5 coisas que só o pessoal das ciência sociais entende

DOUT-Ciências-Sociais

 

1- A palavra ciência tem um significado mais amplo do que se julga.

Chega a ser desesperante, para alguém das ciências sociais, ver a palavra “ciência” excluir tudo o que fazem. Aqui vai um exemplo: imagina uma reportagem num infantário – se um miúdo está a tentar fazer um vulcão em miniatura, o jornalista pergunta “então meu bom Joãozinho, queres ser cientista, não é, meu pequeno rapazinho brilhante?”. Agora imagina que o miúdo está a fazer uma escavação no jardim do infantário. Vai tudo abaixo. “Então Alfredozinho, que m*rda é esta? Queres ser arqueólogo e andar com as unhas todas sujas, não é?” Pensa nisto: na secção Ciência, dos jornais, quantas descobertas científicas leste do campo da Sociologia, Antropologia ou Geografia Humana? Pois. São completamente ignorados.

2- O mesmo estudo, depois de replicado, pode dar resultados completamente diferentes.

Vamos dar um exemplo básico (meio parvo, até): em laboratório, se juntares 2 elementos químicos na mesma quantidade, o resultado vai ser igual em Lisboa e em Pequim. Nas ciências sociais? Nunca na vida. Entrevista-se a mesma pessoa duas vezes, com a diferença de uma hora entre entrevistas, e ela vai dar-te respostas diferentes. No marketing, por exemplo, o que hoje é verdade, amanhã é mais falso que o peito da Luciana Abreu. A vida dos cientistas sociais é um carrocel.

3- É difícil explicar-se o que se faz, a alguém de fora.

Por todas as razões que demos até agora – e mais algumas – explicar a um leigo o que faz um cientista social (pertença ele a que disciplina científica pertencer) pode tornar-se bastante difícil. Não é que eles não saibam o que fazem – longe disso! O problema é que os cientistas sociais estudam coisas que toda a gente julga compreender, sem precisar de estudo. Toda a gente tem opinião sobre a economia, toda a gente acha que tem um psicólogo dentro de si, toda a gente adora utilizar expressões como “cultura” ou “socialização” sem que as entendam completamente. E é por isso mesmo que se torna difícil explicar o que se faz: porque temos medo (sim, o autor do artigo é um cientista social) de não conseguir explicar o que fazemos sem que nos achem inúteis.

4- As ciências sociais são como o futebol!

Ao contrário da maioria das ciências naturais, onde as conclusões de um estudo são aceites sem levantar grandes problemas, nas ciências sociais raramente uma investigação científica termina sem que se levantem 350 questões. Nas ciências sociais, é mais do que comum escolherem-se lados! Na Sociologia, logo à partida, os alunos quase são obrigados a escolher um lado no debate estrutura vs agente. Na Psicologia, podes ser construtivista, behaviorista, entre muitas outras… na Economia deves posicionar-te entre o marxismo e o liberalismo. Qualquer dia vendem-se camisolas à porta das faculdades de ciências sociais!

5- SPSS? VADE RETRO, SATANÁS!

Queres assustar um cientista social? Diz-lhe “SPSS” ao ouvido, assim baixo e devagarinho. Ele vai tremer por todos os lados. O SPSS é um programa de computador, usado pelos cientistas sociais para organizarem e analisarem, por exemplo, os resultados obtidos através de um inquérito. Basicamente, é um Excel 3 vezes mais complicado. No início é lindo, até divertido e uma pessoa acha que vai facilitar o trabalho. O problema é quando o ponteiro do rato começa a ir para a barra superior, explorar opções, e o estudante de ciências sociais se apercebe de algo simples: que não percebe patavina do que está a fazer! É o inferno transformado em folha de cálculo.

 

Fonte : Cultura x, via EA Social.

Amigos são… família?

 

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De acordo com James Fowler, professor de genética médica e ciência política na Universidade da Califórnia (EUA) e coautor do estudo, ao olhar todo o genoma humano, ele descobriu que, de uma maneira geral, é bastante parecido entre amigos. “Nós temos mais DNA em comum com as pessoas que escolhemos como amigos do que com estranhos em uma mesma população”, esclarece.
Que demais, não é?

Detalhes do estudo

O estudo que revela a semelhança genética entre amigos de verdade parte de uma análise de todo o genoma de quase 1,5 milhões de marcadores de variação genética, e se baseia em dados do Framingham Heart Study. O conjunto de dados de Framingham é o maior disponível até o momento, e os autores estão cientes de que ele contém um nível de detalhamento genético e informações sobre quem é amigo de quem.

Para conduzir a pesquisa, os cientistas se concentraram em temas únicos e nada menos que 1.932 pares de comparação de amigos sem grau de parentesco contra pares de estranhos também sem parentesco. As mesmas pessoas, que não eram nem parentes nem cônjuges, foram utilizadas em ambos os tipos de amostras. A única coisa que difere entre os participantes é a sua relação social.
Os resultados não são, segundo os pesquisadores, um artefato de tendência das pessoas de fazerem amizade com pessoas de etnias semelhantes. Os dados de Framingham são dominados por pessoas de origem europeia. Embora isto seja um problema para alguns pesquisadores, pode ser vantajoso para esse estudo em questão, pois todos os sujeitos, amigos ou não, foram geneticamente desenhados a partir da mesma população. Os pesquisadores também controlaram os dados por ascendência, usando as técnicas mais conservadoras atualmente disponíveis.

A observação proposta por esse estudo vai além do que você esperaria encontrar entre as pessoas de herança genética compartilhada. Segundo Fowler, o coautor do estudo, os resultados encontrados são uma “rede de ancestralidade”.

Quão geneticamente similares são os amigos de verdade?

Os pesquisadores encontraram que os amigos de verdade, aqueles amigos do coração, os irmãos que a gente escolhe, têm semelhanças genéticas que equivalem a um grau de parentesco semelhante ao de primos de quarto grau, ou pessoas que têm o mesmo tataravô. Em outras palavras, isso se traduz em cerca de 1% de nossos genes.

Achou pouco?

1% pode realmente parecer pouco, mas, para os geneticistas, esse é um número realmente MUITO significativo. Ainda mais se você pensar que a maioria das pessoas nem sequer sabem quem são seus primos de quarto grau. De certa forma, dá o que pensar. Pense: eu mesma não sei quem são meus primos de quarto grau, mas, por uma acaso do destino, escolhi me relacionar com pessoas que muito bem poderia ter esse grau de parentesco comigo. Essas pessoas poderiam ser da minha família de verdade, sem eu saber disso.

Nível de amizade

No estudo, os pesquisadores também desenvolveram uma escala que chamaram de “nível de amizade”, que eles podem usar para prever as chances de pessoas serem amigas mais ou menos no mesmo nível de confiança que atualmente os cientistas usam para prever as chances de uma pessoa ser obesa ou ter esquizofrenia.

Amigos com benefícios

Atributos compartilhados entre amigos ou “parentesco funcional” pode conferir uma variedade de vantagens evolutivas. Algo do tipo se o seu amigo está com frio quando você faz uma fogueira, você dois se beneficiam do fogo. Esse também é o caso de alguns traços que só funcionam se o seu amigo também o tiver. Fowler exemplifica: “O primeiro mutante a falar precisava de alguém para falar com ele. Essa capacidade seria inútil se não houvesse ninguém para compartilhá-la”. Esses tipos de traços em pessoas são uma espécie de efeito de se viver em sociedade.

Porque você e seus amigos não ficam doentes ao mesmo tempo

Além das semelhanças “macro”, os pesquisadores também olharam para um conjunto de genes focados. Assim, eles descobriram uma coisa inusitada: eles acham que os amigos são mais semelhantes em genes que afetam o sentido do olfato.
O oposto vale para os genes que controlam a imunidade.

Ou seja, os amigos são relativamente mais desiguais em sua proteção genética contra várias doenças. A descoberta apoia o que as pessoas têm encontrado recentemente em relação a seus pares. E há uma vantagem evolutiva bastante simples para isso: ter conexões com pessoas que são capazes de resistir a diferentes patógenos reduz sua propagação interpessoal. Mas como é que vamos selecionar as pessoas para este benefício da imunidade? O mecanismo ainda permanece obscuro.

A questão da semelhança entre genes olfativos também segue aberta a debates e precisa de mais pesquisa para que conclusões sejam tiradas. Mas, até o momento, os cientistas supõem que a explicação pode estar no fato de que o nosso sentido de cheiro, quando semelhante, pode nos atrair a ambientes semelhantes. Sendo assim, não é difícil imaginar que pessoas que gostam de café, por exemplo, frequentem lugares com cheiro de café e lá encontrem pessoas que tenham o mesmo gosto – ainda que essa seleção não esteja no plano da consciência.
Cientistas observam também que, provavelmente, existem vários mecanismos que operam de forma paralela, nos guiando para escolher amigos geneticamente similares.

“With a Little Help From Our Friends”

Talvez o resultado mais intrigante do estudo seja que os genes que eram mais semelhantes entre amigos parecem estar evoluindo mais rapidamente do que outros genes. Fowler e sua equipe dizem que isso pode ajudar a explicar por que a evolução humana parece ter acelerado nos últimos 30 mil anos, e sugerem que o próprio ambiente social é uma força evolutiva.
Portanto, fica a melhor dica de todos os tempos: mantenha os amigos por perto.

 

Fonte: Hype Science, via Pavablog.

 

Os bebés treinam mentalmente a fala meses antes de começarem a falar

Um bebé de um ano sentado no aparelho de medição da actividade cerebral INSTITUTO DA APRENDIZAGEM E DAS NEUROCIÊNCIAS/UNIVERSIDADE DE WASHINGTON

 

 

Ao longo do primeiro ano de vida, o cérebro humano prepara-se para conseguir coordenar os movimentos que irão permitir ao bebé articular os sons da sua língua, concluem cientistas.

 

Sabe-se que, até mais ou menos aos oito meses de idade, os bebés prestam igualmente atenção aos sons de todas as línguas que ouvem. Mas, por volta dos 12 meses, passam a reconhecer claramente a sua língua materna – ou seja, aquela que é, normalmente, a mais falada à sua volta – em detrimento de qualquer outra. Ainda não se sabe bem como é que esta transição da percepção da fala se opera, mas agora uma equipa de cientistas nos Estados Unidos descobriu o que consideram ser uma base biológica dessa radical transformação.

Segundo eles, mesmo quando os bebés ainda são incapazes de articular qualquer palavra, o seu cérebro já está a tentar imitar, mentalmente, os sons que eles ouvem. E assim fazendo, está a construir, em silêncio, as bases neuronais motoras que irão possibilitar a locução pelo bebé, a partir do segundo ano de vida, das palavras da sua língua mãe. Os resultados foram publicados na edição desta semana da revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

O que Patricia Kuhl, da Universidade de Washington (em Seattle), e colegas essencialmente mostraram é que as palavras que os bebés com sete meses de idade ouvem à sua volta estimulam as áreas motoras do cérebro que estão encarregadas de coordenar e planificar os movimentos que irão permitir, uns meses depois, a articulação efectiva da fala.

Os cientistas analisaram a actividade cerebral de 57 bebés, respectivamente com sete meses e 11 a 12 meses de idade. Para isso, sentaram-nos debaixo de um aparelho parecido “com um secador de cabelo à moda antiga” – mas que é de facto um capacete high-tech que mede a actividade cerebral através de uma técnica não invasiva dita de magnetoencefalografia, totalmente inócua para os bebés, lê-se no mesmo documento. Os bebés ouviam sílabas derivadas do inglês ou do espanhol, como “da” e “ta”, enquanto os cientistas registavam a resposta do cérebro dos bebés a esses sons.

Mais precisamente, a equipa registou uma activação neuronal numa área auditiva do córtex chamada “giro temporal superior” bem como em duas outras áreas – a área de Broca e o cerebelo – que se sabe serem responsáveis pela planificação dos movimentos necessários para articular as palavras. E constataram que, aos sete meses, todas essas áreas se activavam com igual intensidade fosse qual fosse a língua que os bebés ouviam.

“A maioria dos bebés de sete meses consegue palrar, mas apenas irá pronunciar as primeiras palavras a seguir ao primeiro aniversário”, diz Kuhl, citada em comunicado da sua universidade. “O facto de termos detectado uma activação cerebral em áreas cerebrais motoras numa altura em que os bebés estão simplesmente a ouvir os outros a falar é significativo, porque quer dizer que o cérebro do bebé tenta, logo de início, responder verbalmente. E também sugere que o cérebro dos bebés de sete meses já está a tentar descobrir os movimentos certos para produzir palavras.”

Já nos bebés com 11-12 meses, esse padrão de activação alterava-se: as áreas auditivas passavam a responder mais fortemente à língua materna do que à língua estrangeira, enquanto as áreas motoras passavam a responder mais fortemente à língua estrangeira do que à língua materna. Para os cientistas, isso não só confirma que, nesta fase do seu desenvolvimento, os bebés já adquiriram uma experiência auditiva suficiente para distinguirem a língua materna das outras, como também sugere que já é preciso um maior esforço por parte das suas áreas cerebrais motoras para descobrirem como articular os sons da língua estrangeira do que para articular as palavras da sua própria língua. A transição da percepção da fala apanhada ao vivo e em directo, por assim dizer.

“A experiência da língua [ouvida durante os primeiros meses de vida] serviria assim para reforçar o conhecimento da língua nativa, tanto perceptual como motor. Ao fim do primeiro ano, (…) tornar-se-ia portanto mais difícil e menos eficiente gerar modelos [motores] internos para uma língua estrangeira”,escrevem os cientistas.

Os resultados têm várias implicações sociais, segundo os autores. Por um lado, mostram que é preciso falar “a sério” com os bebés, mesmo sabendo que não percebem o que estamos a dizer-lhes, porque esse é precisamente o “catalisador” da sua aprendizagem da língua, a chave que lhes vai permitir gerar os tais “modelos cerebrais internos” para mais tarde conseguirem falar essa língua.

Por outro, sugerem que a forma como os pais costumam falar com os seus filhos recém-nascidos, articulando muito bem e esticando as vogais de forma exagerada (“oooohhh, meu liiiindoooo bebéééééé”) – e que nada tem a ver com dizer palavras que não fazem sentido – poderá ajudar os bebés na construção desses modelos motores cerebrais logo nos primeiros meses de vida. “Essa forma de falar dos pais é muito exagerada e é possível que, quando os bebés a ouvem, o seu cérebro consiga modelar mais facilmente os movimentos necessários à fala”, diz Kuhl.

 

Fonte: Público.

As manipulações do Facebook

Quase 700 mil utilizadores da rede social foram submetidos a um teste comportamental sem o seu conhecimento. Uma prática eticamente questionável.

