A psicologia do atraso

 

tempo

 

Segundo pesquisas, a cada cinco pessoas, uma sofre com problemas de atraso. Pensando nisso, cientistas e empreendedores realizaram estudos a fim de compreender as causas e os efeitos dos atrasos. Os estudos mostraram que ser pontual pode trazer uma série de benefícios financeiros e emocionais.

Em 2012, um trabalho expôs que mais da metade da população britânica se atrasa para compromissos do trabalho ao menos cinco vezes por mês. Para os responsáveis pela pesquisa, essa é a principal justificativa aos problemas de transporte.

Contudo, essas pesquisas foram capazes de identificar fatores psico e fisiológicos que explicam esse “problema”:

Seu corpo quer se atrasar

Na realidade, pessoas que têm o costume de “viver em cima da hora” estão correndo atrás de adrenalina. Da mesma forma que existem os alucinados por montanhas russas, também existe quem adore chegar cinco minutinhos atrasado.

Pés no chão?

Os atrasados costumam fazer planos impraticáveis acreditando piamente que conseguirão realizá-los. Em um estudo realizado por Diana DeLonzor, quando escrevia a obra Never Be Late Again: 7 Cures for the Punctually Challenged, descobriu-se que a percepção de tempo é completamente diferente para pessoas pontuais e para os atrasados.

Fácil distração

Em 2008, um trabalho da World Health Organization mostrou que pessoas que sofrem de Desvio de Déficit de Atenção e Hiperatividade conseguem perder, em média, a produtividade durante 143 dias em um ano. Para psicólogos, assim como os atrasados, eles são considerados “insensíveis ao tempo”.

Insegurança pura

Alguns indivíduos simplesmente gostam de fazer as pessoas esperarem por ele. Traz confiança, poder e na maioria das vezes são homens; conta a pesquisa de DeLonzo.

E quais são reais consequências?

Ser um pouquinho atrasado, não pagar aquela conta no dia correto e esquecer-se de entregar o relatório podem até parecer coisas inofensivas; mas os efeitos em longo prazo são piores do que se imagina.

Atraso = Prejuízo

Se você ganha cerca de 50 mil reais por ano e costuma se atrasar dez minutos por dia; seu prejuízo para a empresa é de 400 reais. Pesquisadores acreditam que esse problema custa mais de três bilhões de dólares por ano, nos Estados Unidos. Então cuidado para não dar essa ~margem ao seu chefe…

Falta de pontualidade faz mal à saúde

De acordo com o autor Alex Lickerman, muitas pessoas sofrem de ansiedade e excesso de apreensão por não saber se conseguirão chegar no horário para os seus compromissos. E por mais que adrenalina possa gerar uma boa sensação, seus efeitos nas pessoas que vivem nesse estado podem ser muito nocivos: problemas no coração, diabetes, insônia e imunidade baixa são alguns deles.

Há como melhorar?

Sim, quaisquer que sejam as razões para os seus atrasos, existem possibilidades para melhorar esse problema “crônico”:

Aprenda a usar seu tempo

Uma boa maneira de começar é colocar no papel quanto tempo você leva para realizar seus compromissos – e seja realista. Existem sites como o RescueTime que nos ajudam a mapear e definir objetivos para aproveitarmos melhor o nosso tempo.

Mantenha listas

Papel e caneta para anotar tudo que você vai fazer durante o dia. Marque tudo que precisa fazer ao longo de curtos períodos, e vá riscando tudo que já tiver conquistado. Isso trará sensações de plenitude muito agradáveis.

Deixa a vida te levar (vida leva eu)

Agende pagamentos, coloque o alarme mais cedo, use calendários e crie uma estrutura para a sua vida. Segundo DeLonzor, passamos 45% da nossa vida em rotina; então é melhor aproveitar seu tempo para fazer as coisas do que para ficar planejando.

Para finalizar, descanse

Permitir-se um tempo extra de sono e ser mais generoso com a sua agenda de vez em quando pode ajudar a diminuir a ansiedade. Isso pode colocar um rumo menos atrasado para a sua vida.

 

Fonte: Galileu, via Pavablog.

Consciência dura 3 minutos após a morte?

morte_verbena5

Aquele túnel com uma luz brilhante no fundo e uma sensação de paz descritos por filmes e outras pessoas que alegaram ter passado por experiência de quase morte podem ser reais. No maior estudo já feito sobre o tema, cientistas da Universidade de Southampton disseram ter comprovado que a consciência humana permanece por ao menos três minutos após o óbito biológico. Durante esse meio tempo, pacientes conseguiriam testemunhar e lembrar depois de eventos como a saída do corpo e os movimentos ao redor do quarto do hospital.

Ao longo de quatro anos, os especialistas examinaram mais de duas mil pessoas que sofreram paradas cardíacas em 15 hospitais no Reino Unido, Estados Unidos e Áustria. Cerca de 16% sobreviveram. E destes, mais de 40% descreveram algum tipo de “consciência” durante o tempo em que eles estavam clinicamente mortos, antes de seus corações voltarem a bater.

O caso mais emblemático foi de um homem ainda lembrou ter deixado seu corpo totalmente e assistindo sua reanimação do canto da sala. Apesar de ser inconsciente e “morto” por três minutos, o paciente narrou com detalhes as ações da equipe de enfermagem e descreveu o som das máquinas.

– Sabemos que o cérebro não pode funcionar quando o coração parou de bater. Mas neste caso, a percepção consciente parece ter continuado por até três minutos no período em que o coração não estava batendo, mesmo que o cérebro normalmente encerre as atividades dentro de 20 a 30 segundos após o coração – explicou ao jornal inglês The Telegraph o pesquisador Sam Parnia.

Dos 2.060 pacientes com parada cardíaca estudados, 330 sobreviveram e 140 disseram ter experimentado algum tipo de consciência ao ser ressuscitado. Embora muitos não se lembrassem de detalhes específicos, alguns relatos coincidiram. Um em cada cinco disseram que tinha sentido uma sensação incomum de tranquilidade, enquanto quase um terço disse que o tempo tinha se abrandado ou se acelerado.

Alguns lembraram de ter visto uma luz brilhante, um flash de ouro ou o sol brilhando. Outros relataram sentimentos de medo, afogamento ou sendo arrastado pelas águas profundas. Cerca de 13% disseram que se sentiam separados de seus corpos.

De acordo com Parnia, muito mais pessoas podem ter experiências quando estão perto da morte, mas as drogas ou sedativos utilizados no processo de ressuscitação podem afetar a memória:

– As estimativas sugerem que milhões de pessoas tiveram experiências vivas em relação à morte. Muitas assumiram que eram alucinações ou ilusões, mas os relatos parecem corresponder a eventos reais. E uma proporção maior de pessoas pode ter experiências vivas de morte, mas não se lembrarem delas devido aos efeitos da lesão cerebral ou sedativos em circuitos de memória.

 

Fonte: O Globo, via Pavablog.

A fórmula da felicidade

A partir do estudo das respostas neurológicas associadas à satisfação, um grupo de cientistas da Universidade de Cambridge apurou uma fórmula matemática que define a felicidade.

