérale de Lausanne, Universidade de Lausanne e Centre Hospitalier Universitaire Vaudois, Suíça; e Universidade de Heidelberg, Alemanha. E poderá contar ainda com parceiros norte-americanos e japoneses.

O projeto deverá arrancar ainda em 2013 e prevê-se que tenha um grande impacto no desenvolvimento da medicina, da neurociência e da computação na Europa e no Mundo, sendo considerado uma espécie de CERN (Organização Europeia de Pesquisa Nuclear) do cérebro.

500 milhões para investigar grafeno

A CE anunciou a seleção do Projeto do Cérebro Humano como um dos dois projetos vencedores da Future and Emerging Technologies Flagship Projects, uma iniciativa europeia que pretende responder aos maiores desafios da ciência.

O outro projeto de investigação, que terá um financiamento de 500 milhões de euros da Comissão Europeia, incide sobre o grafeno, a forma do carbono descoberta em 2010 que tem um grande potencial de aplicação na indústria eletrónica.

É promovido pelo consórcio Graphene Flagship, reúne 600 equipas de investigação em toda a Europa e é liderado em Portugal por Nuno Peres, da Escola de Ciências da Universidade do Minho, envolvendo investigadores portugueses e estrangeiros desta universidade, das universidades de Aveiro e do Porto, do Instituto Ibérico de Nanotecnologia (que tem sede em Braga) e do Instituto Superior Técnico.

Fonte: Expresso.

Dormir bem aumenta sentimentos de gratidão

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Todos nós sabemos que uma boa noite de sono é ótimo para a nossa saúde e bem-estar geral.

Mas uma série de novos estudos descobriu um benefício surpreendente de um sono bom: mais sentimentos de gratidão nos relacionamentos interpessoais.

“Pesquisas anteriores mostraram que a gratidão promove um bom sono, mas nosso estudo olha a conexão na direção inversa e, pelo que sabemos, é o primeiro a mostrar que experiências diárias de sono de má qualidade estão negativamente associadas com a gratidão para com os outros – uma emoção importante que ajuda a formar e estreitar os laços sociais,” disse Amie Gordon, da Universidade de Califórnia em Berkeley.

Dormir para se sentir agradecido

Um grande número de estudos tem documentado que as pessoas que sentem gratidão – sentem-se agradecidas pelo que os outros fazem ou pela companhia – são mais felizes e saudáveis.

Em três novos estudos, a Dra. Amie e sua colega Serena Chen, também da Universidade da Califórnia, analisaram em detalhes como um sono ruim afeta os sentimentos de gratidão.

No primeiro estudo, pessoas que tiveram uma noite de sono ruim mostraram menor gratidão depois de enumerar cinco coisas que valorizaram em sua vida.

No segundo estudo, foram comparados a qualidade do sono e os sentimentos de gratidão de voluntários durante duas semanas. Os resultados mostraram não apenas um declínio na gratidão nos dias de sono ruim, como também os participantes relataram sentir mais egoísmo naqueles dias.

O estudo final avaliou casais, e mostrou que as pessoas tendem a se sentir menos gratas com relação aos seus parceiros depois de dormirem mal.

“Em pleno acordo com esta constatação, as pessoas relataram sentir-se menos valorizadas por seus parceiros quando algum deles dorme mal, o que sugere que a falta de gratidão é transmitida para o parceiro,” diz Amie.

Psicologia social

Os psicólogos sociais estão cada vez mais reconhecendo que comportamentos “pró-sociais” – incluindo agradecer e oferecer coisas aos outros – são essenciais para o nosso bem-estar psicológico.

Mesmo a forma como escolhemos gastar o nosso dinheiro em compras afeta nossa saúde e felicidade.

E as crianças desenvolvem maneiras específicas para ajudar os outros desde idades muito jovens.

A Dra. Amie Gordon e outros pesquisadores apresentaram algumas das últimas descobertas na área na reunião anual da Sociedade de Psicologia Social e Personalidade (SPSP), que está ocorrendo em Nova Orleans (EUA).