Iniciativa preocupa utilizadores sobre futuras experiências do Facebook MANJUNATH KIRAN/AFP
Há anos que a influência das redes sociais no comportamento humano, dentro e fora da Internet, tem sido estudada por todo o mundo. Os resultados têm mostrado, até agora, que existe uma relação entre as acções dos utilizadores dessas redes e o contexto a que nelas são expostos. Agora, a maior de todas elas, o Facebook, decidiu contribuir para o debate académico. Mas não se limitou a observar: decidiu manipular os seus utilizadores. E à revelia.
O Facebook dividiu 689.003 utilizadores em dois grupos e filtrou o tipo de conteúdo que cada um deles recebeu no seu “feed de notícias” durante uma semana, em Janeiro de 2012: uns receberam menos conteúdo “positivo” do que o habitual; os outros, menos publicações “negativas”. O objectivo era perceber se a exposição a conteúdos ligeiramente diferentes afectava o comportamento dos sujeitos da experiência na mesma rede social. Alterou, ainda que de forma pouco significativa.
Os autores do estudo – Adam Kramer, do departamento de investigação do Facebook; Jamie Guillory, da Universidade da Califórnia; e Jeffrey Hancock, da Universidade de Cornell – argumentam que “os estados emocionais podem ser transferidos para outras pessoas através do contágio emocional”. E dizem que o estudo o prova. Contudo, o que a experiência mostra é apenas que o comportamento dos utilizadores foi alterado pelas modificações introduzidas.
O que se verificou foi um decréscimo de 0,1% no número de “palavras positivas”, no grupo dos utilizadores que viram reduzidas as publicações com o mesmo tipo de vocábulos no seu feed, e uma diminuição de 0,07% no total de “palavras negativas” entre os que foram menos expostos a esse tipo de conteúdos. Ao todo, foram analisadas mais de três milhões de publicações (posts), contendo mais de 122 milhões de palavras – 3,6% das quais negativas e 1,6% positivas.
O artigo foi publicado, de forma discreta, na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) de 17 de Junho. A imprensa norte-americana só lhe deu destaque neste fim-de-semana, mas assim que o fez irromperam as críticas severas. Internautas e académicos mostraram-se estupefactos por o Facebook submeter pessoas a testes de manipulação psicológica sem o seu “consentimento informado”, como exige a lei nos EUA desde 1981.
O Facebook respondeu às acusações de falta de ética através de um porta-voz, que disse à Forbes: “Reflectimos cuidadosamente sobre as pesquisas que fazemos e temos um forte processo de análise interna. Não há recolha desnecessária de informação das pessoas nestas iniciativas de investigação e toda a informação é conservada em segurança.” Os participantes foram seleccionados aleatoriamente de entre os que então usavam a rede em inglês.
No entanto, o que está em causa não é a privacidade. É o facto de se terem manipulado seres humanos sem pelo menos os informar no final, como a lei norte-americana impõe que se faça quando estudos de evidente interesse público só são exequíveis sem o conhecimento dos sujeitos. A esse propósito, a empresa entende que todos os seus utilizadores deram o seu consentimento no momento em que aceitaram as condições de utilização para criar um perfil no site.
James Grimmelmann, professor de Direito da Universidade de Maryland, defende que esse “consentimento” é uma “ficção legal, concebida para facilitar as interacções online”. A política de utilização de dados do Facebook – bem mais extensa do que o artigo publicado na PNAS – não inclui uma descrição com os procedimentos deste ou de outros estudos, nada diz sobre possíveis riscos e não permite que se opte por não participar.
“O Facebook escolheu caminhar num campo de minas legal e ético; devemos sentir pouca compaixão quando ocasionalmente explode”, acrescentou Grimmelmann, no seu blogue. O próprio Adam Kramer, co-autor do estudo,acabou por reconhecer que “os benefícios da investigação talvez não tenham justificado toda a ansiedade” gerada à volta do artigo.
feed de notícias, onde lemos actualizações de amigos e páginas, é gerado individualmente a partir de um algoritmo. Não é a rede tal como a veríamos sem filtros. Se já existiam críticas ao afunilamento da realidade que provoca, agora os receios agravam-se. Não só por poderem vir a ser introduzidas variantes ao algoritmo que nos atirem para uma ficção distópica huxleyana, mas por a reacção a este estudo poder inibir o Facebook de publicitar os testes que levar a cabo no futuro. Como é uma empresa privada, não necessita de aprovação de uma comissão de ética.
Fonte: Público.

Os filhos no Facebook

 

nm1149_facebook04Fotografia: Jorge Simão

Os pais sempre fizeram álbuns de fotografias das suas crianças para recordar mais tarde e para mostrar à família e amigos. Mas o papel passou a digital, os amigos extravasam o grupo restrito que ia a casa e as imagens íntimas acabam a correr mundo. Estaremos a expor demasiado as nossas crianças no Facebook?

A primeira muda de fralda, o sono na maternidade, o consolo do banho. A chegada a casa em triunfo (e com algum receio), os primeiros dentes, os primei­ros passos, as festas de aniversário. Não vai longe o tempo em que os pais acreditavam que um álbum de capa dura e folhas de seda, com um caracol de cabelo para tocarem mais tarde, seria útil aos filhos quando qui­sessem desatar os nós da infância. Não se falava tanto em pedofi­lia, rapto, bullying, e uma fotografia dificilmente daria uma dor de cabeça para a vida inteira. Não vivíamos numa era de partilha ao minuto. E se a prática faz hoje as delícias dos amigos, que acompa­nham na rede as diabruras dos pequenos e as tramas familiares, por outro lado levanta uma questão com tantas respostas quantas as pessoas que discordam ou concordam com ela: estaremos a ex­por demasiado as nossas crianças no Facebook?

«Vivemos uma ditadura da maioria, em que é quase escandalo­so não partilhar a nossa vida e a dos nossos filhos nas redes sociais, e esquecemo-nos de que estas não são desprovidas de interesses comerciais», alerta Cristina Ponte, professora do departamento de Ciências da Comunicação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL). Quanto maior o número de pessoas identificadas na rede, maior é a possibi­lidade de se obter algoritmos que identifiquem perfis de consumi­dores. Ainda assim, as vantagens são inegáveis: fácil de usar e mais divertido do que o e-mail, o Facebook facilita contactos, aproxima amigos e permite que familiares queridos que vivem longe acom­panhem o crescimento dos pequenos (há outras redes sociais, co­mo o Twitter ou o Instagram, onde o fenómeno também se verifi­ca, mas o Facebook é, de longe, o caso mais flagrante).

O problema surge quando os pais postam todos os momentos, sem pensar que as imagens permanecem online e poderão reper­cutir-se nos mais novos. «As pessoas partilham uma foto e não lhes ocorre que tudo o que pomos na internet fica lá, sem termos forma de controlar se alguma vez será eliminado», explica Cristina Pon­te que, além de subdiretora adjunta na FCSH, coordena em Portu­gal o projeto EU Kids Online, responsável por ampliar o conheci­mento sobre usos, riscos e segurança na internet das crianças eu­ropeias. «É muito fácil alguém procurar conteúdos de terceiros na rede e é igualmente fácil disseminá-los. Inclusive fora de contex­to e para audiências que não os amigos a quem a fotografia se des­tinava. É um fenómeno muito novo, sobretudo para os utilizado­res mais velhos, que não cresceram nesta dinâmica. E apercebe­mo-nos de que a preocupação das crianças nas redes sociais não é o contacto com estranhos, mas o cyberbullying e a má imagem. Am­bos decorrentes, muitas vezes, de fotos que familiares publicaram sem supor que teriam esse efeito.»

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Inês Mestre, mãe de duas filhas de 4 e 6 anos, percebe bem quan­do a investigadora diz que é legítimo pensar do ponto de vista dos pequenos – será que irão gostar mais tarde? Será que ao crescerem com toda esta exposição vão saber lidar com isso? – antes de se pu­blicar uma imagem no Facebook. «Nós, os pais, enfrentamos desa­fios a um nível global, com a internet a permitir que a nossa vida e a das nossas crianças chegue a qualquer pessoa de qualquer parte do mundo, especialmente se formos nós a oferecê-la», diz a profes­sora de babyoga, que nem quando viveu dois anos nos EUA se sen­tiu tentada a carregar fotografias das meninas no Facebook. «Per­cebo que quem partilha tem as melhores intenções, sobretudo se se trata de imagens queridas dos filhos. Mas, infelizmente, nem to­das as pessoas são iguais.»

Inês não é contra o Facebook. Pelo contrário, acha-o «fantás­tico» para manter contacto com as pessoas, divulgar projetos, mensagens, conceitos e negócios, partilhar experiências e ter grupos de apoio. «Eu uso-o nessas vertentes todas», diz. Apenas não se serve dele para expor de forma pública a sua vida privada, o que inclui naturalmente as suas filhas. «Percebo que se quei­ra partilhar algumas ocasiões engraçadas com as pessoas próxi­mas: eu própria, quando estive fora, enviava fotos por e-mail para dividir esses momentos. Mas não entendo a necessidade de gri­tar ao mundo tudo o que fazemos. E alguns familiares e amigos já puseram fotos das minhas filhas no Facebook, mas retiraram–nas depois de eu ter pedido.»

Manuel Costa Henriques, consultor de hotelaria e pai de uma menina de 6 anos, também prefere recorrer ao e-mail para enviar instantes íntimos à família e aos amigos chegados. «Há quem diga que sou paranoico por não pôr fotografias do rosto da minha filha nas redes sociais, admito. Mas quando leio notícias do aumento de raptos de crianças e da existência de pedófilos online a colecionar imagens, penso: “Alguma vez ia arriscar, nem que fosse apenas 0,01 por cento de hipóteses, de deixar acontecer algum mal ao mais im­portante da minha vida por andar aí a revelar-lhe cara e detalhes da vida?” É dever dos pais protegerem os filhos e, ao colocarmos fo­tografias deles na internet, estamos a expô-los a perigos que mui­tas vezes nem imaginamos», justifica.

Manuel também é sensível à noção de que os mais novos têm di­reito à sua privacidade e vão crescer, arriscando-se a querer apa­gar imagens que ficam para sempre na internet. «Tudo o que colo­co nas redes sociais é público, porque efetivamente tudo o que ali publicamos passa a pertencer à rede social e, em última análise, ao acesso público. Muitas pessoas pensam que colocando fotografias privadas só as vê quem elas quiserem, mas basta alguém partilhá-las ou “gostar” para irem parar onde não era suposto. Se lerem bem as políticas de privacidade do Facebook, vão perceber que nada ali é cem por cento privado e eles assumem isso.»

Sara Pereira, Luís Pereira e Manuel Pinto são investigadores do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universida­de do Minho. No booklet Internet e redes sociais: tudo o que vem à rede é peixe?, que elaboraram, os autores sublinham a necessidade de os internautas perceberem que as informações publicadas podem ser lidas ao minuto por um público extenso e permanecem disponíveis na rede mesmo depois de removidas por quem as carregou, razão pela qual toda a gente deve ter o cuidado para nunca comprome­ter a privacidade de outros. Um estudo recente da AVG, uma em­presa de programas de segurança online sediada na Holanda, re­velou ainda que pais, tios e avós publicam imagens dos seus bebés, fazendo que 82 por cento das crianças tenham fotografias suas na internet antes de completarem 2 anos. Mais: são os pais quem reve­la maior quantidade de dados pessoais dos filhos, mediante parti­lha de fotografias e outros conteúdos de «elevada intimidade», e os ajudam a criar perfis no Facebook antes dos 13 anos (a idade em que podem abrir conta na rede social).

«Muitos têm o cuidado de supervisionar o que os menores publi­cam nos seus murais, ao mesmo tempo que eles próprios não colo­cam demasiadas fotografias nem imagens muito explícitas. Mas depois lá surge uma atividade em que a criança participa com os co­legas e é muito fácil outros pais partilharem-na», diz Sara Pereira, ciente da dificuldade de se fechar todas as portas quando cada uti­lizador se multiplica por centenas de amigos num efeito bola de ne­ve. «No limite, importa saber que tipo de fotografias é que se deve, ou não, postar no Facebook.» Fazer a distinção entre espaço públi­co e privado, coisa que nem sempre acontece. «Se vamos à piscina com os nossos filhos, por exemplo, é natural querermos partilhar o momento. Mas a verdade é que nunca sabemos quem está do ou­tro lado. E a imagem de uma criança em biquíni ou a fazer pose po­de ganhar um significado diferente se for retirada daquele contex­to de amigos para ser colocada noutro site, comprometendo a sua privacidade e intimidade.»

Tito de Morais, fundador do site MiúdosSegurosNa.Net para aju­dar famílias, escolas e comunidades a promover a segurança online dos mais novos, recorda-se de um caso: em agosto de 2008, quan­do falava no Messenger com a responsável de uma organização de proteção infantil, esbarrou num classificado anunciando a venda por cem euros em Lisboa, para atos sexuais ou outros, de uma meni­na loura de 2 anos. A descrição continha ainda uma frase referente aos genitais da criança e um número de telemóvel, tendo o anúncio sido imediatamente denunciado à Polícia Judiciária e ao site onde fora colocado (e removido ao fim de três horas, depois de se apurar tratar-se de uma brincadeira de péssimo gosto). Tito nunca soube se os pais da menina tiveram conhecimento do caso, mas o certo é que a fotografia foi copiada de um blogue que criaram para a filha e não chegaram a desativar.

«No caso do Facebook, o facto de as pessoas pensarem que só tem acesso às imagens publicadas quem se encontra ligado ao seu perfil cria uma falsa sensação de segurança», constata o autor, sublinhan­do que o mais seguro, para lá de quaisquer definições de privacida­de, é partirmos do princípio de que aquilo que dizemos e fazemos em privado se pode tornar público, mesmo o que não publicamos. «En­quanto uma foto tipo passe, se tiver o meu nome por baixo, é mera­mente identificativa, a mesma foto colocada na página dos crimino­sos mais procurados pelo FBI assume um significado completamen­te diferente. Por outro lado, temos tendência a esquecer-nos de que nem todos olhamos da mesma maneira para a imagem de um bebé ou de uma criança: felizmente, a generalidade das pessoas fá-lo com carinho e ternura, mas há quem o faça com outros sentimentos, no­meadamente como objeto de desejo sexual.»

Dados da Associação Portuguesa de Crianças Desaparecidas e da Polícia Judiciária revelam que, só no ano passado, a somar a 89 ca­sos de crianças com menos de 9 anos desaparecidas, foram refe­renciados 1326 casos de abuso sexual de menores, dos quais 49 víti­mas de tráfico e 17 referentes a investigações de tráfico para explo­ração sexual. A própria Polícia de Segurança Pública, empenhada em alertar para a questão da segurança das crianças no Facebook, pôs a circular a imagem de um bebé de rosto cortado por uma fai­xa negra, sentado nu numa bacia de pedra, com a seguinte mensa­gem: «Sabe que ele fica cá para sempre? Pense primeiro se preten­de divulgar a foto e, se o fizer, tenha em atenção as suas políticas de segurança e privacidade.» Porque a internet é uma ferramenta po­derosa, que tanto pode ser usada de forma inspiradora como des­truidora, Tito de Morais é de opinião que tudo o que seja de cariz íntimo não deve ser registado, já que as redes sociais «concentram num único local oportunidades – e riscos – antes dispersas por di­versos serviços e plataformas».

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Sofia Tojo é um desses casos que não partilham no Facebook aquilo que lhe parece imprudente nas interações ao vivo. «Se vou na rua com os meus filhos, não admito que ninguém que eu não conheça lhes tire fotos. Por isso também me parece despropo­sitado alguém ter acesso a imagens deles e poder usá-las para o que quiser», diz a professora, mãe de um casal de 4 e 7 anos. Lidar com crianças e adolescentes todos os dias na escola faz que o ins­tinto de proteção fale mais alto também na sua página de Face­book, onde partilha desenhos que os filhos fazem em vez de ima­gens pessoais. «Com os amigos chegados encontro-me em festas, jantares, piqueniques ou idas ao parque. Sou fundamentalista na questão dos afetos: não há nada como o convívio, o abraço, a con­versa sem horas para terminar», diz, determinada a impor os seus limites enquanto o fenómeno das redes sociais for «uma coisa re­cente e mal balizada, que dá asas à necessidade humana de saber da vida dos outros».