O estudo, intitulado “Um modelo neuronal e computacional para um momento subjetivo de felicidade” tratou de perceber o que se passa no cérebro durante um momento de alegria. Para isso desenvolveu um jogo que envolveu ganhos monetários de curto prazo, o que implicou gerir expectativas e desejos de modo a perceber os impulsos cerebrais envolvidos na sensação de felicidade descrita pelos participantes — que era medida numa escala de um a dez. O estudo envolveu um rácio de esquecimento, determinando que quanto mais distante no tempo era o momento de felicidade, menos relevante ele se tornava para o sentimento presente. Outra conclusão interessante é a relação da felicidade com as expectativas. Dito de outra forma: se a recompensa for inesperada, a sensação de felicidade é bem maior.

Este trabalho científico envolveu 26 pessoas que se sujeitaram a um scan cerebral enquanto jogavam no computador. Os resultados de base foram depois usados para prever intervalos para padrões de felicidade de 18.420 sujeitos que participaram num jogo no smartphone, demonstrando a utilidade dos valores originais apurados. Estudos mais avançados poderão contribuir para determinar valores mais rigorosos que apurem a felicidade de uma pessoa sem ter de recorrer a testes subjetivos como os que são usados hoje por psicólogos.

Se esta parece uma questão mais filosófica que matemática, é porque é. E é o próprio estudo de Cambrigde que começa por referir o “a felicidade tem uma importância central no bem estar subjetivo do ser humano”, algo que tem sido estudado há milénios por filósofos — “de Aristóteles a Bentham”. Claro que  encontrar o estado emocional puro de felicidade individual é utópico porque isso depende de cada pessoa e das suas circunstâncias, pelo que a única possibilidade de efetuar uma medida seria pela felicidade subjetiva dos povos — que as Nações Unidas já medem através do Relatório Mundial da Felicidade — ou pelo transitório estado emocional de satisfação. A metodologia foi a que permitiu atingir resultados mensuráveis, embora seja criticável por associar satisfação a somas monetárias em jogos.

Já no ano passado um outro estudo da Universidade de Missouri tentou apurar a relação entre a busca da felicidade e a música. Sendo que aqui é mais fácil associar comportamentos a épocas ou até gerações — o que facilita a criação de uma banda sonora da felicidade. Deixamos três sucessos musicais que muitos associam a felicidade:

No final dos anos sessenta, os Turtles lançaram um hit chamado “Happy Together” que resumiu o espírito da geração.

Vinte anos depois foi Bobby McFerin a dizer ao mundo: “Don’t Worry, be Happy”. E o mundo obedeceu.

E recorrendo à simplicidade dos tempos atuais, Pharrel Williams sintetiza a mensagem no novo clássico que até já entrou num filme de animação: “Happy” é o hino do verão 2014 para expressar a felicidade, certamente mais simples de entoar do que a fórmula lá de cima.

 

 

Fonte: Observador.

Criado chip informático inspirado no cérebro humano

Criado chip informático inspirado no cérebro humano

Num artigo da revista Science, Paul Merolla e a sua equipa da Universidade de Stanford (Califórnia) apresentaram um novo modelo de chip de computador inspirado pelo cérebro humano que permitirá a novos dispositivos tecnológicos processar a transmissão de dados sensoriais, noticiou o El Mundo.

O TrueNorth, revelado no dia 8 de agosto, foi construído de forma diferente dos chips convencionais que separam a memória do processador, exigindo conectores para transferir dados entre eles. Este novo modelo de chips não necessita deles, tal como o cérebro humano. Também à semelhança desse órgão, o chip será capaz de executar ações somente quando for necessário, reduzindo bastante a potência e, consequentemente, o consumo energético.

Esta nova tecnologia poderá depois possibilitar, por exemplo, a criação de óculos para cegos que façam uma análise do ambiente que os rodeia, permitindo-lhes “caminhar com segurança pelas ruas de qualquer cidade sem necessidade de uma conexão wi-fi”, explicaram os investigadores ao El Mundo.

A pesquisa dos investigadores americanos foi aprovada num trabalho da Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (DARPA), que consistiu em reconhecer objetos e pessoas num determinado cenário. Os resultados do teste revelaram que o projeto não é apenas eficiente em termos de energia, mas também é extensível no sentido em que o TrueNorth se pode diversificar, construindo novos sistemas.

 

Fonte: DN.

Pornografia tem efeito cerebral semelhante à droga

ReutersPorno

Investigadores da Universidade de Cambridge concluíram que pessoas viciadas em sexo têm o mesmo tipo de reacção cerebral, quando assistem a pornografia, que os toxicodependentes quando usam drogas

Quando uma pessoa com comportamento sexual obsessivo vê pornagrafia, o seu cérebro apresenta um tipo de actividade semelhante à espoletada por drogas em toxicodependentes. A conclusão é de um estudo desenvolvido por investigadores do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, recentemente publicado na revista “Plos One”.

No estudo, financiado pelo Wellcome Trust, os investigadores debruçaram-se sobre a actividade cerebral de 19 pacientes do sexo masculino, afectados por comportamento sexual obsessivo (ou viciados em sexo, como são comummente designados), comparando-a com a de outros tantos voluntários saudáveis.

“Os pacientes do nosso ensaio eram pessoas com dificuldades consideráveis em controlar o seu comportamento sexual e isso estava a ter consequências significativas, afectando as suas vidas e relações”, explica Valerie Voon, uma das autoras do estudo, citada em comunicado pela Universidade de Cambridge. “Em muitos aspectos, mostram semelhanças de comportamento relativamente a pacientes com vício de drogas. Queríamos ver se estas semelhanças se refelectiam, também, na actividade cerebral.”

Aos participantes no ensaio foram, então, mostrados vários vídeos curtos com “conteúdo sexual explícito”, ao mesmo tempo que a actividade cerebral era monitorizada. Três regiões específicas do cérebro — corpo estriado ventral, córtex cingulado anterior e amígdala —mostraram-se mais activas nos indivíduos com comportamento sexual obsessivo, quando comparadas com as dos voluntários. Essas mesmas três regiões são, também, particularmente activadas em toxicodepentes na presença de estímulos de drogas.

Contudo, e apesar das conclusões, os investigadores alertam para o facto de isto “não significar necessariamente que a pornografia é viciante”. “Há diferenças claras na actividade cerebral entre pacientes com comportamento sexual obsessivo e voluntários saudáveis. Estas diferenças espelham as dos toxicodependentes”, acrescenta Valerie Voon. Mas a investigação, continua, “não fornece provas de que estes indivíduos sejam viciados em pornografia — ou que a pornografia seja inerentemente viciante”.

Identificada foi também uma co-relação entre a actividade cerebral e a idade. Quanto mais novo o paciente, maior o nível de actividade no estriado ventral em resposta à pornografia — uma associação particularmente forte em indivíduos com aquele tipo de comportamento obsessivo. Nestes pacientes, o estriado ventral “pode ser importante no desenvolvimento de comportamentos sexuais obsessivos, de forma semelhante ao que acontece nos casos de adição”. Ainda assim, esta ligação directa precisa de ser validada, ressalvam os investigadores.