 

Fonte:  Diário da Saúde, via Pavablog.

Portugueses compraram 20 mil embalagens de antidepressivos por dia

Pode ser possível tratar doenças com placebo sem mentir ao doente

 

Vendas bateram recorde em 2012. Aumento de depressões pode não ser a única explicação, mas todos os dias há casos ligados à crise.

 

Em 2012 os portugueses compraram em média 20 500 embalagens de antidepressivos por dia, um número inédito desde que há registos. Os dados fornecidos ao pela consultora IMS Health revelam que as vendas destes medicamentos aumentaram 7,6% ao longo do ano passado, resultando num total de 7,5 milhões de embalagens. Por dia são mais 1469 que em 2011, ano em que os portugueses consumiram 6,9 milhões de embalagens.

A literatura científica aponta para uma forte relação entre os períodos de crise e subida do desemprego e o aumento dos casos de depressão. Confrontada com esta subida, Luísa Figueira, presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental e médica do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, reconhece que a crise, podendo não explicar todo o aumento de consumo de antidepressivos, começa a ser mais invocada nos diagnósticos. “Há mais depressões e casos de descompensação, alguns claramente desencadeados pelo desemprego e por dificuldades económicas”, conta a a chefe do serviço de psiquiatria de Santa Maria.

Embora não haja dados nacionais, um mecanismo de triagem dos casos referenciados pelos médicos de família para este hospital vai permitindo tirar algumas conclusões: “Passou a ser frequente vir referido nos processos que o doente está deprimido por dificuldades financeiras ou situações de desemprego na família. Não se pode dizer que seja uma percentagem muito elevada, mas todos os dias aparecem casos de depressões por razões de natureza económica. Há um ano isto não acontecia.”

Apesar de a relação começar a consubstanciar-se de forma mais clara, para a especialista é preciso cautela ao avaliar o aumento do consumo de remédios. Outros factores poderão contribuir em simultâneo para esta tendência, explica, seja um aumento da prescrição de medicamentos genéricos – por vezes com embalagens com menos comprimidos e que podem motivar um maior número de unidades vendidas – seja o facto de o preço dos remédios em geral ter vindo a cair. Os dados da IMS Health confirmam que, apesar de existir um aumento das embalagens vendidas, os custos diminuíram. Em 2012 as vendas de antidepressivos totalizaram 86 milhões de euros. Em 2011, com menos embalagens vendidas, a factura foi superior 14%, rondando os 100 milhões de euros. Os dados da consultora permitem ainda concluir que o aumento das vendas se verificou ao longo de todo o ano. A maior subida aconteceu ainda assim em Outubro, altura em que se venderam mais 100 mil embalagens que no mesmo mês em 2011 (+17%).

NOVOS DADOS EM 2012 A evolução do consumo de antidepressivos, embora não permita determinar com rigor os factores na sua origem, é o único dado disponível quase em tempo real para tentar perceber a evolução dos casos de depressão. As estatísticas do Infarmed, com informação actualizada até Novembro, apontam para uma taxa de crescimento semelhante (7,7%). Faltam mais dados, reconhece Luísa Figueira, que defende que esse deve ser o caminho, ponderando a prescrição dos médicos e fazendo uma monitorização nacional dos casos referenciados. “Poderia ajudar na planificação dos cuidados. Não podemos mudar as condições económicas das pessoas mas temos de nos preparar para dar cada vez mais apoio a estes doentes”, defende.