Tito de Morais confirma o perigo e percebe que muitos pais se deixem guiar pelo medo, mas ressalva que, como em tudo na vida, a virtude está no meio: nem encher o mural de fotografias das nos­sas crianças, que no futuro irão apreciar o facto de terem controlo sobre a sua identidade online; nem render-se ao pânico de publicar o que quer que seja, uma vez que há muitos familiares que vivem a largos quilómetros de distância e gostam de ver crescer os reben­tos, ainda que seja via Facebook.

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Tânia Sousa, designer gráfica e mãe de uma menina, não sabe co­mo faria sem o Facebook para viver em família, ela que tem a única cunhada e as sobrinhas em França e seis tias «com toda a prole» no Norte. «Quando se justifica, quando há momentos que acho engra­çado dividir com quem me é próximo, vou postando fotos da Bia», diz, sempre com o cuidado de manter a lista encurtada para os ami­gos e não aberta aos conhecidos, como teve em tempos. «É a forma mais prática de se partilhar coisas e, se as pessoas não gostam de fazê-lo, então não faz sentido aderirem ao serviço. A não ser que se­jam do tipo que gosta de coscuvilhar a vida dos outros sem querer que se saiba nada da sua.» O fundador do MiúdosSegurosNa.Net concede ser impossível eliminar todos os riscos, mas garante que podemos minimizá-los optando por publicações privadas ou res­tritas, num grupo secreto apenas acessível a quem quisermos e on­de os conteúdos não são partilháveis (ver caixa).

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Sandra Pereira não receia, caso contrário não publicaria as foto­grafias de Maria, 11 anos, e Diogo, 7 meses. Mas recusa pedidos de amizade de desconhecidos e já lhe aconteceu pedir a um familiar que retirasse a partilha que fez de uma fotografia dos filhos por não lhe conhecer os amigos. «Posto sempre que me apetece, não resis­to. Como tenho família em várias zonas do país, incluindo a minha irmã na Madeira, é uma forma de seguirem, ainda que ao longe, o crescimento dos meus filhos», diz a jornalista, para quem o segredo é ser conscienciosa. «Respeito quem não partilhe, mas penso que é tudo uma questão de termos cuidado com as imagens que colo­camos. Hoje em dia é quase impossível mantermo-nos anónimos, da maneira como somos observados pelo Google Earth ou por câ­maras de vigilância nas ruas e em centros comerciais…» Resta-lhe – e a todos nós – partilhar as crianças com sobriedade, protegen­do-lhes a privacidade para que elas mesmas possam dar cabo dela quando crescerem.

DICAS PARA A SEGURANÇA DE TODOS – E NÃO APENAS DAS CRIANÇAS

_APRENDA A USAR O FACEBOOK. Tal como não passaria pela cabeça de ninguém usar uma serra elétrica à toa, o Facebook é uma ferramenta útil desde que manuseada com responsabilidade. Tirar um pequeno curso de redes sociais ou aprender com amigos que percebam do assunto pode ser boa ideia.

_NÃO DIVULGUE PORMENORES DA SUA VIDA PESSOAL. Muitos utilizadores partilham demasiada informação que pode ser usada para fins menos próprios. Dizer, por exemplo, que vai de férias na próxima semana pode significar para alguns que a sua casa estará vazia em breve. Se entretanto já tiver publicado imagens que dão indicações do lugar onde mora, o risco aumenta.

_NÃO PUBLIQUE FOTOGRAFIAS EM ÁLBUNS ABERTOS PARA TODOS. Quanto mais pessoas virem uma determinada imagem, mais hipóteses ela tem de cair nas mãos erradas. Uma boa razão para ajustar as configurações de privacidade e agrupar os seus amigos em listas, de modo a garantir que só as partilha com aqueles em quem mais confia e não com os amigos dos amigos, ou com aqueles amigos que adicionou sem conhecer na vida real.

_PROTEJA AS PASTAS DE FOTOGRAFIAS COM PASSWORD. Ninguém está livre de ser assaltado ou de perder os aparelhos onde guarda as fotografias de família. Arquivá-las em ficheiros protegidos por uma palavra-passe dificulta o acesso de estranhos às mesmas.

_MANTENHA AS PARTILHAS CONTROLADAS. Na medida do possível, e após assegurar-se de que tem os perfis de segurança configurados para que só os seus amigos possam ver o que publica, peça-lhes para não partilharem fotografias suas e/ou das suas crianças. Não hesite em pedir-lhes para removerem um post caso o considere inadequado.

AS FOTOGRAFIAS QUE NUNCA DEVEM SER POSTADAS

_AS DE CRIANÇAS NUAS, DE FRALDAS OU NO BANHO. Inocentes aos olhos da maioria das pessoas, podem tornar-se um prato cheio para utilizadores maldosos que as ponham a circular em redes criminosas ou façam um uso ainda mais abusivo das informações obtidas nas redes sociais.

_AS DE CRIANÇAS COM UNIFORMES ESCOLARES. Através de uma farda é possível identificar a escola que uma criança frequenta, por vezes até o ano. Se além disso o Facebook divulgar o nome dos pais, dos menores e uma série de outros dados pessoais, não é descabido pensar que possam surgir sarilhos.

_AS QUE PODEM CAUSAR CONSTRANGIMENTO. Por muito engraçada que uma imagem possa parecer quando é tirada, os pais devem lembrar-se de que as suas crianças não gostarão de se ver expostas ao ridículo. Imagens embaraçosas à solta na rede podem vir a ser usadas em situações de bullying.

_AS DOS FILHOS DOS OUTROS. Qualquer pai tem o direito de exigir que uma fotografia do filho seja retirada do Facebook quando postada sem autorização. Lembre-se de perguntar aos outros pais se pode publicar imagens em que as crianças deles apareçam (ex.: visitas de estudo ou festas de aniversário).

_AS DE CRIANÇAS COM OBJETOS DE VALOR. Os amigos ficarão contentes com o seu sucesso e a alegria da pequenada, mas para quê chamar a atenção para os bens materiais da família? Ou fazer o seu filho correr riscos desnecessários porque recebeu um iPad e publicou uma fotografia a exibi-lo?

_AS QUE PERMITEM IDENTIFICAR O LOCAL ONDE FOI TIRADA. Os smartphones e algumas câmaras vêm equipados com um geolocalizador que identifica e torna público o lugar onde cada fotografia é tirada. Desative-o para não correr o risco de as imagens darem a terceiros informações que só lhe interessam a si.

_AS DE ALTA RESOLUÇÃO. Uma vez que perdemos o controlo de uma imagem quando a colocamos na web, é preferível partilhar com os amigos as de baixa resolução, menos fáceis de editar, manipular e utilizar.

_AS QUE FORNECEM PISTAS SOBRE A SUA MORADA. Prédios, uma loja conhecida e outros pontos de referência do lugar exato onde moramos devem ser evitados. Há coisas que é preferível manter na esfera privada.

«AS DEFINIÇÕES DE PRIVACIDADE EXISTEM PARA NOSSA PROTEÇÃO»

Entrevista a Teresa Andrade, psícóloga infantil, professora na Escola Superior Egas Moniz e formadora na área do luto.

 Quais os riscos de se partilhar fotografias de crianças no Facebook?
_Os maiores decorrem da possível utiliza­ção por pessoas que possam estar ligadas a redes de pedofilia ou tornar as crianças mais vulneráveis a raptos para outros fins, seja adoção ilegal seja para chantagear ou exercer vingança sobre os pais. As imagens são uma parte do problema, mas todas as informações objetivas relacionadas com a criança e a família (nome do colégio, jardim onde vai brincar, locais de ativida­des extracurriculares, nome dos amigos, brinquedos favoritos, praia onde vai com os avós e outros), são elementos que permi­tem a qualquer pessoa aproximar-se com facilidade.

Pensarmos nos «amigos» da rede social como amigos reais cria uma sensação de segurança perigosa?
_As definições de privacidade existem para nossa proteção. E há pouca atenção a isso face a conteúdos relacionados com as crianças. Achamos que todos os que acedem à informação são iguais a nós e não é verdade. Depois, quando chegamos aos 500 amigos, já nem nos lembramos de quem pode ver o que postamos.

Que imagens não devem ser publicadas em nenhuma circunstância?
_As que identifiquem demasiados detalhes da criança, as que a mostrem despida ou explicitem locais exatos e rotinas, as que envolvam mais crianças associadas em cir­cunstâncias idênticas, como uma festa. As que exponham visivelmente posses e bens e criem a ilusão de que as pessoas estão muito bem economicamente.

Como podemos ensinar as crianças a dis­tinguir o que é público do que é privado?
_Há que educar os pais para os perigos da exposição dos mais novos. Depois é essencial sensibilizar a criança, mostrar-lhe exemplos de situações que acontecem dia­riamente a pequenos que se expõem dema­siado, e dizer-lhe que são casos que podem suceder a qualquer um. A educação na escola também é fundamental, assim como ir divulgando a mensagem na televisão, em canais próprios para as crianças.

Links úteis:

A média de idade para as crianças adquirirem presença online é de seis meses e acontece por intermédio dos pais. Mais de 70 por cento das mães admitem ainda que posta(ra)m imagens dos filhos para partilhá-las com familiares e amigos. Tudo aqui

Como é que as crianças até aos oito anos utilizam a internet? Quais os riscos que correm? O que fazem as famílias? Conclusões do projeto EU Kids Online para ler aqui

A pergunta que fica na cabeça dos pais, depois de terem consciência de todas as ameaças que rondam os filhos quando estão ligados, é seguramente: «Como vou controlar isto?» Muitas dicas úteis para discutir em família aqui

No Facebook, o facto de as pessoas pensarem que só tem acesso às imagens publicadas quem se encontra ligado ao seu perfil cria uma falsa sensação de segurança. Há fotos que nunca deve publicar. Saiba quais aqui

O pior caso de que Tito de Morais se recorda levou-o a escrever o artigo Blogs de Bebés e Segurança, onde relata o caso aqui

Os smartphones vêm equipados com um geolocalizador que identifica e torna público no Facebook o lugar onde cada foto é tirada. Saiba porque o deve desativar aqui  e como fazê-loaqui

 

Fonte: Notícias Magazine.

Malefícios da desconfiança

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Novos estudos sobre cinismo e desconfiança revelaram que estes pensamentos negativos aumentam as hipóteses de sofrer de demência em idade avançada.

As pessoas que, com o passar dos anos, se tornam mais cínicas e descrentes têm maior risco de sofrer de demência, revela um estudo publicado esta semana no jornal da Academia Americana de Neurologia. Mas não necessariamente de morrer mais cedo.

O estudo, desenvolvido pela Universidade da Finlândia Oriental, incidiu sobre 1449 pessoas, com uma média de idade de 71 anos. As pessoas, homens e mulheres, foram sujeitas a dois testes certificados: um para a demência, outro para medir o grau de cinismo. Neste último era pedido que concordassem ou discordassem de afirmações como “a maior parte das pessoas vai usar em algum momento motivos injustos para ganhar vantagem”, ou “penso que a maior parte das pessoas vai mentir para ir mais longe”, ou ainda “penso que é mais seguro não confiar em ninguém”. Quanto mais elevado fosse o grau de concordância com estas afirmações, maior o grau de cinismo.

E, concluiu o estudo, as pessoas que se revelaram mais desconfiadas estão 2,54 vezes mais susceptíveis de virem a sofrer de demência em relação às menos desconfiadas. A investigação teve por base o controlo de outros factores que possam influenciar o risco de demência, incluindo a pressão arterial, os níveis de colesterol e hábitos de consumo como o tabaco.

Cinismo é uma profunda desconfiança dos outros. É considerado pela psicologia como uma espécie de raiva crónica que se desenvolve ao longo do tempo. Neste caso, o tipo de cinismo que o estudo trata tem diretamente a ver com o facto de certas pessoas duvidarem de tudo o que lhe dizem e acreditarem que os outros agem sempre em função de interesses próprios.

Ainda assim, ao contrário do que estudos anteriores tinham sugerido, não foi encontrada nenhum a relação entre o grau de cinismo e a morte prematura.

“Já havia estudos que mostravam que as pessoas mais desconfiadas tinham maior risco de morrer mais cedo e de ter mais problemas de saúde, mas nunca antes se tinha concluído qualquer relação com a demência”, disse em entrevista à CNN, Anna-Maija Tolppanen, uma das autoras do estudo. “Se as pessoas mais optimistas têm menor risco de sofrer de doenças do foro neurológico, achámos bem tentar perceber se o contrário também era verdade”, explica.

A boa notícia é que a elevada desconfiança não é um estado neurológico permanente. “Estou certa de que as pessoas podem mudar – podem mudar o estilo de vida, perder peso, cortar laços com amizades pouco saudáveis”, diz à CNN Hilary Tindle, professor assistente da Universidade de Pittsburgh.  E tudo isso ajuda a ter pensamentos mais positivos. “Se confiarmos mais, temos a capacidade de agir de forma mais saudável”, resume, acrescentando que, enquanto médica, vê “pessoas de todas as idades a fazer mudanças positivas todos os dias”.

 

Fonte: Observador.

Redes sociais e bem estar

 

 

 

Você já colocou algum post no Facebook que mereceu poucas ou nenhuma curtida ou comentário? Você passou o resto do dia sentindo-se rejeitada, solitária e infeliz por causa disso?

Está bem. Na verdade, segundo a ciência, é totalmente normal.

Pesquisadores da Universidade de Queensland, na Austrália, descobriram que quanto mais curtidas e comentários uma pessoa recebe, maior a probabilidade de que ela se sinta bem sobre si mesma. Infelizmente, o contrário também parece ser verdadeiro: quanto menos curtidas e comentários seu “status” receber, pior você se sentirá de modo geral.

As conclusões foram publicadas na edição de março de “The Social Influence Journal“, uma publicação acadêmica revista por pares.

Para o estudo, intitulado “Ameaças à inclusão social no Facebook: espreita e ostracismo“, os pesquisadores dividiram 79 estudantes da Universidade de Queensland em dois grupos. Um deles foi conduzido a publicar um status no Facebook que os pesquisadores garantiram que teria zero curtidas ou comentários, tornando-se secretamente invisíveis ao público. O outro grupo publicou um status que os pesquisadores garantiram que receberiam inúmeras curtidas e comentários.

Então os pesquisadores perguntaram aos participantes sobre sua sensação de inclusão, pertencimento, autoestima, controle, sentido de existência significativa e interesse percebido. O grupo que experimentou mais interação no Facebook teve notas mais altas em todas as categorias.

Não se preocupe: para garantir que nenhum dos sujeitos da pesquisa fosse para casa sentindo-se menos que estelar, os pesquisadores disseram aos participantes no final do estudo que as publicações que receberam zero respostas tinham sido programadas para ser invisíveis.

Segundo o relatório, “isso foi feito para garantir que os participantes não saíssem da sala afetados negativamente pelo ostracismo que podem ter experimentado”.

A necessidade de relacionamentos interpessoais e validação social é bem documentada. Mas o estudo entra para uma lista crescente de outros que corroboram a hipótese de que nossas necessidades interpessoais nos acompanharam do mundo real para nossas vidas digitais.

Assim como na sala de aula ou na sala da diretoria, a importância da popularidade é muito real nas redes sociais. Por isso, lembre-se: enquanto sites como o Facebook nos dão mais um lugar para o convívio social, também fornecem uma plataforma para nos sentirmos rejeitados.

 

Fonte: Brasil Post, via Pavablog.

 

 

 

Caminhar promove a criatividade

 

 

 

 

Em todos os experimentos, a caminhada parece ter eriçado raciocínios menos óbvios.