De acordo com o comunicado da universidade, um em cada 25 adultos sofre de comportamento sexual obsessivo, quer falemos de “pensamentos sexuais, sentimentos ou comportamentos impossíveis de controlar”. Excessivo uso de pornografia é uma das principais características identificadas em muitas destas pessoas.

 

Fonte: P3, Público.

5 coisas que só o pessoal das ciência sociais entende

DOUT-Ciências-Sociais

 

1- A palavra ciência tem um significado mais amplo do que se julga.

Chega a ser desesperante, para alguém das ciências sociais, ver a palavra “ciência” excluir tudo o que fazem. Aqui vai um exemplo: imagina uma reportagem num infantário – se um miúdo está a tentar fazer um vulcão em miniatura, o jornalista pergunta “então meu bom Joãozinho, queres ser cientista, não é, meu pequeno rapazinho brilhante?”. Agora imagina que o miúdo está a fazer uma escavação no jardim do infantário. Vai tudo abaixo. “Então Alfredozinho, que m*rda é esta? Queres ser arqueólogo e andar com as unhas todas sujas, não é?” Pensa nisto: na secção Ciência, dos jornais, quantas descobertas científicas leste do campo da Sociologia, Antropologia ou Geografia Humana? Pois. São completamente ignorados.

2- O mesmo estudo, depois de replicado, pode dar resultados completamente diferentes.

Vamos dar um exemplo básico (meio parvo, até): em laboratório, se juntares 2 elementos químicos na mesma quantidade, o resultado vai ser igual em Lisboa e em Pequim. Nas ciências sociais? Nunca na vida. Entrevista-se a mesma pessoa duas vezes, com a diferença de uma hora entre entrevistas, e ela vai dar-te respostas diferentes. No marketing, por exemplo, o que hoje é verdade, amanhã é mais falso que o peito da Luciana Abreu. A vida dos cientistas sociais é um carrocel.

3- É difícil explicar-se o que se faz, a alguém de fora.

Por todas as razões que demos até agora – e mais algumas – explicar a um leigo o que faz um cientista social (pertença ele a que disciplina científica pertencer) pode tornar-se bastante difícil. Não é que eles não saibam o que fazem – longe disso! O problema é que os cientistas sociais estudam coisas que toda a gente julga compreender, sem precisar de estudo. Toda a gente tem opinião sobre a economia, toda a gente acha que tem um psicólogo dentro de si, toda a gente adora utilizar expressões como “cultura” ou “socialização” sem que as entendam completamente. E é por isso mesmo que se torna difícil explicar o que se faz: porque temos medo (sim, o autor do artigo é um cientista social) de não conseguir explicar o que fazemos sem que nos achem inúteis.

4- As ciências sociais são como o futebol!

Ao contrário da maioria das ciências naturais, onde as conclusões de um estudo são aceites sem levantar grandes problemas, nas ciências sociais raramente uma investigação científica termina sem que se levantem 350 questões. Nas ciências sociais, é mais do que comum escolherem-se lados! Na Sociologia, logo à partida, os alunos quase são obrigados a escolher um lado no debate estrutura vs agente. Na Psicologia, podes ser construtivista, behaviorista, entre muitas outras… na Economia deves posicionar-te entre o marxismo e o liberalismo. Qualquer dia vendem-se camisolas à porta das faculdades de ciências sociais!

5- SPSS? VADE RETRO, SATANÁS!

Queres assustar um cientista social? Diz-lhe “SPSS” ao ouvido, assim baixo e devagarinho. Ele vai tremer por todos os lados. O SPSS é um programa de computador, usado pelos cientistas sociais para organizarem e analisarem, por exemplo, os resultados obtidos através de um inquérito. Basicamente, é um Excel 3 vezes mais complicado. No início é lindo, até divertido e uma pessoa acha que vai facilitar o trabalho. O problema é quando o ponteiro do rato começa a ir para a barra superior, explorar opções, e o estudante de ciências sociais se apercebe de algo simples: que não percebe patavina do que está a fazer! É o inferno transformado em folha de cálculo.

 

Fonte : Cultura x, via EA Social.

Amigos são… família?

 

friends

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De acordo com James Fowler, professor de genética médica e ciência política na Universidade da Califórnia (EUA) e coautor do estudo, ao olhar todo o genoma humano, ele descobriu que, de uma maneira geral, é bastante parecido entre amigos. “Nós temos mais DNA em comum com as pessoas que escolhemos como amigos do que com estranhos em uma mesma população”, esclarece.
Que demais, não é?

Detalhes do estudo

O estudo que revela a semelhança genética entre amigos de verdade parte de uma análise de todo o genoma de quase 1,5 milhões de marcadores de variação genética, e se baseia em dados do Framingham Heart Study. O conjunto de dados de Framingham é o maior disponível até o momento, e os autores estão cientes de que ele contém um nível de detalhamento genético e informações sobre quem é amigo de quem.

Para conduzir a pesquisa, os cientistas se concentraram em temas únicos e nada menos que 1.932 pares de comparação de amigos sem grau de parentesco contra pares de estranhos também sem parentesco. As mesmas pessoas, que não eram nem parentes nem cônjuges, foram utilizadas em ambos os tipos de amostras. A única coisa que difere entre os participantes é a sua relação social.
Os resultados não são, segundo os pesquisadores, um artefato de tendência das pessoas de fazerem amizade com pessoas de etnias semelhantes. Os dados de Framingham são dominados por pessoas de origem europeia. Embora isto seja um problema para alguns pesquisadores, pode ser vantajoso para esse estudo em questão, pois todos os sujeitos, amigos ou não, foram geneticamente desenhados a partir da mesma população. Os pesquisadores também controlaram os dados por ascendência, usando as técnicas mais conservadoras atualmente disponíveis.

A observação proposta por esse estudo vai além do que você esperaria encontrar entre as pessoas de herança genética compartilhada. Segundo Fowler, o coautor do estudo, os resultados encontrados são uma “rede de ancestralidade”.

Quão geneticamente similares são os amigos de verdade?

Os pesquisadores encontraram que os amigos de verdade, aqueles amigos do coração, os irmãos que a gente escolhe, têm semelhanças genéticas que equivalem a um grau de parentesco semelhante ao de primos de quarto grau, ou pessoas que têm o mesmo tataravô. Em outras palavras, isso se traduz em cerca de 1% de nossos genes.

Achou pouco?

1% pode realmente parecer pouco, mas, para os geneticistas, esse é um número realmente MUITO significativo. Ainda mais se você pensar que a maioria das pessoas nem sequer sabem quem são seus primos de quarto grau. De certa forma, dá o que pensar. Pense: eu mesma não sei quem são meus primos de quarto grau, mas, por uma acaso do destino, escolhi me relacionar com pessoas que muito bem poderia ter esse grau de parentesco comigo. Essas pessoas poderiam ser da minha família de verdade, sem eu saber disso.