Por agora, o único estudo nacional sobre a incidência da depressão em Portugal data de 2010 e ainda não foi divulgado na íntegra. Com base numa amostra representativa da população, os investigadores verificaram que Portugal tinha das taxas mais elevadas de doenças mentais da Europa (23% dos portugueses tinha sido diagnosticado com algum tipo de perturbação nos 12 meses anteriores e a prevalência ao longo da vida superava os 40%). A incidência da depressão fixou-se nesse ano nos 7,9%, só atrás das síndromes de ansiedade. José Caldas de Almeida, director da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa e co-autor do trabalho, adiantou ao i que os resultados de 2010 deverão ser publicados na íntegra neste trimestre, adiantando que os investigadores estão a tentar garantir financiamento para levar a cabo um novo inquérito.

 

Fonte: Ionline.

Fé solitária eleva risco de transtornos

 

Pessoas espiritualizadas, mas que não seguem uma religião formal, são mais propensas a sofrerem de transtornos mentais do que ateus e religiosos “tradicionais”.

O trabalho, feito pelo University College London e publicado no “British Journal of Psychiatry”, entrevistou 7.400 pessoas na Inglaterra, das quais 35% seguiam uma religião, 19% eram espiritualizadas e 46% não eram uma coisa nem outra, ateus e agnósticos.

Os espiritualizados não religiosos tiveram um risco 77% maior de abusar de drogas. Eles também foram muito mais propensos a sofrer de transtornos alimentares, fobias e neuroses.

Os autores do artigo, liderados pelo professor Michael King, reconhecem que são necessários outros estudos para realmente destrinchar e explicar essa relação entre os espiritualizados e os transtornos mentais.

Eles, no entanto, sugerem uma explicação, mesmo que parcial, para o fenômeno: a falta da estrutura de uma religião formal na busca espiritual pode deixar os crentes mais vulneráveis aos problemas mentais.

 

Fonte: Folha de S. Paulo, via Pavablog.

Doenças mentais são mais comuns em trabalhos ligados às artes e criatividade

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A discussão é antiga: será que em pessoas criativas e com dons artísticos há maior incidência de doenças mentais como bipolaridade, depressão e abuso de drogas? Logo de cara já dá para pensar em vários exemplos: Amy Winehouse, Sylvia Plath (foto), Kurt Cobain …

Pois pesquisadores do Karolinska Institutet, na Suécia, analisaram o histórico de quase 1,2 milhão de pacientes e seus familiares e confirmaram essa hipótese.  No ano passado, a equipe já havia mostrado que há uma porcentagem maior de artistas e cientistas em famílias onde o transtorno bipolar e a esquizofrenia estão presentes do que na população em geral.

Agora, eles expandiram o estudo para abranger outros diagnósticos psiquiátricos, como depressão, ansiedade, abuso de álcool, uso de drogas, autismo, TDAH, anorexia nervosa e suicídio, e incluíram pessoas em atendimento ambulatorial em vez de pacientes exclusivamente hospitalares.

Os resultados confirmaram os do estudo anterior: o transtorno bipolar novamente se mostrou mais comum entre pessoas com profissões artísticas ou científicas, como bailarinos, pesquisadores, fotógrafos e escritores, do que na população geral. Mas, tirando o transtorno bipolar, os indivíduos com profissões criativas não mostraram maior propensão a sofrer de transtornos psiquiátricos em relação aos outros.

“No entanto, ser um escritor está especificamente associado com maior probabilidade de se ter esquizofrenia, transtorno bipolar, depressão, transtornos de ansiedade e abuso de drogas”, diz o estudo. E tem mais: eles foram quase 50% mais propensos a cometer suicídio do que as outras pessoas. Estão aí Sylvia Plath, Virginia Woolf e Ernest Hemingway como exemplo.

Será que são as doenças que levam a pessoa para essas profissões ou o contrário?  Em todo caso, de acordo com Simon Kyaga, um dos autores do estudo, tal associação entre a criatividade e a doença mental dá motivos para se reconsiderar a forma como ela é tratada. “Na psiquiatria e medicina em geral, tem havido uma tradição de se ver o problema como algo em preto-e-branco e há o esforço para tratar o paciente removendo tudo o que for considerado mórbido”, diz ele no Medical Xpress. “Mas, se alguém acredita que certos fenômenos associados a ele são benéficos para o paciente, isso abre o caminho para uma nova abordagem no tratamento. Nesse caso, médico e paciente devem chegar a um acordo sobre o que deve ser tratado, e a que custo”, completa.