 

Caminhar ativa a criatividade, aponta estudo nos EUA Henrique Tramontina/Arte ZH

Demétrio Pereira, no ZH

Friedrich Nietzsche deve ter pisado muito chão antes de se permitir um aforismo decisivo destes: “Todos os pensamentos verdadeiramente grandes são concebidos durante uma caminhada”.

O alemão sapateava os morros da Riviera Francesa ocupado com ideias graúdas – o óbito de Deus, por exemplo –, mas até para filosofias de menos ambição está servindo uma passeada a pé, dizem pesquisadores da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Investigando as respostas cognitivas à atividade corporal, os professores Daniel Schwartz e Marilyn Opezzo acabam de achar vínculo entre a criatividade e o ato de caminhar.

Foram quatro experimentos com 176 participantes. Em um dos testes, 48 pessoas foram monitoradas dentro de uma sala fechada, de frente para a parede, ora sentadas, ora caminhando em uma esteira; e também traçando percurso pré-determinado ao ar livre, ora empurradas em cadeira-de-rodas, ora volteando a pé pelo campus afora.

A tarefa de “medir” criatividade ficou a cargo de testes de “pensamento divergente”: os participantes tinham quatro minutos para sugerir aplicações para objetos. O sujeito criativo se saía com propostas únicas, não levantadas pelos demais e, além disso, válidas (diante do objeto “pneu”, houve quem arriscasse “anel para o dedo mínimo”, e aí já é forçar a barra).

Em todos os experimentos, a caminhada parece ter eriçado raciocínios menos óbvios. Nunca baixou de 81% o índice de cobaias que descobriram perambulando, e não acomodadas numa cadeira, o seu palavrório mais fértil. Mesmo o uso da esteira, sem cenário nem avanço, impulsionou em 60% a média de respostas raras.

Um último teste mostrou que todos que marcharam pelo campus, ao serem confrontados com frases curtas, devolveram pelo menos uma analogia “original e de alta qualidade”, contra metade dos que estiveram sentados na sala. A mágica, conclui o estudo, não é obra apenas da troca de ambiente, mas do próprio ato de caminhar.

– Seja lá qual for a mudança fisiológica que acontece, ela retém algum efeito até oito minutos depois do fim da caminhada. Pode ser um desligamento do nosso típico repressor de pensamentos (sangue desviado para o controle motor, por exemplo) ou então um impulso no ânimo (de repente há uma menor hierarquia de ideias quando estamos de bom humor) – aventa a professora Opezzo.

Daniel Schwartz, que agora quer conferir se a música altera o fenômeno, diz que o efeito foi “intenso e abrangente, o que significa que muitas pessoas, de diferentes especialidades, podem pesquisar quando e por que isso acontece”. Exercícios em geral, ressalta Schwartz, produzem mudanças biológicas, inclusive desacelerando o declínio cognitivo na velhice, então não seria nenhum absurdo dar uma esticada nas pernas para resolver o tédio do brainstorming ou a brancura da página.

– O bloqueio criativo frequentemente resulta de nos focarmos demais em uma única ideia, inclusive a ideia destrutiva de que “não consigo pensar em nada para escrever”. Caminhar parece relaxar o controle de um pensamento e abrir espaço para outros. Importante notar que, nos nossos estudos, as pessoas estavam explicitamente tentando achar novas ideias. Não é o caso de uma ideia surgindo do nada – observa o professor.

Os pesquisadores hesitam quanto à inclusão da caminhada no receituário médico.

– Ainda é cedo para dizer. A depressão já foi referida como a perda temporária de criatividade ou imaginação. Talvez a inabilidade de imaginar outras interpretações, cenários, caminhos. Não testamos distúrbios de humor, mas há estudos mostrando que exercícios aeróbicos são um bom remédio para a mente. É uma conexão promissora – conclui Opezzo.

GÊNIOS DE PASSO VÃO

O modernismo foi em parte pavimentado pela exploração distraída das ruas de Paris. Para Balzac, flanar era uma “gastronomia do olho”. Charles Baudelaire fez da calçada uma terra firme para a poesia. Deixar-se à toa pela cidade rendeu letra boa também para lá do Canal da Mancha, com outro Charles, o Dickens. Cá no Brasil, tivemos João do Rio.

Heróis da modernidade, segundo o filósofo Walter Benjamin, combatendo o progresso técnico com o cronismo solitário da cidade industrializada: anomalias no sistema. Vai na mesma linha Rebecca Solnit, autora do livro Wanderlust: A History of Walking, no qual a caminhada aparece como a reclamação do espaço público frente ao avanço das áreas privadas.

Mais do que isso: Solnit escreve que, quando andamos, o mundo se dá a conhecer a partir do corpo, e o corpo se dá a conhecer a partir do mundo. Assim, no contrapé de quem flana investigando a paisagem, há quem se lance à paisagem investigando a si próprio, como nota Merlin Coverley, que lançou recentemente o livro The Art of Wandering. Seria o caso do filósofo Jean-Jacques Rousseau e do poeta William Wordsworth. Coverley considera que caminhar e escrever são uma mesma atividade, assim como caminhar e filosofar teria sido para Aristóteles, famoso por zanzar para lá e para cá enquanto falava. Os seguidores do sábio de Estagira acabariam apelidados de “peripatéticos”, palavra grega que veio parar nos dicionários de português, dando nome a quem ensina passeando.

REMÉDIO: NOVIDADE

Um estudo liderado pelo neurocientista Iván Izquierdo, do Centro de Memória do Instituto do Cérebro da PUCRS, descobriu um fluxo de proteínas entre as sinapses das células responsáveis pelo processamento do medo e das novidades. Isso significa que um paciente, exposto a novidades (como uma canção, um livro ou um filme) pouco antes do tratamento psicológico, pode estar mais sujeito a se “curar” de um trauma.

– A novidade deve ser administrada num momento bastante preciso, e seu efeito é totalmente explicável por uma interação entre sinapses de células piramidais do hipocampo – explica o Dr. Izquierdo, que concorda que a neurociência vem amparando uma “diluição” do dualismo corpo / mente.

Uma narrativa mecanicista da criatividade, entretanto, é história ainda por ser contada:

– A criatividade é uma atividade que depende muito das memórias. É a partir delas que se cria. Se há áreas mais vinculadas com a criatividade do que outras, devem ser as responsáveis pelo armazenamento ou evocação de memórias: hipocampo, córtex pré-frontal, córtex parietal posterior. Não há dados para afirmar se é uma ou outra ou todas elas – conclui.

 

Fonte: Demétrio Pereira, no ZH, via Pavablog.

Sozinhos em casa

 

O número de pessoas que vivem sozinhas tem  aumentado de “forma continuada” em todos os grupos etários acima dos 15  anos, nas últimas décadas, totalizando 866.827 em 2011, o que corresponde  a 8,2% do total da população residente. 

Segundo a publicação “Família nos Censos 2011″, divulgada hoje pelo  INE a propósito do Dia Internacional da Família, que se assinala na quinta-feira,  o número de pessoas sós praticamente duplicou entre 1991 e 2011, passando  de 435.864 para 866.827.

Das 866.827 pessoas em famílias unipessoais, 825.800 residem sozinhas  e 41.027 dividem um alojamento, mas mantendo vidas separadas, sem economia  comum.

Desde 1960 que a percentagem de pessoas em famílias unipessoais no total  de agregados domésticos tem aumentado, mas é a partir de 1991 que esse crescimento  é mais acentuado: passou de 13,8% para 21,4%.

“Este incremento faz-se sentir sobretudo por via do aumento dos indivíduos  que residem realmente sozinhos, já que a proporção de quem partilha casa  tem inclusive decrescido (de 1,2% para 1% entre 1991 e 2011), refere a publicação  conjunta do Instituto Nacional de Estatística e do Instituto de Ciências  Sociais.

As mulheres sós (544.971), que representam 5% da população residente,  são em número bastante superior ao dos homens na mesma situação (321.856),  correspondendo a 3% da população.

Segundo o INE, este aumento das pessoas sós resulta de vários fatores,  como o aumento da esperança média de vida, sobretudo para as mulheres, o  facto de haver mais divórcios, menos casamentos e filhos.

Outros fatores prendem-se com “a propensão para viver só, como garante  de autonomia individual, sobretudo entre os mais jovens, mas também entre  os mais velhos” e “a capacidade económica para viabilizar a mono-residência”.

Os investigadores identificaram “três perfis sociais distintos do  viver só”.

As pessoas sós mais jovens (entre os 15 e os 29 anos), “com escolaridade  mais elevada, forte participação no mercado de trabalho e inserções profissionais  mais qualificadas, representam sobretudo processos de transição para a vida  adulta”, nos quais a opção de residirem sozinhas pode ser temporária ou  mais prolongada, dependendo do adiamento de projetos conjugais e familiares,  ou de uma opção de autonomia individual.

Já as pessoas sós adultas (entre os 30 e os 64 anos), que correspondem,  em termos gerais, à maioria da população ativa portuguesa, vivem sós como  resultado de ruturas conjugais ou de escolha de estilo de vida.

As pessoas sós com 65 e mais anos são maioritariamente mulheres,  pouco escolarizadas e sobretudo reformadas, vivendo sozinhas em muitos casos  porque ficaram viúvas.

Como principais diferenças entre 2001 e 2011, comparando estas três  gerações, os investigadores constataram “um aumento dos níveis de escolaridade  em todas as faixas etárias, em consonância com a evolução da escolaridade  da população portuguesa, e um acréscimo de população ativa até aos 64 anos  de idade, em percursos cada vez mais prolongados no mercado de trabalho”.

O crescimento das pessoas que residem em alojamentos unipessoais em  Portugal acompanha os principais padrões europeus.

Contudo, Portugal é um dos países com valores mais baixos de pessoas  sós (7,2% em 2011), inferiores à média europeia.

 

 

Fonte: Lusa.

 

 

Impaciência crescente

 

Dados do Spotify mostram que mais da metade das canções são ‘puladas’ em algum momento.

 

Chamar a geração de impaciente nem é uma crítica nova. Há anos se ouve falar do imediatismo e da instantaneidade dos jovens, e do quanto a nossa capacidade de concentração está cada vez menor.

Esses dados do Spotify, no entanto, são um pouco alarmantes: estamos tão impacientes que não aguentamos ouvir uma música inteira. Segundo o streaming de música, quase 25% de todas as músicas são puladas logo nos 5 primeiros segundos, o que eu gosto de pensar que é a versão musical de zapear por canais de TV. No entanto, mais de 33% das canções são ouvidas por apenas 30 segundos, e quase metade de todas as músicas são puladas em algum momento antes do final.

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Passar dos 12 segundos ouvidos é um sinal de comprometimento – depois desse período, a tendência é que a música seja ouvida até o final. E, como era de se esperar, os adolescentes são os que menos têm paciência: a grande maioria deles pula canções com frequência. Curiosamente, os mais velhos também estão entre os que mais apertam o botão de ‘forward’.

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Paul Lamere, diretor da Echo Nest e organizador desses dados, acredita que esse comportamento tem mais a ver com o tempo livre disponível do que com a faixa etária. “Os adolescentes têm mais tempo, enquanto os adultos de 30 e poucos, com seus filhos pequenos e trabalhos, não têm tempo para ficar cuidando do seu player de música”, especula ele. Isso também é uma verdade durante os fins de semana – enquanto os usuários não estão trabalhando, o índice de ‘puladas’ de música aumenta.

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No entanto, uma outra teoria sugere que os adolescentes estariam usando a conta do Spotify dos seus pais (espertinhos!), o que gera essa quebra de padrão.

Para Lamere, esses dados evidenciam que quanto maior o engajamento do ouvinte com o tocador de música, maior é a chance de ele pular uma determinada canção. “Quando a música está tocando para preencher o ambiente, como quando estamos trabalhando ou relaxando, ‘pulamos’ menos canções”, argumenta ele. “Quando temos mais tempo livre, como quando somos jovens, ou estamos em casa depois do trabalho, ou durante um fim de semana, queremos selecionar melhor o que vamos ouvir, e pulamos mais músicas”, conclui.

Dá até saudade daquela época em que você apertava o ‘forward’ do Winamp sucessivamente, e tinha tempo livre…

Fonte: Jacqueline Lafloufla, no Comunicadores, via Pavablog.

Supermemória: tenha uma

 

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Não precisamos de ser como Ramon Campayo e Miguel Angel Vergara, campeões do mundo de memorização rápida, mas todos podemos aperfeiçoar e desenvolver o cérebro. Tal como o corpo, a mente precisa de «ir ao ginásio» para se manter saudável e ativa durante muitos anos.

Quantas vezes já chegou ao carro e teve de vol­tar a casa porque se es­queceu das chaves em cima do móvel da en­trada? Ou foi da sala ao quarto para ir bus­car algo e, chegando lá, não se lembrava o que era? E os conhe­cidos que encontra na rua e cumprimenta amavelmente sem, contudo, se lembrar do nome? Nessas alturas, a tendência é para pensar que a idade começa a pesar e a me­mória já não tem a frescura de outros tem­pos. Mas isso é pouco provável.

Esses pequenos esquecimentos – entre as milhentas tarefas diárias e a catadu­pa de informações que nos bombardeia a toda a hora – têm muito mais a ver com distração e stress do que com a perda de fa­culdades mentais. Estas podem manter-se perfeitamente intactas até idade avan­çada, especialmente se as mantiver ativas e lhes der exercício.

Se há alguém que sabe falar do tema é Ramón Campayo, o único homem de que há registo no mundo a conseguir memo­rizar 23 200 palavras, ouvindo-as apenas uma vez, e reproduzindo-as, depois, exa­tamente pela mesma ordem. Este espanhol, de 48 anos, decora cem números em 50 segundos. Ou 17 em ape­nas meio segundo de visualização. Tem todos os recordes mundiais de memoriza­ção e leitura rápida e já são mais de uma centena. Este ano, em Lisboa, perdeu, pe­la primeira vez em oito anos, o título mun­dial de speed memory [memorização rápi­da] para outro espanhol, Miguel Angel Vergara, de 31 anos, que foi seu aluno. Os Campeonatos do Mundo de Memória Rápida [Speed Memory] realizam-se des­de 2007 por iniciativa de Ramón Campayo, que, aos poucos, foi cimentando a nova va­riante das competições mundiais de me­mória, já existentes de forma sistemática desde 1991. Ou seja, o recordista espanhol acrescentou velocidade e, por isso, mais emoção, às tradicionais provas de memó­ria. Em vez de estarem uma hora a decorar números, o espanhol desafiou os concor­rentes a concursos de um e quatro segundos, testando a rapidez com que a informação é captada e absorvida pelo cérebro.

Atualmente, os campeonatos do mun­do disputam-se ao longo de dois dias e in­cluem seis diferentes provas. Este ano, o mundial realizou-se em Lisboa. A próxi­ma edição acontecerá em 2015, em Lon­dres. Qualquer pessoa pode inscrever-se, bastando que obtenha e instale o softwa­re oficial da competição. Segundo Ramón Campayo, o sexo masculino tem domina­do a modalidade. «Há ainda poucas mu­lheres a concorrer. Precisamos de mais», desafia. Remontam à Antiga Grécia as pri­meiras técnicas para treino da memória, tendo estas sido consideradas, duran­te tempo, parte importante na educa­ção dos jovens.

Foi a Academia de Sobredotados do Ins­tituto da Inteligência – uma divisão da agência inglesa de divulgação científi­ca MPS, dirigida por Nelson S. Lima, que organizou recentemente o Campeona­to do Mundo de Speed Memory em Lisboa. «Os praticantes de memorização rápida aprendem e treinam, de forma intensiva, técnicas para apurar a concentração, de­senvolver a rapidez do processamento da informação e controlar a ansiedade», ex­plica Nelson S. Lima, professor universi­tário de neurociência no Brasil e Estados Unidos, para além de membro efetivo da Associação Britânica de Escritores Cientí­ficos. Mas, apesar disso, também eles po­dem esquecer-se de pequenas coisas em situações da vida real se estiverem sob stress ou simplesmente distraídos. «Dado o treino adquirido e a prática permanen­te da memorização rápida, é natural que mantenham um alto desempenho no que respeita ao registo de informação nova», explica o organizador.