Nível de amizade

No estudo, os pesquisadores também desenvolveram uma escala que chamaram de “nível de amizade”, que eles podem usar para prever as chances de pessoas serem amigas mais ou menos no mesmo nível de confiança que atualmente os cientistas usam para prever as chances de uma pessoa ser obesa ou ter esquizofrenia.

Amigos com benefícios

Atributos compartilhados entre amigos ou “parentesco funcional” pode conferir uma variedade de vantagens evolutivas. Algo do tipo se o seu amigo está com frio quando você faz uma fogueira, você dois se beneficiam do fogo. Esse também é o caso de alguns traços que só funcionam se o seu amigo também o tiver. Fowler exemplifica: “O primeiro mutante a falar precisava de alguém para falar com ele. Essa capacidade seria inútil se não houvesse ninguém para compartilhá-la”. Esses tipos de traços em pessoas são uma espécie de efeito de se viver em sociedade.

Porque você e seus amigos não ficam doentes ao mesmo tempo

Além das semelhanças “macro”, os pesquisadores também olharam para um conjunto de genes focados. Assim, eles descobriram uma coisa inusitada: eles acham que os amigos são mais semelhantes em genes que afetam o sentido do olfato.
O oposto vale para os genes que controlam a imunidade.

Ou seja, os amigos são relativamente mais desiguais em sua proteção genética contra várias doenças. A descoberta apoia o que as pessoas têm encontrado recentemente em relação a seus pares. E há uma vantagem evolutiva bastante simples para isso: ter conexões com pessoas que são capazes de resistir a diferentes patógenos reduz sua propagação interpessoal. Mas como é que vamos selecionar as pessoas para este benefício da imunidade? O mecanismo ainda permanece obscuro.

A questão da semelhança entre genes olfativos também segue aberta a debates e precisa de mais pesquisa para que conclusões sejam tiradas. Mas, até o momento, os cientistas supõem que a explicação pode estar no fato de que o nosso sentido de cheiro, quando semelhante, pode nos atrair a ambientes semelhantes. Sendo assim, não é difícil imaginar que pessoas que gostam de café, por exemplo, frequentem lugares com cheiro de café e lá encontrem pessoas que tenham o mesmo gosto – ainda que essa seleção não esteja no plano da consciência.
Cientistas observam também que, provavelmente, existem vários mecanismos que operam de forma paralela, nos guiando para escolher amigos geneticamente similares.

“With a Little Help From Our Friends”

Talvez o resultado mais intrigante do estudo seja que os genes que eram mais semelhantes entre amigos parecem estar evoluindo mais rapidamente do que outros genes. Fowler e sua equipe dizem que isso pode ajudar a explicar por que a evolução humana parece ter acelerado nos últimos 30 mil anos, e sugerem que o próprio ambiente social é uma força evolutiva.
Portanto, fica a melhor dica de todos os tempos: mantenha os amigos por perto.

 

Fonte: Hype Science, via Pavablog.

 

Os bebés treinam mentalmente a fala meses antes de começarem a falar

Um bebé de um ano sentado no aparelho de medição da actividade cerebral INSTITUTO DA APRENDIZAGEM E DAS NEUROCIÊNCIAS/UNIVERSIDADE DE WASHINGTON

 

 

Ao longo do primeiro ano de vida, o cérebro humano prepara-se para conseguir coordenar os movimentos que irão permitir ao bebé articular os sons da sua língua, concluem cientistas.

 

Sabe-se que, até mais ou menos aos oito meses de idade, os bebés prestam igualmente atenção aos sons de todas as línguas que ouvem. Mas, por volta dos 12 meses, passam a reconhecer claramente a sua língua materna – ou seja, aquela que é, normalmente, a mais falada à sua volta – em detrimento de qualquer outra. Ainda não se sabe bem como é que esta transição da percepção da fala se opera, mas agora uma equipa de cientistas nos Estados Unidos descobriu o que consideram ser uma base biológica dessa radical transformação.

Segundo eles, mesmo quando os bebés ainda são incapazes de articular qualquer palavra, o seu cérebro já está a tentar imitar, mentalmente, os sons que eles ouvem. E assim fazendo, está a construir, em silêncio, as bases neuronais motoras que irão possibilitar a locução pelo bebé, a partir do segundo ano de vida, das palavras da sua língua mãe. Os resultados foram publicados na edição desta semana da revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

O que Patricia Kuhl, da Universidade de Washington (em Seattle), e colegas essencialmente mostraram é que as palavras que os bebés com sete meses de idade ouvem à sua volta estimulam as áreas motoras do cérebro que estão encarregadas de coordenar e planificar os movimentos que irão permitir, uns meses depois, a articulação efectiva da fala.

Os cientistas analisaram a actividade cerebral de 57 bebés, respectivamente com sete meses e 11 a 12 meses de idade. Para isso, sentaram-nos debaixo de um aparelho parecido “com um secador de cabelo à moda antiga” – mas que é de facto um capacete high-tech que mede a actividade cerebral através de uma técnica não invasiva dita de magnetoencefalografia, totalmente inócua para os bebés, lê-se no mesmo documento. Os bebés ouviam sílabas derivadas do inglês ou do espanhol, como “da” e “ta”, enquanto os cientistas registavam a resposta do cérebro dos bebés a esses sons.

Mais precisamente, a equipa registou uma activação neuronal numa área auditiva do córtex chamada “giro temporal superior” bem como em duas outras áreas – a área de Broca e o cerebelo – que se sabe serem responsáveis pela planificação dos movimentos necessários para articular as palavras. E constataram que, aos sete meses, todas essas áreas se activavam com igual intensidade fosse qual fosse a língua que os bebés ouviam.

“A maioria dos bebés de sete meses consegue palrar, mas apenas irá pronunciar as primeiras palavras a seguir ao primeiro aniversário”, diz Kuhl, citada em comunicado da sua universidade. “O facto de termos detectado uma activação cerebral em áreas cerebrais motoras numa altura em que os bebés estão simplesmente a ouvir os outros a falar é significativo, porque quer dizer que o cérebro do bebé tenta, logo de início, responder verbalmente. E também sugere que o cérebro dos bebés de sete meses já está a tentar descobrir os movimentos certos para produzir palavras.”

Já nos bebés com 11-12 meses, esse padrão de activação alterava-se: as áreas auditivas passavam a responder mais fortemente à língua materna do que à língua estrangeira, enquanto as áreas motoras passavam a responder mais fortemente à língua estrangeira do que à língua materna. Para os cientistas, isso não só confirma que, nesta fase do seu desenvolvimento, os bebés já adquiriram uma experiência auditiva suficiente para distinguirem a língua materna das outras, como também sugere que já é preciso um maior esforço por parte das suas áreas cerebrais motoras para descobrirem como articular os sons da língua estrangeira do que para articular as palavras da sua própria língua. A transição da percepção da fala apanhada ao vivo e em directo, por assim dizer.

“A experiência da língua [ouvida durante os primeiros meses de vida] serviria assim para reforçar o conhecimento da língua nativa, tanto perceptual como motor. Ao fim do primeiro ano, (…) tornar-se-ia portanto mais difícil e menos eficiente gerar modelos [motores] internos para uma língua estrangeira”,escrevem os cientistas.