 

Fonte: Ana Carolina Prado, na Super Interessante, via Pavablog.

30 mil pessoas tentam suicídio em Portugal todos os anos

 

Por Sandra Gonçalves
Cerca de 30 mil pessoas tentam suicídio anualmente em Portugal

Todos os anos registam-se mais de mil casos de suicídio e cerca de 30 mil comportamentos suicidários não consumados em Portugal, apesar dos especialistas referirem que esta é ainda uma realidade pouco referenciada. A prevenção destes comportamentos esteve em discussão durante o primeiro dia do Congresso Nacional de Psiquiatria, a decorrer no Porto até sábado.

A escassez de autópsias psicológicas e o elevado número de mortes por causas indeterminadas escondem ainda muitos dos casos de suicídio em Portugal. Um grave problema de saúde pública que os especialistas querem combater através da prevenção.

De acordo com Bessa Peixoto, director do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Braga, «existem princípios básicos que devem ser tidos em consideração na óptica da estratégia das consultas de prevenção do suicídio», nomeadamente a redução da disponibilidade e acessibilidade aos meios de suicídio; a implementação de estratégias que visem a diminuição do estigma associado à doença mental; o estabelecimento de procedimentos relativos à informação com os órgãos de comunicação social; desenvolvimento e implementação de programas de prevenção, entre outras.

No entanto, segundo o especialista, «existem ainda algumas dúvidas se o foco principal da prevenção deve estar nestas questões ou se deve ser dirigido para os cuidados primários. Há que reflectir se estes serviços estão apetrechados de forma a poder desenvolver consultas de intervenção em crise que, em tempo útil, respondam ou criem uma acessibilidade capaz de dar resposta a estes aspectos».

No simpósio dedicado aos «comportamentos suicidários: da prevenção à pósvenção» foram ainda abordadas as questões dos impactos do suicídio nas famílias e nos profissionais da área. De acordo com Ema Lima das Neves, Psicóloga Clínica do Hospital de Santa Maria, «o suicídio de um membro da família é ainda hoje visto como um tabu, a fonte de muita culpa e de muito segredo dentro das famílias», acrescentando que o neste campo «o foco é colocado nos sobreviventes – aqueles que são deixados para trás como consequência do suicídio – e na intervenção a esse nível».

Segundo a Organização Mundial de Saúde, em 2000 existiam entre 6 a 10 sobreviventes directos por cada suicídio, o que quer dizer «que há uma necessidade de caracterizar as famílias dos suicidas e de pensar qual a intervenção nestas situações».

Ainda neste campo foi apresentado por Inês Rothes, investigadora da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, o primeiro estudo sobre o impacto do suicídio de um doente em profissionais de saúde portugueses e que revelou as principais reacções emocionais, o impacto na prática clínica e os recursos disponíveis aos técnicos. Segundo o estudo, que incluiu 242 profissionais de várias áreas, 27% dos inquiridos já tinham passado pelo suicídio de um doente e segundo a especialista «são os clínicos gerais que tendem mais a estar em risco devido à organização do nosso sistema de saúde».

Os principais sentimentos e reacções emocionais nos técnicos são sobretudo o sofrimento emocional; preocupações, medos, inseguranças e dúvidas, sobretudo relativamente a doentes futuros; frustração e desilusão, existindo mesmo a situação de culpabilização da família. Muitos dos técnicos chegam a efectuar diversas alterações na sua prática clínica e 7% referem implicações na vida pessoal. «Os profissionais tendem a recorrer pouco a ajuda mas quando recorrem consideram-na útil», explica.