COMEÇAR A IR AO GINÁSIO

Ao darem entrevistas e divulgarem as suas atividades, os dois campeões espanhóis pretendem alertar todas as pessoas pa­ra o facto de ser tão importante exercitar o cérebro como o corpo. E isso vai refle­tir-se nas pequenas coisas do dia a dia e numa maior longevidade intelectual. «Exercitar a memória fez que ganhasse também maior segurança e autocontro­lo, passei a fazer tudo com mui­to mais tranquilidade, porque sei que tenho capacidade para reali­zar qualquer tarefa», diz Miguel Angel Vergara, o novo campeão mundial de memorização rápi­da. «Praticar desporto mental vai ter repercussões em tudo na vida. É como ter um físico mais forte e trabalhado.»

Miguel Angel Vergara é polí­cia em Vilanova i la Geltrú, perto de Barcelona. Em 2007, ainda em Albacete, sua terra natal, pas­sou por uma livraria e chamou-lhe a atenção um livro de Ramón Campayo com o título Desenvolva Uma Mente Prodigiosa [editado em Portugal pela Esfera dos Livros e a Editorial Planeta]. Comprou-o e ficou fascinado. «Mudou a minha vi­da por completo. Comecei a praticar os exercícios que ele propunha», relata o agente da Polícia Nacional, que, todos os dias, passa uma hora e meia no ginásio das passadeiras, bicicletas e máquinas de musculação, e outra hora e meia naqui­lo a que chama de «ginásio mental». Só há três anos é que Miguel Angel Verga­ra decidiu começar a competir e garante que não preciso ser-se um génio para fa­zê-lo. «Qualquer pessoa pode participar nos nossos campeonatos. Eu, por exem­plo, tenho um quociente de inteligência (QI) absolutamente normal e o que fiz foi começar a treinar a mente tal como já fa­zia com o corpo.»

No caso de Ramón Campayo, para além de demorar metade do tempo de uma pes­soa normal a percecionar e processar os estímulos exteriores, recebidos pelos sen­tidos – já foi submetido a vários estudos científicos – tem também um QI muito ele­vado. O valor médio é de 100, o espanhol tem 194, ao nível da genialidade. «Mas são capacidades distintas», ressalva o recor­dista.

AS IMAGENS E ASSOCIAÇÕES MENTAIS

Nos campeonatos de memorização rápi­da, os concorrentes são submetidos a vá­rias provas: decorar o máximo de núme­ros, de zero a nove, em um ou quatro se­gundos de visualização; decorar números binários, só zeros e uns; e decorar ainda fi­guras geométricas com cores. Não há pro­vas de palavras, porque não seria justo pe­rante concorrentes com nacionalidades diferentes.

«A nossa memória tem dificuldade em registar dados isolados, que não estejam associados a outras informações. Assim, para nos ajudar, criamos imagens men­tais, fotográficas. A memória visual é a mais forte das nossas memórias. Fazemos associações de palavras, elaboramos his­tórias, e a informação será tanto mais fá­cil de memorizar quanto mais imaginati­va, mal comportada ou inverosímil for. É como se criássemos um filme na nossa ca­beça. É fácil esquecermo-nos do que é ba­nal, mas facilmente recordamos um epi­sódio insólito, extravagante ou divertido», explica Ramón Campayo.

E um segundo dá para isso tudo? «Um segundo é um mundo, dá para pensar muitas coisas», responde Miguel Angel Vergara, que, ainda hoje, segue as téc­nicas e os exercícios propostos pelo seu mestre: treinar especificamente a memó­ria de curto ou de longo de prazo, também chamada de retenção. Em ambos os ca­sos, a concentração é fundamental e essa é também uma das faculdades que é tra­balhada e melhorada com o tempo. «Ao princípio, parece impossível. Mas com o treino, o cérebro começa a agilizar-se, tornando-se mais rápido e eficaz», ga­rante Miguel Angel Vergara, pedindo um número de telefone e repetindo-o logo em seguida, para exemplificar uma ou­tra técnica de memorização que necessi­ta de algum tempo de aprendizagem mas, afiança o campeão, é muito eficaz: a do al­fabético fonético, em que os números são associados a fonemas. «Associei 91 a bo­ta, 22 a bebé, 68 a sacho, 36 a mesa e 3 a fumaça.»

NEUROFITNESS E A FUGA AOS AUTOMATISMOS

Treinar especificamente para este género de competições torna-se um desafio para os limites da mente humana. Mas não é pre­ciso chegar tão longe para prolongar a saú­de do cérebro e, em particular, a memória. «O exercício intelectual exigido por ativi­dades como ler, escrever, informar-se, con­versar e conviver com outras pessoas é efi­caz na preservação e até no melhoramento da capacidade de aprendizagem», diz Nel­son S. Lima, aconselhando todas as pesso­as «a procurarem novas áreas do saber e a estudá-las, a informarem-se de forma crí­tica, evitando a passividade e a aceitação de tudo o que lhes é transmitido, a recordarem antigos saberes, relendo livros ou revendo aprendizagens ou a trocarem ideias e co­nhecimentos com outras pessoas».

Evitar automatismos também é uma forma eficaz de se muscular e agilizar o cérebro. Recentemente nasceram os con­ceitos de neuróbica e neurofitness. Ati­vidades que contrariam aquilo que está aprendido e rotinado. Por exemplo, são bons exercícios lavar os dentes com a mão não dominante, tomar banho de luz apa­gada, mudar o caminho para o trabalho ou usar o relógio no outro pulso. «Reconstituir a infância, estimular sen­tidos como o paladar e o olfato, aprender uma língua, música, pintura e informáti­ca – tudo isto ajuda a ginasticar o cérebro e, consequentemente, a memória.» «Praticar jogos intelectuais como o xa­drez, dar azo à criatividade e trabalhar pensamento analítico. O sono também é essencial: dormir pelo menos oito horas por noite ajuda a manter a memória ativa, pois enquanto dormimos o cérebro grava o que aprendemos durante o dia. A prática regular de exercício físico e uma alimenta­ção equilibrada são fatores que contribuem igualmente para manter a memória em forma”, acrescentou o cientista.

10 EXERCÍCIOS PARA O CÉREBRO

» Lave os dentes com a mão não dominante.

» Tome banho de luz apagada.

» Mude o caminho para o trabalho.

» Use o relógio no outro pulso.

» Reconstitua um momento da sua infância.

» Aprenda de cor uma música nova.

» Comece a pintar.

» Jogue xadrez.

» Durma bem – pelo menos oito horas por noite.
 
» Pratique exercício físico e uma alimentação equilibrada.

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NELSON LIMA

«PODEMOS MUDAR A NOSSA CAPACIDADE DE MEMORIZAÇÃO»

O que é a memória?
_Numa perspetiva biológica, é um processo central dos organismos vivos que os dota da capacidade de sobreviverem e adaptarem-se ao meio ambiente através do registo contínuo de informações. Nos seres humanos, a memória é multifocal, isto é, decorre em diferentes planos e de forma variada. Podem ser memórias de curto e de longo prazo; memórias de trabalho, autobiográficas, de saberes adquiridos ou de aptidões aprendidas e automatizadas. A memorização é um processo contínuo consciente e intencional – como na atividade de estudar – ou não consciente, através dos estímulos externos e internos, que chegam ao sistema nervoso a todo o instante.

Que parte do cérebro se ocupa da memória?
_Praticamente quase todo o cérebro participa no processo de memorização, já que envolve diferentes áreas, especialmente as diretamente implicadas nas atividades de aprendizagem, adaptação e sobrevivência.

No todo que representa o ser humano, qual a importância da memória?
_É vital. Basta imaginarmos o que seria uma pessoa nascer sem capacidade de memorização. É um recurso determinante não apenas para o conhecimento do meio ambiente como para o próprio autoconhecimento. Uma pessoa que perdesse todas as suas memórias e a capacidade de adquirir novas informações seria praticamente incapaz de viver. Somos, em boa medida, aquilo que aprendemos através da memória e dos processos biológicos que lhe permitem funcionar.

Todos nascemos com a mesma capacidade de memorização?
_Idealmente, sim. Mas verifica-se que por motivos biológicos, ambientais – sociais, culturais, entre outros –, as pessoas têm diferentes capacidades de memorização ao nascer. Mas podem ser modificadas, dependendo dos estímulos.

Há animais com uma memória próxima dos humanos?
_Os animais são dotados, obviamente, de memória. Os primatas são os que se aproximam mais do ser humano e está provado que alguns, como os chimpanzés, têm memória de si mesmos e dispõem de autoconsciência.

Há recordações que apagamos de forma inconsciente por serem más?
_As memórias de acontecimentos emocionalmente significativos tendem a perdurar por longo tempo. Mas é verdade que, por vezes, mecanismos de defesa abafam memórias traumáticas. Isso não quer dizer que elas não fiquem registadas e não produzam efeitos nos nossos comportamentos e até na saúde ao longo da vida.

Quais os desafios que tem pela frente como investigador?
_É objeto dos meus estudos a evolução da mente humana e a aplicação da inteligência artificial na criação de próteses cognitivas que venham a servir a humanidade no futuro próximo. O que mais me atrai é a inteligência criadora do homem e a sua evolução nos próximos milénios.

 

Fonte: Notícias Magazine.

 

 

Sim, as crianças podem ser cruéis

 

 

 

Aos 7 anos, T. convenceu os pais, profissionais liberais de Belo Horizonte, a demitir duas empregadas domésticas. O motivo alegado: elas batiam-lhe. Ambas negaram as agressões mas o menino chegou a apresentar uma marca roxa no braço. Um ano depois, nova queixa sobre outra empregada. Revoltado, o casal decidiu colocar câmeras escondidas. O que viram foi uma surpresa: T. era o agressor, com pontapés e atirando brinquedos. No fim de uma semana, perguntaram se a empregada havia batido nele novamente. Choroso, T. respondeu que havia sido surrado na cozinha – onde as imagens não mostravam nada. Diante das sucessivas mentiras, foi castigado.

Três anos depois, reincidiu. Com os pais já separados, adquiriu o costume de tirar dinheiro da carteira dos dois, dizendo ao pai que era a mesada da mãe, e vice-versa. Os pais só descobriram a farsa durante uma discussão sobre dinheiro. Pouco antes, uma empregada fora mandada embora da casa da mãe depois do sumiço de R$ 50. T. disse que a vira pegar a nota. Diante disso, os pais concluíram que o menino precisava de tratamento. Poucas sessões depois, o diagnóstico foi duro: ele apresentava o chamado transtorno de conduta, nome formal para a velha “índole ruim”.

“Não é fácil a sociedade aceitar a maldade infantil, mas ela existe”, diz Fábio Barbirato, chefe da Psiquiatria Infantil da Santa Casa, no Rio de Janeiro. Ele explica que a criança ou adolescente que tem essa patologia pode se transformar, na vida adulta, em alguém com a personalidade antissocial – o termo usado hoje em dia para o que era chamado de psicopatia. “Essas crianças não têm empatia, isto é, não se importam com os sentimentos dos outros e não apresentam sofrimento psíquico pelo que fazem. Manipulam, mentem e podem até matar sem culpa”, diz Barbirato. Por volta da década de 70 do século passado, teorias sociais e psicanalíticas tentaram vincular esse comportamento perverso à educação e à sociedade. Nos últimos anos, porém, os avanços da neurologia sugerem a existência de um fenômeno físico: imagens mostram que, nas pessoas com personalidade antissocial, o sistema límbico, parte do cérebro responsável pela empatia e pela solidariedade, está desconectado do resto.

Um obstáculo para o tratamento de crianças com sinais de transtorno de conduta é o próprio tabu da maldade infantil. O senso comum afirma que as crianças são inocentes – uma crença que resulta da evolução histórica da família. Até o século XVII as crianças eram consideradas pequenos adultos e muitas nem sequer eram criadas pelos pais. No século XVIII, isso mudou. A família burguesa fechou-se em si mesma, dentro de casa. O lar virou um santuário e a criança o centro dos cuidados e das atenções. Foi o nascimento do sentimento de infância, dentro de um grupo que agora tinha como laços o afeto e o prazer da convivência. Se a criança é o eixo do sentimento moderno de família, ela não pode ser má. Eis o tabu.

 

Foto: Renato Rocha Miranda/Divulgação TV Globo

A atriz mirim Klara Castanho como Rafaela, a criança manipuladora de Viver a vida. A justiça não quer que ela seja má.

 
As escolas, porém, desmentem isso: elas costumam ser o palco diário das maldades das crianças com transtorno de conduta. A psiquiatra carioca Ana Beatriz Barbosa Silva, autora do best-seller Mentes perigosas, diz que crianças e adolescentes com esse distúrbio costumam estar por trás dos casos mais graves de bullying. Em maio, ela lançará Bullying – Mentes perigosas nas escolas, com foco na maldade infantil. “É típico do jovem com transtorno de conduta saber mentir e manipular para que os outros levem a culpa”, afirma. Barbirato faz uma ressalva. “Pequenas maldades e mentiras são absolutamente comuns na infância. De cada 100, cerca de 97 têm comportamento normal e, ao amadurecer, saberão diferenciar o certo do errado e desenvolverão a empatia”, diz.Desde que a novela das 9 da TV Globo, Viver a vida, foi ao ar, em setembro do ano passado, o Ministério Público do Rio de Janeiro acompanha de perto a personagem Rafaela. A menina, vivida pela atriz mirim Klara Castanho, de 9 anos, desagradou à Justiça. O autor, Manoel Carlos, foi notificado. No documento, um pedido para que ele tenha “cuidado ao elaborar a personalidade de personagens cujos atores são menores de idade”. Na trama, Rafaela é uma menina mimada, que, para defender seus interesses, faz chantagem com uma amiga de sua mãe. Rafaela não pratica a maldade sem motivações concretas ou demonstra curiosidade mórbida. Ainda assim, o Ministério Público considera a personagem pouco adequada. Criança, aparentemente, não pode ser vilã.

Mas, e os 3% que faltam? Serão obrigatoriamente personalidades antissociais na vida adulta, seres sem empatia? Os especialistas são taxativos ao afirmar que não se cura transtorno de conduta. Ele será, no máximo, amenizado se tratado a tempo e houver sempre algum tipo de vigilância. Na maior parte dos casos, porém, isso não acontece. E o resultado de ninguém ter notado esses sinais durante a infância aparece de forma trágica. “Essa criança poderá ser um político corrupto, um fraudador, até um torturador físico ou emocional, chegando a um assassino em série”, diz Ana Beatriz.

Os especialistas afirmam que não se cura
transtorno de conduta, mas ele pode ser amenizado

No último domingo, um exemplo extremo ocorreu na Pensilvânia, Estados Unidos. Jordan Brown, de apenas 11 anos, deu um tiro na nuca da namorada do pai, grávida de oito meses. O menino chegou a conseguir enganar a polícia dizendo que uma caminhonete preta havia entrado na propriedade da família. Mas a arma foi encontrada em seu quarto. A polícia não entendeu a motivação do crime. “Há casos em que a explicação é simplesmente uma curiosidade mórbida”, afirma Ana Beatriz. “Todos nós, quando pequenos, temos essa curiosidade. Mas, por volta de 4 ou 5 anos, começamos a ter a percepção do outro. O que não acontece com quem tem o transtorno de conduta.” A falta de tratamento dessas crianças é, muitas vezes, consequência da ignorância ou da falta de recursos. Mas não só. A estrutura familiar de hoje, com pais trabalhando fora o dia todo e com tendência a dar poucos limites aos filhos, favorece o desenvolvimento do transtorno de conduta. Qualquer criança que não é repreendida pelo pais sobre seus erros tende a crescer pouco civilizada. Se ela tem uma tendência antissocial, não haverá amarras para esse comportamento.