Os resultados têm várias implicações sociais, segundo os autores. Por um lado, mostram que é preciso falar “a sério” com os bebés, mesmo sabendo que não percebem o que estamos a dizer-lhes, porque esse é precisamente o “catalisador” da sua aprendizagem da língua, a chave que lhes vai permitir gerar os tais “modelos cerebrais internos” para mais tarde conseguirem falar essa língua.

Por outro, sugerem que a forma como os pais costumam falar com os seus filhos recém-nascidos, articulando muito bem e esticando as vogais de forma exagerada (“oooohhh, meu liiiindoooo bebéééééé”) – e que nada tem a ver com dizer palavras que não fazem sentido – poderá ajudar os bebés na construção desses modelos motores cerebrais logo nos primeiros meses de vida. “Essa forma de falar dos pais é muito exagerada e é possível que, quando os bebés a ouvem, o seu cérebro consiga modelar mais facilmente os movimentos necessários à fala”, diz Kuhl.

 

Fonte: Público.

As manipulações do Facebook

Quase 700 mil utilizadores da rede social foram submetidos a um teste comportamental sem o seu conhecimento. Uma prática eticamente questionável.

Iniciativa preocupa utilizadores sobre futuras experiências do Facebook MANJUNATH KIRAN/AFP
Há anos que a influência das redes sociais no comportamento humano, dentro e fora da Internet, tem sido estudada por todo o mundo. Os resultados têm mostrado, até agora, que existe uma relação entre as acções dos utilizadores dessas redes e o contexto a que nelas são expostos. Agora, a maior de todas elas, o Facebook, decidiu contribuir para o debate académico. Mas não se limitou a observar: decidiu manipular os seus utilizadores. E à revelia.
O Facebook dividiu 689.003 utilizadores em dois grupos e filtrou o tipo de conteúdo que cada um deles recebeu no seu “feed de notícias” durante uma semana, em Janeiro de 2012: uns receberam menos conteúdo “positivo” do que o habitual; os outros, menos publicações “negativas”. O objectivo era perceber se a exposição a conteúdos ligeiramente diferentes afectava o comportamento dos sujeitos da experiência na mesma rede social. Alterou, ainda que de forma pouco significativa.
Os autores do estudo – Adam Kramer, do departamento de investigação do Facebook; Jamie Guillory, da Universidade da Califórnia; e Jeffrey Hancock, da Universidade de Cornell – argumentam que “os estados emocionais podem ser transferidos para outras pessoas através do contágio emocional”. E dizem que o estudo o prova. Contudo, o que a experiência mostra é apenas que o comportamento dos utilizadores foi alterado pelas modificações introduzidas.
O que se verificou foi um decréscimo de 0,1% no número de “palavras positivas”, no grupo dos utilizadores que viram reduzidas as publicações com o mesmo tipo de vocábulos no seu feed, e uma diminuição de 0,07% no total de “palavras negativas” entre os que foram menos expostos a esse tipo de conteúdos. Ao todo, foram analisadas mais de três milhões de publicações (posts), contendo mais de 122 milhões de palavras – 3,6% das quais negativas e 1,6% positivas.
O artigo foi publicado, de forma discreta, na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) de 17 de Junho. A imprensa norte-americana só lhe deu destaque neste fim-de-semana, mas assim que o fez irromperam as críticas severas. Internautas e académicos mostraram-se estupefactos por o Facebook submeter pessoas a testes de manipulação psicológica sem o seu “consentimento informado”, como exige a lei nos EUA desde 1981.
O Facebook respondeu às acusações de falta de ética através de um porta-voz, que disse à Forbes: “Reflectimos cuidadosamente sobre as pesquisas que fazemos e temos um forte processo de análise interna. Não há recolha desnecessária de informação das pessoas nestas iniciativas de investigação e toda a informação é conservada em segurança.” Os participantes foram seleccionados aleatoriamente de entre os que então usavam a rede em inglês.
No entanto, o que está em causa não é a privacidade. É o facto de se terem manipulado seres humanos sem pelo menos os informar no final, como a lei norte-americana impõe que se faça quando estudos de evidente interesse público só são exequíveis sem o conhecimento dos sujeitos. A esse propósito, a empresa entende que todos os seus utilizadores deram o seu consentimento no momento em que aceitaram as condições de utilização para criar um perfil no site.
James Grimmelmann, professor de Direito da Universidade de Maryland, defende que esse “consentimento” é uma “ficção legal, concebida para facilitar as interacções online”. A política de utilização de dados do Facebook – bem mais extensa do que o artigo publicado na PNAS – não inclui uma descrição com os procedimentos deste ou de outros estudos, nada diz sobre possíveis riscos e não permite que se opte por não participar.
“O Facebook escolheu caminhar num campo de minas legal e ético; devemos sentir pouca compaixão quando ocasionalmente explode”, acrescentou Grimmelmann, no seu blogue. O próprio Adam Kramer, co-autor do estudo,acabou por reconhecer que “os benefícios da investigação talvez não tenham justificado toda a ansiedade” gerada à volta do artigo.
feed de notícias, onde lemos actualizações de amigos e páginas, é gerado individualmente a partir de um algoritmo. Não é a rede tal como a veríamos sem filtros. Se já existiam críticas ao afunilamento da realidade que provoca, agora os receios agravam-se. Não só por poderem vir a ser introduzidas variantes ao algoritmo que nos atirem para uma ficção distópica huxleyana, mas por a reacção a este estudo poder inibir o Facebook de publicitar os testes que levar a cabo no futuro. Como é uma empresa privada, não necessita de aprovação de uma comissão de ética.
Fonte: Público.

Os filhos no Facebook

 

nm1149_facebook04Fotografia: Jorge Simão

Os pais sempre fizeram álbuns de fotografias das suas crianças para recordar mais tarde e para mostrar à família e amigos. Mas o papel passou a digital, os amigos extravasam o grupo restrito que ia a casa e as imagens íntimas acabam a correr mundo. Estaremos a expor demasiado as nossas crianças no Facebook?

A primeira muda de fralda, o sono na maternidade, o consolo do banho. A chegada a casa em triunfo (e com algum receio), os primeiros dentes, os primei­ros passos, as festas de aniversário. Não vai longe o tempo em que os pais acreditavam que um álbum de capa dura e folhas de seda, com um caracol de cabelo para tocarem mais tarde, seria útil aos filhos quando qui­sessem desatar os nós da infância. Não se falava tanto em pedofi­lia, rapto, bullying, e uma fotografia dificilmente daria uma dor de cabeça para a vida inteira. Não vivíamos numa era de partilha ao minuto. E se a prática faz hoje as delícias dos amigos, que acompa­nham na rede as diabruras dos pequenos e as tramas familiares, por outro lado levanta uma questão com tantas respostas quantas as pessoas que discordam ou concordam com ela: estaremos a ex­por demasiado as nossas crianças no Facebook?