Durante este primeiro dia do Congresso Nacional de Psiquiatria foi ainda apresentado o estudo WAVE-bd que, segundo Luísa Figueira, directora do Serviço de Psiquiatria do Centro Hospitalar de Lisboa Norte (Hospital de Santa Maria), «procurou descrever e avaliar os resultados do tratamento da doença bipolar». Realizado em 10 países, entre os quais Portugal, os resultados permitem concluir que no nosso país «os episódios de depressão são os mais frequentes na doença bipolar» e que «os doentes com episódios de depressão tiveram a mais baixa adesão ao tratamento e os doentes com episódios mistos tiveram a mais alta adesão ao tratamento».

De acordo com as estimativas a prevalência da doença bipolar está entre os 0,2% e 6,0%, sendo considerada já a 9ª causa de perda de vida saudável e morte prematura, especialmente nas faixas etárias entre os 15 e 44 anos.

A cannabis é a droga ilícita mais consumida pelos adolescentes e a maior parte das primeiras experiências ocorre durante a adolescência, fase crucial para o desenvolvimento e amadurecimento do órgão cerebral.

Segundo Julio Bobes, professor catedrático de Psiquiatria da Universidade de Oviedo, «trata-se de um facto preocupante, uma vez que como consequência deste consumo, os adolescentes estão mais propensos a ter uma redução significativa e irreversível do seu potencial cerebral».

Alterações na capacidade de pensamento e raciocínio, ansiedade, deficiências em mecanismos da memória e de aprendizagem são alguns dos efeitos mais comuns desta droga. O consumo de cannabis – particularmente em adolescentes e jovens adultos – facilita igualmente a manifestação de perturbações mentais em indivíduos vulneráveis. É também comum um indivíduo apresentar sintomas psicóticos quando consome pela primeira vez.

Abordando o tema da «Recuperação da cognição na doença mental – o papel da quetiapina na esquizofrenia, transtorno bipolar e perturbação depressiva major», Eduard Vieta explicou que esta recuperação «deve incluir as esferas sintomática, cognitiva e funcional. Apesar de muitos tratamentos permitirem uma recuperação sintomática, alcançar a recuperação cognitiva e funcional é mais difícil», acrescentando que «muitos doentes melhoram os sintomas característicos da doença mas sofrem de dificuldades neurocognitivas e de adaptação psicossocial».

Sobre como esta recuperação é realizada, João Marques Teixeira, da Universidade do Porto, referiu que são utilizadas «técnicas específicas de remediação e estimulação cognitiva (face a face ou com o auxílio de computadores), da estimulação da cognição social em pequenos grupos e em interacções contextuais com o envolvimento da família». Trata-se de uma área altamente especializada «que requer um treino prolongado e uma equipa terapêutica dedicada apenas a essa tarefa. Este investimento justifica-se dado os resultados animadores quanto à integração socioprofissional destes doentes».

No que se refere ao papel da quetiapina, João Marques Teixeira explica que «a psicofarmacologia tem um papel importante na facilitação da remediação cognitiva, muito embora a investigação não se tenha virado completamente ainda para esta área de intervenção», tendo apresentado um racional para a utilização da psicofarmacoterapia como complemento da remediação cognitiva, «no qual a quetiapina, pelos estudos que existem e pela sua configuração farmacológica, assume um papel de destaque». Uma situação corroborada por Eduard Vieta, segundo o qual «a quetiapina é uma das substâncias melhor toleradas do ponto de vista cognitivo, tanto na esquizofrenia como nos transtornos afectivos».

O Congresso Nacional de Psiquiatria, que se prolonga até sábado, no Sheraton Porto, terá na sexta-feira em destaque temas como «o balanço de 20 anos de política comunitária em saúde mental», «a sobrecarga das perturbações mentais dos idosos», «perturbação esquizo-afectiva: sua caracterização e seus limites», «medicina sexual e psiquiatria», «perturbações psicóticas na prática clínica» e «recovery – um desafio actual na promoção da saúde mental».

 

Fonte: Diário Digital.