O relato de um psiquiatra do Rio Grande do Sul mostra quanto é difícil pais assumirem a necessidade de tratamento dos filhos. Em 2008, ele teve como paciente R., de 11 anos. A menina colocara fogo na mochila de uma colega de turma. Repreendida por professores e pais, teve como reação apenas rir. No ano anterior, fizera o mesmo com o rabo do cachorro de uma prima. Questionada, disse apenas que a prima não merecia ter um cachorro. Durante o tratamento, R. afirmou ao psiquiatra que não nutria nenhum sentimento especial em relação aos pais.“Ela tinha um olhar frio e uma ironia extremamente precoce para sua idade. Não sentia culpa. R. me tratava como um empregado”, diz o psiquiatra. Depois de um ano de tratamento, os pais acharam que ela estava melhor e poderia interromper as sessões. “Ela os manipulou – e disse a mim, explicitamente, que fingiria estar melhor e conteria seus atos. Contei a eles, mas não acreditaram em mim”, afirma. R. jamais voltou a seu consultório.

 

Fonte: Época.

 

 

Violência no namoro: “namorar não é controlar”

Corbis

 No namoro juvenil há muita violência e os agressores são os rapazes, mas as raparigas também. Ilustração: Corbis.

 

 

Namorar não é só beijos, abraços, flores e chocolates. No namoro juvenil há muita violência e os agressores são os rapazes, mas as raparigas também. Eles recorrem mais à força, elas ao abuso psicológico. Todos desvalorizam as agressões e muitos confundem ciúme, controlo e violência com sinais de afeto.

 

A porta do gabinete está sempre aberta, o telemóvel ligado e a enfermeira Fátima Esteves tem toda a disponibilidade para atender quem a procura na Unidade de Cuidados na Comunidade Consigo, em Alcântara. Foi sempre assim nos mais de 30 anos de trabalho e em todos os sítios por onde passou. Os pacientes, sobretudos mulheres e jovens, são sempre bem vindos. Os que têm marcação e os que aparecem fora de horas, quando podem e precisam. Como a Mariana, 17 anos. «Parece que a estou a ver chegar, acompanhada pelo namorado. Um belo rapaz, bonito, muito atencioso, sempre presente. Vinham porque suspeitavam que ela estivesse grávida e estavam determinados a ter a criança.» O que também não lhe sai da memória foi o dia em que a Mariana apareceu sozinha. «Tinha terminado o namoro. O namorado chamava-lhe “puta” durante as relações sexuais, tinha-lhe dado um estalo e agora queria que ela tivesse relações com vários homens.»

 

Gerardo Santos/Global Imagens

Fátima Esteves, enfermeira na Unidade de Cuidados da Comunidade Consigo, em Alcântara, já acompanhou muitos casos de violência no namoro. Fotografia: Gerardo Santos/Global Imagens

 

 

Fátima Esteves acompanhou a jovem durante algum tempo e ainda assistiu à reconciliação do casal e a outra rotura. Mas quando ela foi estudar para a Suíça perdeu-lhe o rasto. À primeira vista, o namorado da Mariana enganou a enfermeira. Mas não é costume. Ela sabe que alguns agressores recorrem a táticas subtis para exercer o controlo sobre as vítimas, ou não tivesse já acompanhado centenas de casos de violência doméstica, muitos passados entre jovens namorados.

Por exemplo, Maria, 15 anos, natural de Lisboa. «Também veio com o namorado, estava grávida e quis fazer uma interrupção da gravidez. Precisou de autorização da mãe. O pai batia-lhe e à mãe também. Tinha um irmão com 17 anos que também a agredia. A ela, o namorado já lhe tinha apertado o braço de uma maneira que lhe tinha desagradado. Era um sinal claro de violência.» Fátima Esteves arranjou tempo e meios para trabalhar com o jovem casal e com a mãe dela e é com indisfarçável contentamento que conta que Maria conseguiu quebrar o ciclo da violência: «Ela gostava dele e queria manter a relação. Conseguimos intervir a tempo.»

As situações relatadas pela enfermeira Fátima Esteves repetem-se na vida de milhares de jovens portugueses. O maior estudo nacional sobre a prevalência da violência do namoro foi feito em 2009 por Sónia Caridade, que agora é professora na Universidade Fernando Pessoa, no Porto, e envolveu 4.667 jovens com idades entre os 13 e os 29 anos. Destes, 25,4 por cento afirmaram ter sido vítimas de, pelo menos, uma agressão no último ano e 30,6 por cento admitiu ter sido agressor. Os atos mais frequentemente referidos foram os abusos emocionais (19,5 por cento) e físicos (13,4 por cento), mas a violência física grave (7,6 por cento) também é expressiva.

 

Adelino Meireles/Global Imagens

Rosa Saavedra, psicóloga da APAV, no Porto, afirma que a violência no namoro não é uma violência de género. Fotografia de Adelino Meireles/Global Imagens.

 

 

Rosa Saavedra, psicóloga da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, no Porto, confirma que violência no namoro não é um problema raro e diz que os nossos dados retratam uma realidade que tem vindo a ser demonstrado em diversos estudos internacionais. E se saber que um quarto dos jovens já terá sido vítima é preocupante, o que mais inquieta a coordenadora do Grupo de Trabalho de Avaliação do Risco da APAV Porto é a desvalorização das agressões. E exemplifica: «Grande parte dos jovens não reconhece o ciúme e o controle como comportamentos agressivos. Acham que são expressões de afeto.»

A enfermeira Fátima Esteves compara este erro de perceção à relação que os jovens têm com o álcool, em que acham normal embebedarem-se, minimizando os riscos do alcoolismo e de outras doenças: «O ciúme, que está na origem de grande parte das agressões entre jovens namorados, é visto como um sentimento positivo. É um sinal de amor.» Só que com o passar do tempo as restrições começam a ser outras. Vasculhar o telemóvel, as chamadas que a namorada ou o namorado faz e as mensagens que envia e recebe; controlar as fotografias que publica e os comentários que escreve no facebook são situações frequentemente reportadas pelos jovens como normais e não como uma devassa da sua privacidade. «Mas daí até à proibição de sair sozinha ou com amigos, passando pelas ofensas e afirmações feitas com objetivo de ferir e humilhar vai um pequeno passo», adverte Rosa Saavedra.

E se nada for feito, vêm os gritos e as ameaças, as intimidações, as bofetadas, os murros, os pontapés, os atos sexuais contra vontade, as perseguições e o medo. «O medo de ser ainda mais maltratada, o medo que o namorado concretize as ameaças, o medo de abandonar aquela relação», acrescenta Fátima Esteves.

 

ELAS TAMBÉM AGRIDEM
Quando os jovens consideram os ciúmes e o controlo uma coisa natural, é provável que os problemas se agravem com o tempo confirma Cecília Loureiro. A psicóloga da UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta também está alarmada com a desvalorização da violência e com os dados recolhidos no âmbito dos projetos Mudanças com Arte – Jovens Protagonistas na Prevenção da Violência de Género, que estão a ser desenvolvidos em 13 escolas da região norte desde 2008. Ela conta que num estudo efetuado junto de 885 estudantes, 22 por cento dos rapazes e 10 por cento das raparigas consideram que «chamar nomes» não é violência. E quase 16 por cento dos rapazes e cinco por cento das raparigas entendem que ameaçar «é um ato normal.»

Mas as surpresas não ficam por aqui. Metade dos rapazes e 42 por cento das raparigas encara com normalidade a proibição de sair com amigos sem o respetivo namorado e as proibições para vestir uma peça de roupa. O controlo do telemóvel, dos e-mails e das palavras-chave das redes sociais também são considerados «comportamentos de não-violência» para mais de metade dos jovens e para 43 por cento das raparigas. Mas há mais. Os números mostram que um quarto dos alunos e 16 por cento das alunas acreditam que «obrigar a fazer coisas que o outro não queria fazer» não é uma ação desadequada. E quanto à agressão física, «sete por cento dos rapazes considera que bater sem deixar marca não é violência, sendo que cerca de seis por cento defende que agredir não é, de todo, violência».

 

Leonel de Castro/Global Imagens

Cecília Loureiro, psicóloga da UMAR, encontra na perpetuação dos estereótipos de género a raiz da violência de género. Fotografia: Leonel de Castro/Global Imagens

 

 

Cecília Loureiro destaca a percentagem mais elevada de rapazes que limitam a liberdade das namoradas e salienta a necessidade de aumentar a sensibilidade dos jovens e das jovens para o respeito pela diferença e pela igualdade de género: «Confirmamos que as raparigas não se querem deixar ficar atrás. Funcionam segundo a lógica do “bateste, então também levas”. Para muitas, igualdade de oportunidades é esta escalada de violência.»

A psicóloga Rosa Saavedra também é peremptória ao afirmar que a violência no namoro não é uma violência de género: «Há reciprocidade e simetria de atitudes e comportamentos e tanto os rapazes como as raparigas podem assumir o papel de agressores e de vítimas.» O que os estudos demonstram é que a severidade dos actos praticados pelos rapazes é maior, enquanto as raparigas são mais subtis: «Em regra, a violência é praticada como uma reacção à violência. As raparigas usam mais a violência psicológica, os rapazes exercem mais a violência física. O cyberbullying, que é uma nova forma de violência, é exercido por ambos.»

A enfermeira Fátima Esteves concorda mas lembra que apesar de também haver rapazes vítimas de violência, há mais muito mais vítimas entre as raparigas. E Cecília Loureiro volta falar dos estereótipos sociais: «Desde cedo que somos educados de forma distinta em função do sexo. Os rapazes são estimulados a brincar com carrinhos, a valorizar a ação e a força física. Às meninas oferecem-se bonecas e deseja-se que sejam obedientes, delicadas, direi mesmo submissas.» Para a psicóloga, esta ordem social, que faz das mulheres subordinadas e atribui aos homens o controlo e o poder, tende a perpetuar a violência de género durante a vida.

 

PREVENIR ANTES DE REMEDIAR
Perceber porque é que os jovens se agridem não é tarefa fácil, mas quem está no terreno identifica algumas razões. Viver e crescer numa família violenta aumenta o risco de vir a desenvolver comportamentos violentos: «As relações familiares influenciam a nossa capacidade de regular emoções, as pessoas que vivem em ambientes agressivos tendem a ter mais dificuldade em controlar os seus impulsos. Também me parece que muitos jovens desvalorizam as agressões no namoro porque, para eles, a violência doméstica é um problema dos adultos, das pessoas casadas, dos seus pais, por exemplo», afirma a enfermeira Fátima Esteves. Já a psicóloga Rosa Saavedra identifica outro factor: «Não sabem gerir conflitos de forma positiva. Os jovens têm informação e acesso à informação, o que eles não têm é quem os ajude a tomar decisões, a ser capazes de emitir opinião, a perceber se a sua opinião se assemelha ou se distingue da opinião da maioria, etc. Os jovens precisam de treinar estas competências e isto devia fazer-se na escola.»

Devia, mas não se faz. Ou melhor, nas escolas desenvolvem-se acções pontuais, quase sempre por iniciativa das organizações da sociedade civil que se dedicam à prevenção da violência doméstica e da violência de género. Mas é preciso ir mais longe, diz Rosa Saavedra. Ela sabe do que fala. Depois de fazer a tese de doutoramento sobre a violência no namoro – Prevenir antes de Remediar: Prevenção da Violência nos relacionamentos íntimos juvenis – e de desenvolver várias acções sobre o tema em contexto de escola, acabou por adaptar o programa canadense The Fourth R a Portugal: «É um currículo de prevenção universal da violência no namoro e comportamentos de risco associados que a APAV desenvolveu durante dois anos lectivos na Escola Secundária Inês de Castro, em Vila Nova de Gaia.»

A acção foi executada na disciplina de Área Projecto (entretanto extinta), envolveu a formação de professores e a preparação de manuais, vídeos e outros materiais didácticos e foi monitorizada. E Rosa Saavedra ficou muito satisfeita com os resultados alcançados: o aumento de conhecimento dos jovens, a diminuição das atitudes de tolerância à violência e uma redução da violência física no namoro: «Há um antes e um depois do programa. Os alunos passaram a distinguir uma relação saudável de uma relação não saudável, a conhecer os direitos e os deveres de cada parceiro numa relação, a identificar comportamentos abusivos, a reconhecer os factores que conduzem a relacionamentos sexuais saudáveis.» E é com este tipo de ferramentas que Rosa Saavedra está convencida que se pode prevenir o problema. E no prevenir é que está o ganho. #

 

COMO SE MANIFESTA
A violência no namoro pode assumir várias formas. Pode ser física, psicológica ou emocional e quem a exerce tem sempre como objectivo controlar e dominar o parceiro. A violência no namoro é sempre intimidante e se os jovens não romperem o ciclo – por si sós, com ajuda da família, de professores ou de profissionais de saúde – começam a viver atemorizados e em tensão constante, o que aumenta o risco de desenvolverem problemas psicológicos (baixa autoestima, ansiedade, medos, perturbações do comportamento alimentar, depressão, etc), insucesso escolar, abuso de álcool e outras drogas, entre outros.

» A violência física: bofetadas, os empurrões, as mordidas, os socos e pontapés, etc.

» A violência sexual: atos sexuais não consentidos, contactos corporais, relações sexuais e todas as pressões.

» A violência psicológica: ameaças, perseguições, esperas, proibições, mas também as críticas, humilhações e outras agressões verbais, o controlo das conversas com amigos e família, etc.

 

ELIMINAR A VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES
A 25 de Novembro, assinalou-se mais um Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres e a ONU encoraja os governos dos países a criar e/ou a aperfeiçoar legislação e políticas nacionais destinadas a combater todas as formas de abuso contra as mulheres, incluindo o assédio sexual, a mutilação genital feminina e a violência doméstica. De Portugal, diz-se que tem uma legislação adequada. Mas os números revelam que a violência doméstica, ainda é um crime de consequências trágicas: só no primeiro semestre de 2013 e, segundo dados da UMAR, foi o que esteve na origem de 20 homicídios e 21 tentativas de homicídio. As vítimas foram todas mulheres.

Já as estatísticas do ministério da Justiça mostram que, em 2012, a PSP e a GNR registaram 22.254 crimes de violência doméstica (entre cônjuges ou entre pessoas com relação análoga, incluindo o namoro) e identificaram 1099 suspeitos de agressão com idades entre os 16 e os 24 anos e 13 com menos de 16 anos. No mesmo ano, o número de processos por violência doméstica findos nos tribunais de 1ª instância ascenderam a 2.470. Desconhece-se o número de condenações e quais as penas aplicadas no ano passado. Mas sabe-se que a esmagadora maioria dos agressores condenados a pena de prisão acaba por ficar em liberdade, com pena suspensa.

Também em 2012, a APAV registou 16.970 crimes praticados no âmbito da violência doméstica. Os de maus-tratos psíquicos (6.085 casos) e de maus-tratos físicos (4.530 casos) foram os mais frequentes, seguidos dos crimes de ameaça/coação (2.995 casos), de injúria/difamação (1.647 casos) e de natureza sexual (264 casos).