«Vivemos uma ditadura da maioria, em que é quase escandalo­so não partilhar a nossa vida e a dos nossos filhos nas redes sociais, e esquecemo-nos de que estas não são desprovidas de interesses comerciais», alerta Cristina Ponte, professora do departamento de Ciências da Comunicação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL). Quanto maior o número de pessoas identificadas na rede, maior é a possibi­lidade de se obter algoritmos que identifiquem perfis de consumi­dores. Ainda assim, as vantagens são inegáveis: fácil de usar e mais divertido do que o e-mail, o Facebook facilita contactos, aproxima amigos e permite que familiares queridos que vivem longe acom­panhem o crescimento dos pequenos (há outras redes sociais, co­mo o Twitter ou o Instagram, onde o fenómeno também se verifi­ca, mas o Facebook é, de longe, o caso mais flagrante).

O problema surge quando os pais postam todos os momentos, sem pensar que as imagens permanecem online e poderão reper­cutir-se nos mais novos. «As pessoas partilham uma foto e não lhes ocorre que tudo o que pomos na internet fica lá, sem termos forma de controlar se alguma vez será eliminado», explica Cristina Pon­te que, além de subdiretora adjunta na FCSH, coordena em Portu­gal o projeto EU Kids Online, responsável por ampliar o conheci­mento sobre usos, riscos e segurança na internet das crianças eu­ropeias. «É muito fácil alguém procurar conteúdos de terceiros na rede e é igualmente fácil disseminá-los. Inclusive fora de contex­to e para audiências que não os amigos a quem a fotografia se des­tinava. É um fenómeno muito novo, sobretudo para os utilizado­res mais velhos, que não cresceram nesta dinâmica. E apercebe­mo-nos de que a preocupação das crianças nas redes sociais não é o contacto com estranhos, mas o cyberbullying e a má imagem. Am­bos decorrentes, muitas vezes, de fotos que familiares publicaram sem supor que teriam esse efeito.»

nm1149_facebook01

Inês Mestre, mãe de duas filhas de 4 e 6 anos, percebe bem quan­do a investigadora diz que é legítimo pensar do ponto de vista dos pequenos – será que irão gostar mais tarde? Será que ao crescerem com toda esta exposição vão saber lidar com isso? – antes de se pu­blicar uma imagem no Facebook. «Nós, os pais, enfrentamos desa­fios a um nível global, com a internet a permitir que a nossa vida e a das nossas crianças chegue a qualquer pessoa de qualquer parte do mundo, especialmente se formos nós a oferecê-la», diz a profes­sora de babyoga, que nem quando viveu dois anos nos EUA se sen­tiu tentada a carregar fotografias das meninas no Facebook. «Per­cebo que quem partilha tem as melhores intenções, sobretudo se se trata de imagens queridas dos filhos. Mas, infelizmente, nem to­das as pessoas são iguais.»

Inês não é contra o Facebook. Pelo contrário, acha-o «fantás­tico» para manter contacto com as pessoas, divulgar projetos, mensagens, conceitos e negócios, partilhar experiências e ter grupos de apoio. «Eu uso-o nessas vertentes todas», diz. Apenas não se serve dele para expor de forma pública a sua vida privada, o que inclui naturalmente as suas filhas. «Percebo que se quei­ra partilhar algumas ocasiões engraçadas com as pessoas próxi­mas: eu própria, quando estive fora, enviava fotos por e-mail para dividir esses momentos. Mas não entendo a necessidade de gri­tar ao mundo tudo o que fazemos. E alguns familiares e amigos já puseram fotos das minhas filhas no Facebook, mas retiraram–nas depois de eu ter pedido.»

Manuel Costa Henriques, consultor de hotelaria e pai de uma menina de 6 anos, também prefere recorrer ao e-mail para enviar instantes íntimos à família e aos amigos chegados. «Há quem diga que sou paranoico por não pôr fotografias do rosto da minha filha nas redes sociais, admito. Mas quando leio notícias do aumento de raptos de crianças e da existência de pedófilos online a colecionar imagens, penso: “Alguma vez ia arriscar, nem que fosse apenas 0,01 por cento de hipóteses, de deixar acontecer algum mal ao mais im­portante da minha vida por andar aí a revelar-lhe cara e detalhes da vida?” É dever dos pais protegerem os filhos e, ao colocarmos fo­tografias deles na internet, estamos a expô-los a perigos que mui­tas vezes nem imaginamos», justifica.

Manuel também é sensível à noção de que os mais novos têm di­reito à sua privacidade e vão crescer, arriscando-se a querer apa­gar imagens que ficam para sempre na internet. «Tudo o que colo­co nas redes sociais é público, porque efetivamente tudo o que ali publicamos passa a pertencer à rede social e, em última análise, ao acesso público. Muitas pessoas pensam que colocando fotografias privadas só as vê quem elas quiserem, mas basta alguém partilhá-las ou “gostar” para irem parar onde não era suposto. Se lerem bem as políticas de privacidade do Facebook, vão perceber que nada ali é cem por cento privado e eles assumem isso.»

Sara Pereira, Luís Pereira e Manuel Pinto são investigadores do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universida­de do Minho. No booklet Internet e redes sociais: tudo o que vem à rede é peixe?, que elaboraram, os autores sublinham a necessidade de os internautas perceberem que as informações publicadas podem ser lidas ao minuto por um público extenso e permanecem disponíveis na rede mesmo depois de removidas por quem as carregou, razão pela qual toda a gente deve ter o cuidado para nunca comprome­ter a privacidade de outros. Um estudo recente da AVG, uma em­presa de programas de segurança online sediada na Holanda, re­velou ainda que pais, tios e avós publicam imagens dos seus bebés, fazendo que 82 por cento das crianças tenham fotografias suas na internet antes de completarem 2 anos. Mais: são os pais quem reve­la maior quantidade de dados pessoais dos filhos, mediante parti­lha de fotografias e outros conteúdos de «elevada intimidade», e os ajudam a criar perfis no Facebook antes dos 13 anos (a idade em que podem abrir conta na rede social).

«Muitos têm o cuidado de supervisionar o que os menores publi­cam nos seus murais, ao mesmo tempo que eles próprios não colo­cam demasiadas fotografias nem imagens muito explícitas. Mas depois lá surge uma atividade em que a criança participa com os co­legas e é muito fácil outros pais partilharem-na», diz Sara Pereira, ciente da dificuldade de se fechar todas as portas quando cada uti­lizador se multiplica por centenas de amigos num efeito bola de ne­ve. «No limite, importa saber que tipo de fotografias é que se deve, ou não, postar no Facebook.» Fazer a distinção entre espaço públi­co e privado, coisa que nem sempre acontece. «Se vamos à piscina com os nossos filhos, por exemplo, é natural querermos partilhar o momento. Mas a verdade é que nunca sabemos quem está do ou­tro lado. E a imagem de uma criança em biquíni ou a fazer pose po­de ganhar um significado diferente se for retirada daquele contex­to de amigos para ser colocada noutro site, comprometendo a sua privacidade e intimidade.»

Tito de Morais, fundador do site MiúdosSegurosNa.Net para aju­dar famílias, escolas e comunidades a promover a segurança online dos mais novos, recorda-se de um caso: em agosto de 2008, quan­do falava no Messenger com a responsável de uma organização de proteção infantil, esbarrou num classificado anunciando a venda por cem euros em Lisboa, para atos sexuais ou outros, de uma meni­na loura de 2 anos. A descrição continha ainda uma frase referente aos genitais da criança e um número de telemóvel, tendo o anúncio sido imediatamente denunciado à Polícia Judiciária e ao site onde fora colocado (e removido ao fim de três horas, depois de se apurar tratar-se de uma brincadeira de péssimo gosto). Tito nunca soube se os pais da menina tiveram conhecimento do caso, mas o certo é que a fotografia foi copiada de um blogue que criaram para a filha e não chegaram a desativar.

«No caso do Facebook, o facto de as pessoas pensarem que só tem acesso às imagens publicadas quem se encontra ligado ao seu perfil cria uma falsa sensação de segurança», constata o autor, sublinhan­do que o mais seguro, para lá de quaisquer definições de privacida­de, é partirmos do princípio de que aquilo que dizemos e fazemos em privado se pode tornar público, mesmo o que não publicamos. «En­quanto uma foto tipo passe, se tiver o meu nome por baixo, é mera­mente identificativa, a mesma foto colocada na página dos crimino­sos mais procurados pelo FBI assume um significado completamen­te diferente. Por outro lado, temos tendência a esquecer-nos de que nem todos olhamos da mesma maneira para a imagem de um bebé ou de uma criança: felizmente, a generalidade das pessoas fá-lo com carinho e ternura, mas há quem o faça com outros sentimentos, no­meadamente como objeto de desejo sexual.»

Dados da Associação Portuguesa de Crianças Desaparecidas e da Polícia Judiciária revelam que, só no ano passado, a somar a 89 ca­sos de crianças com menos de 9 anos desaparecidas, foram refe­renciados 1326 casos de abuso sexual de menores, dos quais 49 víti­mas de tráfico e 17 referentes a investigações de tráfico para explo­ração sexual. A própria Polícia de Segurança Pública, empenhada em alertar para a questão da segurança das crianças no Facebook, pôs a circular a imagem de um bebé de rosto cortado por uma fai­xa negra, sentado nu numa bacia de pedra, com a seguinte mensa­gem: «Sabe que ele fica cá para sempre? Pense primeiro se preten­de divulgar a foto e, se o fizer, tenha em atenção as suas políticas de segurança e privacidade.» Porque a internet é uma ferramenta po­derosa, que tanto pode ser usada de forma inspiradora como des­truidora, Tito de Morais é de opinião que tudo o que seja de cariz íntimo não deve ser registado, já que as redes sociais «concentram num único local oportunidades – e riscos – antes dispersas por di­versos serviços e plataformas».

nm1149_facebook03

Sofia Tojo é um desses casos que não partilham no Facebook aquilo que lhe parece imprudente nas interações ao vivo. «Se vou na rua com os meus filhos, não admito que ninguém que eu não conheça lhes tire fotos. Por isso também me parece despropo­sitado alguém ter acesso a imagens deles e poder usá-las para o que quiser», diz a professora, mãe de um casal de 4 e 7 anos. Lidar com crianças e adolescentes todos os dias na escola faz que o ins­tinto de proteção fale mais alto também na sua página de Face­book, onde partilha desenhos que os filhos fazem em vez de ima­gens pessoais. «Com os amigos chegados encontro-me em festas, jantares, piqueniques ou idas ao parque. Sou fundamentalista na questão dos afetos: não há nada como o convívio, o abraço, a con­versa sem horas para terminar», diz, determinada a impor os seus limites enquanto o fenómeno das redes sociais for «uma coisa re­cente e mal balizada, que dá asas à necessidade humana de saber da vida dos outros».

Tito de Morais confirma o perigo e percebe que muitos pais se deixem guiar pelo medo, mas ressalva que, como em tudo na vida, a virtude está no meio: nem encher o mural de fotografias das nos­sas crianças, que no futuro irão apreciar o facto de terem controlo sobre a sua identidade online; nem render-se ao pânico de publicar o que quer que seja, uma vez que há muitos familiares que vivem a largos quilómetros de distância e gostam de ver crescer os reben­tos, ainda que seja via Facebook.

nm1149_facebook04

Tânia Sousa, designer gráfica e mãe de uma menina, não sabe co­mo faria sem o Facebook para viver em família, ela que tem a única cunhada e as sobrinhas em França e seis tias «com toda a prole» no Norte. «Quando se justifica, quando há momentos que acho engra­çado dividir com quem me é próximo, vou postando fotos da Bia», diz, sempre com o cuidado de manter a lista encurtada para os ami­gos e não aberta aos conhecidos, como teve em tempos. «É a forma mais prática de se partilhar coisas e, se as pessoas não gostam de fazê-lo, então não faz sentido aderirem ao serviço. A não ser que se­jam do tipo que gosta de coscuvilhar a vida dos outros sem querer que se saiba nada da sua.» O fundador do MiúdosSegurosNa.Net concede ser impossível eliminar todos os riscos, mas garante que podemos minimizá-los optando por publicações privadas ou res­tritas, num grupo secreto apenas acessível a quem quisermos e on­de os conteúdos não são partilháveis (ver caixa).

nm1149_facebook02

Sandra Pereira não receia, caso contrário não publicaria as foto­grafias de Maria, 11 anos, e Diogo, 7 meses. Mas recusa pedidos de amizade de desconhecidos e já lhe aconteceu pedir a um familiar que retirasse a partilha que fez de uma fotografia dos filhos por não lhe conhecer os amigos. «Posto sempre que me apetece, não resis­to. Como tenho família em várias zonas do país, incluindo a minha irmã na Madeira, é uma forma de seguirem, ainda que ao longe, o crescimento dos meus filhos», diz a jornalista, para quem o segredo é ser conscienciosa. «Respeito quem não partilhe, mas penso que é tudo uma questão de termos cuidado com as imagens que colo­camos. Hoje em dia é quase impossível mantermo-nos anónimos, da maneira como somos observados pelo Google Earth ou por câ­maras de vigilância nas ruas e em centros comerciais…» Resta-lhe – e a todos nós – partilhar as crianças com sobriedade, protegen­do-lhes a privacidade para que elas mesmas possam dar cabo dela quando crescerem.

DICAS PARA A SEGURANÇA DE TODOS – E NÃO APENAS DAS CRIANÇAS

_APRENDA A USAR O FACEBOOK. Tal como não passaria pela cabeça de ninguém usar uma serra elétrica à toa, o Facebook é uma ferramenta útil desde que manuseada com responsabilidade. Tirar um pequeno curso de redes sociais ou aprender com amigos que percebam do assunto pode ser boa ideia.

_NÃO DIVULGUE PORMENORES DA SUA VIDA PESSOAL. Muitos utilizadores partilham demasiada informação que pode ser usada para fins menos próprios. Dizer, por exemplo, que vai de férias na próxima semana pode significar para alguns que a sua casa estará vazia em breve. Se entretanto já tiver publicado imagens que dão indicações do lugar onde mora, o risco aumenta.