Nos crimes cometidos contra crianças e jovens (até aos 18 anos), os namorados foram apontados como agressores em 11 situações e os ex-namorados em cinco casos. Entre os 898 agressores referenciados nesse grupo, 27 tinham idade entre os 18 e os 24 anos e outros tantos tinham entre 11 e 17 anos.

Entre os adultos vítimas de crime, há 473 jovens com idades entre os 18 e os 24 anos. Neste grupo, o cônjuge é o agressor mais frequente (2505 casos), seguindo do companheiro (1007 casos), do ex-companheiro e do ex-cônjuge (981 casos), do ex-namorado (160 casos) e do namorado (109 casos). Quanto à idade, 188 agressores tinham entre 18 e 24 anos e 48 tinham entre 11 e 17 anos.

Dizer que tanto nos crimes contra crianças e jovens como contra adultos, em 80 por cento dos casos, os agressores são do sexo masculino.

 

 

Fonte: Notícias Magazine. 

 

“As experiências de quase-morte precisam de ser estudadas minuciosamente”

 

A investigadora belga Vanessa Charland-Verville ADRIANO MIRANDA

 

 

Vanessa Charland-Verville é neuropsicóloga no grupo de Ciência do Coma e no Departamento de Neurologia do Hospital Universitário de Liège, na Bélgica. Neste momento, estuda o que se passa no cérebro das pessoas que vivem experiências de quase-morte.

 

Em 2010, a vida de Rom Houben entrou nas notícias. Este belga foi diagnosticado com síndrome do encarceramento. Isto é, apesar de paralisado, o doente esteve sempre consciente e começou aí um processo de recuperação que lhe permitiu voltar a comunicar com médicos e família. Esteve num hospital durante 23 anos, depois de um acidente que o tinha colocado no que se supunha ser um estado vegetativo. A partir daí, começou um processo de recuperação que lhe permitiu voltar a comunicar com médicos e família.

Vanessa Charland-Verville esteve no Porto, no âmbito do 10.º Simpósio da Fundação Bial Aquém e Além do Cérebro, que termina este sábado, na Casa do Médico, falando sobre casos de lesões cerebrais como este. Ao PÚBLICO conta também a sua experiência numa nova área de estudo na sua universidade, as experiências de quase-morte.

Fez parte da equipa que estudou a recuperação de Rom Houben, que esteve em estado de coma durante 23 anos.
Ele não esteve em coma. Os media têm-no dito assim, mas, por definição, não se pode estar em coma por mais de algumas semanas. Rom Houben foi mal diagnosticado, como outros doentes que vimos em Liège. Quando um doente não mostra movimentos, mesmo que esteja consciente, às vezes pode concluir-se erradamente que não está consciente e, infelizmente, isto acontece demasiadas vezes. São os casos de locked-in syndrome [síndrome do encarceramento]. Rom Houben estava completamente paralisado desde que tinha tido um acidente e, portanto, não podia dizer aos médicos que estava consciente.

Qual foi o processo que fez com que os médicos se apercebessem de que ele não estava num estado vegetativo?
Uma TAC feita pelo professor Steven Laureys [chefe da equipa de que faz parte Vanessa Charland-Verville] mostrou que o cérebro estava normal. Foi uma grande surpresa, mas o cérebro estava a comportar-se como um cérebro normal e consciente. É muito importante ter estas técnicas ao nosso dispor, mas infelizmente nem todos os locais têm acesso à ressonância magnética ou à TAC e fazem erros de diagnóstico com frequência. Com estes doentes, temos de estar certos acerca do diagnóstico. Depois fazemos exames comportamentais e temos as técnicas de neuro-imagem.

Como está Rom Houben neste momento?
Não nos encontramos regularmente, mas a família está a tentar trabalhar num dispositivo de comunicação em que ele escreve alguma coisa num teclado especial e comunica através de um computador. Está a fazer reabilitação física, mas o objectivo principal é tentar comunicar com a família.

Ele tenta comunicar com a família de uma forma diferente daquela com que comunicou com os médicos?
Depois de tantos anos sem poder falar ou mexer-se, a prioridade é ter um dispositivo que ajude a falar para tornar esse processo mais fácil.

Este tipo de descobertas coloca dilemas éticos. Estando na Bélgica, um país onde a questão da eutanásia é muito discutida, têm sido chamados para este debate?
Somos confrontados com estas questões algumas vezes. Depois de algum tempo em estado vegetativo, o cérebro começa a degenerar-se. Vemos alguns doentes em Liège para fazer um diagnóstico e depois falamos com as famílias, explicando isto e dizendo como está o cérebro da pessoa em causa. Depois de muitos anos inconsciente, o cérebro morre.

Mas já intervieram em algum processo que terminou com eutanásia?
É parte do nosso trabalho fazer estas questões e lidar com este tema. Mas, nos três anos que levo em Liège, nunca fomos confrontados com nenhum caso em que o doente tenha acabado por morrer por decisão da família.

Tem estado também a trabalhar em experiências de quase-morte. Como neuropsicóloga, qual é o seu papel no estudo destes casos?
Procuramos sempre a correlação entre a lesão cerebral e o comportamento. Faço duas coisas: tenho um trabalho clínico, onde trabalho com doentes com perturbações na consciência, que estão em coma ou num estado vegetativo. Mas também faço investigação. Faço uma avaliação neuropsicológica das funções cognitivas depois de uma paragem cardíaca. Sabemos que o tempo em que o cérebro não recebe oxigénio pode causar problemas de memória. Acedemos às funções cognitivas, mas também pergunto aos doentes se têm algumas memórias do período em coma ou do tempo em que estiveram no hospital. Entre 10 e 20% dos doentes reportam este tipo de memórias.

As memórias que os doentes contam são sempre similares?
Quando têm experiências de quase-morte, isso torna-se claro porque contam uma história que é bastante similar. São sempre questões similares: sentimentos de paz, sair do próprio corpo, estar num lugar onde nunca estiveram, ver uma luz brilhante.

Podemos comparar este tipo de memórias com outras percepções, como sonhos ou alucinações?
No ano passado, publicámos um artigo onde demonstrámos a diferença entre as experiências de quase-morte e as memórias imaginadas, como os sonhos. As memórias imaginadas são sempre intenções que não foram cumpridas e, quando as comparamos com memórias de eventos reais, vemos que as experiências de quase-morte são mais intensas em termos de percepções e conteúdo emocional. Os doentes dizem que é mais real do que o que é real. Baseando-nos nesse estudo, podemos dizer que estas experiências não são como as memórias imaginadas, porque o conteúdo é realmente muito mais intenso.

Também testam os doentes com tecnologia hospitalar?
É impossível aceder a experiências de quase-morte em tempo real. Podemos apenas avaliar a função cerebral ou as memórias depois do evento. O que estamos a tentar fazer agora é induzir experiências de quase-morte através de hipnose e recriar a experiência para ver o que o cérebro nos pode dizer sobre este fenómeno.

Este assunto está presente na cultura popular, fora da comunidade científica…
Há outras audiências interessadas no assunto. Mas acho que as experiências de quase-morte precisam de ser agora estudadas minuciosamente e com seriedade. Há pessoas que têm escrito livros dizendo o que lhes apetece sobre isto e agora temos de saber mais acerca das características das experiências de quase-morte e por que há pessoas que contam as mesmas coisas e o que está a acontecer no cérebro nesse momento. Temos que ser rigorosos acerca desse fenómeno.

Supressão de más memórias reduz o seu impacto a nível inconsciente

A persistência da memória, de Salvador Dalí (1931) DR

 

 

Desde Sigmund Freud que se pensa que as memórias reprimidas permanecem intactas no inconsciente, podendo afectar a seguir os comportamentos e a saúde mental. Um estudo põe agora em causa esta ideia.

 

Nem todas as nossas recordações são para acarinhar. Pelo contrário, tudo fazemos para esquecer as mais traumáticas e desagradáveis. E de facto, em muitos casos até o conseguimos. Mas será que elas podem regressar, por via do inconsciente, para nos assombrar? A ideia, vigente há mais de um século, de que as memórias reprimidas permanecem intactas e fora do nosso controlo, podendo vir a ter um impacto negativo na nossa saúde mental, parece ser desmentida por um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

Michael Anderson, da Universidade de Cambridge (Reino Unido), e colegas pediram a um grupo de homens para suprimir voluntariamente certas memórias . Ao mesmo tempo, monitorizaram, graças à técnica de ressonância magnética funcional, os efeitos dessa supressão consciente sobre as diversas áreas do seu cérebro. E concluem que o facto de reprimir uma memória para a impedir de irromper na consciência também deteriora essa memória a nível inconsciente.

Como a maioria das pessoas que viveu uma experiência traumática se queixa de ser ulteriormente assaltada por imagens mentais indesejadas desse trauma, os cientistas fizeram a sua experiência com memórias visuais.

Começaram por treinar os participantes a associarem uma série de palavras e imagens – de forma a se lembrarem, de cada vez que uma das palavras era apresentada, do objecto visível na imagem correspondente, explica a universidade em comunicado.

Numa segunda fase, escrevem os cientistas no seu artigo, apresentaram aos mesmos participantes palavras que tinham aprendido a associar a objectos, pedindo-lhes para, segundo os casos, evocarem o objecto associado ou tentarem, pelo contrário, impedir que a imagem desse objecto surgisse na sua mente.

Tudo isto porque os autores queriam saber se a supressão voluntária da imagem mental de um objecto afectaria a capacidade ulterior de ver esses objectos – capacidade que escapa ao controlo consciente. Por isso, na terceira e última fase da experiência, tornaram a mostrar aos participantes as imagens apresentadas na fase inicial de associação imagem/palavra, pedindo-lhes agora para identificar os objectos representados. Só que, desta vez, as imagens originais surgiam distorcidas e fugazmente, dificultando a tarefa.

Ora, sabe-se que, nestas condições, as pessoas conseguem geralmente identificar melhor os objectos que viram recentemente, mesmo quando não se lembram de os ter visto, porque conservam na sua memória um “vestígio” inconsciente desses objectos. Mas não foi isso que aconteceu aqui.

 

Para além da consciência

De facto, os participantes tiveram uma maior dificuldade em identificar os objectos cuja memória tinham activamente reprimido na fase anterior do que os outros objectos. Ou seja, a “pegada” inconsciente das memórias suprimidas tinha sido afectada.

Os cientistas constataram ainda que a repressão activa da memória das imagens tinha inibido a actividade neuronal de certas áreas visuais do cérebro dos participantes, perturbando literalmente a sua capacidade de as ver. “Essencialmente, o facto de terem expulsado a imagem mental de um objecto estava a dificultar-lhes a visualização ulterior desse objecto no mundo real”, lê-se no comunicado.

“Os nossos resultados sugerem que os mecanismos de supressão activa das memórias, que já se sabia perturbarem a recordação consciente, também reduzem as expressões inconscientes da memória”, concluem os autores, acrescentando que deve ser possível desvendar os mecanismos desse processo neurobiológico – que aliás não se limita, especulam, apenas à memória visual.

“Embora tenha havido muitas pesquisas sobre como a supressão afecta a memória consciente, houve poucas a estudar a influência que este processo poderia ter nas expressões inconscientes da memória no comportamento e no pensamento”, diz Anderson. “E de facto, o que é supreendente é que os efeitos da supressão extravasam a memória consciente. (…) A influência da supressão das memórias vai para além das áreas cerebrais associadas à memória consciente, afectando também componentes perceptuais susceptíveis de nos influenciar de forma inconsciente.”

Os resultados poderão ter implicações no tratamento de estados patológicos como a síndrome pós-traumática, decorrentes de vivências muito difíceis de esquecer. “Quando se descontrolam, as nossas memórias podem causar perturbações psicológicas”, diz Pierre Gagnepain, co-autor da Universidade de Caen (França). “Queríamos saber se o cérebro das pessoas saudáveis conseguia genuinamente suprimir memórias, incluindo aos níveis mais inconscientes – e como o fazia. A resposta é afirmativa, embora nem toda a gente o faça de forma igualmente eficaz. Ao percebermos melhor os mecanismos neurais subjacentes a este processo, talvez possamos explicar melhor as diferenças de adaptação de cada um às memórias traumáticas.”

Quanto à ideia enunciada há mais de um século, “os nossos resultados põem em causa o que Freud afirmou acerca dos efeitos da supressão das memórias”, disse Anderson ao PÚBLICO. “Freud estipulou que quando as memórias eram banidas para o inconsciente pela repressão/supressão, permaneciam totalmente intactas e capazes de influenciar o comportamento. O nosso trabalho mostra que, na realidade, e ao contrário do que pensava Freud, a supressão de memórias indesejadas também perturba as suas influências inconscientes.”

 
Fonte: Público. 

Estudo mostra que bom humor melhora a saúde e a inteligência

 

Rir relaxa os vasos sanguíneos, melhorando a circulação, de forma similar ao exercício aeróbico (foto: Getty Images)

 

 

Um bebê engoliu uma bala calibre 22. Chorando, a mãe corre à farmácia. “O que devo fazer?” E o farmacêutico responde: “Dê a ele um frasco de óleo de rícino, mas não o aponte para ninguém”.

Achar essa piada engraçada depende de mais variáveis do que provavelmente você possa supor. Depende de uma compreensão cultural comum das propriedades técnicas do óleo de rícino. Como muitas piadas e qualquer aluno do quarto ano pode comprovar, depende de sua delicadeza em relação às funções corporais. De forma menos óbvia, o senso de humor também depende da sua idade, gênero, QI, inclinação política, grau de extroversão e da saúde do seu circuito de recompensa de dopamina.

Se você acha toda essa análise pouco engraçada, [o escritor norte-americano] E.B. White estaria com certeza lhe apoiaria. Ele escreveu um dia que desmontar piadas é como dissecar sapos: poucas pessoas se interessam e o paciente sempre morre no final.

Felizmente, o neurocientista cognitivo Scott Weems não tem medo de parecer sem graça. O humor merece um estudo acadêmico sério, ele argumenta em seu livro, “Ha! The Science of When We Laugh and Why” (Há! A ciência de quando rimos e por quê, em tradução livre), porque produz vislumbres de como nosso cérebro processa um mundo complexo e como isso, por sua vez, nos transforma em quem somos.

Mais tempo rindo

Embora animais riam, os humanos passam mais tempo rindo do que exibindo qualquer outra emoção. Porém, o que confere a algumas pessoas um senso de humor melhor do que o de outros? Sem surpresa, os extrovertidos costumam rir mais e produzir mais piadas; contudo, em testes que medem a capacidade de escrever legendas de charges, as pessoas mais neuróticas, agressivas, manipuladoras e dogmáticas eram as mais engraçadas. Como diz o velho ditado, os melhores humoristas são tristes.

Talvez, escreve Weems, as pessoas infelizes são “mais propensas do que as outras a falar de forma desajeitada ou não aceitável socialmente para fazer uma boa piada”. Ou como pessoas de Aristóteles a Gertrude Stein ressaltaram, a infelicidade pode gerar a criatividade, e as melhores piadas exigem ginástica intelectual e uma observação astuta da natureza humana.

Analisar o humor às vezes exige dissecar piadas. Weems desmonta as piadas da “compreensão” em três componentes básicos: construção (examinar conhecimento relevante, experiência e expectativas), avaliação (descartar nossos erros e expectativas errôneas) e resolução (chegar a uma conclusão satisfatória e muitas vezes surpreendente). Veja como seu cérebro rapidamente faz essas três coisas ao ler o seguinte título merecedor de ser citado pelo apresentador Jay Leno: “Doutor testemunha em julgamento de cavalo”.