_NÃO PUBLIQUE FOTOGRAFIAS EM ÁLBUNS ABERTOS PARA TODOS. Quanto mais pessoas virem uma determinada imagem, mais hipóteses ela tem de cair nas mãos erradas. Uma boa razão para ajustar as configurações de privacidade e agrupar os seus amigos em listas, de modo a garantir que só as partilha com aqueles em quem mais confia e não com os amigos dos amigos, ou com aqueles amigos que adicionou sem conhecer na vida real.

_PROTEJA AS PASTAS DE FOTOGRAFIAS COM PASSWORD. Ninguém está livre de ser assaltado ou de perder os aparelhos onde guarda as fotografias de família. Arquivá-las em ficheiros protegidos por uma palavra-passe dificulta o acesso de estranhos às mesmas.

_MANTENHA AS PARTILHAS CONTROLADAS. Na medida do possível, e após assegurar-se de que tem os perfis de segurança configurados para que só os seus amigos possam ver o que publica, peça-lhes para não partilharem fotografias suas e/ou das suas crianças. Não hesite em pedir-lhes para removerem um post caso o considere inadequado.

AS FOTOGRAFIAS QUE NUNCA DEVEM SER POSTADAS

_AS DE CRIANÇAS NUAS, DE FRALDAS OU NO BANHO. Inocentes aos olhos da maioria das pessoas, podem tornar-se um prato cheio para utilizadores maldosos que as ponham a circular em redes criminosas ou façam um uso ainda mais abusivo das informações obtidas nas redes sociais.

_AS DE CRIANÇAS COM UNIFORMES ESCOLARES. Através de uma farda é possível identificar a escola que uma criança frequenta, por vezes até o ano. Se além disso o Facebook divulgar o nome dos pais, dos menores e uma série de outros dados pessoais, não é descabido pensar que possam surgir sarilhos.

_AS QUE PODEM CAUSAR CONSTRANGIMENTO. Por muito engraçada que uma imagem possa parecer quando é tirada, os pais devem lembrar-se de que as suas crianças não gostarão de se ver expostas ao ridículo. Imagens embaraçosas à solta na rede podem vir a ser usadas em situações de bullying.

_AS DOS FILHOS DOS OUTROS. Qualquer pai tem o direito de exigir que uma fotografia do filho seja retirada do Facebook quando postada sem autorização. Lembre-se de perguntar aos outros pais se pode publicar imagens em que as crianças deles apareçam (ex.: visitas de estudo ou festas de aniversário).

_AS DE CRIANÇAS COM OBJETOS DE VALOR. Os amigos ficarão contentes com o seu sucesso e a alegria da pequenada, mas para quê chamar a atenção para os bens materiais da família? Ou fazer o seu filho correr riscos desnecessários porque recebeu um iPad e publicou uma fotografia a exibi-lo?

_AS QUE PERMITEM IDENTIFICAR O LOCAL ONDE FOI TIRADA. Os smartphones e algumas câmaras vêm equipados com um geolocalizador que identifica e torna público o lugar onde cada fotografia é tirada. Desative-o para não correr o risco de as imagens darem a terceiros informações que só lhe interessam a si.

_AS DE ALTA RESOLUÇÃO. Uma vez que perdemos o controlo de uma imagem quando a colocamos na web, é preferível partilhar com os amigos as de baixa resolução, menos fáceis de editar, manipular e utilizar.

_AS QUE FORNECEM PISTAS SOBRE A SUA MORADA. Prédios, uma loja conhecida e outros pontos de referência do lugar exato onde moramos devem ser evitados. Há coisas que é preferível manter na esfera privada.

«AS DEFINIÇÕES DE PRIVACIDADE EXISTEM PARA NOSSA PROTEÇÃO»

Entrevista a Teresa Andrade, psícóloga infantil, professora na Escola Superior Egas Moniz e formadora na área do luto.

 Quais os riscos de se partilhar fotografias de crianças no Facebook?
_Os maiores decorrem da possível utiliza­ção por pessoas que possam estar ligadas a redes de pedofilia ou tornar as crianças mais vulneráveis a raptos para outros fins, seja adoção ilegal seja para chantagear ou exercer vingança sobre os pais. As imagens são uma parte do problema, mas todas as informações objetivas relacionadas com a criança e a família (nome do colégio, jardim onde vai brincar, locais de ativida­des extracurriculares, nome dos amigos, brinquedos favoritos, praia onde vai com os avós e outros), são elementos que permi­tem a qualquer pessoa aproximar-se com facilidade.

Pensarmos nos «amigos» da rede social como amigos reais cria uma sensação de segurança perigosa?
_As definições de privacidade existem para nossa proteção. E há pouca atenção a isso face a conteúdos relacionados com as crianças. Achamos que todos os que acedem à informação são iguais a nós e não é verdade. Depois, quando chegamos aos 500 amigos, já nem nos lembramos de quem pode ver o que postamos.

Que imagens não devem ser publicadas em nenhuma circunstância?
_As que identifiquem demasiados detalhes da criança, as que a mostrem despida ou explicitem locais exatos e rotinas, as que envolvam mais crianças associadas em cir­cunstâncias idênticas, como uma festa. As que exponham visivelmente posses e bens e criem a ilusão de que as pessoas estão muito bem economicamente.

Como podemos ensinar as crianças a dis­tinguir o que é público do que é privado?
_Há que educar os pais para os perigos da exposição dos mais novos. Depois é essencial sensibilizar a criança, mostrar-lhe exemplos de situações que acontecem dia­riamente a pequenos que se expõem dema­siado, e dizer-lhe que são casos que podem suceder a qualquer um. A educação na escola também é fundamental, assim como ir divulgando a mensagem na televisão, em canais próprios para as crianças.

Links úteis:

A média de idade para as crianças adquirirem presença online é de seis meses e acontece por intermédio dos pais. Mais de 70 por cento das mães admitem ainda que posta(ra)m imagens dos filhos para partilhá-las com familiares e amigos. Tudo aqui

Como é que as crianças até aos oito anos utilizam a internet? Quais os riscos que correm? O que fazem as famílias? Conclusões do projeto EU Kids Online para ler aqui

A pergunta que fica na cabeça dos pais, depois de terem consciência de todas as ameaças que rondam os filhos quando estão ligados, é seguramente: «Como vou controlar isto?» Muitas dicas úteis para discutir em família aqui

No Facebook, o facto de as pessoas pensarem que só tem acesso às imagens publicadas quem se encontra ligado ao seu perfil cria uma falsa sensação de segurança. Há fotos que nunca deve publicar. Saiba quais aqui

O pior caso de que Tito de Morais se recorda levou-o a escrever o artigo Blogs de Bebés e Segurança, onde relata o caso aqui

Os smartphones vêm equipados com um geolocalizador que identifica e torna público no Facebook o lugar onde cada foto é tirada. Saiba porque o deve desativar aqui  e como fazê-loaqui

 

Fonte: Notícias Magazine.