Para Weems, essas três etapas são as mesmas que usamos para solucionar problemas diários, quer logísticos, interpessoais ou existenciais.

Segundo ele, “interpretar nosso mundo é um evento criativo”. Em sua raiz, as piadas têm a ver com conflitos e “detectar erros é a forma pela qual nossos cérebros transformam conflitos em recompensas”. Sem essa capacidade, não seríamos capazes de tomar decisões, aprender novos truques ou nos darmos bem com os outros.

Homens e mulheres

Existem questões importantes que o livro não aborda. Em particular, a discussão do humor masculino e feminino é interessante, mas insatisfatória. Ao explicar por que os homens costumam fazer mais piadas embora as mulheres tenham uma tendência maior de rir delas, o autor especula que as mulheres encaram as piadas “com uma mente mais aberta”. Entretanto, eu suspeito que existam fatores culturais em ação que têm a ver com poder e submissão, além de antigas estratégias evolucionárias de galanteio. Faça-nos rir e seremos suas.

Os homens querem que as mulheres riam, para o constrangimento de feministas como a artista de rua Tatyana Fazlalizadeh (visite seu site “Stop Telling Women to Smile”, parem de mandar as mulheres sorrirem, em tradução livre). De forma interessante, as mulheres riem menos conforme envelhecem, mas não os homens.

Ainda assim, Weems faz uma boa defesa de que o humor nos torna melhores e de que todos nós deveríamos rir mais.

Como exercício

“Estudos mostram que o humor melhora nossa saúde, nos ajuda a nos dar bem com os outros e até nos torna mais inteligentes”, garante o livro. Rir literalmente relaxa os vasos sanguíneos, promovendo uma circulação saudável, de forma similar ao exercício aeróbico.

Curiosamente, no entanto, as pessoas mais engraçadas não vivem mais tempo. Não apenas elas costumam ser mais neuróticas como apresentam maior probabilidade de fumar, a ser mais sedentárias e a ganhar peso.

Mesmo assim, mesmo que não prolongue a vida, o humor a torna mais suportável ao reduzir nossa dor física e emocional.

Em famoso estudo sobre humor conduzido por James Rotton, Universidade Internacional da Flórida, os participantes que assistiam a filmes cômicos após uma cirurgia pediam 25% a menos de analgésicos. Outro estudo mostrou que ver um episódio de “Friends” reduzia três vezes mais a ansiedade do que sentar-se e relaxar. Os participantes do estudo também se saíram melhor em testes cognitivos, tais como problemas de associação de palavras, depois de ler piadas engraçadas e ver vídeos com apresentações humorísticas de Robin Williams.

Para aqueles que estão mais para o Grinch do que para o Groucho, Weems afirma ser possível melhorar o senso de humor, seja por treinamento ou aumentando a exposição a pessoas e mídias engraçadas, em conjunto com muita prática. Para seu crédito, ele até mesmo tentou fazer um show humorístico certa noite em uma boate em Baltimore.

Ele matou o público de rir? Parece que não. Felizmente para nós, ao que tudo indica, ele não largará seu emprego.

 

Suicídio: terceira causa da morte de jovens no Brasil

 

foto: Shutterstock

foto: Shutterstock

 

Relacionamentos ou lares desfeitos, aumento do uso de drogas e dificuldades financeiras são alguns dos problemas que levam pessoas ao suicídio. No Brasil, essa é a terceira causa de morte entre jovens (atrás apenas de acidentes e violência), segundo a psiquiatra Alexandrina Meleiro, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo). Uma das maiores especialistas do país no assunto, a médica foi entrevistada por Jairo Bouer no @saúde desta semana.

Os transtornos psiquiátricos são o principal fator de risco para que alguém acabe com a própria vida. Segundo Meleiro, a depressão está em primeiro lugar (em 35% dos casos). Em segundo aparece a dependência de álcool e drogas e, em terceiro, a esquizofrenia. Por isso é muito importante combater o estigma que essas doenças possuem, ressalta a médica.

“Os homens se suicidam mais, mas as mulheres tentam mais o suicídio”, comenta a psiquiatra em relação aos brasileiros. Mas ela diz que há exceções: na classe médica, por exemplo, são elas que mais se matam.

Entre os jovens, a taxa de suicídio multiplicou-se por dez de 1980 a 2000: de 0,4 para 4 a cada 100 mil pessoas no país. A tendência de aumento, aliás, é global. A psiquiatra diz que a gravidez indesejada na adolescência é um fator de risco importante nessa faixa etária.

Como os pais podem prevenir o suicídio de um filho? Segundo ela, o principal indício que deve ser valorizado é a mudança de comportamento. Irritação, desesperança, faltas no trabalho ou na escola também devem chamar atenção, assim como comentários de que a vida não vale a pena. Se alguém próximo se matou, o risco aumenta – se for o pai ou a mãe, a propensão é quatro vezes maior.

Assista à íntegra desta entrevista e aos demais programas no UOL Saúde.

 

Fonte: UOL, via Pavablog. 

O cérebro esquece de forma selectiva

cerebro

 

 

Às vezes nos sentimos estranhos por não conseguir lembrar alguns rostos, nomes e detalhes, mas o esquecimento é uma parte importante do cérebro para não nos tornarmos cognitivamente sobrecarregados. E, aparentemente, o cérebro tem uma abordagem bem específica para lidar com isso.

Na verdade, os processos envolvidos no esquecimento não são muito bem compreendidos, então o fato dos cientistas terem encontrado uma proteína – chamada musashi – ativamente envolvida no processo de perda controlada de memória é de certa forma um avanço.

A pesquisa, publicada no diário Cell, explica como o desempenho da memória aumentou significativamente em nematódeos que foram modificados para sofrerem de alta da proteína musashi em comparação com amostras controladas. Os autores acreditam que essa é a primeira vez que o esquecimento foi mostrado como processo ativo, e não passivo.

Na verdade, parece que a proteína impede o corpo de produzir moléculas que normalmente estabilizam as sinapses – as lacunas entre neurônios que estão envolvidos em cimentar memórias. O estudo também identificou uma proteína chamada aducina que, em contraste à musashi, estimula o crescimento de sinapses e ajuda a formar as memórias.

Os pesquisadores alegam que é o equilíbrio entre essas duas proteínas que determina se as memórias permanecem ou não. É cedo para dizer com certeza qual será o impacto deste estudo na humanidade, mas talvez um dia um inibidor de musashi possa ajudar no tratamento de condições como Alzheimer.

 

Fonte: Gizmodo, via Pavablog.

Percentagem de trabalhadores com sinais de esgotamento quase duplicou em seis anos

Associação que fez estudo defende que este é “um problema de saúde pública” e que é urgente avançar com medidas para alterar a situação.

 

Estudo foi apresentado esta quarta-feira na comissão de Saúde, no Parlamento. FOTO: NUNO FERREIRA SANTOS

    As situações de esgotamento e de stress nas empresas portuguesas estão a crescer de forma preocupante, revela um estudo esta quarta-feira apresentado na Comissão Parlamentar de Saúde. Associação que fez avaliação defende que este é “um problema de saúde pública” e que é urgente avançar com medidas para alterar a situação.

    A percentagem de trabalhadores que se encontra num estado de esgotamento ( “burnout”) aumentou substancialmente entre 2008 e 2013. No ano passado, 15% dos trabalhadores inquiridos no âmbito de um estudo da Associação Portuguesa de Psicologia da Saúde Ocupacional (APPSO)  evidenciavam sinais de esgotamento, quando em 2008 a percentagem que estava nessa situação era de 9%. “O máximo aceitável seria 9 a 10%”, sublinha João Paulo Pereira, presidente da associação, para quem é “assustadora” a degradação dos indicadores de bem-estar no mundo laboral que ficou patente nesta avaliação que abrangeu mais de 37 mil trabalhadores dos sectores público e privado.

    Também a percentagem de inquiridos que afirmavam estar a enfrentar situações stress  nas suas empresas e organizações quase duplicou neste período, passando de 36%, em 2008, para 62%, em 2013. “As disfuncionalidades emocionais estão a aumentar drasticamente”, lamenta João Paulo Pereira.

    Apesar disto, depois de ter aumentado entre 2008 e 2011, o absentismo destes trabalhadores manteve-se aos mesmos níveis nos últimos dois anos. Explicação para este aparente paradoxo? “As pessoas estão a trabalhar num estado de saúde cada vez mais degradado, mas não faltam porque não podem abdicar de nenhuma forma de rendimento, nomeadamente do subsídio de refeição”, explica o presidente da APPSO.

    Os  responsáveis da APPSO apresentaram esta quarta-feira o “Relatório de Avaliação de Perfil de Risco Psicossocial – A gestão de Pessoas e Organizações Saudáveis” na Comissão Parlamentar de Saúde. Quiseram fazê-lo porque acreditam que este é “um problema de saúde pública”.

    De acordo com os resultados do estudo (que abrangeu 38 719 trabalhadores que responderam a um questionário através de uma plataforma online), os  funcionários públicos apresentaram os piores resultados em todas as variáveis analisadas, quando comparados com os trabalhadores do sector privado.

    Esta não é uma amostra representativa, porque não está estratificada, mas João Paulo Pereira acredita que pode funcionar como  “um retrato fiel” da realidade nacional, uma vez quase metade dos inquiridos foram submetidos “a intervenções e a uma avaliação presencial”.

    Outro indicador do mal estar evidenciado pelos trabalhadores inquiridos fica patente na vontade de mudar de emprego no horizonte dos próximos cinco anos (o chamado “turnover” na gíria da saúde ocupacional). Se em 2008 cerca de um terço dos trabalhadores inquiridos manifestavam esta intenção, em 2013 eram já 78% os que pretendiam fazê-lo. “Isto funciona como um mecanismo de defesa. As pessoas querem fazer outra coisa, querem dar-se ao luxo de continuar a sonhar”, interpreta João Paulo Pereira. A degradação das condições de trabalho nos últimos anos reflectiu-se ainda noutro indicador: 83% dos inquiridos estava “em risco de exaustão” .

    Para o presidente da APPSO, este mal estar no mundo do trabalho não deve ser encarado como “uma fatalidade nacional”. João Paulo Pereira pretende aliás que o tema não seja abandonado, que seja elaborado um barómetro anual da situação e que sejam definidas medidas para alterar estes resultados.  “É necessária uma mudança de paradigma, é preciso fazer um 25 de Abril nesta área”, reclama.

     

    Fonte: Público.

    “Luz contra a escuridão”: crianças sírias pintam e desenham para lidar com traumas

    Esta simboliza o desejo de uma menina de viver no fundo do mar, longe da guerra.

    Esta simboliza o desejo de uma menina de viver no fundo do mar, longe da guerra.

     

    Desenhos de crianças

    Traumatizadas pelas cenas de violência na guerra civil na Síria, crianças refugiadas no Líbano foram “recuperadas” por uma ONG através de acompanhamento psicológico e social. A coleção de pinturas e desenhos feitas por elas se transformou em exposição na capital, Beirute, e percorrerá a Alemanha, França e a Grã-Bretanha ainda este ano.

    Os desenhos retratam a visão de crianças profundamente marcadas por uma sangrenta guerra que já deixou cerca de 2,5 milhões de refugiados distribuídos em países vizinhos (quase um milhão no Líbano), além de 4,2 milhões de sírios deslocados internamente, segundo a ONU.

    De acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), perto de 5,5 milhão de crianças na Síria e em países que acolheram os refugiados foram afetadas pelos combates entre tropas do governo e rebeldes de diferentes facções.

    Intitulado de “Luz contra a Escuridão”, o projeto da ONG Najda Now Lebanon International atende 206 crianças sírias com idades entre 9 e 13 anos, vindas de cidades como Damasco, Homs, Deera e Deir Er Zour. Ao longo de um ano, elas receberam tratamento psicológico e social e participaram de três oficinas ministradas por artistas e cartunistas para que, através das pinturas, expressassem seus sentimentos antes e depois do tratamento.

    O coordenador do projeto, o sírio Ali Haidar, 33 anos, disse à BBC Brasil que muitas das crianças apresentavam sintomas de violência antes de iniciarem o acompanhamento psicológico.

    “Algumas agrediam fisicamente outras crianças. Outras, quando não tinham a quem agredir, batiam coma cabeça na parede, com um alto grau de agressividade. Foi um processo difícil e demorado, com um amplo apoio de psicólogos e assistentes sociais.

    Fases

    Os desenhos mostram a vida em família, suas casas e os detalhes de momentos de felicidades com amigos e parentes. Mas também retratam violência, morte, medo, destruição e uma infância perdida.

    “Algumas (crianças) testemunharam a morte de amigos ou familiares, viram os bombardeios incessantes sobre seus bairros”, contou Haidar, que é natural da cidade síria de Hama.

    Segundo ele, as crianças tiveram oficinas de pintura e desenho divididas em três fases. A primeira foi ministrada por um cartunista sírio, em que as crianças desenhavam livremente e expressavam cenas de seu país. “A maioria dos desenhos era de guerra e destruição e mostrava claramente os traumas sofridos por elas ao testemunharem helicópteros e aviões bombardeando casas ou soldados matando pessoas”, contou Haidar.

    A segunda fase trouxe um pintor sírio e também deixou as crianças à vontade para expressar seus sentimentos em relação ao seu país, mas desta vez com pinturas.

    Na terceira oficina, as crianças aprenderam diferentes técnicas de pintura e desenho, mas com temas divididos entre passado e futuro.

    “Pedimos para que elas primeiro desenhassem sua visão do passado na Síria, e depois o que queriam que seu futuro parecesse. Estes trabalhos (passado e presente) foram transformados em exposição”.

    Prisão e fuga

    Além da exposição, os desenhos também viraram calendários e livros, que são vendidos ao público e a renda revertida para financiar o projeto da ONG.

    Apesar de sediada no Líbano, a Najda é uma ONG síria e recebe fundos da embaixada da Noruega. Durante um ano, no entanto, operou o projeto em Damasco, mas foi forçada a deixar o país devido às dificuldades e ameaças supostamente feitas pelo governo do presidente Bashar al-Assad.

    “Um de nossos membros está preso na Síria há um ano. O governo impunha muita burocracia e barreiras para que operássemos. No fim, decidimos vir ao Líbano para continuarmos o projeto e operarmos de forma mais livre”, explicou Haidar.

    O projeto da Najda também trabalha música e teatro ministradas por artistas e diretores sírios.

    “As crianças escreveram os roteiros das peças de teatro. As famílias vieram para o prédio da Unesco em Beirute e assistiram as peças teatrais em que elas atuaram”.

    De acordo com a ONU, a guerra civil na Síria já matou mais de 135 mil pessoas desde março de 2011.

    Neste desenho menino retrata protesto do povo sírio com bandeiras da revolução. Manifestantes são alvo de tiros.
    Neste desenho menino retrata protesto do povo sírio com bandeiras da revolução. Manifestantes são alvo de tiros.

    Este desenho simboliza a irmã de um sírio que morreu durante a guerra.

    Este desenho simboliza a irmã de um sírio que morreu durante a guerra.

    Menina síria retrata mãe que morreu em bombardeio em Homs, na Síria.

    Menina síria retrata mãe que morreu em bombardeio em Homs, na Síria.

    Escultura simboliza o povo sírio sorrindo e superando a tristeza da guerra.

    Escultura simboliza o povo sírio sorrindo e superando a tristeza da guerra.

    Desenho mostra a destruição causada por helicóptero do governo em bairro de Homs.

    Desenho mostra a destruição causada por helicóptero do governo em bairro de Homs.

    Fonte: BBC Brasil.